domingo, 10 de fevereiro de 2008

PORQUE HOJE É SÁBADO, VÉSPERA DE CAMINHADA



Cerrou os olhos e se viu, ao cabo de segundos, em uma mesa do Bar de David, em meio a vozes esgarçadas, canções, violão, aquele burburinho ondeante, mais para os altos volumes que marcam os bate-papos paralelos depois da terceira, quarta dose. “Que barulho de los diablos, que porra, qué carajo!”, queixa-se, recém chegado do Caribe, ainda misturando os idiomas, com um copo de uísque na mão. “Já tomou quantas, companheiro?”, pergunta de pronto Carlinhos Ipiaú, abrindo um sorriso. “Estou na primeira...” “Então, é isso, não é o barulho, você é que bebeu pouco”, arremata Carlinhos, derramando a sabedoria bebida nos botecos da vida, sob a observação do outro Carlinhos – geração saúde – sempre muito gentil.


E o ruído vai e vem, como em ondas, alteando, às vezes amainando um pouco, para altear, altear, na justa medida das doses consumidas numa tarde de sábado, em pleno verão baiano. Ah, hoje é ser sábado, este sol, este calor... Puxa, mas não podemos nos exceder, porque amanhã é a tradicional caminhada à Colina Sagrada. E aí Nello, tá tudo planejado, e as camisas? Nosso líder reage com aquele ar de ceticismo, enfadado ao ser inquirido sobre as mesmas questões tantos dias seguidos, olha como a pensar “mais um pra encher meu saco!” Mas são apenas as aparências. Ao contrário, responde educadamente como gentleman que é: “Tá tudo certo, veja as camisas com David”. Helinho, com aquele invejado físico de atleta, recorda, numa animada conversação, as façanhas do inesquecível Fábio Rêgo.


Professor Marconi, com o violão - cigarro sempre aceso e o óleo milagroso à mão para qualquer emergência - pontifica numa roda tão simpática quanto animada. “E aí, Deta, vamos atacar de Maluco Beleza”, convida, numa referência ao nosso Raul Seixas, sucesso garantido nas tardes (e noites) de David. “Como está a companheira Vera?”, “Bem, estudando sua pós-graduação”, diz rapidamente, atiçando: “Eu devia estar contente, sou um cidadão respeitado...”, sob o olhar cúmplice do companheiro André, e a pedidos de Mário – a única pessoa que conhece dois Eudaldos. Vasco dando o tempero certo em sua escaleta. Antonio, o mágico do pandeiro e da percussão. “Ah que sujeito chato sou eu”, em dueto, vai-se espalhando pela alegre confraria, distraindo corações e mentes.


Confraria não, para mim é terapia. Já gastei muito dinheiro com terapeutas, agora aqui em David gasto menos e faço uma terapia mais prazerosa”, discorre Ernesto, passando a mão pelos cabelos e lembrando as viagens internacionais, feitas com Helena e os dois filhos. Ernesto está certo, nossa amiga Eliana já o disse, esgrimindo sua verve poética,: “Confraria, alguns chamam terapia...”


E rolam cerveja e uísque, e também uma cachacinha, que ninguém é de ferro. “Daviiiiiiiiiiiii!”, grita Jean Pierre, nosso suíço/baiano predileto, entremeando, vez e outra, os copos de cerveja com um copito da branquinha, sob o olhar protetor da sempre atenta Léa. Sinval também não dispensa uma cachaça, só quando está bebendo aquela coisa intragável, genebra, remédio (mui amigo) para o estômago. E Jadson beberica um golezinho, tanto da pinga de Jean Pierre (je peux? merci), como da horrível genebra. Mas ele chegou aqui dizendo que ia beber com moderação por causa da caminhada... ih! já passou do quarto uísque e inicia seu interminável refrão: “Me desculpe, evidentemente, vá pra porra!” “Professor, já está na hora de cantar o VPP”, sugeriu alguém, quem foi, quem foi?, parece que foi Joaninha, que começa a se animar. Ou foi Mônica? Deve ter sido Délio, um eterno gozador. Tudo organizado?


Mas a cachaça não é complemento e sim o essencial numa mesa vizinha, comandada por nosso querido Bira, com seu jeito de menino travesso. A roda dos bunda verméia, a turma de Euclides da Cunha, comparece em grande estilo. Além de Rejânia, com seu charme e simpatia, estão Jurandi, que sabe tudo da política de Macururé, nosso corretor de seguro de automóvel preferido, João, sempre solidário com o nosso presidente Lula, Alvinho, que na verdade é de Paulo Afonso, e outros camaradas de Euclides que prestigiam nossa ruidosa tertúlia. Sem faltar, claro, Paulinho Nolasco, anunciando a promoção de mais um bode assado.


Ao lado o empreendedor Marcos, com Sirlene, diverte-se depois de sanear com os banheiros químicos mais um carnaval. Roberto Luminária e Mônica também estão aqui. Que bom, que bom! E olha quem está chegando... Heraldo, o alagoano. “Como está jornalista?” “Companheiro Heraldo, meu direitista predileto, já criticou muito hoje Lula e os petistas?” “Que coisa mais atrasada esse negócio de direita e esquerda, não existe mais isso. Eu sou um democrata”, diz, abrindo um abraço e um sorriso, na companhia aconchegante da Marta e de nossa amiga Uiara.


E vai se enturmando na mesa da música. Falando de política, Heraldo agrada a uns e desagrada a outros, porém, cantando, agrada a todos. E pega o violão das mãos do professor, pois já é hora de começar o rodízio. “O importante é que emoções eu vivi...”, aplausos, aplausos. “Negue o teu amor, o teu carinho, diga que você já me esqueceu, pise machucando...” Já é Vasco seguindo com outra canção romântica, provocando suspiros nos corações marcados por amores feitos e desfeitos. E a farra continua. Quem está ao violão agora é o grande Siro (Renata senta-se nas proximidades), rememorando belos sucessos, com a força e o virtuosismo que lhe são peculiares. “Adubar a terra, conhecer os desejos da terra... o cio da terra propícia estação....e se fartar de pão...” Aldo e seu irmão também apareceram para o deleite dos amantes do rock dos anos 80, especialmente Legião Urbana.


A tarde já se foi e a noite ensaia instalar-se. Caiado, fumando charuto, demolia as convenções sociais que tanto limitam a vida, tendo como interlocutor Mamede, o velho e querido Mama. Roberto Lemos, com seu infalível cigarro apagado, sobe à tribuna improvisada (espécie de canteiro que envolve a velha mangueira) e faz um discurso, após ouvir a queixa de que “começou a beijação” entre os homens. “Meus amigos, isso é uma pouca vergonha, onde já se viu homem beijar homem?! David precisa tomar providências, nós precisamos tomar providências em defesa da moral e dos bons costumes. Este é um ambiente de família, de respeito...”, aplausos, todos concordam, mas o diabo da beijação continua, quem vai segurar bebedores depois da quarta, quinta cerveja, “depois do quarto, quinto copo, tudo que vier eu topo”, já dizia a canção.


O que restou da antiga turma dos Primatas, a jovem guarda, o futuro de David, desfrutava à larga. Os outrora parceiros de Tarso – Anderson, Igor e outros – participavam daquela saudável produção. Bem próximo (porque o espaço é pequeno), Corral dissertava sobre suas preferências. “Quais são as três melhores coisas da vida?” E ele mesmo respondia, rindo, satisfeito: “Primeira, mulher, segunda, mulher, e terceira, leite condensado Moça”. Não se sabe se Tonhinho (a genética é uma porra, companheiro!) estava inteiramente de acordo, mas sorria solidário com o irmão, enquanto Roberto Fortuna deixava um pouco seu movimentado Super Serve para compartilhar nossa alegria.


Mas David já quer fechar, amanhã é dia de caminhada, minha gente, vocês se esqueceram? Nello, com a sabedoria de líder, tenta conciliar: “Cada um pode tomar mais uma saideira, certo David?”, porém Alda já está se arrumando para sair. Conseguimos segurar por um instante o português amado por todos. Conte aquela piada de dono de bar, pedimos. David olhou, coçou a cabeça, sorriu, engoliu o cansaço e a má vontade, trata-se, na verdade, de um santo homem. “Quando jovem – começou - um futuro dono de bar, que era filho adotivo, foi chamado ao leito de morte pelo pai, juntamente com dois irmãos”. O velho queria transmitir suas últimas vontades. Últimas e sagradas, porque estava chegando o momento em que se vão as coisas provisórias da existência humana e vai chegando a hora definitiva. Meu filho, disse, dirigindo-se ao primeiro, quero que você seja médico; e você – falou ao segundo – quero que seja advogado, assim vocês terão oportunidade de ajudar às pessoas. O terceiro, que havia sido adotado, perguntou então, impaciente: “E eu, meu pai?” “Você, que é filho de puta, vai ser dono de bar”, sentenciou o velho pai.


Satisfeitos? agora vamos fechar...” Fechou, afinal, mas sob os protestos veementes do nosso aguerrido professor Marconi. “Vou protestar pela trigésima vez. Esse negócio de David fechar o bar na hora que quer, na hora que lhe apetece, não tá certo. Todo estabelecimento tem um horário determinado de funcionamento. David tem a obrigação de definir um horário e cumpri-lo, é uma questão de respeito aos clientes, a todos nós”. Como ele próprio frisou, foi o trigésimo protesto. Mas foi modesto, certamente houve bem mais. E haverá outros, em vão.

Em Havana, Cuba, 16/02/2008