domingo, 30 de março de 2008

OEA pode analisar imprensa brasileira

Beto Almeida arranca aplausos aos propor cumbre presidencial sobre meios de comunicação


Quem se lembra do jogo sujo da imprensa brasileira (algumas exceções, como Carta Capital, Caros Amigos e Brasil de Fato) contra a reeleição do presidente Lula? Pois é, agora em Caracas, durante o Encontro Latino-Americano Contra o Terrorismo Midiático, que se encerra neste domingo, dia 30, tal atuação entrou em pauta juntamente com processos eleitorais e situação das gestões dos presidentes Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), Néstor Kirchner (Argentina), Daniel Ortega (Nicarágua) e Rafael Correa (Equador).


O diretor do jornal Últimas Notícias (o mais lido da Venezuela), Eleazar Diaz Rangel, ao falar sobre Guerra Midiática na América Latina, propôs que a Relatoria Especial para a liberdade de imprensa da Organização dos Estados Americanos (OEA) analise a cobertura feita nesses países. Ele entende que na ocasião “se formou uma diabólica aliança para apoiar as candidaturas de direita, tradicionais, conservadoras, representantes de interesses alheios a nossos países, a nossos povos, enquanto simultaneamente negavam espaços para informações e opiniões favoráveis aos candidatos do povo”.


Cumbre presidencial – Já o jornalista brasileiro Beto Almeida, que dirige no Brasil a emissora de TV Telsur (criada por governos da América Latina, a partir de Caracas), participou do painel Imperialismo versus Unidade Latino-americana e propôs a realização de uma cumbre de presidentes sobre os meios de comunicação. A proposta foi muito aplaudida. O presidente Hugo Chávez, em várias oportunidades, tem destacado a importância do tema, comentando já tê-lo abordado em diversas ocasiões com colegas da América Latina e Caribe.


Beto Almeida fez outras propostas, a exemplo de: integração de TV’s públicas e estatais dos vários países com a Telesur; coordenação para formação de jornalistas independentes, rebeldes e revolucionários; e um programa que estimule a leitura de jornais e livros. Ele fez uma palestra ressaltando as pressões da imprensa brasileira contra o governo de Getúlio Vargas no momento em que o país adotava uma postura nacionalista, recordando a criação da Petrobrás e o sucesso da antiga Rádio Nacional, bem como a elaboração da legislação trabalhista.


Sublinhou ainda o papel do rádio na história recente do Brasil, ao lembrar a reação popular a partir de Porto Alegre, comandada pelo então governador Leonel Brizola, através de uma cadeia de rádio, em 1961, quando as forças de direita, afinadas com os interesses dos Estados Unidos, tentaram impedir a posse de João Goulart em seguida à renúncia do presidente Jânio Quadros. No sentido integracionista da América Latina, Beto lembrou a determinação do presidente Lula de adotar no país o ensino obrigatório do espanhol.

sábado, 29 de março de 2008

Dimensão do terrorismo midiático

Yuri Pimentel : “O inimigo é mais poderoso"




A luta contra o chamado terrorismo midiático não é apenas o combate às mentiras, distorções e manipulações do dia-a-dia do noticiário da imprensa, tem uma dimensão muito maior. “O inimigo é mais poderoso e mais articulado, porque além de enfrentarmos o império em termos de poder econômico e militar, também o enfrentamos com todo seu aparato de dominação ideológica e cultural”, alertou Yuri Pimentel, presidente da estatal Venezolana de Televisión, ao falar nesta sexta-feira, dia 28, no Encontro Latinoamericano contra o Terrorismo Midiático.

Pimentel ressaltou a ação das mega-corporações, a maioria estadounidense, para dar idéia da dimensão e abrangência do poder de dominação das mentes dos povos, lembrando, entre os 50 maiores grupos de comunicação do mundo, alguns sediados em países da América Latina, como o grupo Clarín, na Argentina, Globo, no Brasil, e Televisión, no México. Revelou, por exemplo, que 98% dos filmes exibidos aos latinoamericanos são produzidos pelos oito grandes estúdios cinematográficos dos Estados Unidos, enfatizando todo o instrumental forjador de valores, como o consumismo.

O dirigente da TV estatal frisou que “jamais em nenhum momento da história se havia montado um aparato tão massivo no planeta”. Explicou que os povos latinoamericanos passam a ser inimigos dos interesses que os meios de comunicação defendem, manipulados por estratégias do governo norte-americano e sua agência de inteligência, a CIA. Numa referência às agressões contra a Venezuela e seu governo, apontou que isso ocorre porque simplesmente o país decidiu avançar por um caminho distinto do neoliberalismo.

Ele ilustrou com exemplos de agressões recentes sofridas por Venezuela, como o incidente com a transnacional estadounidense ExxonMobil, derrotada pela petroleira estatal Pdvsa numa ação judicial tramitada num tribunal londrino; as “matrizes de opinião” geradas a partir da crise com a Colômbia, tentanto implicar o presidente Hugo Chávez; e o uso do “computador indestrutível” (resistiu ao pesado bombardeio do exército colombiano) presumivelmente encontrado no acampamento onde foi morto o número 2 das Farc, Raúl Reyes, e que vem sendo utilizado para vincular o governo venezuelano ao grupo guerrilheiro.

O encontro foi aberto na quinta-feira, dia 27, pelo ministro da Comunicação e Informação de Venezuela, Andrés Izarra, e vai até domingo, dia 30, contando com a participação de jornalistas de 14 países. O primeiro dia de palestras e debates lotou o auditório do Centro de Estudos Latinoamericanos Rómulo Gallegos, em Caracas. Faz o contraponto à reunião da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que se realiza em igual período na capital venezuelana e que reflete os interesses dos donos dos meios de comunicação, sempre atrelados à orientação do chamado mercado e à política dos Estados Unidos.



Encontro Latinoamericano contra o Terrorismo Midiático.


Auditório lotado e participação de jornalistas
de 14 países

quinta-feira, 27 de março de 2008

Pesquisa avalia força de Chávez



O presidente de Venezuela, Hugo Chávez – envolvido recentemente numa crise com o governo colombiano -, está muito bem avaliado por seus compatriotas. De acordo com a última pesquisa do Instituto Venezolano de Análisis de Datos (Ivad), a avaliação positiva do líder bolivariano subiu 9,4 pontos entre dezembro/07 e fevereiro/08, período em que Chávez estava empenhado, internamente, na luta contra o desabastecimento de alimentos, enquanto na política externa era mais visível a atuação pela libertação de reféns mantidos pelas Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia (Farc).

O desempenho do presidente é considerado excelente por 17,1% dos entrevistados, bom por 26,3% e regular para bom por 23,9%. O Ivad agrupa os três níveis, chegando a 67,3% de aceitação, frente a 57,9% apurado na última medição em dezembro. Já a avaliação negativa está assim distribuída: péssimo – 9%; mau – 9,4%; e regular para mau – 12,8%, somando 31,2%. No estudo anterior, o percentual de reprovação chegava a 40,4%.

Tais números foram divulgados pelo diário Últimas Notícias, o jornal de maior circulação de Venezuela. A sondagem, sob o título Barómetro de Gestión y Conyuntura Política, foi realizada entre 8 e 20 de fevereiro, tendo sido ouvidas 1.200 pessoas em todo o país. Margem de erro: entre 1,03% e 2,37%. A pesquisa, como ocorreu também em dezembro, identifica os principais problemas enfrentados pelo povo, repetindo a percepção de que são três: insegurança pública, desabastecimento e desemprego. Sobre isto, a variação dos resultados percentuais, de modo geral, também é favorável ao governo.

Obs: Tal pesquisa é considerada confiável entre os meios menos engajados na acirrada disputa entre governo e oposição, tendo sido divulgada pelo jornal Últimas Notícias, catalogado como equilibrado. Outras sondagens difundidas por diários como El Universal e El Nacional, identificados pelo declarado anti-chavismo, apregoam o decréscimo na aceitação da política de Hugo Chávez, indicando avaliação positiva que varia ao redor dos 40%. Políticos oposicionistas têm declarado que, após a ameaça de conflito entre Venezuela e Colômbia, o prestígio do presidente caíu para o patamar dos 20%. Tais números, no entanto, são vistos com muita reserva.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Cobertura ampla

A nossa fotógrafa já foi ao encontro de Jadson. Agora o blog vai ficar completo.


segunda-feira, 24 de março de 2008

Celebrando a vida


Domingo de Ressurreição de Cristo (ou Domingo de Páscoa?). O visitante brasileiro passeia por Baruta, um dos cinco municípios que integram a cidade de Caracas. Na rua principal, rumando à praça central, uma procissão. Uma procissão? As pessoas dançam (bailam, como dizem aqui) e as quatro imagens carregadas nos respectivos andores dançam também ao ritmo de dobrados religiosos e marchinhas (diria meio carnavalescas). São em torno de mil fiéis (na pequena praça onde pontua a estátua de Simón Bolívar, o Libertador, este número duplica). Os caraqueños seguem o desfile, muitos balançando-se alegremente, enquanto os muchachos que carregam os quatro andores afinam os passos do bailado. As imagens, tendo à frente o Cristo Ressucitado, sacodem-se no alto, como que liberando o júbilo popular. Já na praça, um casal dança (será salsa, a tradição caribenha?) junto aos andores e uma jovem baila sozinha a dois metros da porta aberta da igreja de Nossa Senhora do Rosário. O padre Luis Guillermo dirige o ato através de serviço de som.

- Padre, por favor, sou um jornalista brasileiro e gostaria de saber sobre a procissão, as pessoas e as imagens bailando. Em minha terra, Brasil, não há isso nos desfiles da igreja católica, e se celebram mais o sacrifício e a morte de Jesus na Sexta-Feira da Paixão.
- Este ato significa a celebração da Ressurreição de Jesus Cristo, a alegria dos cristãos pela vitória, é essencialmente uma exaltação à vida, disse o pároco.
- Este tipo de comemoração é comum em toda Venezuela nas comunidades católicas?
- Não, em Caracas só existe esta paróquia com a imagem de Cristo Ressucitado. Ela chegou aqui há 11 anos, eu estou aqui há quatro anos, já encontrei esta orientação. Mas em outros estados do país (existem 23 estados em Venezuela, além do Distrito Capital) há também este tipo de celebração, explicou padre Guillermo em meio aos cumprimentos dos fiéis, enquanto se encaminhava à sua igreja.

O brasileiro recordou-se do padre Renzo, italiano de saudosa memória por seu trabalho humanístico, empreendido a partir da Bahia, em defesa dos presos políticos durante a ditadura militar no Brasil. Ele conta, de acordo com As Asas Invisíveis do Padre Renzo, livro do companheiro Emiliano José, que logo de sua chegada a Salvador percebeu, com surpresa, que os católicos baianos celebravam a crucificação de Cristo e não a sua ressurreição. Isto é, festejavam a morte, em detrimento da vida. Lembrava que em sua terra, Itália, era diferente. Um detalhe que talvez explicasse muito da resignação dos brasileiros ao sofrimento, à opressão.
(Gratidão eterna ao padre Renzo e ao seu amigo e conterrâneo padre Paulo, da Fazenda Grande, pelo muito que fizeram em benefício do povo pobre da Bahia).

Judas – A queima do Judas, o apóstolo traidor que entregou seu Mestre aos opressores a serviço do império romano, é realizada também no domingo, e não no sábado de aleluia como no Brasil. Ontem as ruas de Baruta estavam cheias de meninos e jovens que pediam uma moeda como colaboração para a festa, exibindo em muitos pontos os bonecos característicos. Com exceção do dia, tudo mais parece muito igual, inclusive o hábito de identificar o Judas com autoridades e políticos que traíram a confiança popular. Em uma comunidade de Caracas, chamada El Cementerio, cuja queima, segundo a imprensa local, constitui-se uma tradição de 67 anos na paróquia Santa Rosalía, o boneco queimado neste ano representou “Mister ExxonMobil”, a transnacional estadounidense que acabou de perder uma ação judicial contra a petroleira venezuelana Pdvsa.

(Faltaram as fotos, a fotógrafa “contratada” pelo blog ainda está em trânsito)

sábado, 22 de março de 2008

Lula e a integração soberana
(O exemplo vem de Santo Domingo)


Santo Domingo, quem diria?, capital da República Dominicana, terra que lembra o ditador Trujillo, dos anos 50 (quem teve a ventura de ler, não esquece A Festa do Bode, do peruano Vargas Llosa). O exemplo talvez não venha propriamente de lá, mas foi percebido a partir de lá, quando na Cumbre de Rio, os presidentes dos países da América Latina e Caribe falaram com uma só voz e condenaram a violação do território de Equador pelo governo colombiano. E os Estados Unidos? Prestem atenção: “América Latina e Caribe”, Estados Unidos estavam fora (com o chefe ausente, a gente fica mais valente, ih! rimou).

Bem, mas em seguida, a decisão de Santo Domingo, que certamente será catalogada como histórica, foi confirmada no último dia 17 em reunião extraordinária da OEA, com a participação – e bote participação nisso – do governo estadounidense. Ou seja, com a voz do império falando, pressionando (não respeitam mais o chefe!). A resolução foi parida com muito suor, mas saiu, certamente outra decisão histórica. É bastante recordar que a velha Organização dos Estados Americanos expulsou Cuba de seus quadros logo após a vitória dos “barbudos” de Fidel e Che Guevara, o que levou o líder cubano, na sua lúcida virulência, a tachar a OEA de ministério das colônias dos Estados Unidos.

Tais reflexões brotam atraídas por uma notícia divulgada esta manhã de sábado de aleluia no sítio (site) do jornal venezuelano El Universal, com base em matéria de Folha de S.Paulo. O ministro de Defesa, Nelson Jobim, declara que a melhor ajuda que o governo estadounidense pode dar à criação do Conselho Sulamericano de Defesa é ficar longe, “manter-se à distância”. Nosso presidente Lula, que deve encontrar-se na próxima quarta-feira com seu colega Hugo Chávez, em Recife, vai propor o novo Conselho em reunião da União de Nações Sulamericanas (Unasul), que já devia ter-se realizado, mas foi adiada devido à crise envolvendo Equador, Colômbia e Venezuela. Lembremos que Jobim, na véspera da declaração, esteve em Washington para “explicar” o projeto à secretária de Estado Condoleezza Rice, a qual havia estado há poucos dias em visita ao Brasil.

Viva! Viva! O presidente Lula, que foi representado em Santo Domingo pelo chanceler Celso Amorim (muito bem representado, como sempre), parece avançar nesse processo de integração, com soberania, da América Latina e Caribe. Um processo tortuoso, difícil, penoso, mas que vem dando passos expressivos no desabrochar deste século 21, depois dos anos 90 de predomínio quase completo do famigerado neoliberalismo, o pensamento único patrocinado pelo deus chamado mercado. Avanços que se tornaram visíveis no bojo da denominada revolução bolivariana, liderada por Hugo Chávez, e assentada, por um lado, na mobilização de forças populares em diversos países latino-americanos e, por outro, no colapso paulatino da carcomida democracia representativa.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Guerra de quarta geração (+)

Trata-se de uma guerra moderna, cujo ingrediente indispensável é a propaganda e a manipulação mediática. É o que se vê no dia-a-dia nos meios de comunicação de Venezuela, ainda mais porque há um programa de televisão diário cujo objetivo é mostrar as armações da imprensa contra o governo de Hugo Chávez, contra a chamada revolução bolivariana, contra o denominado socialismo do século 21. La Hojilla (pronuncia-se entre orria e orridza, vem de hoja, ôrra, folha, lâmina, espada, inclusive é exibida na tela a imagem de uma lâmina de barbear envolta nas cores da bandeira do país), com o reforço “guilhotinando a mentira”, vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 10 às 12:30 horas da noite, através da estatal Venezolana de Televisión, apresentado por Mario Silva (eleito recentemente para direção nacional do Partido Socialista Unido de Venezuela), que esgrime uma mistura de sarcasmo e humor.

Casos recentes:
1) Na segunda-feira, dia 17, quando estava em reunião extraordinária a Organização dos Estados Americanos (OEA) discutindo a invasão do território de Equador pelo exército de Colômbia (ação que resultou na morte de mais de 20 pessoas, a maioria guerrilheiros das Farc, inclusive o número 2 do comando, Raúl Reyes, até então o negociador para liberação dos reféns), o jornal colombiano El Tiempo divulgou uma foto mostrando Reyes com o suposto ministro de Segurança Interna e Externa de Equador, Gustavo Larrea. O objetivo era demonstrar vinculações do governo equatoriano com a guerrilha e enfraquecê-lo no momento em que os chanceleres das Américas tentavam fechar uma resolução condenando a violação da soberania de Equador, a pedido do governo equatoriano.

A foto caiu como uma bomba no colo dos senhores chanceleres e a mídia anti-chavista fez a festa. Mas conseguiu-se até o final da tarde provar que o suposto ministro era, na verdade, o dirigente do Partido Comunista de Argentina, Patricio Echegaray. Como se sabe, pouco depois da meia-noite chegou-se à resolução consensual das 34 delegações rechaçando a agressão colombiana (com uma ressalva do governo estadounidense). Quem ficou acordado até meia-noite pôde ver, passo a passo, toda a armação mediática, com as devidas repercussões e algumas poucas retratações, através de La Hojilla.

2) Na terça-feira, dia 18, o tribunal internacional de Londres que apreciou a pendência entre a petroleira estadounidense ExxonMobil e a estatal Petróleos de Venezula (Pdvsa) anunciou a sentença contra a gigante transnacional. Como a Pdvsa vinha argumentando, o tribunal reconheceu não ser o forum competente, que o governo venezuelano agiu legalmente no exercício de sua soberania no que os leigos chamam de rompimento de contrato com a Exxon, etc, etc, incluindo cobrança de custos processuais e autorizando cálculos para indenização à estatal.
Ocorre que havia uma decisão liminar em favor da transnacional, com ordem de congelamento (uma espécie de confisco) de seus ativos no valor de 12 bilhões de dólares, a qual, quando foi anunciada, provocou uma tremenda repercussão na imprensa oposicionista. Tinha-se a impressão que a Pdvsa, uma das mais fortes petroleiras do mundo, estava falida, quebrada, claro, por irresponsabilidade do governo Hugo Chávez.
Quem assistiu ao La Hojilla desta terça pôde rever, a exaustão, os noticiários, os comentários e as declarações quando se havia anunciado a decisão liminar contra a Pdvsa. O contraste entre um momento e outro dá um efeito fortíssimo.
3) No dia primeiro de março, quando da ação do exército colombiano contra o acampamento das Farc, em território equatoriano (morte de Raul Reyes), o primeiro comunicado do governo de Colômbia dizia ter sido um revide a um ataque dos guerrilheiros, a partir do território de Equador, na zona fronteiriça dos dois países. No calor da luta, as forças colombianas tinham ultrapassado a fronteira e bombardeado os inimigos. A mídia anti-chavista pôs em prática então seu bombardeio mediático.
Em seguida os fatos vão se esclarecendo pouco a pouco: na verdade, era madrugada, quase todos os guerrilheiros (e os civis, inclusive estudantes mexicanos, depois se soube) estavam dormindo, alguns corpos mostravam que foram alvejados pelas costas; o acampamento havia sido localizado com uso de sofisticada tecnologia satelital e, deliberadamente, destruído. O presidente de Equador, Rafael Correa, enfatizou: “Foi um massacre”.
Pelo La Hojilla, pôde-se acompanhar o retrospecto de todo noticiário, suas contradições, bem como as imagens de destruição do local – sinais de forte bombardeio, corpos semi-nus.


(+) Segundo Wikipedia, a enciclopédia livre (Internet): “A chamada guerra de quarta geração é uma denominação dentro da doutrina militar estadounidense que compreende a guerra de guerrilhas, a guerra assimétrica, a guerra de baixa intensidade, a guerra suja, o terrorismo de Estado ou operações similares e encobertas, a guerra popular, a guerra civil, o terrorismo e o contraterrorismo, além da propaganda, em combinação com estratégias não convencionais de combate que incluem a cibernética, a população civil e a política. Neste tipo de guerras não há enfrentamento entre exércitos regulares nem necessariamente entre Estados, e sim entre um Estado e grupos violentos ou, na maioria das vezes, entre grupos violentos de natureza política, econômica, religiosa e étnica”.

terça-feira, 18 de março de 2008





Me criaram um blog
(pra que serve um blog?)



(Para os jornalistas: que me desculpe minha editora Joana, o “criaram” do título é uma imitação do hábito dos colegas dessas paragens por onde tenho andado ultimamente. Esta indefinida e antipática terceira pessoa do plural é usada a granel pelos tituleiros, pensei que fosse um vício periodístico dos cubanos, mas descobri que é corriqueiro também em Venezuela).


Então, a companheira Joaninha me criou um blog e vive me instigando. Quem aguenta tanta tentação? Não aguentei. Com aquele temor de parecer pretencioso e, pior, cometer alguma leviandade. Joana diz que é charme, será? Por enquanto, para tentar me acostumar com a idéia do tal do blog, façamos de conta que estamos num boteco (meu ponto predileto em qualquer hemisfério) falando sobre a imprensa venezuelana.


Aqui é pau puro. Quase todo órgão de comunicação é chavista ou anti-chavista, mas sem disfarces, escancaradamente. São as primeiras impressões, claro, estou em Caracas há apenas 20 dias. Os conflitos políticos são violentos, temas de repercussão internacional terminam virando rotina.


Vou tentar recordar: no dia em que cheguei, dia 27 de fevereiro, estavam sendo libertados os quatro ex-congressistas colombianos, reféns há vários anos dos guerrilheiros das Farc; logo em seguida, dia primeiro, houve o ataque ao território de Equador com a morte do número 2 das Farc, Raúl Reyes, seguindo-se ameaças de conflito bélico entre Colômbia, Equador, Venezuela e Nicarágua, com acusações pesadíssimas entre os respectivos presidentes; depois reuniões da OEA, Cumbre de Rio (em República Dominicana) e outra vez OEA, de ontem até madrugada de hoje (dia 18).


Em meio a isso tudo, o desfecho da criação do Partido Socialista Unido de Venezuela (Psuv), o debate aceso sobre as eleições de novembro (governadores e prefeitos) e o noticiário sobre problemas como insegurança pública e desabastecimento de alimentos.


Jornais como El Universal e El Nacional e emissoras de TV como GloboVisión dando pau todo santo dia, toda santa hora (GloboVisión é noticiário 24 horas por dia). Enquanto Venezolana de Televisión e TelSur (estatais) contra-atacam e defendem o governo, com amplo espaço, óbvio, para Hugo Chávez. (Fico imaginando como era este cenário mediático quando a oposição detinha o monopólio televisivo. Poderíamos comparar com o furor da grande imprensa brasileira durante a campanha de reeleição de Lula, porém multiplicando por quanto?).


Felizmente, penso que há, pelo menos no caso dos jornais diários, uma exceção. Trata-se do Últimas Notícias, disparado o mais lido pelos venezuelanos (e também por este baiano). Segundo informa o próprio jornal, sua receita é o equilíbrio. Cita uma pesquisa, na qual 70% dos leitores o consideram equilibrado, 15% dizem que o diário é contra Chávez e 9% o identificam como a favor

(ou vice-versa no caso dos dois últimos percentuais, não me recordo bem).


(Agora vamos tomar a saideira e brindar: contra ou a favor de Chávez?)

quinta-feira, 13 de março de 2008