segunda-feira, 28 de abril de 2008

No bairro nobre onde ruas levam nomes de capitais de diversos países, o Rio de Janeiro dá nome a importante avenida, e não Brasília.

Uma área classe média (Conhecendo Caracas)



Las Mercedes, em Baruta (um dos cinco municípios de Caracas), não é um local que cheire a povão, como o miolo da cidade, no município Libertador. O bairro (aqui se chama parroquia ou urbanización) fica na zona leste, uma grande área da capital venezuelana bem mais arrumada, limpa, ruas com o asfalto perfeito, edifícios residencias mais luxuosos. Me parece que a única coisa em comum com as zonas mais populares são os engarrafamentos, uma epidemia caraquenha. Las Mercedes tem um comércio bem exuberante, centros comerciais – há uns 10, 20 anos, o point dos amantes do consumo e badalação era o Paseo Las Mercedes, mas foi desbancado pelos modernos centros comerciais Tolón e Tamanaco.

Não faltam bares, restaurantes caros, discotecas, night-clubs e hotéis 5 estrelas. A praça mais charmosa é a Alfredo Sadel, recentemente reformada, com linhas arquitetônicas ousadas, muito utilizada nas atividades culturais. Nas suas vizinhanças temos avenidas importantes, como a Rio de Janeiro, Copérnico e Principal Las Mercedes. Guardando as proporcões, o bairro poderia ser comparado com Pituba, em Salvador, embora Caracas seja uma cidade bem mais cosmopolita que a capital baiana (Não conheço bem São Paulo, e muito menos Rio de Janeiro, para buscar uma comparação mais adequada).



Falando de Venezuela, tem que falar de...



...arepa. Não há saída. Peço licença ao professor Odilon Braga, pois falar de comida está longe de ser meu ramo. A médica baiana (de Irará) Ana Marta, terminando o curso lá em Havana, me disse “ah! você vai conhecer arepa!” É como se fosse o nosso pão de cada dia. Acompanha quase tudo por aqui, no café da manhã, almoço, jantar, as sopas são sempre com arepa. É feita à base de farinha de milho (harina de maiz). Logo quando cheguei, vi no supermercado uma imensa variedade de massa de milho, tanto amarela, como branca. Pensei, tô feito, vou comer muito cuzcuz (tenho um cuzcuzeiro que me acompanha desde Cuba, me mandaram da Bahia, claro). Era harina de maiz, pré-preparada para a tal da arepa. É uma espécie de torta pequena, de forma circular, esmagada, 10 a 20 centímetros de diâmetro, serve-se também com recheio, soube inclusive que o McDonald adaptou para seu sanduíche. Como sempre, mas confesso que acho com sabor de nada.

Aproveito para falar de outras comidas típicas, tudo na área popular aonde tenho acesso: cachapa, uma panqueca grossa, também à base de milho, com outros ingredientes, a exemplo de queijo e manteiga, muito popular; parrilla, prato corriqueiro do venezuelano, com carne desfiada, aipim, bolinho de milho, salada e não sei mais o quê. Há um prato que chamam criollo (criolo, palavra que está sempre associada às coisas e gentes próprias da terra, em contraposição aos colonizadores), do qual faz parte sempre o feijão preto. Comem muitíssimo também as empanadas, com variados recheios, fritas, geralmente empapadas de gordura. Sopas – de grãos, carne de gado, frango, etc – não faltam nos restaurantes populares.



Santos e “demônios”



Não só de arepa e revolução bolivariana vivem os venezuelanos. No domingo, dia 27, milhares de pessoas acorreram ao estádio de esportes da Universidade Central da Venezuela, em Caracas, para assistir à cerimônia de beatificação da Madre Candelaria de San José. Era uma integrante das Irmãs Carmelitas que foi responsável, segundo reconhecimento do Vaticano, pelo milagre do nascimento de uma menina que, de acordo com diagnóstico médico, não tinha sinais vitais aos seis meses de gravidez. A devoção à santa venezuelana é grande por aqui.

Pode ser uma compensação ao “diablo” Hugo Chávez que vive espantando as Américas, conforme as concepções da Casa Branca. Esta foi cunhada pelo velho líder Fidel Castro: durante uma das primeiras cumbres (reuniões de cúpula) da qual os dois participavam, quando Chávez começou a se destacar, Fidel lhe mandou um bilhete dizendo que a América passava a ter um outro “diablo”, além do cubano. De lá para cá, felizmente para os povos pobres da América Latina, “los diablos” estão se multiplicando. Depois de Fidel e Chávez, vieram Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador) e Daniel Ortega (Nicarágua). E agora os paraguaios estão parindo mais um, o ex-bispo católico Fernando Lugo.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Paraguai: pendência histórica


Brasil, Argentina e Uruguai têm uma dívida histórica com o povo paraguaio. Seria a hora de pagá-la, agora que o Paraguai parece renascer com a eleição do ex-bispo católico Fernando Lugo para a presidência da República, depois de 61 anos de obscurantismo patrocinado pelo direitista Partido Colorado, incluindo aí os 35 anos (1954/1989) do ditador Alfredo Strossner? Creio que é uma reflexão pertinente. Paraguai, na primeira metade do século 19, até 1865, teve o atrevimento inaceitável de tornar-se uma nação soberana e socialmente progressista, utilizando seus recursos em benefício de sua população. Desafiava, portanto, o império daquela época. Já não era o império romano e ainda não era o império estadounidense. Era o britânico, no qual - se dizia com a arrogância natural de todos os impérios - o sol nunca se punha. Havia pelo menos uma colônia inglesa em cada canto do planeta Terra. Pois bem, os governos brasileiro, argentino e uruguaio de então, sob as ordens do império inglês, reuniram-se na chamada Tríplice Aliança e arrasaram o Paraguai, como os Estados Unidos arrasam hoje o Iraque. O governante paraguaio chamava-se Solano López, que minha geração aprendeu (ou desaprendeu) a conhecer como um ditador sanguinário nos livros didáticos dos anos 50 e 60. Ah! Quanta mentira nos ensinaram! (Que me perdoem os bons professores que tive no Ginásio Municipal de Seabra, Chapada Diamantina, Bahia, entre 1958 e 1961).

Imprensa alternativa/comunitária

Leio aqui no Últimas Notícias, meu jornal preferido em Caracas, que a milenária cultura maia da Guatemala conta, desde o último dia 23, com uma emissora de TV aberta. É a TV Maya, canal 5, exatamente a frequência usada pelo Exército durante recente guerra que ensanguentou o país, durante a qual os indígenas representaram 83% dos 200 mil mortos ou desaparecidos. O povo maia tem agora meio de comunicação próprio para difundir seus costumes, valores e interesses, deixando de estar refém dos grupos empresariais. A cobertura alcança somente a Cidade de Guatemala, capital do país, devido aos poucos recursos. É isto aí, sem imprensa alternativa e comunitária não há salvação.




O bar de David em dia de programação especial da clientela cativa


A sexta-feira e os botecos


Leio aqui no meu coração que hoje é sexta (viernes, vendredi, friday), dia de tomar umas nos botecos da vida (alô David - Parque São Paulo, Chame-Chame, Salvador, Bahia, Brasil, América Latina). Descobri que o Bar de David fica na América Latina, então posso falar dele no blog, não é Joaninha? (Joaninha para os amigos, jornalista Joana d'Arck, criadora e editora do blog). Faço então uma homenagem ao Tuxpan, meu bar em Havana, representando os botecos que tive a ventura de frequentar e os que frequentarei, com certeza. Queria citar todos os bares queridos, mas seria uma falta de respeito aos leitores que não gostam dos borachos (esses bêbados chatos, inconvenientes, irresponsáveis, porém geralmente gente boa). Lá vai, trata-se de um exercício do curso de espanhol na Universidad de La Habana (Cuba):

“El Tuxpan

En el Tuxpan vamos a allá
todos los sábados, quizá.
Amigos quienes de todo
hablan bien y hablan mal.
Son cubanos, brasileños,
con bromas, pimienta y sal.
Economía y área social
con ron, cerveza y mojito.
Las horas vuelan y a las diez
todos tropiezan con sus pies”.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Um dia caraquenho

O baiano na Praça do Silêncio

Um baiano passeia pelas ruas e praças centrais da capital de um país latino-americano, onde foi superada a democracia representativa e cavalga à toda carreira a democracia participativa. Caracas (Venezuela), terça-feira, dia 22 (Dia Mundial da Terra), a partir das 10h da manhã. Há sol, mas o tempo está fresco, ao contrário do calor de Salvador. Na cabeça, a idéia de acompanhar a marcha anunciada pelo movimento indígena desde El Silencio até a praça El Venezolano (áreas do miolo de Caracas), mas passando por sítios mais distantes, como Avenida México e Bellas Artes, tudo no município Libertador.

Nos portões de entrada da Assembléia Nacional (equivalente ao nosso Congresso Nacional), um grupo de uns 200 manifestantes se aglomera, com cartazes e faixas, antes de participar de uma sessão especial sobre os problemas ambientais e mudanças climáticas. Entre os presentes há quem recorde a advertência do líder cubano Fidel Castro - hoje meio aposentado devido a problemas de saúde -, feita no Rio de Janeiro, em 1992 (quem se lembra da Eco-92, dos tempos do “nosso” presidente Fernando Collor?): “No planeta Terra uma espécie está ameaçada de extinção: a espécie humana” (Coloco aspas para dar mais charme, porém não deve estar literal, cito de memória).

Segue o baiano. Pertinho (cerquita, diriam por aqui), na praça Simón Bolívar, o GreenPeace expõe uma baleia inflável de 18 metros de comprimento e o cartaz: “Latino-américa protege as baleias. E Venezuela?”. Reclama que o país não faz parte da Comissão Internacional que preserva esses animais marinhos contra a caça indiscriminada. Além disso, o local mantém sua rotina com duas “esquinas calientes”, onde atuam os partidários do presidente Hugo Chávez, e um canto sempre ocupado por um pregador religioso ou, às vezes, um vendedor daqueles “remédios” milagrosos para quase todos os males (este blog já fez matéria sobre esta praça). Ela, na verdade, deu origem a Caracas. Era a chamada Plaza Mayor, em torno da qual os colonizadores espanhóis foram construindo a cidade.

Já se aproxima o meio-dia. A marcha dos indígenas, os povos originários da América, já deve estar na praça El Venezolano, iria começar às 9h, pensa o baiano. O local fica a apenas uma quadra, a uns 100 metros. Ali há uma aglomeração, mas não há qualquer indício de indígena. Homens e mulheres (algumas com bebês nos braços), umas 80 pessoas, discutem e deliberam, com o auxílio de um pequeno alto-falante. São buhoneros (os sempre “indesejados” ambulantes, camelôs) desalojados da praça e imediações que se organizaram para lutar por outros pontos de venda. A área está em reforma total, passeios, ruas, jardins, tudo em obras de reparação (a oposição, claro, acusa os chavistas de oportunismo, devido às eleições para alcaldías - prefeituras - e governo dos estados em novembro próximo).

Bem, nada dos indígenas. O baiano vai então à sede do Parlamento Indígena da América – Grupo Parlamentar da Venezuela (seis deputados federais representam os chamados povos originários), próxima à Assembléia Nacional. “Não é hoje a marcha?” “É sim, está neste momento no bairro Bellas Artes. Até umas 2h chega à praça El Venezolano”, responde um muchacho, com traços inconfundíveis quanto à origem, numa sede quase vazia. Já vai dar 1h da tarde. Na recepção do prédio, uma moça logo se identifica como descendente de portugueses ao perceber o sotaque (isso é muito comum aqui). Conversamos um poquito em português, óbvio. “Obrigado, muito obrigado”.

O baiano toma uma sopa (sai rapidíssimo, fica mais barato e é servida em quase todo restaurante). Compra um jornal e vai ler na praça El Venezolano, esperando a chegada da marcha. A manifestação está inserida no processo de divulgação das idéias dos indígenas venezuelanos, as quais serão aproveitadas na feitura da Carta Ambiental das Américas, uma posição representativa dos indígenas de todo o continente. Entretanto, a marcha parece ter-se atrasado muito. Por volta das 15:30h, este baiano, que agora compartilha com vocês um dia caraquenho, desiste e vai tomar uma cervezita e um ron.

(Segundo a imprensa local, houve outras atividades relativas ao Dia Mundial da Terra, como um encontro de universitários, uma promoção do laboratório alemão Bayer e uma programação especial através do National Geographic Channel. Também o presidente Chávez destacou o tema ao receber, à noite, o vice-presidente de Cuba, Carlos Lage, que participa nesta quarta-feira, dia 23, em Caracas, de reunião extraordinária da Alternativa Bolivariana para as Américas - Alba. Presentes ainda os mandatários da Bolívia e Nicarágua. A Alba é constituída pelos quatro países).

Paraguay y la integración soberana

(A los amigos cubanos – edición especial)

“Somos pobres, pero somos muchos”. Este grito, oído en una manifestación en las calles de Caracas, llega a mi memoria al ver, en la pantalla de TeleSur, los paraguayos festejando la victoria del ex obispo Fernando Lugo en las elecciones presidenciales el domingo, día 20. Un país marcado por índices altos de pobreza (los porcentages varian del 40% hasta el 80%, dependiendo de las fuentes), de analfabetismo y corrupción, busca integrarse a los nuevos vientos que soplan en América del Sur, empujados por el despertar de los pueblos pobres. El rumbo es la unión de gobiernos afilados con la integración soberana, el creciente protagonismo del movimiento popular y la ampliación de la democracia participativa, lo que disminuye el campo de acción de las viejas oligarquías y del poderoso imperio estadounidense.

El cambio se parece casi irreal bajo la mirada de una generación, como la mía, que ha vivido acostumbrada a la dura presencia del dictador Alfredo Strossner (del 1954 hasta el 1989 en el poder). Paraguay era sinónimo de oscurantismo. Es difícil que alguien quien disfrutó su juventud durante los años 60 y 70 osara pensar en Paraguay cuando se hablaba de mejores días para los oprimidos, de democracia, revolución o socialismo. Mismo considerando que aquella generación vivió el “sueño imposible” de la victoria de Viet Nam por encima de Estados Unidos y, después, la muerte (lenta y gradual) de la dictadura militar en Brasil, la caída de tantas otras dictaduras en nuestra América Latina, la resistencia heroica de los cubanos...

No, Paraguay no puede! Paraguay, por lo menos en nuestra imaginación, estaba detenido en las garras de Strossner, no había dialéctica, no había vida. Pero la propia vida, felizmente, se encargó de denunciar a nuestros errores, nuestras limitaciones. Y he que la fuerza y las esperanzas del pueblo paraguayo se materializan a través de la acción de un militante católico, un humanista quien hace muchos años vive entre su gente, un hijo de la Teología de la Liberación, aquella misma la cual el último papa y el actual tanto hicieron para extinguirla.

Búsqueda de la soberanía – Fernando Lugo, todo haz creerlo, va a trabajar para que Paraguay siga un camino que es recorrido hoy por la mayoría de los países suramericanos – con diferencias de énfasis a vezes acentuadas -, buscando administrar a los recursos en beneficio de los más pobres, y no de los más ricos, como ocurrió los últimos 500 años, lo que representa un atrevimiento inconcebible según la visión de las oligarquías y el imperio.

Seguramente tendrá el odio de los grupos económicos que actuan en Brasil al negociar con el gobierno brasileño cuestiones de intereses bilaterales, como es el caso de Itaipú (usina de energía de los dos países). Se espera que el gobierno de Lula mantenga la posición de sensibilidad social como tuvo durante las negociaciones con Bolivia, involucrando intereses de Petrobras, la petrolera estatal brasileña. Es decir, que no ceda a los chantages hechos a través de nuestra gran prensa, la cual sólo sabe presentarse como nacionalista en la hora de explotar el vecino más débil (oya el terrorismo mediático!).

Para hablar solamente de los latinos de América del Sur, están actualmente en el rumbo de la integración soberana – y por eso se enfrentan a la dura hostilidad norteamericana – Venezuela, Argentina, Bolivia y Ecuador. También, con una política bien más moderada, Brasil, Uruguay y Chile (moderadísima en el caso del último). Perú mantiene todavía una política vinculada a los intereses estadounidenses y Colombia, que sufre una conyuntura de conflictos violentos, tiene un gobierno fuertemente apoyado por Estados Unidos. (Quedan de fuera Guayana Francesa, colonia todavía; y Surinam y Guyana, los cuales no son latinos, fueron colonizados por Holanda e Inglaterra).

terça-feira, 22 de abril de 2008

A vez do Paraguai





O ex-bispo católico Fernando Lugo comemora vitória
(foto publicada no blog SopaBrasiguaia.com, por Fernando R. V. Fernandes)

“Somos pobres, mas somos muitos”. Este brado, ouvido de uma manifestante nas ruas de Caracas, ressoa nas paredes de minha memória ao ver, através da TeleSur, os paraguaios festejando a vitória do ex-bispo Fernando Lugo nas eleições presidenciais de domingo, dia 20. Um país marcado por índices alarmantes de pobreza (os percentuais variam de 40% a 80%, dependendo dos critérios e das fontes), de analfabetismo e corrupção busca integrar-se aos novos ventos que sopram na América do Sul, empurrados pelo despertar dos pobres. O rumo vem sendo a união de governos afinados com a integração soberana, o crescente protagonismo do movimento popular e a ampliação da democracia participativa, o que estreita o campo de ação das velhas oligarquias e do poderoso império estadounidense.

A mudança afigura-se quase irreal para uma geração, como a minha, que se desenvolveu habituada à dolorosa presença do ditador Alfredo Strossner (de 1954 a 1989 no poder). Paraguai era sinônimo de obscurantismo. Duvido que alguém que tenha gozado sua juventude nos anos 60 e 70 ousasse pensar no Paraguai quando se falava em melhores dias para os oprimidos, em democracia, em revolução, em socialismo. Mesmo considerando que aquela mesma geração viveu o “sonho impossível” da vitória do Vietnam sobre os Estados Unidos e, depois, a superação (lenta e gradual) da ditadura militar no Brasil, a queda de tantas outras ditaduras na nossa América Latina, a resistência heróica dos cubanos...

Não, o Paraguai não dá certo! O Paraguai parecia congelado nas garras de Strossner, não havia dinâmica, não havia vida. Mas a própria vida, felizmente, encarregou-se de denunciar nossa rudeza no pensar, nossas limitações. E eis que a força e as esperanças do povo paraguaio materializam-se na ação de um militante católico, um humanista que há anos vive com sua gente, um remanescente da Teologia da Libertação, aquela que o último papa e o atual tanto fizeram para dissolver.

Busca da soberania - Fernando Lugo, tudo indica, vai trabalhar para que o Paraguai trilhe um caminho que vem sendo percorrido hoje pela maioria dos países sulamericanos - com diferenças de ênfase às vezes acentuadas -, buscando administrar as suas riquezas em benefício dos mais pobres e não dos mais ricos, como ocorreu nos últimos 500 anos, o que representa um atrevimento inaceitável na ótica das oligarquias e do império. Certamente enfrentará a ira dos grupos econômicos atuantes no Brasil ao negociar com o governo brasileiro questões de interesses bilaterais, como em torno de Itaipu. E esperamos que o governo de Lula mantenha a postura de sensibilidade social que teve nas negociações com Bolívia, envolvendo interesses da Petrobras. Ou seja, que não ceda às chantagens exercidas através da nossa grande imprensa, a qual só sabe botar a máscara de nacionalista na hora de explorar o vizinho mais fraco (olha o terrorismo midiático aí, minha gente!).

Para nos limitar apenas aos latinos da América do Sul, estão atualmente no rumo da integração soberana – e, por isso, enfrentando a dura hostilidade norte-americana – Venezuela, Argentina, Bolívia e Equador. Também, com uma política bem mais moderada, Brasil, Uruguai e Chile (moderadíssima no caso do último). Peru mantém ainda uma política vinculada aos interesses estadounidenses e Colômbia, que enfrenta uma conjuntura de conflitos violentos, tem um governo fortemente apoiado pelos Estados Unidos. (Ficam de fora a Guiana Francesa, ainda colônia; e o Surinam e a Guiana, que não são latinos, foram colonizados por Holanda e Inglaterra).

sábado, 19 de abril de 2008

Desafiando a altura e o frio (Dicas turísticas)


O repórter/turista a 4.765 metros, tendo ao fundo o Pico Bolívar, e uma das oito cabines do teleférico de Mérida, o mais extenso e alto do mundo


Essa vida de turista é dura. Esta quinta-feira, dia 17, foi o dia do programa básico para todos os visitantes de Mérida, capital do estado Mérida, oeste da Venezuela: subir no teleférico mais extenso e mais alto do mundo (4.765 metros). A cidade está encravada entre morros da famosa Cordilheira dos Andes e no estado estão os 10 picos mais altos do país, inclusive o Bolívar, o primeiro deles, com 5.007 metros, que pode ser visto bem de pertinho, majestoso, na quarta e última etapa do teleférico. Só visto, rapidamente, porque não podemos dizer apreciado, admirado, pois o frio é de matar qualquer baiano. Chega a 6 graus, nesta época. No Pico Bolívar neva abundantemente durante o mês de agosto.

A subida, dividida em quatro trechos, é realmente muito interessante, e um desafio (muito duro para quem sofre de medo de altura, como este que vos fala). Ao final da terceira etapa, o frio começa a castigar, e na quarta, então, é de lascar. Umas turistas européias aguentaram até o terceiro trecho sem qualquer agasalho, mas tiveram que se abrigar lá no topo. Custa 60 bolívares fortes (a nova moeda), 40 para crianças e 36 para os da terceira idade (60 anos em diante). (Abaixo, dica sobre o valor da moeda venezuelana).

A cidade de Mérida, ao redor de 1,3 milhão de habitantes (segundo o sítio oficial na Internet), é organizada, limpa e acolhedora, pelo menos se comparada com os padrões de Caracas, que já foi chamada neste blog de caótica. A única exceção talvez seja o número excessivo de carros particulares para as suas ruas estreitas. Os engarrafamentos (as colas, como eles chamam) fazem parte do dia-a-dia, neste aspecto igual a Caracas. Parecem influir dois fatores, dentre outros que os estudiosos certamente apontarão: o aumento do poder aquisitivo dos venezuelanos (estatísticas revelam que 87% deles usam celular) e a gasolina muito barata, subsidiada pelo governo. Os donos de carro preferem sofrer nas colas do que usar o transporte público, que pode ser considerado muito bom e baratíssimo, comparando-se com o de Salvador.

Mérida, o estado, tem 23 municípios, é eminentemente urbano. Além do turismo, é marcante na capital a presença estudantil, sendo sede da Universidad Los Andes. O jornal mais lido, aparência de equilibrado politicamente, chama-se Pico Bolívar. A praça principal, onde estão uma estátua de Bolívar, a Catedral e o palácio do governador, chama-se (adivinha...) Simón Bolívar. O principal município chama-se (adivinhou?) Libertador, aliás como em Caracas. Aqui se sabe, a todo momento, quem é o Pai da Pátria.

Valor da moeda – A cotação oficial do Bolívar Fuerte é 2,15 para um dólar norte-americano. Porém, quem tem dólar (em espécie) troca atualmente um por 3,5 bolívares fortes (talvez por mais) no chamado mercado negro. Então, para quem tem dólares em mãos, a vida aqui fica bem mais barata (presume-se que no caso do euro, por exemplo, seja mais vantagem ainda, pois o dólar está em constante queda).

terça-feira, 15 de abril de 2008

Papel das rádios e Tv's comunitárias

É impressionante o papel dos meios de comunicação alternativos e comunitários durante a mobilização da população pobre da Venezuela (não só de Caracas) que resultou na retomada do palácio presidencial Miraflores, logo em seguida ao golpe de abril de 2002. Inclusive do que chamam aqui "Rádio Bemba", uma espécie de comunicação de boca em boca, e os contatos através de grupos organizados de motoqueiros (chamados "motorizados"). Isto foi bem enfatizado nas comemorações do sexto aniversário do golpe, seguido do contra-golpe, cuja culminância deu-se no último domingo, dia 13, quando uma multidão voltou a ocupar o entorno do palácio, desta vez para festejar e ouvir um longo pronunciamento do presidente Hugo Chávez.




Uma imensa mancha vermelha cobriu a avenida Urdaneta, que da acesso ao Palacio Miraflores



Impressionam as imagens repetidas a exaustão pelas TV's estatais – imagens obtidas graças à iniciativa de comunicadores comunitários – de golpistas literalmente correndo nos pátios do palácio em direção a seus carros, no dia 13, terceiro e último dia do golpe, enquanto os "bárbaros" vociferavam por entre as grades nas entradas do Miraflores, já então com o apoio dos soldados encarregados da guarda palaciana (lembra os "povos bárbaros" invadindo o "glorioso" império romano); também há imagens de soldados manifestando, através de gestos, adesão ao povo.


Brasileiros se juntam à manifestação e venezuelanos protestam contra presidente americano



Impactantes ainda as imagens de um grupo de chavistas percorrendo corredores, quase vazios, do palácio, também no dia 13. Chávez ainda estava "sequestrado" e os golpistas já haviam fugido. É mostrado o momento histórico em que partidários de Chávez "ocupam" o gabinete presidencial e o então ministro da Educação, Aristóbulo Iztúris (hoje atuando na TV e um dos principais dirigentes do Partido Socialista fundado pelos chavistas), senta-se na cadeira do presidente. São imagens que dificilmente os brasileiros terão o prazer de ver (ou o desprazer, depende da posição de cada um) através da "imprensa livre" de nosso país.


Voltando às comemorações do domingo, os "camisas vermelhas" (chavistas, bolivarianos, socialistas) encheram a avenida Urdaneta e outras vias que convergem para o Palácio Miraflores. Era notável e notória a presença massiva de "gente do povo", como dizemos, na manifestação. Durante seu discurso, Chávez anunciou mais uma missão governamental, a denominada Missão 13 de Abril, destinada a estimular os "consejos comunales" (conselhos comunais, chamados também conselhos comunitários ou comunas socialistas).

domingo, 13 de abril de 2008

Golpe e contra-golpe na Venezuela

Monumento às vítimas de tiros dos golpistas em 11 de abril de 2002




Os venezuelanos estão tendo uma semana super-movimentada para marcar, na memória nacional, o golpe de 11 de abril de 2002 e a retomada do poder pelo presidente Hugo Chávez, dois dias depois, graças à extraordinária mobilização do povo (quase inacreditável, quando pensamos no contexto político brasileiro). Desde segunda-feira, dia 7, até domingo, dia 13, quando haverá uma concentração nas proximidades do palácio presidencial (Miraflores), está em curso uma vasta programação, junto com a do Congresso Mundial da Paz e um encontro de intelectuais de quase 100 países, abrangendo os cinco continentes.

Na sexta, dia 11, seis anos do golpe, foi a vez de uma sessão especial da Assembléia Nacional, em plena Avenida Urdaneta, no ponto chamado Puente Llaguno, próximo de Miraflores, no mesmo local onde foram assassinados manifestantes no processo golpista - o número total de mortos chega a 18 ou 19, varia de acordo com as fontes (falha do repórter) - e onde há hoje um monumento às vítimas. Uma gama variadíssima de organizações populares estava presente com bandeiras, camisetas (a maioria vermelhas), cartazes, de quando em quando aos gritos de “no volverán” (não voltarão), referindo-se às velhas lideranças da chamada “quarta república” (Chávez iniciou a “quinta república”), que tentaram voltar com o golpe.

Democracia participativa - Além de deputados e outras autoridades, participaram representantes de conselhos comunitários, entidades de bairros populares, das chamadas missões (o governo cria e incentiva pelo menos uma dezena delas em diferentes áreas de atividade), de movimentos de mulheres, indígenas, estudantis e os mais diversos grupamentos, a exemplo da Associação Nacional da Força Motorizada (de motos) de Integração Comunitária. Havia um popularíssimo “Che Venezuelano”, bem como homens e mulheres dos meios de comunicação alternativos e comunitários, um setor de grande peso na política de Chávez, apontado como um dos principais responsáveis pela fulminante mobilização do povo pobre para se contrapor ao golpe. Uma mescla de gente que dá uma idéia do que pode ser um tipo de democracia de verdadeira participação popular, rumo ao socialismo.

Falaram durante a sessão - por volta do meio-dia até às 15 horas - pessoas que foram protagonistas nos dias 11, 12 e 13 de abril de 2002, inclusive uma que foi ferida de bala, sendo o orador central o general (hoje reformado) Jorge Luis Carneiro, que dirigiu o Ministério da Defesa depois do golpe. Na ocasião, ele comandava uma brigada do Exército e teve atuação destacada contra os chefes militares que participaram ou aderiram aos golpistas, inclusive incentivando a multidão a manter o cerco ao Palácio Miraflores. Carneiro relembrou passo a passo os fatos ocorridos naqueles três dias. Ainda na sexta, o povo continuou na Puente Llaguno até perto de meia-noite, com uma vigília cultural. E noe sábado, dia 12, ocorreu um desfile cívico-militar e outros eventos.

Livro de Darcy Ribeiro - Durante a semana houve exposição de fotos sobre o chefe revolucionário mexicano Emiliano Zapata, com a presença de sua filha Ana Maria Zapata Portillo, 93 anos (a Fundação Emiliano Zapata condecorou o presidente venezuelano com medalha só outorgada até hoje ao líder cubano Fidel Castro); outra mostra com desenhos de crianças sobre o 11 de abril, recital de poesias, manifestação cultural para recordar as vítimas, exibição de documentário, feira de livros (entre os lançamentos, o nosso Darcy Ribeiro, com a obra La Universidad Nueva), exposição de fotografias “Quem são os terroristas?”, sobre as atrocidades praticadas na América Latina e no mundo pelo império estadounidense, etc, etc.

No dia 9 de abril, aconteceu também amplo debate, especialmente através de jornais, TV e rádio, em torno dos 60 anos do assassinato do líder popular colombiano Jorge Eliécer Gaitán (em 9 de abril de 1948), fato que transtornou a história do país e cujas repercussões estão vivas até hoje na violenta conjuntura da vizinha Colômbia.

(Quem quiser relembrar os fatos de 11, 12 e 13/4/2002, é só acessar o sítio http://www.telesurtv.net/ - “11 de abril na Venezuela – Resenha de um Golpe de Estado”).







Grupo de militantes incluindo os "motorizados" (de motos)



Umberto Lopes, muito popular como o "Che Venezuelano"



quinta-feira, 10 de abril de 2008

Um recanto bucólico (Conhecendo Caracas)

El Hatillo é um repouso para os olhos dos visitantes da capital venezuelana. Um recanto tranquilo, com muita área verde, pequenos comércios (restaurantes, venda de antiguidades e artesanatos), casas antigas, a maioria de um só piso, pintadas com cores vivas, as ruas e praças bem cuidadas. O núcleo urbano central chega a lembrar características de cidadezinhas turísticas da Chapada Diamantina, na Bahia, como Rio de Contas e Mucugê (embora não existam turistas em toda Caracas, pelo menos nesta época).

Pracinha central de El Hatillo, com a sempre presente estátua de Simón Bolívar.
A grande infra-estrutura de serviços na comunidade – a 300 metros da pracinha principal ergue-se um moderno centro comercial - deve ser usada pelo grande número de habitantes existente nas proximidades, onde há centenas de edifícios residenciais, na faixa dos 20 andares, entremeados por espaços verdes e entre bordas de montanhas (Caracas dá a impressão de estar dentro de um imenso buraco, é cercada por montanhas, desenvolveu-se dentro de um vale e enfrenta muitos problemas quando caem fortes chuvas).



Uma das ruas típicas ao bairro mostrando os morros ao redor
Estamos falando do núcleo habitacional mais antigo do local. Na verdade, El Hatillo é muito mais, é um dos cinco municípios da capital venezuelana. (Administrativamente, a cidade é designada como Distrito Metropolitano de Caracas ou Distrito Capital, onde vivem quase seis milhões dos quase 30 milhões de habitantes do país). É uma particularidade diferente das grandes capitais brasileiras. Há, portanto, cinco municípios numa única cidade (os outros são Libertador, Sucre, Baruta e Chacao). Existe um alcaide (prefeito) para cada um, além de mais um que atua na jurisdição de todos os cinco, responsável pela chamada Alcaldía Mayor. Para se dar uma idéia geral, toda essa área do Distrito Capital forma, com mais outros municípios, o estado de Miranda, com seu governador.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Venezuelanos mais otimistas

Governo subsidia alimento em mercado popular

Os venezuelanos acreditam que a situação geral do país melhorou muito entre fevereiro e março últimos. O percentual da população que via as coisas andarem mal caíu de 58,3% para 37,3% (diferença de 21 pontos), enquanto os que consideram que a situação está boa passaram de 34,3% para 51,1% (16,8 pontos). É o que mostra a última pesquisa do Instituto Venezolano de Análisis de Datos (Ivad), publicada por Últimas Notícias, jornal considerado equilibrado, o que é uma coisa rara na imprensa da Venezuela. A sondagem foi realizada em todo o país no período de 24 de março a 2 de abril (margem de erro – entre 1,03% e 2,37%).

Avaliação de Chávez
- A atuação do presidente se mantém no mesmo patamar, em relação à pesquisa anterior do mesmo instituto: aprovação de 66,5% e reprovação de 31% (na anterior, estes números eram 67,3% e 31,2%, respectivamente). Isto contraria pesquisas e declarações divulgadas por jornais declaramente anti-chavistas, dando conta de que o presidente venezuelano estaria caindo pelas tabelas depois de sua derrota no referendo de 2 de dezembro (reforma constitucional para instituir o socialismo) e de sua ação durante a crise fronteiriça com a Colômbia. (Pesquisas, aliás, que sempre gozam de nutrida veiculação nos meios de imprensa internacionais, inclusive do Brasil). Já o desempenho da oposição é reprovado por 47,6% da população e aprovado por 37,9%.

Principais problemas – Neste ítem, o Ivad apurou que seguem sendo, por ordem de importância, falta de segurança pública (o percentual dos que apontaram o problema manteve-se estável, entre fevereiro e março, baixando apenas dois pontos - 72,1% para 69,5%); desabastecimento de alimentos (uma queda acentuada de 53,7% para 38,8%); e desemprego, que praticamente não se alterou – de 29,4% para 28,3%.

O trabalho desenvolvido pelo governo para combater a falta de alguns alimentos essenciais, como leite, carne de gado, peixe, frango e ovos, é aprovado pela maioria dos venezuelanos, segundo a sondagem de opinião. 51% percebem que o problema diminuíu nas últimas semanas, enquanto 34,2% dizem que aumentou e 12% que continua igual. Sobre as causas do desabastecimento, 40,2% dos entrevistados responsabilizam a estocagem feita pelos comerciantes; 24,4% a ineficiência do governo; 14,1% a falta de produção; 11,9% mencionam a especulação; e 6,8% atribuem ao contrabando.

As pessoas que identificam como causas do problema a estocagem e a especualação mostram-se, assim, afinadas com o governo, que acusa os empresários de levarem a cabo uma política de sabotagem contra a economia do país e contra a população, com a finalidade de desgastar o presidente Chávez. É uma queda-de-braço que vem se travando há meses.

O governo, como nas diversas áreas de atuação, adota uma postura ofensiva. Além de incrementar a fiscalização, importa alimentos e os vende, a preços mais baratos, em feiras instaladas em praças públicas e em mercados populares, através de subsidiárias da Pdvsa, a petroleira estatal (poderíamos dizer “a Petrobras da Venezuela”), que está cheia de dólares devido ao estouro no preço do petróleo. A Pdvsa, inclusive, comprou recentemente uma empresa produtora de leite e derivados (responsável por 37% do abastecimento do país no setor), rebatizada de Empresa Nacional Lácteos Los Andes, à qual Chávez se refere sempre como um empreendimento de natureza socialista, “propriedade social a serviço do povo para garantir a Soberania Alimentar”.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Esquina Caliente (Conhecendo Caracas)

Ponto de encontro e propaganda dos partidários do governo Chávez


Na verdade, são duas “esquinas quentes” em Caracas. Estão localizadas em dois cantos da Praça Simón Bolívar, um dos pontos mais movimentados do centro da capital venezuelana. Na área, inserida no município Libertador (um dos cinco em que está dividida administrativamente a cidade), ficam os principais órgãos governamentais, como os belos prédios do Palácio Miraflores (do presidente da República), da Assembléia Nacional (Poder Legislativo) e da Corte Suprema de Justiça, além da maioria dos ministérios e da sede do Arcebispado (Igreja Católica). É a parte mais central, o miolo, com muito comércio, as ruas cheias de gente, um trânsito intenso e caótico (tão caótico que no último dia primeiro deu-se início a uma grande operação para tentar discipliná-lo), e engarrafamentos (as colas, como chamam os venezuelanos).
Em cada uma das duas esquinas está armada uma barraca onde atuam partidários de Hugo Chávez, que preferem ser chamados de bolivarianos, socialistas do século 21, ao invés de chavistas. Aí, há sempre uma TV ligada no canal 8 (Venezolana de Televisión) e quando o presidente está na tela, falando (o que ocorre com frequência), os caraquenhos aglomeram-se em torno. Também são distribuídos jornais, folhetos e panfletos. Às vezes um deles está ao microfone botando falação sobre as excelências, claro, do governo, e as mazelas, óbvio, da oposição. Funciona como um ponto de encontro e nós, visitantes, somos bem recebidos, aparentemente simpatizantes da causa revolucionária.
No centro da praça, ergue-se imponente a grande estátua do comandante militar e político da independência do país, coberto de glórias na guerra contra o colonizador espanhol. No seu cavalo, a imagem da força e da valentia, o Libertador, o Pai da Pátria, uma referência onipresente nos discursos e no território da Venezuela. Ao pé do monumento, há todos os dias coroas de flores em sua homenagem. Simón Bolívar tornou-se o principal artífice da luta independentista no início do século 19 e morreu isolado em 1830, uma epopéia, um final de vida dramático. Depois, a consagração histórica.
Mas, aparentemente, nem tudo é política. Junto à propaganda bolivariana, há sempre em outro canto da praça um pregador religioso, com seu serviço de som e sua Bíblia, ensinando o Evangelho. Às vezes é substituido por um vendedor ambulante, um comelô, vendendo aqueles produtos “milagrosos”. Não faltam, claro, as famílias em passeio, as crianças alimentando e brincando com os pombos, aposentados, desocupados conversando, matando o tempo. Há ainda uma sala de leituras, com jornais diários e livros sobre a formação da cidade, bem como área para exposições. E nas ruas ao redor do parque, pelo menos uma dezena de homens e mulheres anunciam aos transeuntes a compra de ouro, prata, dólar, euro, o chamado mercado negro.


O monumento ao Libertador (com um pombo na cabeça) no centro da praça

Fachada do prédio que abriga a Assembléia Nacional (sede do Legislativo)

Parte da Praça Simón Bolívar, vendo-se ao fundo uma exposição de fotos

Belo conjunto arquitetônico onde está a Corte Suprema de Justiça

Famílias aproveitam o espaço para passeios e as crianças se divertem







terça-feira, 1 de abril de 2008

A peste da cultura contemporânea






Grupo Teatro de Rua - em alusão aos "demônios da comunicação" alienando cerébro de leitores.


"O terrorismo midiático é a primeira expressão e condição necessária do terrorismo militar e econômico que o Norte industrializado emprega para impor à humanidade sua hegemonia imperial e seu domínio neocolonial. Como tal, é inimigo da liberdade, da democracia e da sociedade aberta e deve ser considerado como a peste da cultura contemporânea". Esta visão está contida na Declaração de Caracas, divulgada nesta segunda-feira, dia 31, ao final do Primeiro Encontro Latino-americano contra o Terrorismo Midiático, que reuniu, entre os dias 27 e 30, jornalistas, comunicadores e estudiosos da América Latina, Caribe e Canadá.

(No mesmo período deu-se a reunião semestral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP, sigla em espanhol), cujas conclusões refletem, ao contrário, a posição dos patrões e do "mercado", merecendo, obviamente, ampla veiculação nos meios de comunicação empresariais).

No encontro dos jornalistas, realizado no Centro de Estudos Latino-americanos Rómulo Gallegos (Celarg) – organizado pelo Ministério de Comunicação e Informação e pela Agência Bolivariana de Notícias -, foram denunciadas agressões e campanhas de difamação das "transnacionais informativas e da SIP" (as denúncias incluem também o grupo Repórteres sem Fronteiras) contra a luta dos povos do Equador, Bolívia e Nicarágua, bem como do Brasil, Argentina, Uruguay e México. Cuba e Venezuela são mencionados como os países mais visados, destacando-se ainda "a dramática situação que atravessa atualmente o jornalismo democrático no Peru, Colômbia e outras nações".

A declaração acusa o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, de "criminalizar todas as modalidades de luta e resistência popular, sob pretexto de uma falsa noção de segurança". E sublinha, com veemência, as perseguições contra os meios alternativos, populares, comunitários e inclusive alguns empresariais. "A informação não é uma mercadoria. Tal como a saúde e a educação, é um direito fundamental dos povos e deve ser objeto de políticas públicas permanentes", proclama. Os organizadores prevêem a possibilidade de um segundo encontro no mês de junho próximo.

Protesto bem humorado



Crítica a cadeias internacionais, como CNN.


Manifestação de estudantes participantes juntamente com o grupo de teatro.

Não só de palestras e debates viveu o encontro sobre terrorismo midiático (houve em torno de 25 conferências e a participação da platéia – a imensa maioria formada de jornalistas e estudantes de comunicação - foi intensa, com muitas perguntas e propostas). No sábado, dia 29, ocorreu uma passeata para protestar contra os integrantes da SIP, com representação teatral (grupo Teatro de Rua, com a peça Liberdade de Pressão) em frente ao Hotel Caracas Palace, onde estavam reunidos os donos e editores de jornais, a uns 200 metros do Celarg, na avenida Francisco de Miranda (Altamira, município Chacao, Caracas).

Foi uma manifestação bem humorada, que terminou com discursos contra os órgãos privados de comunicação e em defesa do governo de Chávez, da revolução bolivariana e do socialismo. Faixas e cartazes fustigavam TV's como a Globovisión (venezuelana) e a CNN (estadounidense), bem como jornais, a exemplo: "El Mercurio (Chile), Prêmio Pinochet de Liberdade de Expressão; El Nuevo Herald (Miame/EUA), Prêmio à Ignorância Jornalística; El Universal (Venezuela), Prêmio ao Perfeito Anexionista Latino-americano".

Definições exemplares


Do jornalista venezuelano Freddy Fernández, diretor da Agência Bolivariana de Notícias:
A partir da doutrina Bush: “Terrorismo é tudo que vai contra os interesses dos Estados Unidos” (desqualificação cunhada pelos serviços de inteligência, CIA. Antes, a palavra mágica era comunismo).Terrorismo midiático é o assassinato do jornalismo e adoção da propaganda e da invenção e manipulação da notícia”.



A voz dos patrões e do “mercado”


Os membros da SIP, como se esperava, condenaram a política de comunicação do governo Hugo Chávez, apontando a existência de ameaças contra a liberdade de expressão, apesar do bombardeio diário de jornais e emissoras de rádio e TV contra as ações governamentais. Nas conclusões de sua assembléia, denunciaram o aumento das pressões sobre a imprensa independente por parte de vários governos do continente, bem como a pressão de juízes nos Estados Unidos no sentido de que sejam reveladas as fontes e o assassinato de jornalistas no México.


O presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da SIP, Gonzalo Marroquín, indicou que também em Nicarágua, Honduras, Colômbia, Equador e Argentina há situações complicadas, “mas a mais preocupante é a da Venezuela, devido à perseguição judicial, as ameaças verbais e a tendência clássica dos governantes de premiar ou castigar segundo a linha editorial”.