quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Talvez, talvez, talvez...

A uma mulher, uma espera, uma esperança)

Este sábado, dia 27, poderia ser menos chato, luminoso até, mesmo com esta chuva que não pára, própria do inverno chuvoso dos trópicos amazonenses। Mas a pauta furou, como dizem os jornalistas, e as coisas acontecidas fizeram água no meu navio, imaginado um Titanic antes do naufrágio.Quem nunca teve um dia assim?

Talvez se eu fosse mais perspicaz diante dos problemas do mundo, com os negócios, o amor e a saúde - como alardeia a Madame Valda, mestre do tarô, nos postes da cidade de Manaus - não estaria aqui, na Choparia São Marcos, sozinho, enchendo a cara de vodca e masturbando
elocubrações intimistas impublicáveis.

Talvez se eu seguisse os sábios conselhos de minha mãe, andar com gente mais bem situada - "meu filho, com esses trajes você não vai conseguir nada na vida", me dizia, bondosamente। Tão sábia que, semi-alfabetizada, topava discussão até com deputado। "É preciso aprender a fazer política", decretou, e o então deputado Sá Teles, grande educador baiano: "Talvez não seja o caso de aprendizagem..." Se eu tivesse bebido mais em sua sabedoria, estaria trilhando outros caminhos e certamente desfrutando outras paragens।

Talvez se eu tivesse construído uma próspera família tradicional, como sonhava minha mãe, estaria agora nas festas de Natal e Ano Novo ocupado na compra de presentes para os netos e, portanto, não estaria aqui, conversando comigo mesmo, em viagem por terras estranhas, com sede de viver vidas novas neste resto mocidade.

Talvez se o acaso me tivesse empurrado a uma carreira mais promissora – auditor fiscal ou executivo de banco estatal ou do Pólo Petroquímico -, provavelmente eu teria coisas mais rentáveis a cuidar e não dedicaria tanto tempo às mesas de botecos (mas meu irmão Stimison, missionário do bem e consertador de tortos imitando Don Quixote, me garante que não há acaso).

Talvez se eu fosse corintiano, estaria nesta época enlevado diante da perspectiva da estréia do Fenômeno, o craque fenomenal, enojado daquela piadinha manjada da "contratação de peso" e, então, teria o espírito tomado por ilusões mais prazerosas (trata-se apenas de marqueting?) e não me quedaria aqui choramingando soluços solitários.

Talvez se eu acompanhasse melhor as maldades de Flora e a via crucis de Donatela ou as vicissitudes do "peãozinho de merda" no afã de redimir sua capação através da ponta da azagaia, na fantasia do Pantanal mato-grossense, não me sobraria energia para exacerbações existenciais que podem escorregar facilmente para a melancolia.

Talvez se os encontros prevalecessem mais na vida, em detrimento dos desencontros, como gostaria o poeta Vinicius, seguramente eu não estaria aqui sozinho, numa mesa do meu bar predileto no centro de Manaus, tomando a saideira e comendo um PF। Estaríamos curtindo um sábado radioso, apesar do céu cor de chumbo।

Talvez, talvez, talvez... Tenho que me safar desta, embora me tenha nascido um precipício insondável. E não sou nenhum Indiana Jones. É uma merda!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Só ando de táxi

Vista da Praça Terreiro Aranha, com o Porto de Manaus ao fundo
É verdade। Aqui em Manaus só ando de táxi, táxi lotação. É um ótimo esquema, encontrei um semelhante em Havana, a atraente capital cubana. Os carros rodam dentro de determinados itinerários, cobrando dos passageiros um valor fixo, relativamente pequeno. No caso da capital amazonense, custa R$ 3,00 a passagem de cada um (era R$ 2,50 até 30 de novembro), enquanto a tarifa de ônibus é R$ 2,00 e a de micro-ônibus R$ 2,50.

Trata-se de uma opção confortável. O passageiro não perde tempo esperando, a todo momento passam os carros, buzinando e acendendo os faróis para indicar a condição de táxi lotação. Os carros têm a mesma cor e as mesmas indicações dos táxis comuns, inclusive qualquer um deles pode fazer uma corrida “normal”, com o destino desejado por um usuário, fora do itinerário, cobrando normalmente pelo taxímetro.

Usualmente os táxis têm ar condicionado, um “luxo” muito comum aqui em quase todos os ambientes, por motivos óbvios. Mas, a alternativa do táxi lotação é limitada a bairros da Zona Sul, como Educandos, Colônia Oliveira Machado, Bola da Suframa – Superintendência da Zona Franca de Manaus - (aqui rotatória ou rótula é chamada de bola) e outros das imediações.

A corrida para o centro e vice-versa é relativamente curta. Quando digo “só ando de táxi” é porque estou morando justamente nessa área.



Grupos musicais sempre aparecem pelo centro da cidade

O táxi lotação é uma particularidade da cidade dos manauaras (manauenses), uma terra tropical, quente, abafada, cheia de engarrafamentos, apesar de não ser tão grande (só 1,7 milhão de habitantes), cujo centro, aquele miolo central popular e antigo, parece mais um grande acampamento de ambulantes.

Trecho da Praça do Relógio com barracas de ambulantes


Praças e ruas do centro, grande parte tipo calçadão (não passam carros), são territórios tomados por barracas e camelôs, além de grandes ajuntamentos de lojas fervilhando de compradores, passantes, vendedores gritando e batendo palmas para atrair fregueses, serviços de alto-falante anunciando anunciando promoções.

Vendedor exibe produtos no burburinho da Rua Marechal Deodoro

“Como é o nome deste lugar?”, perguntei na Rua Marechal Deodoro, toda coberta, em meio à multidão. “É Bate Palma”, me disse um rapaz. “Boy” é o apelido dos empregados que batem palmas. E as moças? Me esqueci de perguntar.

Nesse centro estão referências marcantes, como a Igreja da Matriz (Paróquia de Nossa Senhora Imaculada Conceição, padroeira do estado, feriado 8 de dezembro como na Bahia), o porto principal de Manaus, o prédio antigo onde funciona a Alfândega, grandes lojas, bancos, terminal de ônibus, o chamado Mercado Grande ou Mercadão.

Adoro esse miolo de cidade grande, especialmente os bares, barzinhos tipo boteco, restaurantes populares, comida a quilo, PF a R$ 6,00. (Mais tarde vou tomar duas doses de Orlof, a R$ 3,00, lá na Choparia São Marcos). Está por aqui também aquele programa do governo de almoço a R$ 1,00, comida quase de graça, saudável, bem balanceada, o chamado “prato cidadão”, semelhante ao esquema de Salvador.

O que atrapalha um pouco aqui é o calor, que só alivia quando chove, o que, aliás, acontece sempre (no “inverno”, de dezembro a maio, me informam).

Mas o que atrapalha mesmo é a repetida advertência de cuidado com a violência, a falta de segurança, os assaltos, em especial não circular por tais locais durante a noite. Outro dia presenciei no burburinho da Praça do Relógio, que faz parte desse miolo, em pleno dia, um grupo de policiais perseguindo e prendendo um rapaz (é ladrão, disseram), houve correria, um tiro, certamente para cima, porque ninguém ficou ferido.

É uma praga essa tragédia em que se transformaram os grandes centros urbanos do Brasil, da América (do mundo?). Talvez a grande exceção seja Havana, lá se pode andar à vontade inclusive à noite, o índice de delinquência violenta é quase zero.

Se você sobe pela Avenida Eduardo Ribeiro, a partir da Praça do Relógio, 10 minutos de caminhada, já está numa área mais sofisticada. É a bela Praça São Sebastião, onde estão uma grande igreja do mesmo santo e o imponente Teatro Amazonas, cartão postal obrigatório da capital amazonense. Na mesma praça está o Bar do Armando, tradicional ponto de encontro de intelectuais, boemia classe média (R$ 8,00 a dose de uísque oito anos, Red Label, já tomei umas por lá). Bandeira do Flamengo mostra a preferência dos मनौअरस


Bandeira do Flamengo mostra a preferência dos manauaras


Para terminar, mais uma particularidade: a torcida do Flamengo (do Rio, claro), meu time do coração. Parece a do Bahia dos bons tempos, um pouco ainda hoje, apesar da segundona. Me despertei para isso naquela partida, recente, contra o Palmeiras, pelo Brasileiro. O Flamengo deu de 5 a 2. Quando fez o segundo gol (2 a 1), ouvi de casa o pipocar de fogos e a zoada. Liguei a TV e conferi. É a torcida do Bahia toda, pensei. Que me desculpe a turma do Vitorinha, meu preferido, mas a torcida do Bahia é demais!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Tardes tropicais

O céu fechado na tarde melancólica do "inverno" de Manaus

São 13 horas da chata segunda-feira, dia primeiro. Tempo fechado। Será mais uma tarde de chuva? Dezembro começa com a cara do "inverno", a chuva é fina, pára de quando em quando. Sol desaparecido e temperaturas não muito altas. Trovões continuados, mas até aqui fracos.

Penso que se o velho Sinval estivesse por aqui, não teria tempo para sentir-se melancólico, estaria morrendo de pânico. Bem que eu poderia curtir este "clima" escrevendo uma carta de amor, bem apaixonada (disse uma carta? não, um e-mail). Mas minha mulher tem pouco tempo para leituras. ("Amor, não li ainda seu texto no Mídia Baiana. Quando chego do trabalho não aguento nem olhar pro computador. Aquele meu trabalho tá me sugando a alma!")

Puxa, fiquei toda manhã no computador pensando em dar um passeio à tarde pelo centro de Manaus, tirar umas fotos daquele amontoado de barracas, a enorme aglomeração de ambulantes, os engarrafamentos, a Praça do Relógio... Não dá, a chuva não pára.Vou ficar devendo as fotos.


A Feira da Panair, mercado popular do bairro Educandos

Aprecio o chuva, saio um pouco até a calçada, é gostoso os pingos finos molhando a pele úmida, meio pegajosa. Um pé de carambola e um coqueiro ornamentam a minha porta. Bom, tem mais cimento do que verde, mas é até bonito. Faço umas fotos com a modernosa maquininha digital (será que vão prestar?).


Mas, para afastar este ar nostálgico tenho um antídoto infalível: ler। Termino o livro Galvez Imperador do Acre, de Márcio Souza, creio que o romancista contemporâneo mais conhecido do Amazonas।


Não gostei no início, li rapidinho saltando pedaços, mas na parte final achei uma belezura. Talvez tenha começado a entender (preciso reler todinho). Segundo compreendi, uma alegoria cáustica e delirante da injusta realidade e dos desencontros do povo latino-americano nas republiquetas de banana do século passado, com as tinturas peculiares do ambiente amazônico.


Iniciei a leitura de Dois Irmãos, de Milton Hatoum, outro importante escritor da terra. Alguém já disse que a literatura de um povo é a alma desse povo? (O jornalismo, me perdoem os colegas, deve ser o fígado). Pois é. Me lembrei de um romance que li há uns 30 anos, fala da miséria dos seringueiros em pleno boom internacional da borracha. Acho que há um Ferreira no nome do autor, um português, vou procurar na Internet e digo a vocês (Li do mesmo autor outro livro denunciando a extrema miséria dos trabalhadores de Portugal - só comiam batata - na fase da primeira revolução industrial).


Vista da orla do Rio Negro na altura dos bares do Amarelinho

E aproveitei ainda para ver mais um capítulo de As Brasas, do húngaro Sándor Márai, um burguês anti-comunista. Ele relata, acremente, a amizade entre dois militares, inseparáveis até os 35 anos, para resultar num terrível ódio ruminado durante os 41 anos restantes de vida. Uma coisa fortíssima. Muito lisonjeiro, o amigo Paulo Bina me diz na dedicatória: "O tema do livro é algo que você não conhece, o ódio. Mas a paixão, raiz desse sentimento, é sua conhecida"।

Bem, umas 16:30 horas espiei o mundo real (real?)। Nada de sol, mas parou de chover. Dei uma esticada a pé até a Feira da Panair (é isso que vocês pensaram mesmo, é o local onde estava instalada a sede da Panair, a antiga companhia aérea do Brasil, à margem do Rio Negro. O curioso é que o nome é pronunciado como se escreve, no português, pa-na-ir, e não pa-ner). Uns 20 minutos de caminhada. Bati umas fotos da feira e do movimentado porto (se prestarem, espero que nossa editora, Joana D'Arck, use para ilustrar este texto).

Porto da Panair, junto à feira, à margem do Rio Negro


E assim espanta-se a melancolia de uma tarde nos trópicos. Amanhã o sol estará de volta, pelo menos pela manhã. A alma estará cuराda e, serenamente, a vida volta a rolar no leito "normal".