domingo, 31 de maio de 2009

Tacacá de Tucupi

De Curitiba(PR) – Apesar de toda a parafernália das comunicações modernas, ou por causa dela, as pessoas, de modo geral, são muito mal informadas (ou desinformadas, não sei). Quando conheci o tacacá, em Manaus, perguntei a uma pessoa qual era a sua origem. E ela me disse que era uma comida baiana.

- Não pode ser, eu sou baiano e nunca vi isso por lá, rebati logo. Depois fui ver na sabe-tudo Internet. É de origem indígena, da região amazônica mesmo. Ainda em Manaus assisti a um Roda Viva (TV Educativa), com um cozinheiro espanhol (reconhecido internacionalmente, segundo o programa), o qual botava o tacacá nas alturas.

De fato, entre os turistas faz o maior sucesso. Seus componentes: tucupi, caldo amarelado extraído da mandioca, usado também em temperos, molho de pimenta (é apenas um dos componentes, o título acima é uma espécie de licença poética, acho que soa bem);

E mais: goma, também da mandioca; camarão; folhas de jambu (que têm um efeito estranho, adormecem a língua, mas dizem que não causam nenhum “barato” ou “viagem”); cuité, que é a cuia em que é servido; cesta – envolve a cuia pra não queimar as mãos; e o palito. Quando eu estava em Manaus (novembro/2008 a janeiro/2009), custava 6 reais e subiu pra 7.

Confesso que não gostei. Talvez porque tenha experimentado só uma vez. Achei o camarão muito salgado (desde que me diagnosticaram hipertensão, me acostumei com pouco sal). Mas, se tivesse insistido, talvez mudasse de opinião, pois estou seguro de que o hábito é determinante nessa coisa de comida. Pelo menos pra mim. Por exemplo: aquela farinha grossa do Norte, não gostei, mas insisti, e logo logo me habituei; três meses em Curitiba e já me acostumei a comer sem farinha e sem pimenta.

FRUTAS TÍPICAS DO AMAZONAS – Vou relacionar frutas típicas que topei lá em Manaus (espero identificar corretamente nas fotos, cuja postagem às vezes dá muito trabalho ,à editora Joana D’Arck, a querida Joaninha): pupunha, rambutã, mari, tucumã (tem a polpa amarelada/avermelhada que se come pura ou com pão, ou seja, como sanduíche), castanha do Pará, cupuaçu e pacovã, que é a banana da terra (verde) frita, depois de cortada em finas rodelinhas.

Tradicional da região, conhecido nacionalmente, é o guaraná, bebida que tem a fama de estimulante sexual. Além do básico, o xarope de guaraná natural, podem ser incluídos um ou mais dos ingredientes seguintes: catuaba do Nordeste, miratan da Amazônia, guaraná de Maués, gramola da Amazônia, soja de Mato Grosso, castanha de caju, amendoim da Amazônia, aveia e leite em pó. (Registro também a existência do peixe pirarucu, às vezes mencionado como o bacalhau do Amazonas).

CHAMBARI OU VACA ATOLADA? – Nos quatro dias que passei em Palmas, capital de Tocantins, vi uma matéria de página no Jornal do Tocantins, de 10/02/09, sobre comida típica. A estrela era o chambaril, mais conhecido como chambari (a matéria citava outras, bem mais comuns, como carne de panela, buchada, panelada e sarapatel).

Os ingredientes, segundo a reportagem: três tomates de tamanho médio, quatro colheres (de sopa) de óleo, molho de pimenta vermelha, coloral duas cebolas pequenas, uma peça de chambaril (parte da perna do gado), pimenta do reino e sal (recomenda servir com arroz branco e feijão, podendo acompanhar a farinha).

Fui provar o chambari na barraca Pedrita’s, achada por acaso após muito caminhar pelas ruas largas de Palmas. Achei a carne um pouco dura, mas gostei. Porém, dona Pedrita tirou todo o charme da “comida típica” (com aspas ou sem aspas?). Me disse: “Isso tem em todo lugar, só muda o nome”. Eu então me apresentei como de Salvador, Bahia. E ela, na bucha: “Na Bahia chama vaca atolada, é a mesma coisa”. Fica a questão para os entendidos.

domingo, 24 de maio de 2009

Me apareceu um bando de capivaras...


De Curitiba(PR) – Nesta quinta-feira, dia 21, fiz uma bela caminhada pelas ruas da cidade, quase duas horas, em torno de 16 graus, do Centro ao Parque Tingui, região norte, no bairro de São João, passando pelo Centro Cívico, Bom Retiro, um pequeno pedaço de São Lourenço e Pilarzinho (caminho que fiz “de a pés”, como diria o nosso José Irecê).

De vez em quando faço esse tipo de programa, saudável e barato, às vezes retorno caminhando, às vezes de ônibus. Tingui está entre os 24 pontos incluídos no roteiro turístico de Curitiba. Há uma linha especial de ônibus (jardineiras) pra turistas cobrindo o trajeto, custa 20 reais, com partida da Praça Tiradentes, no Centro. Conheço já quase todos estes pontos, visitando quase sempre a pé (a maioria com Deta durante o mês de março).

No portal de entrada há uma estátua do cacique Tindiquera, líder da tribo Tingui, índios que habitavam a região. Temos lá ciclovia, pista para corrida, equipamentos para exercícios físicos, essas coisas usuais. Também um Memorial Ucraniano, povo que está entre os principais imigrantes do estado, ao lado de italianos, alemães, poloneses e chineses.

A novidade mesmo, pra mim, foi um bando de capivaras que me apareceu por lá, “quentando” sol. Bem mansas, são criadas lá. Peguei na Internet: entre os roedores (parente do rato, coelho), a capivara é o maior animal, costuma viver às margens de rios e lagos e se alimenta de capim, ervas e outros tipos de vegetação.





Bem, o que não falta por aqui são parques. Já tinha conhecido com Deta o Barigui, creio que o maior e mais freqüentado daqui, nos bairros de Champagnat e Cascatinha (fica nas proximidades do Tingui, o Rio Barigui passa pelos dois).


Possui equipamentos de ginástica, churrasqueiras, restaurantes, pedalinhos, campos poliesportivos, quiosques, parques de exposição e de diversão, pista de bicicross e aeromodelismo, além de um Museu do Automóvel e a Estação Maria Fumaça। Há muitas aves e outros animais।

Visitei há uns 15 dias o Parque Tanguá, no bairro do Pilarzinho, também na região norte da cidade। Pra mim, disparado, o mais bonito dos três. Está onde havia um antigo complexo de pedreiras desativadas. Possui dois lagos e um túnel artificial que pode ser visitado de barco ou a pé, bem como um mirante, de onde pode-se apreciar uma bela e extensa paisagem।







Bem perto, também no local das antigas pedreiras, fica a Ópera de Arame, um belo teatro, todo de fibra e metal, incrustado numa bonita paisagem de pedra, água e vegetação। É um dos cartões postais da capital paranaense.









sábado, 16 de maio de 2009

A irreverência de Emílio de Menezes

De Curitiba(PR) - “A uma vaga na Academia Brasileira de Letras era candidato certo médico de alto conceito। Comentava-se, numa roda, se ele conquistaria a cadeira. - É mais que certo – opina o Emílio; - vocês compreendem: há muito tempo que F. está fazendo uma cabala única para entrar para a Academia! Não há acadêmico que adoeça, mesmo levemente, que ele não se ofereça para seu médico assistente e de graça... - Cavando o voto!... – interrompe um dos circunstantes. - Qual voto! Cavando a vaga...”
Busto do poeta na Praça General Osório, no centro de Curitiba
Isto dá uma idéia da verve ferina do poeta, jornalista e escritor Emílio de Menezes (1866-1918), nascido em Curitiba e vivido literariamente no Rio de Janeiro. O caso é contado por Bastos Tigre, também poeta e jornalista, em “Obra Reunida”, livro que contém toda sua produção, editado há umas três décadas sob o patrocínio do governo do Paraná. Há um busto seu na Praça General Osório, área mais central da cidade, pertinho da Boca Maldita (está sem placa, identifiquei pelos bigodões).

TENHO A MANIA DE PROCURAR conhecer alguma coisa da literatura das cidades por onde passo (além dos jornais, claro). Já falei neste blog de autores que conheci, lendo seus livros, em Manaus – Márcio Souza, Milton Hatoum e o indígena Yaguarê Yamã (nome de branco Ozias Glória de Oliveira), todos de origem no Amazonasनोट्स (Matérias Tardes tropicais e Ka'apora'rãga e as mães-da-mata).


Em Belém, li as tiradas humorísticas do baiano Rui Santana, que assina como Barão de Irará – homenagem ao Barão de Itararé – em “Entre sem Bater, ditos e não ditos”. Ele é de Irará, morou em Salvador (músico, ativista político de esquerda e produtor musical) e está na capital paraense, atuando também na edição de livros. É muito amigo do nosso cantor e compositor Wilson Aragão, de “Capim Guiné”, “Guerra de Facão”, etc, etc.

Quando vinha pra Curitiba, tratei de conhecer logo Dalton Trevisan, contista curitibano reconhecido nacionalmente. Li durante a viagem “O Pássaro de Cinco Asas” (contos) e “A Polaquinha” (romance), comprados num sebo em Goiânia.

FELIZ COINCIDÊNCIA
- No caso de Emílio de Menezes, foi uma feliz coincidência. Há muito tinha curiosidade de conhecê-lo, por sua fama de irreverente, satírico, irônico, boêmio (muitos o comparam a Gregório de Matos). Descobri aqui, por acaso, que o rapaz era curitibano.

Tem uns três ou quatro livros de poesia, que poderíamos considerar, como leigos, o “lado sério” de sua obra, produção muito festejada pela crítica. É contemporâneo de gente como Machado de Assis (1839-1908), Olavo Bilac (1865/1918) e Raimundo Correia (1859-1911), aquele do famosíssimo soneto “As Pombas” (“...mas aos pombais as pombas voltam, e eles (os sonhos) aos corações não voltam mais”).

Mas, o que ficou mesmo, como marca indelével, foram seus escritos na imprensa, cheios de vivacidade e ironia, ferroando autoridades, políticos, seus colegas jornalistas e jornais. Incluem-se aí muitos sonetos.
É pena que eles estão num contexto de 100 anos atrás. Então hoje os ditos espirituosos, os chistes, as referências a personalidades da época se tornam praticamente ininteligíveis.

ERA UMA FIGURA EXTRAVAGANTE, pelo que pude perceber em “Obra Reunida” (não li tudo, é um volume muito grande, textos dele e sobre ele, eruditos e rebuscados, um jornalista de hoje diria pesados). Tem a fama de ter enriquecido rapidamente especulando com ações na Bolsa de Valores e empobrecido também rapidamente na boemia e nas ostentações de riqueza.

(Lembra até o grande Honoré de Balzac, que se consumiu em ostentar dinheiro e nobreza, duas coisas das quais era carente. Este “de” Balzac, distintivo de nobreza na época, ele começou a usar na marra e terminou ficando. Fez o diabo pra conquistar uma aristocrata russa e arrombou o estômago tomando café forte para não dormir e escrever, escrever, escrever, a fim de pagar as dívidas. Ambos eram gordos e morreram cedo).
Machado de Assis
“MORALISTAS, ME PERDOEM...” - Na primeira vez em que foi cogitada a sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, conta-se que Machado de Assis, fundador e presidente, levou alguns dos confrades a visitar um bar, em cujas paredes havia um belo retratão do Emílio portando um copo de cerveja. Não foi preciso dizer palavra, a candidatura morreu. (Pelo que se pode perceber que o grande Machado, sempre enaltecido - com justiça, aliás – tinha pelo menos um defeitinho... “Moralistas, me perdoem...” Há um verso de um poema que começa assim, me esqueci o autor).

Mas acabou “entrando” na Academia. Entre aspas, porque morreu sem a solenidade de posse. Foram tantas idas e vindas no interminável trabalho de censura do discurso de posse, recheado de “inconveniências”, que o novo imortal acabou morrendo sem festa e sem discurso. Já muito doente, foi empossado num ato simples.
NOTAS E ANOTAÇÕES

TRANSGÊNICO É VENENOJeffrey M. Smith, pesquisador norte-americano cujo último livro saiu no Brasil com o título Roleta Genética, fez palestra em Curitiba, na Escola de Governo (reunião de secretariado do governador Roberto Requião), transmitida ao vivo pela TV Paraná Educativa. Falou sobre os males dos alimentos transgênicos, com revelações chocantes. Quem se interessar, é só acessar o site da Agência Estadual de Notícias (AEN), do governo paranaense (http://www.aenoticias.pr.gov.br/). Estão disponíveis a matéria “Pesquisas mostram que transgênicos fazem mal à saúde, garante escritor” e a íntegra da palestra.

REZANDO EM NOME DE FLEURY!? – Muito boa a entrevista feita por Lúcia Rodrigues e Tatiana Merlino, da revista Caros Amigos, com o frei Yves Terral, que rezou uma missa em São Paulo pelos 30 anos da morte do delegado Sérgio Fleury, o mais famoso torturador da ditadura de 1964/1985. Cerca de 70 pessoas assistiram à celebração. As repórteres apertaram o frei especialmente por ele ter dito na homilia que estava rezando “em nome de Fleury” e não, como é usual, “pela alma de Fleury”. Disse ainda que “Fleury tinha um ideal”. “Uma missa para o torturador”, título da matéria, está no site da Agência Brasil de Fato.




Silvio Rodríguez

DEMOCRACIA ESTADUNIDENSE - Silvio Rodríguez, um dos mais consagrados cantores e compositores de Cuba (lá eles chamam cantautor) – do movimento Nova Trova, assim como Pablo Milanés – teve negado visto para entrar nos Estados Unidos . Tinha sido convidado para participar de uma homenagem ao músico Pete Seeger. É isso aí a badalada democracia estadunidense. Já pensou a zoada que a grande mídia faria se se tratasse do governo brasileiro, ou do venezuelano, ou do boliviano, etc, etc? Quantos brasileiros ficaram sabendo disso?

GRANDE LUTADOR DOS BANCÁRIOS - Recebi convite do companheiro Euclides Fagundes, presidente do Sindicato dos Bancários da Bahia, para o lançamento do seu livro “Mutti de Carvalho – um líder nato”, no dia 14 de maio, em Salvador. Mais uma homenagem ao grande lutador dos bancários baianos e brasileiros, um dos principais fundadores do sindicato. Uma justa homenagem. A história dos lutadores do povo precisa ser melhor conhecida.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Venezuela: apoio à mídia comunitária


De Curitiba(PR) – No momento em que os movimentos sociais se articulam para participar da Conferência Nacional de Comunicação, já convocada pelo governo federal para dezembro, é importante se conhecer a experiência de países latino-americanos onde o sistema político está mais avançado, caracterizando-se pelo que podemos chamar de democracia participativa.

É o caso, por exemplo, da Venezuela, onde há uma rica experiência da atuação das rádios e TVs comunitárias, apontadas como ferramentas fundamentais no contragolpe de abril de 2002, quando o presidente Hugo Chávez foi deposto e voltou dois dias depois nos braços do povo (falo disto, no meu blog, em pelo menos duas matérias escritas quando lá estive no ano passado: Papel das rádios e Tv's comunitárias , abril/2008, e Vacina contra manipulação da informação , junho/2008)।

QUASE 500 VEÍCULOS ALTERNATIVOS - Até maio de 2008, quando eu estava em Caracas, o governo venezuelano dava apoio a 35 emissoras de TV, 231 rádios, 201 meios impressos e 18 páginas da web। São números oficiais – provável que sejam maiores hoje - da Diretoria Geral dos Meios de Comunicação Alternativos e Comunitários, setor do Ministério de Comunicação e Informação (Minci).

Em 2003, quando o Ministério começou a funcionar, tal apoio restringia-se a cerca de 50 veículos। Em 2008, havia a estimativa de gasto de 4,6 milhões de dólares (com base na cotação da época), para sustentação tecnológica de meios alternativos e comunitários, segundo informações oficiais do governo.

Tais informações dão conta de que o número de veículos atuando pelo interior do país poderia ser até maior, já que os dados acima sobre rádios e TVs referem-se apenas aos meios habilitados pela Comissão Nacional de Telecomunicações। “Sabe-se que existem pelo menos 70 emissoras comunitárias não habilitadas no ar e em pleno funcionamento pelo país”, diz o texto informativo do Minci em resposta a minhas indagações।
"Além disso – acrescenta -, à categoria de página web temos que somar os blogs, que se converteram em espaços alternativos de informação e consulta, dos quais não temos clareza quanto ao número”।

EM QUE CONSISTE REALMENTE O APOIO DO GOVERNO? - A esta pergunta, o Ministério informa que o apoio tecnológico para emissoras de rádio e TV comunitárias consiste no fornecimento de estúdio de transmissão completo।

Aí o texto detalha os equipamentos incluídos (como está em espanhol, pode haver alguma incorreção na tradução, já que são nomes técnicos; em alguns casos, vou citar como está no original, entre aspas. Pra quem é do ramo, não deve haver problema):
Para as emissoras de radiodifusão: transmissor, antena, mesa de mistura (“mesa de mezcla”), microfones, computador com software especializado para rádio, unidades de reprodução de CD e cassete, monitores de áudio, híbrido telefônico e “audífonos”.Para as de TV: câmeras filmadoras profissionais com seus respectivos “trípodes”, kit de iluminação (móvel e para teto), misturadora (“mezcladora”) de vídeo, reprodutor de SVHS, leitor de DVD e DivX, estação (PC) de edição não linear, estação (PC) automatizada de continuidade, matriz de 8 saídas e 8 entradas, gerador de “sincros”, transmissor e antenas.Para ambos os casos: as mesas, racks, “cableado” e acessórios necessários para sua instalação, disponibilizando inclusive o pessoal técnico para fazê-lo.

Além disso, o Minci informou que “entregou em 2008 14 kits de dotação tecnológica complementar às televisões, beneficiando com esses materiais 69 Equipamentos Comunitários de Produção Audiovisual Independente (mais conhecidos como ECPAI) que funcionam nessas televisões”.

Também – continua o texto informativo do Minci – está prevista a entrega de 50 kits de equipamentos técnicos aos meios de comunicação impressos alternativos e comunitários, sendo que os materiais incluem, entre outros, unidades de armazenamento USB extraíveis e gravadores digitais.

PREPARATIVOS NO PARANÁ VISANDO A CONFERÊNCIA – A convocação da I Conferência Nacional de Comunicação é uma reivindicação antiga dos movimentos sociais e nela, certamente, se dará um capítulo importante da luta contra os escandalosos latifúndios da mídia no Brasil।

(Não sei em que pé está a movimentação em Salvador. Sei da atuação nesse sentido do professor Jonicael Cedraz, através da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária – Abraço-Bahia, uma das entidades que vêm lutando pela conferência há algum tempo. Sei também do trabalho de Heitor Reis, de Belo Horizonte, pela democratização da comunicação e outras batalhas. Encontrei ambos em Belém quando do Fórum Social Mundial).


Nos dias 24 a 27 de abril último, integrantes de movimentos sociais paranaenses, organizados na Comissão Pró-Conferência, promoveram diversos eventos em Curitiba dentro dos preparativos em busca de uma participação efetiva nos debates e nas decisões. Houve treinamento para o pessoal de rádios comunitárias, debate sobre o uso das produções artísticas na Internet e a instalação da comissão que vai coordenar as atividades da Abraço no Paraná। Também uma audiência pública na Assembléia Legislativa discutiu sobre o projeto de lei na Câmara dos Deputados (já aprovado no Senado), especialmente o chamado substitutivo Azeredo (do senador mineiro Eduardo Azeredo, do PSDB


AI-5 DA INTERNET - Conforme os participantes da audiência, o substitutivo aprovado no Senado vale-se da alardeada necessidade de se coibir crimes na Internet, como casos de pedofilia, etc, para avançar na institucionalização de uma mordaça na rede mundial de computadores, até agora um território livre e cheio de perspectivas। Alguns chegam a falar em AI-5 da Internet. Na ocasião, a Comissão Pró-Conferência divulgou uma nota de repúdio ao projeto.

Houve ainda na TV Paraná Educativa, no programa Brasil Nação, apresentado por Beto Almeida, presidente da TV Comunitária de Brasília, um debate envolvendo questões relacionadas com a conferência de comunicação। Participaram José Torves, da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), Rachel Bragatto, de Intervozes, representando a Comissão Pró-Conferência, Josué Franco Lopes, da coordenação nacional da Abraço, e Everton Rodrigues, do Projeto Software Livre.

Os representantes dos movimentos alertam para o risco das grandes corporações da mídia dominar o debate e impor suas posições, buscando manter os conhecidos feudos existentes nos meios de comunicação do país। Outro risco, segundo eles, está em se concentrar a discussão em torno de aspectos tecnológicos, quando o debate é essencialmente político, como dizem no slogan “democratizar as comunicações é democratizar o Brasil”।

A Comissão Pró-Conferência é formada por membros de mais de 20 entidades e tem o apoio do governo estadual e de deputados do PT. Mantém o site (ou sítio) proconferenciaparana.com.br . (Na Agência Carta Maior há bom material sobre o assunto, inclusive o projeto atualmente em discussão na Argentina, visando romper o monopólio da grande imprensa privada, a chamada “mídia gorda”, como diz Mylton Severiano, da revista Caros Amigos).

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Greenhalgh, quem diria!?

De Curitiba(PR) – Há algum tempo a revista Carta Capital vem falando na mudança de lado do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh (foto), que militou (ou milita) na política partidária, tendo exercido quatro mandatos de deputado federal pelo PT। A mudança seria a partir de sua contratação, como advogado, pelo poderoso banqueiro Daniel Dantas, figura central de um emaranhado de crimes, já com uma primeira condenação na Justiça.

Há muito essa coisa me intrigava। Lobista de Daniel Dantas? Resistia em acreditar, apesar das evidências relatadas nas matérias da revista, uma das poucas publicações merecedoras de crédito no Brasil.


A partir desta primeira semana de maio, porém, com a entrevista da governadora do Pará, Ana Júlia Carepa (sua companheira de militância petista), me parece não haver mais motivos para dúvida (Ver Carta Capital n। 544 – As denúncias de Ana Júlia. A entrevista, concedida a Leandro Fortes, tem muita coisa interessante).


É um duro golpe admitir tal mudança para todos que, de alguma forma, lutaram pelo fim da ditadura militar। Afinal ele tem uma vastíssima folha de serviços prestados na defesa dos direitos humanos.


Greenhalgh formava fileira entre aquelas pessoas que os lutadores sociais se acostumaram a admirar e respeitar como companheiros de luta। Talvez não haja galeria mais digna de reverência do que a que alinha os verdadeiros companheiros de luta.


Claro, isto na memória dos que lutaram, dos que lutam। Os sonhadores, os utopistas, os humanistas, os loucos, os rebeldes, os aloprados, os que têm sede de justiça em meio ao turbilhão de tantos injustiçados. E não pensem que são poucos. Não, são muitos, a maioria clandestina, sem cara e sem retrato – "somos pobres, mas somos muitos", dizia uma manifestante nas ruas de Caracas.


Pensando nesses muitos, temos o dever de abrir a cortina do oportunismo – alguns prefeririam pragmatismo - e expor os que estão do outro lado e os que mudam de lado। Claro, peguei o Greenhalgh só como gancho (pra usar a linguagem dos jornalistas). Ele poderia até exclamar: "Por que eu, são tantos os que mudamos de lado!" E é verdade, é verdade!


E me pergunto, por que?

O fetiche do dinheiro? Alguma desilusão com a esquerda? Responderão os cínicos, os coitados sem causa: "porque vocês foram imbecis e imaginaram que todos os que estavam contra a ditadura eram seres perfeitos; porque o mundo é assim mesmo, temos de viver, temos de comer, temos de arranjar um emprego para o filho, para o neto, temos de mandar o filho estudar em Paris"। E é verdade!


É verdade. Certamente não se apagará da lembrança dos lutadores do povo um valoroso advogado - como alguns outros – que teve a coragem, a sensibilidade e a competência de defender os presos políticos, os trabalhadores rurais, os perseguidos pela tirania durante os tempos de medo e de aflição. Talvez ainda digam, pesarosos e reconhecidos: "Obrigado, ex-companheiro".

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Os rubro-negros se deram bem

De Curitiba(PR) - Vitória (da Bahia), Atlético Paranaense e Flamengo se deram bem nos campeonatos estaduais. O Vitorinha passou sufoco lá no Barradão pra empatar com o Bahia – por pouco não perdeu a invencibilidade para o tradicional rival no seu campo -, mas, no final, tudo bem, é campeão 2009 (tri-campeão?).

Já o Flamengo (do Rio, claro, dono da maior torcida de Manaus, alô Linhares) foi sufoco pior ainda, ganhou na sorte, isto é, nos pênaltis. É tri-campeão e agora passou todos os maiores concorrentes – Vasco, Botafogo e Fluminense – em número de campeonatos cariocas. Era meu time de coração (acho que ainda é, “uma vez Flamengo...”) quando era jovem e um verdadeiro torcedor. Talvez por isso mantenha sempre uma simpatia pelos rubro-negros.

Por aqui, o Atlético ganhou com mais tranqüilidade, embora na última rodada do domingo dois outros clubes – Coritiba e J.Malucelli – ainda tivessem chance de chegar ao título. Mas deu mesmo o chamado Furacão. Ainda pode entrar na lista o Sport do Recife, o qual, se me lembro corretamente, levantou a taça pernambucana no domingo anterior.

FUTEBOL E VIOLÊNCIA - Muita festa na TV, exageradamente, para o Corinthians e Ronaldo. E não podiam faltar as costumeiras brigas entre jogadores e entre torcedores. Sobre isso, aliás, há em Curitiba uns cuidados preventivos que nunca tinha visto:

1 – A polícia escolta os grupos de torcida organizada pelas ruas da cidade, na saída dos estádios, vai acompanhando, fechando o trânsito, cercando, protegendo, etc. Já testemunhei tal procedimento inclusive com grupo pequeno de 30, 40 torcedores. Na primeira vez que vi, a maioria com camisa verde, perguntei a uma moça, “que manifestação é essa?”, ela respondeu: “Não é manifestação não, é a torcida do Coritiba”.

2 – No domingo anterior, dia 26, houve um jogo Atlético X Coritiba, fortes rivais (como em Salvador temos o Bavi, aqui é o Atletiba). Se o Atlético ganhasse, seria campeão antecipadamente, mas perdeu. Esquema de segurança: se o Atlético saísse campeão naquele dia, sua torcida só poderia deixar o estádio uma hora e meia após o final da partida.

Não sei se tais esquemas são novidade. Nunca ouvi menção a cuidados semelhantes em Salvador. No caso de São Paulo e Rio, onde a coisa é mais braba, conheço a limitação do número de torcedores dos times visitantes. E então? Com a palavra nosso Franciel, do destemido Ingresia, que sabe tudo de futebol (dentre outras diversas matérias).

sexta-feira, 1 de maio de 2009

“O passeio que não fizemos”

De Curitiba (PR) - A frase é de Deta ao lhe falar do passeio que fiz a Santa Felicidade, um charmoso bairro de Curitiba, de origem italiana. É que estivemos juntos por lá, mas não percorremos a parte mais interessante. Compartilho agora com vocês a agradável visita, com fotos, aproveitando para mostrar outros pontos desta bela cidade.


Deta nas escadarias da Universidade Federal do Paraná
Quando se pergunta por Santa Felicidade nos locais de atendimento aos turistas, os atendentes (geralmente moças simpáticas) mencionam geralmente os restaurantes. Comida italiana, óbvio. São muitos, alguns imponentes, como o Castello Trevizzo restaurante & eventos, já uma espécie de cartão postal do bairro.

Castello Trevizzo
Há ainda uma concentração enorme de casas comerciais vendendo móveis para residências, não sei o motivo de tal fenômeno, mas despertou minha atenção. E mais: flores e áreas verdes, duas coisas, aliás, muito comuns na capital paranaense. Nas ruas, nas praças e, claro, sobretudo nos parques, muitos parques. Apesar delas estarem por toda parte, há ainda a Rua das Flores e o Mercado das Flores.

Entrada do bairro Santa Felicidade
De modo geral, Curitiba é uma cidade bonita, organizada, ruas largas, bem sinalizadas, limpas, muitos edifícios altos, monumentos históricos bem conservados, transporte coletivo dispensa comentários, índices de violência urbana não devem ser altos, variadíssimas opções de almoço com preços relativamente baratos. Há poucos mendigos e não vejo “pivetes” nas sinaleiras. Os pedestres normalmente só atravessam a rua quando o sinal verde autoriza. Em suma, boa qualidade de vida.

Jardim botânico

Uma estação tubo, marca registrada do transporte coletivo

Universidade Federal do Paraná, na Praça Santos Andrade
Claro que falo com olhos de quem veio do nosso sofrido Norte e Nordeste, vamos dizer, de quem tem na mente padrões de Salvador e Manaus, por exemplo (Para quem vem da capital baiana, aparece logo um grande contraste: raramente se vê um negro)। Temos de considerar também que circulo mais pelo centro, embora tenha notado padrão urbanístico elevado em alguns bairros que visitei ou por onde passei de ônibus.

Curitiba da minha janela – nascer do sol
E como seria a periferia? Lembro, a propósito, ter visto alguns barracos ao deixar a cidade em direção ao Aeroporto Afonso Pena, que fica no município de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba। Mas, seguramente, não há favelas ou invasões nas dimensões tão usuais das grandes metrópoles brasileiras।
A cidade é relativamente pequena, tem apenas 1,8 milhão de habitantes, população que dobra ao se considerar a Região Metropolitana, que abrange 23 municípios। O prefeito de Curitiba, Beto Richa (filho do ex-governador José Richa – 1983/1986), do PSDB, é campeão de aprovação em pesquisas de opinião e se reelegeu no primeiro turno।