segunda-feira, 29 de junho de 2009

O blog da Petrobras: é proibido se defender?


De Curitiba(PR) – Outro dia ouvi o apresentador do noticiário Fala Brasil, na Record News, falando: “A Coreia do Norte ameaça se defender...” Fiquei intrigado. Combinam estes dois verbos assim? Se o país é ameaçado, ele tem o direito de se defender. É uma coisa natural. Até um criminoso confesso é absolvido quando mata em defesa da própria vida.

É que para a grande imprensa, o natural é que o império estadunidense ameace e os outros países se curvem. E se dá a inversão: a disposição da Coreia do Norte em reagir às agressões se transforma em ameaça. O agredido, ao reagir, vira agressor. A verdade do mais forte é sempre mais verdadeira, como na fábula O Lobo e o Cordeiro, de La Fontaine.

Tais elocubrações me vieram à mente quando li matérias que me foram enviadas pela companheira Mônica Bichara, extraídas do blog de Oldack Miranda (Bahia de Fato), também companheiro de redação lá da Bahia.

ATENTADO À LIBERDADE DE EXPRESSÃO? - À Petrobras também é sonegado o sagrado direito de se defender, diante das verdades indiscutivelmente verdadeiras da nossa grande mídia. Então, o blog Fatos e Dados, criado por nossa petroleira para se defender das aleivosias, torna-se escândalo nacional, atentado à liberdade de expressão.

(Pergunta-se: liberdade de expressão de quem? Gosto de contar casos quando escrevo, penso que é mais claro do que as argumentações mais eloqüentes: o então barão da imprensa brasileira, Assis Chateaubriand, discutia com seu grande repórter David Nasser sobre como enfocar determinado assunto. Não chegaram a um consenso, houve um impasse. Nasser, a maior estrela dos Diários Associados, cangote grosso, se rebelou: “Só escrevo se for assim. Esta é minha opinião”. O patrão encerrou o papo: “Se você quer ter opinião, compre um jornal”. Se fosse hoje, poderia dizer: “Crie um blog”).

Pois é, bingo! A Petrobras criou um blog, ousou se defender, ousou dar a outra versão dos fatos (a que julga verdadeira), contrariando o pensamento único dos que se consideram donos da verdade. Uma vítima da sanha entreguista das corporações midiáticas resolveu não mais se curvar às mentiras e às meias verdades. Resolveu rebelar-se contra a mendicância das cartas de leitores e dos pedidos de resposta, expedientes facilmente manobrados pela intolerância dos jornalões.

INTERESSES ECONÔMICOS E MANIPULAÇÃO DA INFORMAÇÃO - É um exemplo desesperador, na lógica dos que se alinham com os interesses econômicos estrangeiros. Um exemplo de coragem a ser seguido, na lógica dos que defendem as riquezas nacionais para o povo brasileiro. (Aplausos à direção e aos trabalhadores da empresa, palmas para o seu presidente, o baiano Sérgio Gabrielli, professor de Economia da Universidade Federal da Bahia).

Porque, no fundo, no fundo, trata-se de economia। Interesses econômicos, mesclados com manipulação da informação. É bastante lembrar as imensas reservas de petróleo do pré-sal e a criação da CPI da Petrobras, sob o pretexto de investigar supostas irregularidades. A CPI é iniciativa das mesmas forças que, no tenebroso período de FHC, acabaram com o monopólio estatal de exploração do petróleo e privatizaram parcialmente a Petrobras, sob os aplausos da grande mídia (do PIG – porco, em inglês, Partido da Imprensa Golpista, como diz Paulo Henrique Amorim no seu blog Conversa Afiada).









LULA SEGUE O BOM EXEMPLO – Depois do presidente Lula apanhar barbaridade da grande imprensa, anuncia-se que o Planalto vai lançar também, daqui a um mês, o seu blog. Registro aqui, com satisfação, palavras de Lula, na sexta-feira, dia 26, em Porto Alegre, durante discurso no 10o Fórum Internacional de Software Livre:
“Finalmente este país está tendo o gosto da liberdade de informação. Estamos vivendo um momento revolucionário da humanidade em que a imprensa já não tem o poder que tinha há alguns anos. A informação já não é mais uma coisa seletiva em que os detentores da informação podiam dar golpe de Estado".
Esperamos que o blog ajude a curar a azia do presidente.


Requião versus jornalões

Aqui no Paraná desenrola-se também uma guerra cotidiana entre o governador Roberto Requião e a imprensa (já escrevi sobre isso no blog Mídia Baiana – “Grande mídia versus Requião”). Tal guerra começou - segundo ele sempre comenta na TV Paraná Educativa, sua trincheira de luta mais visível - desde que, no início de seu segundo mandato, em 2003, iniciou a briga para reverter o processo de privatização de empresas do estado, como a Copel (Companhia Paranaense de Energia), que continua estatal.

Iniciou essa briga e muitas outras, visando, como ele explica, anular contratos assinados pelo governo anterior considerados lesivos ao interesse público. Caiu em desgraça entre os meios de comunicação, inclusive os nacionais, onde só aparece em enfoques negativos. Mas, pelo que posso acompanhar, Requião não se curvou. Ao contrário, não só se defende, como constantemente está no ataque.

Toda manhã de terça-feira, ele e sua equipe, ao vivo, estão na Educativa no programa Escola de Governo (os “jornalões”, termo que ele próprio usa, chamam pejorativamente “a escolinha do Requião”), onde são apresentadas as ações governamentais.

PREGAÇÃO CONTRA O NEOLIBERALISMO - É aí que o governador desenvolve uma incansável pregação contra o neoliberalismo, contra os transgênicos, contra os altos pedágios nas estradas herdados de administrações anteriores, contra o desmatamento, em favor da biodiversidade, em favor do software livre, em favor de políticas que priorizem a produção, o emprego e renda, visando o desenvolvimento do mercado interno, e em defesa dos recursos naturais do país, especialmente o petróleo.

A TV Paraná Educativa (pode ser vista por parabólica ou pela Sky, canal 115) tem um programa intitulado Brasil Nação, apresentado por Beto Almeida (presidente da TV Cidade Livre de Brasília - comunitária), no qual, todos os domingos, a partir das 21:30 horas, são debatidos temas polêmicos da atualidade, com amplo espaço para as posições nacionalistas e de esquerda, bem ao contrário do que ocorre com as TVs privadas.

Intelectuais reconhecidamente de esquerda, como o cientista político e ativista social César Benjamin, aparecem constantemente na tela da Educativa, falando sobre a crise do capitalismo. A emissora leva ao ar uma edição em português do noticiário da TV Telesur (Telesul, com sede na Venezuela), às 19:45 horas e 7:30 horas (tais horários são, no entanto, bastante irregulares), com outra visão totalmente diferente do padrão Globo e toda mídia subserviente ao império estadunidense.

É TACHADO DE PERSONALISTA E AUTORITÁRIO - Então, é fácil entender a má vontade da imprensa com o governador, reforçada certamente pelo fato dos principais jornais não faturarem anúncios do estado. É pau todo santo dia. É tachado de personalista e autoritário, alguns colunistas se referem a ele como “o duce”, palavra italiana que significa “líder”, porém tem um sentido pejorativo, pois era o epíteto dado ao líder fascista italiano Benito Mussolini.

Alguns dados para o perfil resumidíssimo de Requião: pertence ao que pode ser considerada a banda boa do saco de gatos que é o PMDB; critica enfaticamente o entreguismo do ex-presidente FHC; demonstra, de modo geral, alinhamento com o presidente Lula; está muito bem como candidato ao Senado, ao contrário do seu candidato na sucessão estadual (seu vice Orlando Pessuti), segundo as pesquisas de opinião.

Falei muito para dizer, finalmente, que a Internet - a arma descoberta em boa hora pela Petrobras e manejada de forma inovadora e eficaz – é utilizada há muito tempo por Requião na briga contra a imprensa, através do sítio (ou site) da Agência de Notícias do Estado do Paraná. O http://www.aenoticias.pr.gov.br/ é incrementado.

Conforme dados apresentados na Escola de Governo pelo presidente da Companhia de Informática do Paraná (Celepar), Vanderlei Iensen, o sítio bate longe, em número de leitores, os jornais de maior circulação do estado – Gazeta do Povo, Folha de Londrina e O Estado do Paraná.

Golpe em Honduras


A gente fala no diabo, olha ele aí! Numa das últimas postagens deste blog (“A esquerda e os governos progressistas”), lembrei as últimas tentativas de golpe de Estado na América Latina: na Venezuela, em 2002, e na Bolívia, em 2008. No domingo, dia 28, as Forças Armadas de Honduras, país da América Central, seqüestraram o presidente Manuel Zelaya (foto)
e botaram em seu lugar o presidente do Congresso.

Zelaya vinha ultimamente se alinhando cada vez mais com as forças chamadas pela esquerda de progressistas, já tendo aderido à Alba (Alternativa Bolivariana para os Povos de nossa América, fundada por Venezuela e Cuba). Creio que não conta com o respaldo de uma mobilização popular forte e decidida, como nos dois casos citados (Venezuela e Bolívia).

Mas, como os ventos progressistas estão soprando com força na região, todos os governos da América Latina, inclusive o da Colômbia, condenaram o golpe militar. O presidente Lula foi enfático: só reconhece um governo em Honduras, o presidido por Zelaya. Hugo Chávez, sempre mais veemente, colocou as tropas em alerta e ameaçou com intervenção militar.

Organismos internacionais como a ONU, a OEA, a União Européia e o Mercosul já condenaram a derrubada do governo constitucional. Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, cujo serviço de inteligência (CIA) sempre está, historicamente, por trás desse tipo de evento, já se disse “preocupado”, defendendo o cumprimento das normas democráticas.

Uma retórica de diplomacia, mas que, por se tratar do representante do império, já demonstra uma mudança. Em outros tempos, tenebrosos tempos, o governo estadunidense já teria reconhecido o novo governo, o que funcionava como fator importante para a consolidação das forças golpistas.
Escrevo no início da manhã de segunda, dia 29. Vamos ver em que vai dar.

sábado, 27 de junho de 2009

Jornalistas protestam nas ruas

Caminhando pelo calçadão da Rua XV rumo à Boca Maldita
De Curitiba(PR) – Muitos paranaenses que transitaram na quarta-feira, dia 24, pelo movimentado centro de Curitiba tomaram conhecimento da indignação dos jornalistas e estudantes de Comunicação pela queda da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão, conforme recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
Márcio Rodrigues (camisa branca), presidente do Sindijor, com os manifestantes na Boca

Foi a partir das 11 horas, debaixo de uma insistente garoa, no cruzamento da Rua Marechal Deodoro com a Avenida Marechal Floriano – Esquina das Marechais, como chamam os curitibanos -, deslocando-se em seguida até a Boca Maldita, no calçadão da Rua XV de Novembro। Os manifestantes formaram um grupo em torno de 50 pessoas, com a adesão de lideranças de movimentos sociais e sindicatos de trabalhadores, sob a coordenação do presidente do Sindicato dos Jornalistas (Sindijor), Márcio Rodrigues.
Manifestantes na Rua Marechal Deodoro, centro de Curitiba

O esquema era abrir as faixas e cartazes – “Jornalistas do Paraná em defesa do diploma”, “Jornalistas por formação”, “STF=patrões Fora, Gilmar!” - diante dos carros enquanto o sinal estava vermelho, revezando-se entre uma rua e outra. Aos motoristas eram oferecidos adesivos para os carros. Um protesto bem humorado e barulhento, ao som de apitos, aparentemente bem recebido pelos transeuntes. Vários repórteres de rádio, TV e jornais cobriram o evento. Luiz Paixão (primeiro à esquerda), da APP-Sindicato (dos professores)

Num curto panfleto distribuído à população – “Eu me preparo para informar” - “Jornalistas e estudantes – Hora de mobilizar” -, a direção do Sindijor alerta que a perda dessa conquista de 40 anos é também de toda a sociedade. Lembra que a prerrogativa de dizer quem está apto a informar é transferida da Universidade para o patrão. E acrescenta:

“QUAL É O RISCO? Deixar nas mãos de quem tem como meta o lucro e não o interesse coletivo. Empresários têm interesses econômicos. Jornalistas priorizam responsabilidade social. Por isso, queremos não apenas informar a vocês, mas também convidá-los a nos ajudar a recuperar essa exigência. Não apenas para a nossa classe. Mas, principalmente para a sociedade, que precisa de informação de qualidade para formar sua opinião”.

Manifestações semelhantes já ocorreram em várias cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Teresina, Porto Alegre e Caxias do Sul(RS).

Aniela Almeida (segurando o cartaz), da diretoria do Sindicato dos Jornalistas

(Na mesma quarta-feira, dia 24, manifestantes, ainda em pequeno número, protestaram contra o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, em Brasília, São Paulo e Belo Horizonte. É o Movimento Saia às Ruas. Confira em www.saiagilmar.blogspot.com).







sexta-feira, 26 de junho de 2009

A esquerda e os governos progressistas

Washington Uranga fala no seminário organizado pelo Centro Santos Milani

De Curitiba(PR) - Há cerca de um ano, ao retornar de uma curta temporada na Venezuela, comentei com um militante da esquerda baiana a respeito dos avanços da denominada Revolução Bolivariana. Senti que ele ficou na defensiva. Retrucou: “Sim... mas o Estado é burguês”.

Sem dúvida, a relação da esquerda com os chamados governos progressistas sempre foi muito difícil. E continua sendo. Neste final de semana, dia 20, tive a grata oportunidade de assistir a uma ponderada avaliação sobre o tema da parte de Washington Uranga (jornalista, professor, pesquisador na área de Comunicação, ativista social dos mais reconhecidos na América Latina। É uruguaio, com atuação hoje mais direta na Argentina).

Interpretando suas palavras, parece que as forças de direita têm mais facilidades de identificar a importância de tais governos, manifestando com virulência a contradição entre eles (direita x governo). “Embora a direita econômica não esteja mal nesses governos, mas há o aspecto ideológico”, diz Uranga, mostrando que, na visão da direita, há então a necessidade de se derrubar tais governantes.

A análise, claro, está centrada na América Latina. Vou citar exemplos de minha própria iniciativa, para ilustrar o pensamento do professor: o golpe de Estado na Venezuela, em abril de 2002, que tirou Hugo Chávez do poder durante dois dias (ele voltou no terceiro graças à mobilização popular); e a recente tentativa de afastar Evo Morales, na Bolívia, a partir do movimento pela “autonomia” do departamento (estado) de Santa Cruz.

Ao entrar no tema, Washington Uranga ressaltou a dificuldade da esquerda: “Temos muitas críticas e esperamos sempre mais”. Entende, no entanto, que os governos progressistas são um passo adiante, o qual não é suficiente – temos que seguir em frente –, porém se trata de um passo importante.

POR QUE UM PASSO ADIANTE? ELE VÊ QUATRO RAZÕES:

1 – A decisão de tais governos de rechaçar as políticas do Consenso de Washington (as diretrizes traçadas pelo império estadunidense, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial). Explica que isto tem repercutido na realidade dos países latino-americanos, através de iniciativas adotadas pelo Estado.

Um Estado que havia sido destruído pelas políticas neoliberais, ficando sem poder de responder às demandas sociais. “Há que se reconstruir o Estado e pensar num Estado diferente”, aponta.

2 – Adoção de políticas econômicas que reforçam a produção nacional e o mercado interno. Portanto, mais dinheiro circulando. Lembrou a importância disso na Argentina, onde, segundo ele, a pobreza é basicamente devido à renda, não é um problema estrutural.

3 – Há uma vocação para os processos de integração regional. Neste ponto constata uma fragilidade, o que dá origem a muitas críticas. É o fato da integração se dar pelas cúpulas, exemplificando com o Mercosul, onde predominam os acordos alfandegários.

4 – A reafirmação do sistema político democrático e representativo. Observa que “é pouco e limitado”, acenando para o avanço da democracia participativa. E emendou: “Não devemos negar a importância da democracia representativa, mas lutar para complementá-la”.

ESTADO COMO SUJEITO DA MUDANÇA - Nesta altura, Uranga citou a visão crítica do uruguaio Raúl Zibechi (jornalista, escritor, estudioso de movimentos sociais) para frisar que os governos progressistas têm em comum a idéia de recuperar a centralidade do Estado – o Estado como sujeito da mudança, autor central da mudança.

Referiu-se à contradição governo versus direita (mencionei acima) e chamou a atenção para problemas e tensões entre a esquerda e tais governantes, como críticas à falta de espaço para ação dos movimentos e seu papel na luta; a tendência de cooptação de militantes pela máquina governamental; o deslumbramento de muitos deles ao se incorporarem ao Estado.

Há ainda conflitos decorrentes das reivindicações próprias das entidades sociais/sindicais, diante das questões do poder, bem como impasses surgidos da dificuldade de darem um passo adiante e reconhecerem o peso das lutas políticas mais gerais.

FUTURO DA AMÉRICA LATINA - Uranga encerrou sua exposição, na manhã do sábado, dia 20 (da qual me ative apenas a uma pequena parte), destacando a integração como o futuro da América Latina, logo após fazer uma entusiástica pregação em favor da convivência harmoniosa entre as diferenças.

Ele tinha mencionado problemas atuais entre indígenas e brancos na Bolívia, dentro do próprio campo revolucionário – os povos originários têm dificuldade de encarar os brancos como companheiros, depois de 500 anos de brutal discriminação. “Somos diferentes, nosso êxito não está em aniquilar a diferença, mas sim em construir juntos”, proclamou.

(Observação: considerando apenas a América do Sul, com exclusão de Guiana, Suriname e Guiana Francesa, creio que podemos avaliar hoje uma situação animadora: apenas dois países não têm governos considerados progressistas – o Peru, cujos governantes vivem acuados pela mobilização popular; e a Colômbia, uma forte praça de guerra do império dos Estados Unidos.

Claro que há muitas nuances nesse avançar em busca do efetivo protagonismo popular. Identificamos três onde os avanços mostram-se mais radicais: o da Venezuela, com sua Revolução Bolivariana, o da Bolívia – Revolução Democrática e Cultural -, e o do Equador e sua Revolução Cidadã, governos que, não por acaso, são demonizados pela grande mídia brasileira).


Integração a partir de baixo








Os debates com Washington Uranga, muito mais abrangentes, deram-se no seminário “América Latina: Por uma integração a partir de baixo”, organizado pelo Centro de Formação Milton Santos – Lorenzo Milani, no Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores (Cepat) – conhecido em Curitiba como Casa do Trabalhador -, nos dias 20 e 21 últimos. Participaram mais de 50 ativistas sociais, inclusive de outros estados e países latino-americanos, sob a coordenação dos professores Ana Inês e Cesar Sanson.

No Brasil, estão entre as entidades que integram o Centro Santos Milani (como é referido de forma abreviada), além do Cepat, que contribuiu na coordenação do evento: o Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo (Cefuria), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), Comissão Pastoral de Terra (CPT) e as Comunidades Eclesias de Base (CEBs).

A revista IHU On-Line (do Instituto Humanitas Unisinos – Universidade do Vale do Rio dos Sinos/São Leopoldo-RS), com o tema “América Latina, hoje” – edição 292, de 11/05/2009 – foi utilizada como subsídio no seminário.

LEMBRANDO O NOSSO MILTON SANTOS, um dos patronos do centro: “Tirania do dinheiro e tirania da informação são os pilares da produção da história atual do capitalismo globalizado. Sem o controle dos espíritos seria impossível a regulação pelas finanças”.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Estão de olho gordo no pré-sal

A marcha pela reforma agrária e contra a crise percorreu 30 cidades

De Curitiba(PR) - A cobiça das corporações internacionais pelo petróleo do pré-sal, imensas reservas descobertas pela Petrobras na costa brasileira, foi um dos pontos mais destacados no mutirão promovido pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Paraná (marcha por quase 30 cidades e debates sobre a crise do capitalismo – ver matérias anteriores neste blog).

Nos debates do encerramento das atividades, em Curitiba (no Colégio Estadual do Paraná – CEP, domingo, 7 de junho), o tema voltou com força. Ricardo Gebrim (foto), da Assembléia Popular (AP – espaço de articulação de movimentos sociais), frisou tal ameaça ao discorrer sobre a crise e a necessidade de um projeto popular para o Brasil.

Para Gebrim, uma das medidas postas em prática pelas classes dominantes para enfrentar a crise é justamente intensificar a apropriação dos recursos naturais em todo o mundo. E, neste momento no Brasil, o tesouro armazenado na camada do pré-sal faz içar as velas e afiar as espadas dos piratas modernos.

INTERESSES POR TRÁS DA CPI DA PETROBRAS - Durante a sessão de perguntas, um dos militantes que lotavam o auditório, retornou ao assunto: “A CPI da Petrobras, ora em processo de instalação no Senado, teria entre suas motivações a cobiça pelas reservas do pré-sal?” Gebrim foi enfático: “Sim, não há qualquer dúvida”.

(A iniciativa para a criação da CPI é do PSDB, não por coincidência o mesmo partido do ex-presidente FHC, que entregou quase todo patrimônio nacional às empresas multinacionais e quebrou o monopólio da exploração de petróleo, além de ter privatizado, parcialmente, a Petrobras. Embora ela se mantenha controlada pelo governo, que detém 51% das ações com direito a voto, cerca de 60% de suas ações estão hoje em mãos privadas, grande parte delas comprada por estrangeiros.

Continua o parêntese: a CPI da Petrobras, que formalmente quer investigar supostas irregularidades na empresa, foi tema de recente debate na TV Paraná Educativa, no programa “Brasil Nação”, apresentado por Beto Almeida, que dá sempre espaço às posições mais à esquerda, ao contrário do pensamento único da direita predominante na mídia privada.


Refletindo a postura nacionalista do governador Roberto Requião, a emissora atualmente repete várias vezes ao dia uma inserção publicitária alertando que “tem gente de olho gordo” no pré-sal, “não permita que roubem o nosso petróleo”। Fecha o parêntese.
Os Sem Terra fizeram concentração na porta da Universidade Federal.

A palavra de ordem “O pe
tróleo tem que ser nossओ” esteve sempre presente nas manifestações do MST na capital paranaense। Uma edição especial sobre o assunto do jornal Brasil de Fato - porta-voz de setores políticos mais à esquerda dentro das diversas nuances das esquerdas brasileiras - foi distribuída durante os quatro dias de atividades.
SALVAR O LUCRO DOS CAPITALISTAS - Claro que a palestra e o debate conduzidos por Ricardo Gebrim foram bem mais amplos, abrangendo desde a caracterização da crise até as oportunidades de luta que ela propicia e os desafios para as forças populares। Passando pelos embates das últimas décadas – ascenso e refluxo das mobilizações – e as ações adotadas pelos governos para salvar o lucro dos capitalistas, como a injeção de bilhões e trilhões saqueados do Estado।

A “mística”, com música e poesia, encerrou a programação
A programação do dia incluiu ainda a avaliação dos militantes sobre os debates realizados nas escolas e bairros. No final, eles apresentaram o que denominam “mística”, uma encenação teatral, com música e poesia, simbolizando e exaltando a luta pela terra e contra as injustiças sociais.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

MST: ampliar o debate sobre a crise


De Curitiba(PR) - A crise do sistema capitalista é prolongada e intensa, o momento propício para a inserção de lutas pelas transformações sociais. Este parece ser o mote do mutirão promovido pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), de 18 de maio a 7 de junho, no Paraná (ver matéria anterior neste blog), com o objetivo de ampliar o debate entre as camadas mais populares.
:
É o que se pode deduzir do encontro realizado na noite da sexta-feira, dia 5, no pátio da Reitoria da Universidade Federal do Paraná, cujo palestrante foi Gilmar Mauro (foto), da coordenação nacional do movimento. Foi um das dezenas de debates feitos em escolas e comunidades ao longo da marcha que percorreu quase 30 cidades, totalizando 20 dias de atividades, quatro deles em Curitiba.

Com um linguajar distante do economês que costuma caracterizar a discussão do tema, Gilmar Mauro foi cuidadoso, dizendo trazer algumas opiniões para ajudar na “reflexão coletiva dos lutadores e lutadoras sociais”. No que se pode considerar sua conclusão, deixou claro que “crise é oportunidade”. E chamou a atenção para os desafios impostos à esquerda, realçando a necessidade de efetivos instrumentos de transformação.

Apesar da cautela, sua exposição foi bastante abrangente. Ressalto alguns pontos do seu conteúdo - sem a articulação própria de uma palestra - como se faz normalmente numa matéria jornalística.

AS DIVERSAS FACETAS DA CRISE: prolongada e profunda, devendo durar vários anos, com a conjugação de várias crises – financeira (especulação desenfreada), econômica, de superprodução (faltam consumidores), social (desemprego, barbárie social nas grandes e médias cidades, “mesmo havendo programas de compensação social”).

E mais: crise ambiental, com a intensificação dos impactos sobre a natureza, dentro da lógica do capitalismo, que trata tudo, inclusive os recursos naturais, como mercadoria. Lembrou então a deterioração dos serviços públicos – saúde, educação, estradas – transformados também em mercadoria. E falou do envenenamento dos alimentos por agrotóxicos e da concentração das matérias primas nas mãos de grandes conglomerados.

Aí deu o exemplo da água, que, segundo salientou, é hoje mais cara do que o leite e a gasolina. Ao se referir à especulação, contou o caso de um brasileiro que comprou uma casa financiada nos Estados Unidos. Quando já tinha pago 90 mil dólares, devia ainda 160 mil. Nesta altura do campeonato, o imóvel foi avaliado em 45 mil dólares. Ele desistiu, perdeu a casa.

SUPREMACIA MILITAR DOS EUA - A seguir, o dirigente do MST fez algumas comparações históricas: a crise de 1929 foi resolvida em 1945 com o fim da segunda guerra mundial, mas agora um desfecho semelhante é impensável em face da esmagadora supremacia militar dos Estados Unidos. Apontou a indústria militar como fundamental para a retomada da economia a partir de 1929, destaque que prosseguiu com a corrida armamentista no período da guerra fria.

Lembrou o peso da indústria de automóveis (também de eletrodomésticos) e as mudanças das décadas de 40 e 50 com a migração das indústrias do centro do sistema para a periferia (é só recordar a instalação da indústria automobilística no Brasil). De 1929 a 1945, as relações mercantilistas eram pouco desenvolvidas, 90% da população brasileira vivia no campo e não havia crise ambiental.

Gilmar Mauro passou a falar, nesta altura, no investimento pesado que o Estado faz para salvar os capitalistas da crise, cortando inclusive recursos dos serviços públicos essenciais para a população mais pobre, política que tem entre suas consequências o agravamento da dívida interna, atualmente em 1,5 trilhão de reais.

“Entre nós, do MST, digo sempre, temos que plantar comida”, advertiu, frisando que “não tem perspectiva para os trabalhadores dentro do capitalismo, senão construir o socialismo, por uma necessidade mesmo”.
E bateu na tecla: preparar, preparar para as lutas. Mesmo porque (usou a imagem mais de uma vez), “se queremos colher abacate, temos que plantar abacate e não limão”.


Sem ilusões diante da mídia

DIEGO MOREIRA, 25 anos, da coordenação estadual do MST no Paraná. Durante a marcha foi responsável pela assessoria de imprensa.

“A mídia é propriedade privada, assim como a educação, o Estado brasileiro.
O Brasil já nasceu assim, significa que os meios de comunicação divulgam as informações de acordo com seus interesses. No dia em que a Globo e essas grandes corporações midiáticas falarem bem da gente, a gente vai ter que rever nossa prática, pois certamente estamos fazendo alguma coisa errada”.

Último grande exemplo de atuação da mídia – “O recente episódio ocorrido numa fazenda do banqueiro Daniel Dantas, no sul do Pará. A Globo noticiou que o MST tinha seqüestrado o repórter, enquanto o próprio repórter desmentiu” (repórter Victor Haor, da TV Liberal, afiliada da TV Globo; tem farto material sobre isso nos blogs de Paulo Henrique Amorim e Luis Nassif).

A receptividade da marcha em Curitiba e nas outras cidades – “Fomos bem recebidos pela sociedade, as pessoas foram bem simpáticas, fizemos inúmeros debates. Foi tudo bem, tanto assim que a mídia silenciou sobre a marcha, se houvesse alguma coisa negativa - uma morte, por exemplo - aí a marcha tinha aparecido no noticiário”.

Mobilização e participação popular – “A população brasileira não tem uma história de participação forte. Tem uma tradição de representatividade, o povo é representado pelo padre, pelo vereador, tem sempre a expectativa de alguém representar o povo”.

Repressão – “O Brasil tem uma história de colonização e repressão contra os negros, os indígenas, os camponeses, tem a presença forte da repressão. São 509 anos de história de exclusão. E tem o Estado, a religião e a educação pra domesticar o povo”.

Desafio para a esquerda – “A necessidade de fazer trabalho de base”.


Unir campo e cidade

VILMA ROSSI, 26 anos, segundo grau completo. Estudou em Planaltina(PR) e quer fazer um curso técnico ou universitário em uma das escolas do MST. É também da coordenação estadual. Fez parte da “coluna do Norte”, iniciada em Florestópolis.

“A marcha foi boa, nosso objetivo é enfrentar esta crise, através da união do campo e da cidade. Tivemos bom espaço para debates nas escolas, universidades e comunidades por onde passamos. Tivemos o apoio de muita gente, os trabalhadores, estudantes, professores, de modo geral têm uma posição simpática ao trabalho do MST. Os empresários, os mais ricos, nos veem de outra forma”.

Atuação da mídia – “A TV Globo e a maioria dos meios de comunicação denigrem nossa imagem, são sempre contra nossas atividades. Mas alguns órgãos de imprensa às vezes mostram a realidade dos fatos”.

Mobilização popular – “Esperamos que à medida que a crise se agrave aumente a mobilização do povo para as lutas e nós estamos abertos à participação dos companheiros”.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Bandeiras vermelhas tomam as ruas de Curitiba

Integrantes do MST caminham pelas ruas centrais da cidade
De Curitiba(PR) - Depois de duas semanas de caminhada por quase 30 cidades do Paraná, 400 militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o aguerrido MST, tomaram na última quinta-feira, dia 4, as ruas centrais da capital e “plantaram” no coração da cidade (Boca Maldita, na Rua XV) as sementes da rebeldia, da resistência e da mudança.

Bandeiras vermelhas e gritos de guerra – como “Pátria Livre - Venceremos”, “MST – Esta luta é pra valer” – aqueceram a fria e ensolarada manhã dos curitibanos। Passantes, balconistas e moradores, das portas, janelas e calçadas, entre receptivos, curiosos e espantados, assistiam ao desfile barulhento e organizado daqueles homens e mulheres, com cara e cheiro de gente, de trabalho e de terra.

Por certo, eram humanos como a maioria de nós – talvez muitos tenham pensado। E não aqueles “bandidos” em que são transformados pela mágica das telas da TV Globo. Certamente que não! Mas quem reparasse nas faixas e palavras de ordem, amplificadas pelo carro de som, poderia facilmente entender o porquê do processo de criminalização infligido ao MST e a outros movimentos sociais pelas corporações da mídia brasileira.

Da Praça Rui Barbosa até o calçadão da Rua XV de Novembro, passando por ruas como a André de Barros, os militantes seguiam pregando “pela reforma agrária”, “em defesa do petróleo nacional”, “pela reestatização da Vele, Petrobras, Embraer e CSN”, etc, etc। Como se vê, uma pregação indigesta para o estômago da nossa grande imprensa।

DEBATE DA CRISE E PROJETO POPULAR - Um panfletinho era entregue de mão em mão – “Trabalhadores e trabalhadoras não pagarão pela crise” -, anunciando que se tratava de um “mutirão para debater a crise e o Projeto Popular para o Brasil”, sob os auspícios do MST, Via Campesina e Assembléia Popular (AP), com o apoio da Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS).
Em frente ao prédio do Ministério da Fazenda(fotos acima), na Rua Marechal Deodoro, houve uma breve parada e Juvêncio Rosa Ramos, da coordenação estadual do MST, discursou contra as medidas econômicas adotadas pelo governo federal no enfrentamento da crise do capitalismo, as quais – protestou – priorizam a manutenção dos lucros do capital.



Paulo Bearzoti

Juvêncio Rosa Ramos
Diante da Universidade Federal do Paraná, na Praça Santos Andrade, outra parada. Paulo Bearzoti, da AP, falou em nome dos movimentos populares urbanos. Para ele, o modelo urbanístico da capital paranaense, tão exaltado na mídia, atende na verdade aos interesses da elite em detrimento dos bairros mais pobres. E Isabel Cristina Diniz, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), referiu-se ao quadro de perseguição e assassinatos de trabalhadores rurais.
Isabel Cristina Diniz

"Plantando" sementes de ideias no calçadão da Boca Maldita"
PLANTANDO SEMENTES DE IDÉIAS - Já na Boca Maldita, no encerramento do desfile, foi encenada a “plantação” com sementes de milho, espalhadas sobre bandeiras do movimento estendidas no meio do calçadão, simbolizando o debate de ideias que os militantes sociais empreenderam nos últimos 20 dias।

Foi uma maratona। De Florestópolis, a 450 quilômetros da capital, saiu a “coluna do Norte” no dia 18 de maio, com 200 pessoas. E de Foz do Iguaçu, a 650 quilômetros, saíram mais 200 na “coluna do Oeste”. Todos convergiram para Campo Largo, na região metropolitana. Daí, após ato no Memorial ao MST na BR-277 (Monumento Antonio Tavares, feito por Oscar Niemeyer, em homenagem ao líder camponês assassinado no local), rumaram para Curitiba, de ônibus.

Durante toda a caminhada foram parando nas cidades e promovendo panfletagens e debates nas escolas e comunidades. Por isso, o termo mutirão. E o mutirão continuou na capital na quinta, sexta e sábado, só encerrando no domingo, dia 7, com um encontro de avaliação no Colégio Estadual do Paraná (CEP), no Centro Cívico.

(A “coluna do Norte” percorreu as seguintes cidades: Florestópolis, Porecatu, Bela Vista do Paraíso, Londrina, Rolândia, Arapongas, Marialva, Sarandi, Maringá, Mandaguari, Jandaia do Sul, Apucarana, Marilândia, Ortigueira, Imbaú, Ponta Grossa, Campo Largo e Curitiba. E a “coluna do Oeste”: Foz do Iguaçu, Medianeira, Matelândia, Cascavel, Ibema, Nova Laranjeira, Laranjeiras do Sul, Cantagalo, Guarapuava, Irati, Palmeiras, Campo Largo e Curitiba).

Nas paredes da memória
Enquanto acompanhava as atividades do MST, voltando aos meus velhos tempos de repórter, agora com uma maquininha digital, três lembranças repassavam nas paredes da memória (expressão feliz de Balzac e Belchior):

1 – No início de 2002, Deta (minha mulher) e eu visitamos um assentamento do MST em Viamão, Grande Porto Alegre. Leonildo Zang, da coordenação local, nos recebeu muito bem e mostrou o belo trabalho que faziam. Conversa vai, conversa vem, Leonildo disse mais ou menos assim: “Não, Lula não vai fazer a reforma agrária. Quem tem que fazer a reforma agrária somos nós”. Me espantei, mas ele estava certo. Naquela época, no início da quarta campanha presidencial de Lula (afinal, vitoriosa), eu acreditava que no seu governo a reforma agrária viraria, finalmente, realidade. Santa ingenuidade!

2 – Após uma das muitas e ruidosas campanhas de ocupação de terras, executadas pelo MST, o então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, é entrevistado na Rede Globo. Comentarista e apresentador da Globo transpiram raiva, chantagem, querem estrangular os “baderneiros”. O Dirceu me saiu com uma resposta exemplar: “A solução não é reprimir o MST, mas sim fazer a reforma agrária”.

3 – Em entrevista à Carta Capital, há uns quatro anos, João Pedro Stédile, da coordenação nacional do MST, fez uma previsão temerária. Ele próprio admitia tratar-se de um palpite, um chute. Previa que em meados do próximo mandato presidencial, fosse quem fosse o presidente (terminou dando Lula de novo), o povo brasileiro acabaria desembocando num processo de mobilização de massas. Meados do mandato estão aí. Até agora, nada ou quase nada. Será que a crise pode balançar o marasmo? Pelo sim, pelo não, o MST insiste, persiste e não desiste de “plantar” suas sementes.

(Em seguida a esta matéria, este blog publicará outras reportando algumas das muitas atividades do MST em Curitiba nos quatro dias).

quinta-feira, 4 de junho de 2009

“A gente é do tamanho do sonho”

De Curitiba(PR) - Ele lamenta ter começado tarde, mas não desanima e vai se superando a cada prova. Nasceu Antonio dos Santos Lima, lá em Lindoeste, antigo distrito (hoje cidade) de Cascavel, considerada a capital do oeste do Paraná. Desde menino, de família modesta, vivia correndo pelas ruas, pelas estradas de barro, “parece um doido”, comentavam as pessoas.


Hoje, esbelto, biotipo adequado, em paz com a vida, 37 anos, virou o corredor Antonio Lima, atleta, maratonista, bastante conhecido entre os meios esportistas, acumulando 28 troféus e 125 medalhas। Na última maratona melhorou em sete minutos a sua marca। “É isso, você tem de se superar a cada dia, esse é o segredo, a disputa não é propriamente com os adversários, é com você mesmo”, diz।

Nosso atleta com a filha Mariana

Em 19 de abril último, em Florianópolis, na Maratona de Santa Catarina (uma maratona oficial significa 42 quilômetros e 195 metros), ele fez em três horas। Um mês e pouco depois (24 de maio), cravou 2:53 horas na Maratona Internacional de Porto Alegre। Conseguiu baixar sete minutos. (Para comparação, o atual recordista mundial de maratona, o etíope Haile Gebrselassie, ostenta a marca de 2:04 horas).

LOGROU O PRIMEIRO LUGAR na Corrida Mundial da Saúde de Curitiba (10 quilômetros) em abril deste ano, entre os cerca de 1.500 participantes. E a terceira posição na categoria máster (faixa etária de 35 a 39 anos) na Meia Maratona das Cataratas, em Foz do Iguaçu (21 quilômetros), em julho/2008, com o tempo de 1:15 hora.

Já participou de três edições – 2006, 2007 e 2008 - da Corrida de São Silvestre (15 quilômetros pelas ruas de São Paulo), certamente a mais conhecida do grande público, já que é transmitida pela Rede Globo, anualmente, no dia 31 de dezembro. Marcou o melhor tempo na última, em 2008, com 57 minutos.


É sempre assim. Os melhores desempenhos são sempre os últimos, daí seu otimismo: “Eu quero, eu posso, eu consigo”, proclama. Mas a idade, à medida que avança, não reduz o rendimento físico? Antonio Lima garante que, para contrapor a isso, há três fatores fundamentais: a vontade, a aprendizagem e o treinamento.

Vem assim a recuperação, apesar do início tardio. Veio para Curitiba em 1997 e só em 2002, portanto aos 30 anos, começou a participar de corridas. A primeira, de 10 quilômetros, foi a da Polícia Militar do Paraná, na qual chegou aos 48 minutos. Hoje, seu tempo numa corrida semelhante é 33:15 minutos.
SUPORTE” E TREINAMENTO - O que mudou? Simplesmente, a partir de 2007, há apenas dois anos, passou a ter o que chama de “suporte”, ou seja, preparador, orientador, nutricionista. E, claro, treinamento sistemático: treina três vezes por semana em pistas e parques (no Barigui, por exemplo) e faz academia, fortalecimento muscular, duas vezes por semana.

Todo “suporte” veio junto e a partir dos patrocinadores. São quatro empresas: a MAXIPAS, de saúde ocupacional, o grupo DSR VLOX, de transporte de carga, CONTAX Contabilidade, escritório contábil, e FAVARIN Veículos, revenda de automóveis.
Isso ao lado de um estilo de vida austero, saudável, com muita disciplina, o que não representa qualquer sacrifício, pois diz fazer tudo por prazer। Óbvio que não bebe bebida alcoólica e não fuma, com uma ressalva: “Sou fumante passivo”। É que Antonio Lima é garçon no Stuart, tradicional bar numa área privilegiada da capital paranaense, na Praça Osório, juntinho da badalada Boca Maldita (Rua das Flores, trecho da Rua XV). Em compensação – outra ressalva -, “o patrão é também um ‘suporte’ pra mim, pois não atrapalha minhas viagens”.
CORRER, ENTÃO, É A REALIZAÇÃO DE SUA VIDA. E enquanto prossegue com os treinamentos, visando os próximos compromissos – Meia Maratona de Assunção, Paraguai, em agosto, e a Maratona das Águas, em Foz do Iguaçu, em setembro -, ele não se cansa de exaltar os benefícios do esporte.

- É uma filosofia de vida. O esporte ensina você a ganhar e a perder. Talvez você não seja o melhor, mas luta para que o melhor seja feito. Pode não resolver tudo na sociedade, mas tenho certeza de que ajuda a resolver os problemas. Para o jovem, o esporte só tem a somar.

São convicções que o empurram para frente. Casado com Maria Naísa, conta, por exemplo, que sua filha Mariana, de cinco anos, gosta muito de esportes e ele faz tudo para incentivá-la. E, já tendo o segundo grau completo, sonha em cursar faculdade na área esportiva e tocar um projeto de incentivo a crianças carentes. Já tem até o nome engatilhado: Projeto Formiguinha.

A força do sonho e da vontade. Ele repete: “Eu quero, eu posso, eu consigo. A gente é do tamanho do sonho”. Este é Antonio Lima, 37 anos, ganha-pão – garçon, paixão da vida – corredor, desde menino.

(Mais informações, algum tipo de colaboração ou patrocínio, favor contactar através do e-mail antonio.corrida@hotmail.com ou pelo Orkut – Antonio dos Santos Lima ou pelo telefone (041) 91359827).