domingo, 27 de setembro de 2009

O ditador despedaçado

Os pedaços do ditador esmagados pelo bloco de pedra e cimento

De Assunção (Paraguai) – Vamos, minha amiga, quero te mostrar o que restou de Alfredo Gustavo Stroessner Matiauda। Materialmente, simbolicamente, o que se pode ver e apalpar, os pedaços do ditador, os olhos, o nariz, as mãos, os dedos... Esqueça o Paraguai, as feridas espalhadas por todo país, os benefícios (para alguns), os malefícios (para muitos)... Praça dos Desaparecidos: à D, o bloco de pedra; ao fundo, o Palácio do Governo
Vamos nos concentrar aqui na Praça dos Desaparecidos, diante deste monumento terrível, a condenação implacável da história, tão terrível de se ver que julgaram ociosa uma placa explicativa: um bloco de pedra afogando em cimento e dor os pedaços da cara, do corpo. E ainda atracado por cabos de aço para que força humana (ou desumana) não cogite algum tipo de regresso.

Está aí, no mesmo lugar onde estava a estátua de Stroessner, soberano por quase 35 anos (1954-1989), certamente com aquela imponência marcial das coisas julgadas, momentaneamente, eternas। Feita em pedaços e enterrada após a derrubada da ditadura. Ao lado está o belo Palacio de los López (ou Palácio do Governo), de onde reinou o "presidente" reeleito sete vezes consecutivas, sempre "candidato" único, sempre com percentuais de votação altíssimos.

Agora, espia aqui amiga, a 10 passos, o símbolo das feridas da ditadura: a homenagem a Mario Raúl Schaerer Prono, professor que aos 23 anos, em 1976, foi preso, torturado durante quase 24 horas e assassinado pela polícia política. Simboliza os milhares de opositores mortos (estimam entre 3.000 a 4.000). Veja a placa e as outras placas da Plaza de los Desaparecidos.
Preciso te dizer que ela se chamava Plaza General Alfredo Stroessner? Pois é, como muitas e muitas coisas que ostentavam o seu nome pelo país afora e que tiveram o nome trocado depois de 3 de fevereiro de 1989. É o caso, por exemplo, da Ciudad del Este, a maior do interior do país, na fronteira com o Brasil, que se chamou Puerto Presidente Stroessner.

UM POUCO DE HISTÓRIA - Antes de visitarmos outros locais mais aprazíveis, quero te passar alguns dados históricos deste sofrido país. Stroessner era filho de imigrante alemão e na política sempre se mostrou anticomunista e simpatizante dos nazistas. Acolheu muitos deles no Paraguai depois da derrota de Hitler, assim como colegas ditadores derrubados de outros países.
Fez carreira militar rápida, a partir de campanha exitosa na Guerra do Chaco (contra a Bolívia em 1932-35), duas condecorações. Contam, porém, que um morteiro sob sua responsabilidade foi perdido para as forças inimigas, mas quem ousasse mencionar isso, na época do seu poder absoluto, estava literalmente frito. Chegou a general aos 36 anos – o mais jovem da América do Sul – e logo logo a comandante-chefe do Exército, ajudado por sua filiação ao Partido Colorado, no poder desde 1947 (e até 2008).
UMA VEZ ELE ERROU O PULO DO GATO - Os historiadores destacam a sua habilidade em estar sempre com o vencedor nos diversos golpes e contragolpes da política paraguaia। Só uma vez, amiga, ele errou o pulo e teve que passar pelo vexame de entrar na embaixada brasileira escondido no porta-malas de um carro. Mas se recuperou rapidamente.

Em 1954, após mais um golpe militar, Stroessner foi proclamado "presidente". Pronto, a partir daí soube se manter no poder na base da repressão feroz e da corrupção, tendo como parceiros as Forças Armadas e o Partido Colorado. Governou manejando as "leis" dos favores para os amigos e da perseguição, tortura, morte, prisão e exílio para os opositores, em especial os comunistas. E, do ponto de vista da economia, atrelado aos interesses do império dos Estados Unidos. Não teve uma relação harmoniosa com a Igreja Católica, o que é apontado como um dos seus pontos fracos.
Na era de terror dos anos 70 na América do Sul, participou com seus colegas ditadores do Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, Bolívia e Equador da tenebrosa Operação Condor, responsável pela perseguição, tortura e assassinato de milhares de opositores, especialmente da esquerda।

Em 1989, com os ventos do neoliberalismo soprando fortes – o governo de Stroessner foi estatizante por excelência -, as ditaduras militares já anacrônicas e as manifestações populares saindo às ruas, mesmo reprimidas, chegou a vez de se jogar na lixeira a já incômoda ditadura stronista (se usa este adjetivo por aqui). As mesmas elites "brancas" do Partido Colorado, que se fartaram nas entranhas do terror, tiveram espaço e souberam manipular as forças políticas em contenda.
Mais um golpe, desta vez liderado pelo chefe militar de Stroessner, o general Andrés Rodríguez Pedotti, com o respaldo dos Estados Unidos. (O golpista era "consuegro" do golpeado. Como dizer em português? co-sogro? Rodríguez tinha uma filha casada com um filho de Stroessner). Enquanto o ditador ia para o exílio no Brasil (onde morreu em 2006, perto de completar 94 anos), o mesmo Partido Colorado continuava no governo (até 2008, repito).
É quase sempre assim, amiga, infelizmente.

MARIO RAÚL - UM CASO EXEMPLAR - Já está cansada, amiga? Deixa eu acrescentar só mais um dado. O martírio de Mario Raúl, referido acima, tornou-se um caso exemplar, especialmente nos dias atuais quando estão amargando o banco dos réus torturadores da Argentina, Chile, Bolívia, Uruguai, Peru (onde mais? no Brasil, neste particular, estamos atrasados).
Em 1999, dez anos depois da queda da ditadura e do início de uma ação judicial, a Corte Suprema de Justiça do Paraguai - finalmente, pressionada pela mobilização da sociedade - chancelou a condenação dos autores intelectuais e materiais (mandantes e executores) das torturas e assassinato do jovem professor. Foram condenados a 25 anos de prisão.
Os maiores culpados, porém, se safaram. Stroessner e seu ministro do Interior, Sabino Augusto Montanaro, ficaram de fora do processo judicial porque estavam fora do país.
Isto também quase sempre acontece, não é amiga?


Agora, para fechar, passo a palavra a Guillermina Kanonnikoff, autora da ação na Justiça e viúva de Mario Raúl, a qual foi presa juntamente com o marido e ficou um ano e sete meses na prisão:
"A conquista mais significativa desta ação judicial é que a condenação se qualifica como crime de lesa humanidade e se deixa de lado a tese da obediência devida. Além disso, estabelece o precedente histórico em nosso país e na América Latina na luta contra a impunidade, por haver sido a primeira sentença de condenação a responsáveis diretos por um homicídio por tortura a preso político, cometido por autoridades públicas em dependências policiais".

domingo, 20 de setembro de 2009

A inominada




De Assunção (Paraguai)
– Alguém já deve ter dito que a linguagem, falada ou escrita, é o retrato da alma, mostra o que somos lá no fundo do nosso ser. É admirável os volteios verbais que as pessoas fazem para evitar falar naquela coisa terrível, indesejada, vestida de preto sempre com aquela foice (o alfanje) à mão, à espreita a cada canto, a sem-nome, a morte. Quanto eufemismo! (Minha admiração para os espíritas, que a encaram com tanta serenidade, pelo menos assim o dizem).

Não adiantou nosso José Saramago (“Intermitências da morte”), na sua ficção delirante e fascinante, dar-lhe o escopo de humanidade, ao ponto da inominada entrar em greve e provocar imenso caos entre nós, pobres e ricos mortais. (Como não adiantou a mitologia grega, sempre badalada pelos ocidentais, ter humanizado os deuses, tornando-os caprichosos, interesseiros e vaidosos como os homens. Eles continuam no Olimpo).

Repito, quanto eufemismo! Veja as jóias que garimpei nos anúncios fúnebres do jornal paraguaio ABC Color, de 4/setembro/2009. Transcrevo, apenas passando para o nosso português (a “última flor do Lácio, inculta e bela”, para lembrar o famoso verso do soneto de Olavo Bilac. A vida perderia pelo menos 50% do charme se não existissem os poetas, não agüento a tentação de citá-los).

Vamos às jóias: “
Atendeu ao chamado do Senhor em...” (esta fórmula é repetida dezenas de vezes). “Está no Céu desde... e de lá nos acompanha...” “Diosito (em português não se usa o diminutivo de Deus, seria Deusinho) e os anjos cantarão para ti no Céu e nós cantaremos para ti aqui na Terra...” “Ao se chegar aos três anos de teu regresso à Casa celestial...” ou “de tua partida ao Reino celestial...”

“Dormiu na paz do Senhor em...” “Hoje completam cinco anos de teu regresso à casa do Pai...” E na maioria dos anúncios seguem os elogios superlativos: “Sempre estarás presente em todos os valores que nos deixou para orientar nossas vidas: honestidade, fidelidade, caridade, dignidade e sobretudo... tua inesquecível e imensa bondade”.

E mais:
“Descansou na paz do Senhor em...” “Regressou (ou regressaste) à casa do Pai...” Para fechar, uma nota com o título “Um benemérito da pátria retorna à casa do Pai”, começando assim: “Um ex-combatente da Guerra do Chaco (guerra contra a Bolívia em 1932/35) já dorme o sono eterno dos justos”.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Bandeiras vermelhas do PC


Foto reproduzida da 1a. página do jornal La Nación


Calma, camaradas comunistas, não é o PC que vocês estão imaginando. É o Partido Colorado, a direitona paraguaia. Eles têm bandeira vermelha e, pra completar, ainda têm uma estrelinha daquela que ficou famosa no Brasil com o Partido dos Trabalhadores (PT). (Na verdade, eles não usam a sigla PC, mas a ANR, Associação Nacional Republicana, entidade que mantém o partido).
Os colorados festejaram na sexta-feira, dia 11, os 122 anos de fundação do partido e lotaram a Praça da Democracia, no centro de Assunção। Muita gente – o jornal La Nación estimou em 10.000 pessoas, eu arriscaria um número maior – e, é claro, milhares de bandeiras vermelhas tremularam em homenagem à sua "gloriosa história".


Primeira página do La Nación de sábado, dia 12



Foi naquele esquemão de jogo de luzes, queima de fogos, telão gigante, muito som e apresentação de artistas populares. As diversas estrelas da centenária agremiação estavam lá. Antes do show, foi colocada, solenemente, uma enorme coroa de flores no Panteão dos Herois. No meio do show, o único pronunciamento, da presidente do partido, senadora Lílian Samaniego, que fez um chamamento à unidade visando retornar ao poder em 2013 (o mandato presidencial aqui é de cinco anos).
(Pelo que venho acompanhando nos jornais, eles carecem mesmo de unidade। Na última quinta-feira, dia 10, por exemplo, véspera da comemoração, dois senadores colorados tiveram um bate-boca terrível em plena sessão do Senado)
O Partido Colorado é muito conhecido por ter se "eternizado" no poder no Paraguai durante 60 anos ininterruptos (incluindo os quase 35 da tenebrosa ditadura de Alfredo Stroessner – 1954/1989), barrado no ano passado por Fernando Lugo e sua Aliança Patriótica para a Mudança। Veio de suas entranhas a União Nacional dos Cidadãos Éticos (Unace, que no início, aliás, era "dos Colorados Éticos"), liderada pelo general reformado Lino Oviedo, hoje a terceira força parlamentar do país (depois dos colorados, também da oposição, e dos liberais, governistas).

EXISTE DIREITA NO BRASIL? - Creio haver um aspecto admirável nessa coisa dos colorados estarem em praça pública festejando o 122º। aniversário। Uma "elite branca" com um certo brio, uma certa coerência, não? Claro que eles hoje arrotam defender os princípios democráticos, etc, etc, mas vamos lá.

É sempre escorregadio a gente comparar, mecanicamente, fatos históricos de dois países sem a devida contextualização, mas não agüento a tentação. Dá pra lembrar os udenistas brasileiros (União Democrática Nacional – UDN), direitistas, entreguistas, golpistas por excelência (seu líder mais notável foi Carlos Lacerda). Pois bem, depois de ajudarem o golpe de 1964, tiveram seu partido extinto pela ditadura. Em seguida, a maioria dos udenistas se aglutinou na Arena, depois PDS, ambos paridos pela mesma ditadura.
Veio então a chamada redemocratização. Por que os udenistas não tiveram coragem de recriar a antiga UDN? Preferiram outra sigla, o PFL, logo depois outra, o DEM (Democratas, que palavra prostituta! Que me perdoem as prostitutas, vocês são anjos bons diante dos demos). É muita sigla, muita falta de brio, não?

A doideira do futebol


Praça da Democracia no dia do jogo Paraguai x Argentina
Por aqui a paixão pelo futebol é a mesma coisa do brasileiro. Já mostrei em matéria anterior a cidade enfeitada com bandeiras do país e camisas da seleção. Na quarta-feira, dia 9, quando o Paraguai garantiu sua classificação para a Copa do Mundo na África do Sul, ao vencer a Argentina por 1 a 0, foi muita festa. Houve "carnaval" no centro de Assunção (Praça da Democracia, Palma, rua considerada turística, e imediações) logo em seguida ao jogo, varando a madrugada.
O presidente Fernando Lugo - nosso ex-bispo católico famoso não só por ter derrubado o domínio de 60 anos do Partido Colorado, mas também por ter se revelado um grande namorador - entrou em campo depois do jogo, devidamente paramentado com as cores da "albirroja", e decretou, à noite mesmo, um tal de "asueto" - que deve ser o mesmo que o nosso ponto facultativo nas repartições públicas - para o dia seguinte.
No dia do jogo, os três jornais considerados "sérios" (ABC, Última Hora e La Nación) deram sua primeira página todinha para o "fútbol", não houve uma única chamadinha pra outro assunto. Nos outros, uns três ou quatro, dedicados ao que se costuma chamar de temas populares (futebol, polícia, sangue, fofoca de artista e celebridade, novela, etc), nem é preciso falar. A grande repercussão está ligada ao fato da classificação ter sido sofrida, a vitória sobre a Argentina (1 a 0, gol de pênalti) foi decisiva. O Brasil, ao contrário, jogou contra o Chile, em Salvador-Bahia, com a classificação já assegurada.
Um detalhe: todos os jornais diários daqui (acho que são sete) são naquele formato menor, moderno (esqueci o nome exato, criado pelos especialistas, pra variar em inglês), como o Jornal do Brasil atual, o Correio (antigo Correio da Bahia) e O Estado do Paraná.

Um dólar vale 5।000 guaranis



Cotações oficiais pelo centro de Assunção
E um real vale mais ou menos 2।500 guaranis. É essa nova realidade que você tem logo que se habituar quando chega a outro país. A correspondência da moeda local com o dólar e o nosso real. Esta relação no título e na abertura se refere, claro, ao Paraguai. Veja as cotações na foto que deve ilustrar a matéria: dólar, euro, real e peso argentino. Portanto, não há qualquer dificuldade de trocar o real diretamente para o guarani. Mas, regra geral, o melhor é ter dólar em mãos. Se o visitante vai demorar mais de 15, 30 dias, penso que o mais cômodo é ter saldo bancário no Brasil e cartão internacional para saque.

Quanto às cotações, estou tratando do mercado oficial, não vou me arriscar nos esquemas ilegais। Mesmo assim, há variações. No aeroporto, quando cheguei, topei o dólar cotado a 4.000 guaranis (no centro da cidade, está sempre em torno de 5.000). Informação importante: do aeroporto ao centro de Assunção, o preço oficial do táxi está em 90.000 guaranis. Por que é importante? Porque é o momento mais propício para uma "facada" do taxista no "turista" que chega pela primeira vez à cidade (me lembro que em Caracas, nessa circunstância, paguei um valor muito superior ao normal).

É comum – creio que no caso de valores maiores – que se diga o preço em dólar, depois se transforma em guarani। Foi minha experiência, por exemplo, nos hotéis três estrelas pelo centro de Assunção. Preços: diária para solteiro na base de 34, 28 ou 26 dólares, com café da manhã. Se pagar com cartão de crédito, eles acrescentam 10%.

Alguns preços do meu dia-a-dia: jornais considerados "sérios" – 5.000 guaranis; os de sangue, futebol e fofoca – 2.500; uísque oito anos – 20.000; chopp grande – 6.000; cerveja Brahma – 12.000 (quase 5 reais); garrafinha de água mineral, 500 ml – 1.300; almoço em lugar simples – 10.000/15.000; num restaurante melhorzinho – 25.000/30.000. (Quem me conhece sabe que ando, preferencialmente, em lugar simples, a não ser quando tenho que tomar um uisquezinho).



Campanha com figuras de destaque da direita


Pela democracia participativa
O Partido do Movimento ao Socialismo (P-MAS) – ou mais especificamente a sua Juventude Socialista – vem fazendo uma campanha denunciando a "democracia de maquiagem" (de fachada). Na verdade, é aquela coisa que a esquerda volta e meia levanta sobre as limitações da democracia representativa, a chamada democracia burguesa, onde o povo aparece só pra votar e depois desaparece de cena. Defende em contraposição a democracia participativa, ou seja, com referendos, plebiscitos, o povo nas ruas, organizado, etc.
(Que meu amigo Heitor Reis, de Belo Horizonte, bravo guerreiro cibernético, não me leia, pois ele abomina tais conceituações. Diz simplesmente, com rigor científico conceitual, que no Brasil, por exemplo, não há democracia nenhuma, não adianta seguir ao substantivo um adjetivo qualquer। O que há é, sem tirar nem pôr, uma ditadura do poder econômico).



Cartazes do P-MAS, bandeiras e "sedução" para o consumidor



A "democracia de maquiagem" – denuncia a esquerda - vive amarrando as mãos do presidente Fernando Lugo, que foi eleito pela massa mais pobre com um avançado programa de mudanças sociais e políticas. Mas, há um ano e pouco na Presidência, está enredado nos nós atados pela direita – o Parlamento, a Justiça, os partidos políticos, a mídia. Aparentemente, os espaços institucionais de ação de Lugo são mais estreitos do que os de Lula no Brasil, por exemplo, embora as perspectivas de mobilização popular por aqui pareçam mais viáveis.
Os militantes da Juventude Socialista do P-MAS lembram que está na Constituição paraguaia a referência explícita à democracia participativa. Citam: "A República adota para seu governo a democracia representativa, participativa e pluralista, fundada no reconhecimento da dignidade humana".
O P-MAS, pelo que pude entender até agora, é um partido diminuto, de pouca influência, sem representação parlamentar. Faz parte da Aliança Patriótica que elegeu Lugo. (Para melhor compreensão do leitor brasileiro, talvez possamos compará-lo ao nosso PSTU - faz barulho, é combativo, mas pouco influente. Entretanto, é sempre bom estar atento às peculiaridades da realidade de cada país e política é um troço bem complicado).
Bem, pra completar: acontece que a campanha contra a "democracia de maquiagem" ganhou uma repercussão aparentemente inesperada. Uma entidade da direita, Fundação Liberdade, tomou as dores e respondeu com outra campanha: "A democracia que nos oferecem". O alvo principal, óbvio, é Fernando Lugo, que aparece nos cartazes como Pôncio Pilatos, lavando as mãos diante da figura de Barrabás, que representa as mazelas que esmagam o povo paraguaio.
Em resumo: como diz um dos líderes dos Sem-Teto, Darío Ramos, entrevistado por este blog (matéria anterior), eles impedem Fernando Lugo de cumprir as promessas de campanha e depois dizem: "Aí está o presidente que vocês elegeram".

A pilha paraguaia
O companheiro Rui Baiano, morando ultimamente em Ananindeua (região metropolitana de Belém, Pará), ao saber que estou em Assunção, me alertou: "Cuidado com o uísque paraguaio!" Pois é, o uísque não sei, mas já caí no conto da pilha paraguaia.


Comprei dois pares (quatro) na mão do camelô, baratinho, baratinho, por 8.000 guaranis (quase 4 reais), daquela média (AA), alcalina. Antes, vinha comprando um par (duas) por 10.000 guaranis. É pra minha maquininha fotográfica digital. Comprei e fui fazer a cobertura da manifestação dos sem-teto, na quarta-feira, dia 9 (matéria já aí no blog). Quando liguei a maquininha, nada, na tela o aviso: trocar bateria. "Porra, é o famoso produto paraguaio, perdi 8.000 guaranis", pensei e corri em busca de uma loja pra comprar outra.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Sem-Teto prevê mobilização popular

De Assunção (Paraguai) – "Vai chegar a hora, e não vai demorar, em que o povo paraguaio organizado vai sair às ruas e exigir a reforma da Constituição". A previsão é de Darío Ramos (foto), um dos dirigentes da Coordenação Nacional dos Sem-Teto (Coordinadora Nacional de los Sintechos – CNST), ao apontar o Parlamento e a Justiça como as travas que impedem as mudanças sociais e políticas exigidas pela maioria da população e prometidas pelo então candidato e hoje presidente Fernando Lugo. A reforma constitucional é encarada como fundamental para tais mudanças.

Ele avalia que os latifundiários, os sojeiros (plantadores de soja) e os narcotraficantes continuam fortes no poder, inclusive dentro do governo Lugo। E manobram, através de seus representantes no Legislativo, no Judiciário e nos partidos políticos, para bloquear a ação do governo e frustrar as expectativas do povo। Depois, tentarão recuperar a presidência com o bordão: "Aí está o presidente que vocês elegeram!"

Por isso – explica Darío Ramos -, o governo está negociando com os dissidentes internos dos partidos considerados de direita – Partido Colorado, que ficou no poder durante 60 anos, incluindo os 34 da ditadura Stroessner; Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), que apoiou Lugo na eleição; e União Nacional dos Cidadãos Éticos (Unace, nascida de uma dissidência dos colorados liderada pelo general Lino Oviedo). Nesta ordem, são os três partidos mais fortes no Congresso.


Terra para construção de casas (Limpio é o nome do lugar)
Os governistas – seguindo o raciocínio do dirigente da CNST - acreditam que atraindo tais dissidentes, somados aos deputados e senadores de partidos pequenos mais à esquerda, é possível ao governo costurar uma maioria parlamentar। Isso viabilizaria a atuação rumo às transformações, incluindo as requeridas na Justiça, cujo processo de formação de sua Corte Suprema está imerso hoje numa rumorosa polêmica.
Concentração diante da Secretaria de Ação Social

Enquanto isso – e aí está o "x" da história -, as forças populares articulam a mobilização, pois sabem que a garantia das mudanças está no povo nas ruas. Darío Ramos arrola as forças: são ao todo 30 organizações nacionais de sem-teto - a CNST é uma delas, a maior; mais o Movimento Campesino Nacional Organizado (MCNO) - os sem-terra daqui -, o movimento dos professores, dos advogados e a Central Nacional dos Trabalhadores (CNT).

"Vamos mobilizar 300 mil pessoas para sair às ruas", prevê. Não seria sonho, otimismo demais, como mobilizar tanta gente? "Há muita necessidade e sede de justiça", responde Darío, acrescentando: "Não se esqueça que o povo elegeu um bispo para a mudança" (em espanhol, o "cambio", a palavra mais repetida por aqui, e pela América Latina, nos discursos da esquerda). E vai chegar o momento, diz ele, em que Fernando Lugo vai chamar o povo às ruas para que possa cumprir seu programa de governo.
Observação: Darío Ramos não inclui os veículos da imprensa entre os protagonistas da direita। Afirma que no Paraguai eles são meros caudatários dos partidos. Relaciona: o ABC, o jornal mais lido, é ligado à Unace; o Última Hora (cita juntando com a TV Telefuturo) ao Colorado; e La Nación também aos colorados. Os três jornais, considerados os "sérios" do país, batem sempre no governo Lugo e massacram, impiedosa e diariamente, em várias matérias da mesma edição, o presidente venezuelano Hugo Chávez, não perdendo oportunidade de lembrar que se trata de amigo do presidente paraguaio.

Os manifestantes na fria manhã de Assunção

Gilberto Cáceres, o principal líder dos Sem-Teto do Paraguai
Cobrando mais ação do governo

Por falar em mobilização, a Coordenação Nacional dos Sem-Teto (CNST) levou nesta quarta-feira, dia 9, cerca de 500 pessoas às ruas centrais de Assunção para cobrar mais ação do governo Fernando Lugo। Os manifestantes saíram, por volta das 10 horas, das imediações do Palácio da Justiça e, depois de percorrerem trechos de quatro ruas, umas 20 quadras, se concentraram em frente à sede da Secretaria de Ação Social (SAS), ligada à Presidência e encarregada dos serviços que interessam diretamente aos sem-teto.


Em frente ao Senado (à D, estátua do Marechal López, herói nacional)

A cobrança está fundamentada em três pontos básicos: a compra de terras para construção de casas, a construção de casas em terrenos já comprados pelo governo e a viabilização, gratuitamente, dos documentos de posse no caso das famílias já assentadas. Lideranças e representantes de assentamentos – 20 são mantidos pela CNST – discursaram. O principal líder do movimento, Gilberto Cáceres, reclamou que até agora a SAS
só aplicou 7% do seu orçamento previsto para este ano।

"Paredão" dos policiais e o corredor para os carros

APARATO POLICIAL E "GUARAÑOL" - Dois aspectos chamam a atenção do estrangeiro, no caso o repórter। O primeiro foi o enorme aparato policial na frente da SAS, desproporcional ao número de manifestantes। A situação era tão estranha que o "paredão" de policiais cercava literalmente a concentração e tirava quase toda a visibilidade de quem passava ou parava para assistir ao protesto, além de garantir um corredor para os carros।

Mas não houve qualquer atrito e tanto os policiais como os manifestantes pareciam bem à vontade. O repórter conversou amistosamente com alguns policiais e dois oficiais.
O segundo aspecto é o idioma utilizado pelos oradores. É apelidado de "guarañol", mistura do guarani com o espanhol, as duas línguas oficiais do Paraguai. Para quem conhece um pouco o espanhol, a compreensão do discurso fica limitada a uns 10 a 20%. Os manifestantes (e os policiais), no entanto, entendiam perfeitamente. (Uma repórter da TV Telefuturo – canal 4, sinal aberto, ou canal 7, TV a cabo -, que cobria o evento, me disse que ela compreendia pouca coisa, um membro da equipe traduzia para ela. Comentou que 90% dos pobres falam o guarani).
No final, os sem-teto deslocaram-se umas quatro quadras na área central da cidade e foram para a Praça da Independência, em frente aos dois prédios que abrigam a Câmara dos Deputados e o Senado. Ali aguardariam o informe de uma comissão que, às 15 horas, teria audiência com o chefe de Gabinete do presidente Lugo, Miguel López Perito.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O contrabandista aposentado


Esculturas na praça, ao fundo a cúpula do Panteón de los Héroes

De Assunção (Paraguai) – Ele cansou. São 55 anos de batente, mais ou menos a metade vendendo cigarro paraguaio pelas ruas, baratinho, de contrabando, fugindo dos fiscais, subornando os fiscais, sendo assaltado pelos fiscais. Era um homem meio rico, mas já estava cansado, os filhos criados, a mulher tinha sido levada há anos pelo contrabandista maior, um de seus fornecedores।

Entrada de galerias subterrâneas e o Hotel Guarani

“Temos de mudar um dia, meu velho, vou embora”, dizia, os olhos negros saltados, o esquerdo mais saliente, com ar delirante.

O vermelho da bandeira do P-MAS e da seleção do Paraguai
“Cinho endoidou” (Cinho, de Lorencinho, de Lorenço), comentava o parceiro de rua. “Em vez de quetá em casa, aposentado, diz que vai embora pro Paraguai. De tanto vender cigarro de contrabando, só vê o Paraguai na sua frente, endoidou... já lhe disse: tu tá muito veio pra rompedor”.

Indígenas vendendo seus artesanatos

ATO 2 – EN LA PRAZA DE LA DEMOCRACIA

Cinho dava seu primeiro passeio por Assunção. “Pra que lado fica o centro da cidade?”, perguntou, num portanhol esquisito, mas com gestos e boa vontade dá certo. Aquela insegurança do desconhecido, uma certa aflição, o coração batendo diferente. “Bom, queria tanto viajar... agora tô aqui, vamos lá...”

Vendendo ingressos para o jogo Paraguai x Bolívia
A Praça da Democracia, o miolo da capital guarani - Nuestra Señora Santa María de la Asunción -, é uma enorme praça. Porém, na verdade, são três: além da própria, temos a Plaza de los Héroes (onde está o Panteao dos Herois) e a Plaza Juan E. O’Leary (Juan Emiliano, jornalista, historiador e político paraguaio, morreu em 1969).


O guarda no Panteón
Nosso herói, o Cinho, estava deslumbrado. Não sabia direito o que pensar, não era o que se chama uma pessoa culta, não sabia nem se era realmente bonito. Mas uma coisa ele sabia: era diferente. E, para ele, era o que importava. Sua atenção se voltou especialmente para as dezenas (centenas?) de vendedores ambulantes, seus iguais de antanho, que lhe oferecem mil e uma coisas, “50 reales”, tratam logo de cambiar a moeda quando percebem tratar-se de brasileiro. “No, no, gracias”, ele responde com simpatia, o sorriso meio nostálgico, imaginando-se jovem, muitos anos atrás.


O xadrez no ensolarado sábado

Era a manhã ensolarada do sábado, dia 5, logo mais o Paraguai jogaria com a Bolívia (o Brasil com a Argentina), pelas eliminatórias da Copa do Mundo। A praça estava vestida de vermelho e branco, da seleção “albirroja”, como se diz por aqui। Cinho via tudo com olhos ávidos: os imponentes edifícios do Ministério da Fazenda, do Hotel Guarani (anunciando que o novo cassino vai te surpreender), dos bancos, uns modernos, outros antigos (Banco do Brasil, Bilbao – BBVA -, Sudameris, Banco Nacional de Fomento).
E mais: duplas enfileiradas jogando xadrez, apresentação de grupos musicais (Renacer Folklórico, Los Primos, etc), grupos de turistas, de estudantes, os indígenas vendendo artesanato, aqui e ali pessoas chupando o tererê (ou tereré, o acento agudo do espanhol, que é semelhante ao chimarrão, mas a erva é um pouco diferente e é servido com água gelada).



A música paraguaia do grupo Renacer Folklórico

Militantes da esquerda reivindicam a democracia participativa
Como não é chegado à política, nosso personagem não deu atenção ao grupo de jovens que fazia propaganda do Partido do Movimento ao Socialismo (P-MAS), um dos integrantes (até agora inexpressivo, eleitoralmente) da Aliança Patriótica para a Mudança, que levou o ex-bispo Fernando Lugo à Presidência.


ATO 3 – O COMEÇAR TARDIO

Ele retornou ao quarto de hotel. Sozinho, porém não solitário, pelo menos assim o sentia. Estava jubiloso, a certeza de que era só o começo, de que um caminho novo se abria, de que ainda teria muita perna para caminhar. Só um pesar toldava seu entusiasmo: a amarga compreensão de que tinha começado tarde. “Amarga? pode ser... mas vamos lá...”, sacudia a cabeça espantando as dúvidas.


O nosso Banco do Brasil

(Como diria Máximo Gorki, um dos grandes escritores russos, é impossível que não se tenha nada a dizer de quem passou anos e anos fugindo dos fiscais, subornando os fiscais, sendo assaltado pelos fiscais).