segunda-feira, 30 de novembro de 2009

“Onde erramos?” (ficção e realidade)

Foto: Deta
Vista de El Alto, ao fundo, a partir da Praça São Francisco, centro de La Paz




De La Paz (Bolívia) – "É o fim do mundo, nossa Bolívia está morrendo dia-a-dia..." Eles não se conformam, estão desesperados, e o próximo domingo, 6 de dezembro – dia da quinta eleição disputada, desde 2005, pelo líder sindical dos cocaleiros Evo Morales Ayma, 50 anos, indígena da nação Aymara, hoje presidente e candidato à reeleição – pode ser "mais um terremoto, um retrocesso". "Onde erramos, meu Deus!?"


Pergunta-se a elite "branca", legítima herdeira das tradições hispano-européias, diante do avanço incontido dos seguidores "daquele índio idiota", "daquele macaco". É o clamor abafado entreouvido nos restaurantes de luxo, nos escritórios das grandes empresas, nos convescotes das mansões da zona Sul de La Paz.


"Como parar as hostes bárbaras que descem as ladeiras de El Alto para sitiar os centros de poder da República?" Indagam-se, entreolhando-se, horrorizados à lembrança dos indígenas, mineiros, trabalhadores, movimentos sociais, "criollos", "cholos", essa mestiçagem que forma a grande maioria dos nove milhões de habitantes do país, um milhão deles nesse espantoso El Alto – o subúrbio de La Paz que é uma cidade ou a cidade que é um subúrbio. "A maioria!", exclama, com asco, um dos mais exaltados.


INSURREIÇÃO POPULAR DERRUBA O PRESIDENTE - O que fazer? Perguntam-se e rememoram. Em setembro e outubro de 2003, a insurreição popular deflagrada a partir de El Alto, conhecida como a Guerra do Gás, derrubou o último presidente do neoliberalismo, Gonzalo Sánchez de Lozada, o Goni.


"Não adiantou nada a ação enérgica do governo", lamenta outro, referindo-se à matança de 67 pessoas. "Tudo em vão, o frouxo do Goni não aguentou a revolta dos crioulos e fugiu para os Estados Unidos, deixando em seu lugar o vice Carlos Mesa, mais frouxo ainda, a primeira coisa que fez foi prometer parar de matar, oportunista filho da puta! De lá pra cá, as tais mudanças não pararam mais, todo dia vai embora um pedacinho mais dos nossos sagrados direitos, os direitos dos nossos filhos, dos nossos netos..."


E continuam repassando a história recente da Bolívia, os corações prenhes de aflição. Em 2005, foi a eleição de Evo Morales para a presidência com 54% dos votos; em primeiro de maio de 2006, a nacionalização do gás e petróleo, o que permitiu ao governo ter dinheiro para os programas sociais em socorro aos mais pobres; depois ações rumo à reforma agrária, contra a corrupção, erradicação do analfabetismo, integração soberana da América Latina, etc, etc.


Após 2005, vieram o processo da Assembleia Constituinte (bastante conturbado) e mais duas eleições, sempre com vitória de Evo Morales e seu Movimento Ao Socialismo (MAS): em agosto/2008, no referendo revogatório, o presidente foi confirmado no cargo por 67% dos votantes; e em janeiro/2009, a nova Constituição Política do Estado teve 61% de aprovação.


INDÍGENAS MASSACRADOS A PAULADAS - "Pois é, mas não se pode dizer que não tentamos barrar isso", fala um, citando a bagunça feita em Sucre, capital do departamento (estado) de Chuquisaca, quando dos trabalhos da Constituinte, e a tentativa de separatismo e golpe de Estado dos quatro departamentos da chamada Meia Lua, sob a liderança de Santa Cruz, evento durante o qual, em setembro de 2008, foram massacrados a pauladas quase duas dezenas de indígenas/camponeses.


Agora é a quinta eleição da Era Evo. "O macaco diz que vai chegar aos 70% dos votos, é muita arrogância, e ainda quer maioria de 2/3 no congresso, cruz credo, Deus não deixa!", intervém outro batendo três vezes na mesa, suando apesar do frio constante de La Paz e afrouxando o nó da gravata.


Os nobres representantes da elite boliviana passam a comentar sobre os supostos êxitos de suas ações nas últimas três semanas, visando pelo menos diminuir o percentual da vitória de Evo e impedir uma maioria significativa no congresso. Um lembrou: "Já pensou se perdemos a maioria no Senado? Aquele projeto radical contra a corrupção, que conseguimos arquivar lá, vai ser logo, logo, desenterrado, aí muitos amigos nossos vão ter problemas, com certeza".


ÊXITOS SÓ NA TELA DA TELEVISÃO - "O diabo é que os êxitos de nossas ações parecem que têm vida efêmera. Só enquanto aparecem na tela da televisão e nas páginas dos jornais. A crioulada parece que não toma conhecimento", lamenta outro, ressaltando os oito dias seguidos em que a ministra Rosario Canedo - suspensa da Corte Suprema de Justiça por acusação de corrupção – apareceu na TV dizendo cobras e lagartos contra Evo e o governo. "Fez até greve de fome e o resultado?", indaga um outro, com ar de decepção.


Houve também algumas ações violentas contra os partidários do MAS, principalmente em Santa Cruz, mas de repercussão limitada, diante da reação dos governistas: não aceitar provocação, os perdedores querem bagunçar as eleições, é a palavra de ordem de Evo Morales e seus partidários.


Há alguma esperança no denominado "voto cruzado": como a força de Evo parece avassaladora, a oposição está fazendo a campanha em favor do voto cruzado, ou seja, você vota no Evo Morales, tudo bem, mas para senador e deputado, você pode votar nos candidatos de outros partidos. O MAS contra-ataca: voto cruzado é traição, temos que obter os 2/3 do congresso.


A ÚLTIMA TENTATIVA? - Eles lembram ainda a mais recente tentativa de reduzir o tamanho da vitória do "proceso de cambio". A ação está em curso. A Corte Nacional Eleitoral (CNE), faltando menos de duas semanas para o pleito, colocou 400 mil – dos 5,1 milhões de eleitores – na condição de "observados". Ou seja, só poderão votar no dia 6, se, até o dia 3, apresentarem documentação que confirme estarem habilitados a votar. Um aparente rigor técnico, que mereceu total repúdio do governo e total aplauso da oposição.


"É a nossa última tentativa, não é lá grande coisa, mas pode ajudar", comenta um do grupo já meio ressabiado, recebendo uma ducha fria de outro: "Aqui pra nós, parece que não tem jeito desse povinho acordar e compreender a ameaça que esse macaco representa para os destinos de nossa Bolívia. Eu estou sabendo que no sábado, dia 28, 93 mil (dos 400 mil "observados") já tinham regularizado sua situação perante a CNE. Parece que não tem jeito", concluiu desolado.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

“Marchas” e “bloqueos”

De La Paz (Bolívia) – Com quantas “marchas” e “bloqueos” (protestos, passeatas, fechamento de ruas) se faz uma democracia participativa? Me faço sempre esta pergunta ao topar, nas ruas centrais de La Paz, com mais uma manifestação. O protagonismo popular – sem qualquer indício de repressão policial – é uma marca notável no “proceso de cambio” (mudança) boliviano.


A última a que assisti, com minha maquininha digital a postos, foi promovida pelos vendedores ambulantes de produtos do Natal. Eles estão numa queda-de-braço, há mais de duas semanas, com o prefeito (“alcalde”) da cidade, de nome Juan del Granado, que este ano quer colocá-los num Campo Ferial (de feira). Os vendedores insistem em continuar em ruas centrais, especialmente numa chamada Figueroa.





Enquanto não se chega a um acordo – cada um dos lados se mostra até agora irredutível -, tome passeata, protesto e ruas “trancadas” (usa-se muito este termo) pela área central da cidade, principalmente a frente da sede da prefeitura (“alcaldía”), com muito barulho e gritos de palavras de ordem. A polícia se limita a controlar, dentro do possível, o trânsito de veículos, e a proteger a entrada do prédio da prefeitura.


Cruzada contra o voto cruzado

Já a penúltima manifestação que acompanhei por aqui – defronte do prédio do Correio, também no centro, saindo em seguida pelo Paseo El Prado – foi de partidários do presidente Evo Morales, dentro da campanha para as eleições do próximo dia 6. É a cruzada que os governistas (chamados aqui oficialistas) vêm empreendendo contra o denominado “voto cruzado”.

O que é isso? Como a força (a popularidade, o carisma, o mito) do Evo é avassaladora, a oposição está fazendo a campanha em favor do voto cruzado, ou seja, você vota no Evo Morales, tudo bem, mas para senador e deputado, você pode votar nos candidatos de outros partidos.

Evo Morales está jogando todo o peso de sua popularidade para alertar contra isso, chega a dizer nos comícios que o voto cruzado é traição ao “proceso de cambio”, mesmo porque, já com sua reeleição garantida, seu objetivo maior parece ser a obtenção da maioria de 2/3 do congresso.

Então, seus partidários saem às ruas brandindo cartazes (é pena que eu estava sem a máquina fotográfica) e gritando “Evo presidente, Zavaleta deputado” (o nome do candidato a deputado depende da circunscrição, no caso Zavaleta é da circunscrição 8 de La Paz); “Fora voto cruzado, carajo!”; “Pátria ou morte, Venceremos, carajo!” (Este “carajo” é muito usado aqui nas palavras de ordem, não tem nenhuma conotação pejorativa, condenável, o próprio Evo usa em discursos quando fala aos movimentos sociais).



segunda-feira, 23 de novembro de 2009

“La papi”, uma ceia boliviana





De La Paz (Bolívia) – Uma aglomeração em frente à Igreja de São Francisco (praça com o mesmo nome). Que será? Me aproximo a tempo de ouvir um final de discurso de campanha eleitoral: “Vamos votar no nosso hermano Evo Morales...” Final de discursos, o grupo foi ficando menos compacto e eu cheguei ao miolo da pequena concentração.

A surpresa: sobre mantas e plásticos estendidos no chão, uma grande variedade de comida, como dizer?, coisas típicas ao gosto popular, como batata cozida com pele e sem pele; uns troços chamados “tunta” e “chuño” (me disseram ser feitos de batata, a “papa”, que aqui é pau pra toda obra, quase todo prato em restaurante popular tem “papa frita”); “yuca” (nosso aipim ou macaxera); ovo cozido; um tipo de milho cozido, os grãos grandes e brancos, chamado “choclo”; uma tal de “llahuja”, feita de tomate e “locoto” (tipo de pimenta).

E etc, etc. Os nomes são complicados, geralmente as coisas da cultura popular têm nomes de origem indígena (aymara, quéchua). Me explicaram: trata-se de “una papi”, tipo de ceia muito comum entre as camadas mais populares, uma espécie de confraternização usada nos mais diversos eventos sociais. No caso, era oferecida por políticos do governo. Perguntei: e os candidatos da oposição, da direita, fazem isso também? Não, eles não, os ricos fazem seus almoços nos restaurantes, esclareceram.

Bem, estabeleceu-se uma gostosa camaradagem. Eles insistiram para que eu participasse da ceia. Confesso que hesitei muito. È que todo mundo pegava as coisas diretamente com as mãos, na maior sem cerimônia. Porra, pensava, tenho que esquecer meus pruridos de higiene. Peguei, assim meio sem jeito, com a mão esquerda, um pedaço de aipim, pelo menos isso eu conheço e sei que gosto. Mas não adiantou o cuidado. Eles começaram a me dar uma coisa e outra, dissertando sobre as propriedades nutritivas, os nomes, e eu ia comendo. Menos um troço lá que não consegui, tentei disfarçar e joguei num canto, tinha gosto de puba.

No final, apertei a mão e me despedi do gentil senhor que me deu mais atenção, chamado Juan. Saí feliz, tinha participado de uma autêntica ceia boliviana.

Uma tirada de Evo Morales

Em um de seus inúmeros discursos de campanha – para as eleições do próximo dia 6 -, que às vezes escuto e vejo na televisão, o presidente Evo Morales falava das mentiras que os adversários espalham sobre ele. Se queixava: “Dizem que quem tem duas casas, Evo Morales vai tomar uma; quem tem dois carros, Evo Morales vai tomar um...” E acrescentou: “Só faltam dizer: quem tem duas mulheres, Evo Morales vai tomar uma”.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

“Ñatitas”, a convivência com os mortos



De La Paz (Bolívia) – Os estudiosos falam na tradição que remonta a épocas antes dos incas, levada do meio rural para grandes centros urbanos como La Paz e a “cidade/subúrbio” de El Alto, em contraposição à cultura ocidental cristã. Não sei. Só sei que, todo ano, no dia 8 de novembro (a data tem relação com o dia 2, Dia dos Finados, aqui também é feriado e se usa mais a palavra Difuntos), o Cemitério Geral da capital boliviana recebe milhares de fiéis, na grande maioria pessoas simples, sobraçando seus crânios humanos de estimação.

São as “ñatitas” (a palavra vem de ñata ou ñato, pessoa que não tem nariz, como as caveiras), que simbolizam a convivência, o culto aos mortos.
Crânios devidamente cuidados, enfeitados com adereços do agrado dos vivos, como coroas, lenços, óculos tipo ray-ban, gorros de lã, chapéus de policiais, colares e até dentes de ouro. São iluminados com velas, servidos com bebidas, comidas, cigarros, folhas de coca.
E, sobretudo, são adorados.
A eles, os crânios, ou a elas, as “ñatitas”, são atribuídos poderes divinos, mágicos, resolvem pendências humanas (a favor de seus donos, claro), protegem seus lares, curam suas feridas.
Quase todos têm nomes, apelidos. Podem ser de familiares, mas também de antigos amigos ou originados de herança, presente, de compra e venda, e até – dizem – de roubo em cemitérios.
Os crânios são guardados em casa com todo carinho (no caso de negligência pode provocar severos castigos), e no dia 8 de novembro são exibidos, entre as diversas comunidades, em festas e serenatas. Com direito especial a missa na capela do cemitério. Mas neste caso há controvérsia: a Igreja Católica, fiel às suas tradições e preconceitos, proibiu missa para as “ñatitas”(uma coisa profana, alegou). Houve muitos protestos.

Neste ano, o padre do Cemitério Geral, certamente um sábio conciliador, rezou a missa, mas esclarecendo que era para os fiéis, não para as caveiras.

Quanto à água benta, foi deixada em pontos estratégicos do cemitério para que os próprios fiéis pudessem benzer seus adorados crânios. (Creio que se trata de uma relação conflituosa como a existente com o nosso candomblé).

“NÃO SE PODE MENTIR ÀS ‘ÑATITAS’” - Para dar uma idéia do nível de seriedade como a crença é encarada pelo povo, transcrevo algumas declarações retiradas do jornal La Prensa e do semanário DíaD, dos quais “roubei” também informações e fotos:
“Com missa ou sem missa, os milagres das ‘ñatitas’ são possíveis quando se tem fé”.
“Não se pode mentir às ‘ñatitas’, nem tampouco brincar com elas. São idênticas a uma pessoa, porque cuidam da tua casa, te fazem sonhar quando as coisas andam mal, te protegem, te alertam”.
“As segundas-feiras são o dia dos espíritos e por isso cada segunda-feira temos que colocar um cigarro na boca da ‘ñatita’. Rezamos para pedir que cuide de nós e nunca nos abandone”.

Fala em seguida no uso de álcool e coca (não consegui traduzir com exatidão, às vezes usam na linguagem popular expressões de origem indígena, geralmente quéchua ou aymara) “e ao final o cigarro se consome todo”.
“Várias amigas minhas acreditam que não tiveram sorte no negócio ou com a família porque descuidaram de sua ‘ñatita’”.
“Meu avozinho morreu num acidente de trânsito. Primeiro papai o guardou e quando faleceu me deixou de herança. Agora eu cuido dele porque o avozinho sempre nos protege e, mesmo que a Igreja não queira rezar missa no cemitério, nós vamos contratar um padre para que vá ao local e reze a missa”.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Desafio boliviano: é esquerda ou esquerda

Foto: Deta





Partidários de Evo fazem comício em Miraflores (bairro da capital)

De La Paz (Bolívia) – A direita por aqui agoniza, atestam o andar da carruagem, os observadores, as pesquisas de opinião. Sua voz ainda se escuta, teimosa e afônica, porque é para isso que existem os meios privados de comunicação. Mas para ela, só resta o passado, um passado eivado de vilanias. O presente e o futuro estão na esquerda. Para o bem, para o mau, para o melhor. Espero que para o melhor.








Pedro Montes e Frank Taquichiri no escritório central da COB



O processo de “cambio” (mudança), sob a liderança do presidente Evo Morales, avança com o apoio decidido dos movimentos sociais, especialmente os povos originários (indígenas) - a maioria dos 9 milhões de habitantes - e a legendária Central Obrera Boliviana (COB).

Depois de consolidado entre os setores historicamente excluídos da área rural, o governo ganha terreno entre a classe média das cidades e nos quatro departamentos (estados) da chamada Meia Lua, os quais, liderados por Santa Cruz, empreenderam no ano passado a rumorosa tentativa separatista, mascarada com a bandeira da autonomia, sob o patrocínio dos interesses do império dos Estados Unidos.






Evo Morales em campanha



Na última pesquisa da Ipsos Apoyo, Opinión y Mercado, divulgada em 26 de outubro, a dupla do Movimento ao Socialismo (MAS) – Evo e o vice Álvaro García Linera – já é apontada como vitoriosa em sete dos nove departamentos, ou seja, já incluindo dois da Meia Lua – Pando e Tarija. Os números indicaram derrota do MAS somente em Santa Cruz e Beni. No geral, Evo se situa com 58% dos votos válidos e outros três candidatos oposicionistas com 24%, 14% e 3%. São oito na corrida presidencial, os demais não chegam a aparecer entre os votados.


Foto:Deta








O pequeno
"militante"
nas ruas de La Paz








Foto:Deta

As mulheres presentes na luta pelo "proceso de cambio"



A PRESIDÊNCIA NÃO ESTÁ EM DISPUTA - A pesquisa apenas confirma uma certeza: a cadeira do presidente não está efetivamente em disputa. O governo se empenha, na verdade, para conseguir a maioria do Congresso (atualmente é minoria no Senado), para desatar os nós institucionais do “proyecto de cambio”. A meta seria obter 2/3 na futura Assembléia Legislativa Plurinacional, denominação oficial do Congresso segundo a nova Constituição aprovada em
janeiro último.














El Alto, a "cidade/subúrbio" que circunda La Paz


É inegável o êxito do MAS nos quase quatro anos de governo, apesar das dificuldades impostas, principalmente no ano passado, pelas ricas oligarquias do rico departamento de Santa Cruz, sempre com o apoio do império estadunidense. Seria bastante lembrar a exploração soberana dos recursos naturais do país, especialmente gás e petróleo, em proveito dos mais pobres, numa política agressiva destinada a reverter os índices de miséria do país. Nesse curto tempo logrou também incluir a Bolívia no restrito clube dos países da América Latina que erradicaram o analfabetismo.

Mas não só. Nos chamados indicadores macroeconômicos, tão exaltados nos meios capitalistas, o governo Evo mostra que, também, vai muito bem. Há poucos dias, por exemplo, um informe apresentado aqui em La Paz pelo Fundo Monetário Internacional - o famigerado FMI, que apesar de baleado pela crise do capitalismo, ainda exibe certa sobrevida – situa o país como o primeiro, dentre 31 países da América Latina e Caribe (exclui Cuba), na previsão de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), neste ano – em torno de 3%.
Na campanha eleitoral, os porta-vozes do governo têm apontado como prioridades, nos próximos cinco anos de Evo Morales, além do aprofundamento e ampliação dos programas sociais, a industrialização dos recursos naturais, acrescentando ao gás e petróleo minerais como o lítio, do qual a Bolívia detém as maiores reservas; a construção de obras de infraestrutura, como estradas, uma deficiência muito sentido no país; e também a continuidade da política de integração soberana da América Latina e da luta pelo socialismo, nos marcos da Revolução Democrática e Cultural.


MOVIMENTAÇÃO NAS ENTRANHAS DO PODER - Parece, portanto, que tudo vai bem entre os partidários do processo de “cambio”, tendo à frente o carismático líder Evo Morales Ayma, que acaba de completar 50 anos. Entretanto, nas entranhas do poder, no seio das forças governistas (aqui chamadas oficialistas), começa a germinar uma movimentação política que logo após as eleições pode resultar num novo desafio para a esquerda boliviana.

Tal movimentação é materializada no documento “Historia de la Central Obrera Boliviana y coyuntura actual frente al proceso de cambio”, que subsidia a discussão interna entre os membros da COB e a discussão com o governo. Tal documento já começa a circular pela Internet. Seu autor é o advogado Frank Taquichiri, assessor trabalhista da COB, 42 anos, há cerca de 20 anos vinculado à entidade (especialista em “legislación laboral”, autor de vários livros na área, é credenciado pela Organização Internacional do Trabalho – OIT).


No documento, o presidente Evo Morales é tratado como “irmão indígena”, sendo lembrada sua condição de líder sindical (dos cocaleiros) e filiado à Central. Mas, basicamente, é defendida uma posição clara: “A COB não pode cometer os mesmos erros que a história nos mostra. O processo de mudança (“cambio”) é um trabalho que incumbe a todos os explorados e excluídos. A COB, se bem já assumiu seu papel histórico, agora deve, além disso, ser protagonista do seu próprio destino e do destino dos trabalhadores em particular e do povo boliviano em geral”.

A que erros históricos se refere? Vamos chegar lá. Até esta parte conclusiva do documento, Frank Taquichiri percorreu um longo caminho desde a insurreição popular de 1952, quando foi criada, com base nos poderosos sindicatos mineiros e sob a direção de Juan Lechin Oquendo, a Central Obreira (Operária) Boliviana, “a entidade matriz e histórica da maior organização e única dos trabalhadores da Bolívia”.

É uma organização sui generis. Além dos mineiros, base da economia e da violenta exploração colonialista/imperialista – lembremos das riquíssimas minas de prata de Potosí -, fazem parte da COB não só os operários dos demais setores, mas também os estudantes e amplos setores populares como os camponeses. Diz o “asesor laboral” da COB: “La historia de la Central Obrera Boliviana es la historia de Bolívia, en los últimos más de 57 años. No se comprendería lo que ocurrió en este país, sin la acción de la COB, sin la acción de los trabajadores organizados, que dieron vida a los momentos más importantes de este tiempo”.
SÃO NESSES “MOMENTOS MAIS IMPORTATES”, numa história de muita luta, vitórias, derrotas e muita repressão, que Frank Taquichiri identifica os erros históricos:

1 – Na Revolução de 1952, depois dos trabalhadores terem vencido o Exército, com o sacrifício de milhares de vidas, os dirigentes operários entregaram o poder de mão beijada (“en bandeja de plata”, como disseram os mineiros) a Victor Paz Estensoro, do então ascendente Movimento Nacionalista Revolucionário, que após medidas progressistas, como a reforma agrária, enveredou-se pelos tortuosos caminhos da conciliação de classes e a traição.

2 – Nos anos 80, logo após o triunfo da União Democrática e Popular, apoiada pela COB, regressa ao poder Hernán Siles Suazo e surge nova oportunidade dos trabalhadores assumirem a co-governança do país, conforme proposta do próprio presidente. “Em uma reunião – conta o advogado no documento – a COB propõe (assumir) 51% (do governo), e Siles pergunta se foi a COB quem ganhou as eleições”.

Não houve acordo, se rompeu o diálogo e a COB passou à oposição, enfraquecendo o governo, o que deu espaço a um golpe da direita. Resultado: 21 anos de governos neoliberais, de entrega dos recursos naturais da nação aos interesses imperialistas e de repressão contra as forças democráticas e populares.

3 – Nas jornadas populares de setembro e outubro de 2003, na chamada Guerra do Gás, os movimentos sociais – com participação destacada da população de El Alto (uma espécie de subúrbio, que na verdade constitui uma cidade de um milhão de habitantes, a maioria pobre, nos morros e altiplanos que circundam La Paz) – impuseram mais uma vez seu protagonismo e derrubaram o governo presidido por Gonzalo Sánchez de Lozada.
Mais uma vez o poder ficou com a chamada classe política, mas a insurreição terminou levando a um “proceso de cambio”, cujo resultado foi a eleição três anos depois de Evo Morales, com o apoio da COB, para a presidência da República.

HOJE, A COB VOLTA A SE COLOCAR A QUESTÃO: ser sustentador do governo ou ser co-governo? “Agora temos um irmão indígena, filiado à COB, que abraçou e fez seu este processo de mudança, com maior razão a COB não pode cometer os mesmos erros”, diz Frank em seu documento. E finaliza: “É a agenda de outubro/2003 que até hoje, se bem se quer desenvolver, termina por não fazê-lo, já que os verdadeiros atores do processo não estão assumindo seu papel protagonista”.

Pergunto: que significa isso, na prática? a COB pode compor o novo ministério, tem quadros preparados para compor uma bancada parlamentar e para aspirar, por exemplo, a presidência da República daqui a cinco anos quando terminará o mandato de Evo?
Frank Taquichiri é cauteloso: “A COB está conversando com o governo, Evo é um hermano, sindicalista, filiado à COB, temos tudo para chegar a um acordo. Quanto a quadros preparados, claro que temos, basta lembrar Pedro Montes, o principal dirigente da COB”. Refere-se ao atual secretário executivo da Central, um mineiro de 44 anos, há quatro liderando o seu Comitê Executivo Nacional (CEN).

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

“O sol nas bancas de revista...”

De La Paz (Bolívia) – “...nos enche de alegria e preguiça, quem lê tanta notícia...”





Pois é, grande Caetano Veloso, mas que “sol”?
O cantado e “trescantado” astro-rei, sem o qual a vida fica muito sem graça?
Ou “O Sol”, o primeiro ou um dos primeiros jornais alternativos da rica safra pós-golpe de 1964?

Era do Rio de Janeiro, acho que teve vida efêmera, não cheguei a conhecê-lo, sei que estava vivo quando da execução de Che Guevara nas selvas bolivianas, outubro de 1967. O pessoal do jornal conta, meio como piada, que “O Sol” teve o mérito de não reconhecer a morte do Che. Quando ela foi anunciada, em meio a algumas dúvidas, os editores do jornal optaram (é o tal do “pensamento desejoso”) por uma manchete daquelas em que a gente fica em cima do muro, mais ou menos assim: “Che pode estar vivo”. (Manchete com o verbo “pode” tem variadas serventias, me lembra o nosso Marco Antonio Boaventura Moreira, o Marquinho, mancheteiro de primeira, mas aí são outras histórias).

Dizia eu, que “sol”? Eis a questão que um documentário sobre o dito jornal (dentre outros aspectos) tentou elucidar। O “tentou” vai por conta de uma leitura minha, toda particular। É que toda a parte do filme dedicada a discutir esta questão está dirigida no sentido de demonstrar que “o sol” a que Caetano se refere na música é “O Sol”, o jornal.


Dentre os participantes da discussão, me lembro apenas dos dois mais conhecidos: Caetano e Gilberto Gil. Caetano, com aquele jeitão de iluminado, cheio de vai-e-vem, não dizia claramente nem que sim, nem que não, era como se dissesse “deve ser”, “certamente”... Gil, no seu jeito de santo, de guru oriental, sempre condescendente, chegava a conclusões, a meu ver, sem qualquer evidência aparente, dizia “claro”, “tá vendo aí? é isso mesmo...” Alguém lembrou inclusive que a então namorada de Caetano, Dedé (que veio a ser sua primeira mulher, o nome é este mesmo, não é?), trabalhava no jornal.

Assisti ao documentário em Cuba, não me lembro se durante o Festival de Cinema, dezembro de 2007 (estava lá na época, um dos eventos culturais mais badalados da “ilha”. Deta estava lá comigo nesse período, me lembro que ela assistia a três filmes por dia, toda empolgada. Eu, que nunca fui muito chegado a cinema, via um por dia, achando que já era demais).

Pois bem, conclusão. Saí do cinema com a certeza absoluta, irremovível, que Caetano se referiu, na música, ao nosso sol do dia-a-dia, ao nosso querido astro-rei. Porra nenhuma de “O Sol”, o jornal. Exatamente o contrário da tese “demonstrada” no filme. Racionalmente talvez eu até não consiga explicar o por quê, mas a razão, como sabemos, nem sempre explica tudo.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Cadê o nome do presidente?

De La Paz (Bolívia) – A VII Cumbre (reunião de cúpula) da Alba, Aliança Bolivariana para os povos da nossa América, realizada nos dias 16 e 17 de outubro, em Cochabamba, capital do departamento (estado) do mesmo nome no centro da Bolívia, foi fato jornalístico da maior importância na pauta dos meios de comunicação bolivianos. Desculpe, estou abrindo a matéria realçando uma obviedade.
Mas, nem tanto. Para o El Diario (sem acento, em espanhol), o mais antigo e um dos quatro principais jornais editados em La Paz, as conclusões do encontro de nove países da América Latina e Caribe (1) mereceram duas materinhas, no pé da página, uma na editoria Internacional e outra na de Economia, ambas abrindo com o mesmo enfoque, o tema ecológico: "Alba defenderá na ONU os direitos da Mãe Terra" e "Cumbre da Alba terminou com declaração sobre mudança climática".
(Tecnicamente, nos meus tempos de editor, isso era considerado uma falha: duas matérias sobre o mesmo assunto numa mesma edição, em duas editorias, ainda mais com o mesmo enfoque)।
Fora esses "estranhos" critérios de edição, que certamente interessam mais aos profissionais do jornalismo, o que mais chama a atenção na "cobertura" do tradicional El Diario é a ausência da citação de qualquer um dos nomes dos presidentes participantes do evento. Numa das matérias a coisa é mais gritante: são citadas, em dois parágrafos, declarações literais do presidente Evo Morales, entre aspas, mas é omitido o seu nome. Aparece só "o presidente da Bolívia". Intolerância? Rancor?
JOGO DE OMISSÕES E INTERESSES - Ao invés de se explicitar algum nome ou nomes dos chefes de Estado presentes, aparecem "os líderes latino-americanos", "os líderes do bloco", "os mandatários e representantes". Outro detalhe: não se mencionam os Estados Unidos quando se fala da má vontade dos países ricos em contribuir na luta contra a poluição, como a não assinatura do Protocolo de Kyoto. A menção é sempre genérica, "países industrializados", "países desenvolvidos".

No mais, os textos são sóbrios, não trazem outras sacanagens (está achando pouco?). Dão algumas informações corretas das decisões adotadas na Cumbre e uma das matérias tem até uma foto da mesa de reunião (pequena, ao pé do pé da página). Curioso sobre os meandros e idiossincrasias dos jornais, atividade à qual estou ligado há 35 anos – desde outubro/1974 -, fui pesquisar nos editoriais da mesma edição do El Diário. Ah, aí o nome Evo Morales é citado com todas as letras, para tomar pau, claro.
TEMPOS DE AGITAÇÃO POLÍTICA E CULTURAL - Os outros três jornais diários, editados em La Paz, informativos, "sérios", fizeram uma cobertura que podemos considerar normal, até onde pude acompanhar, com muitas limitações. Não li todos todos os dias, espiava as primeiras páginas nas bancas, comprava um ou dois. O La Razón, que dizem ser o mais lido, e o La Prensa sempre estão fustigando o governo, dentro daquela linha "normal" da imprensa privada contra as forças de esquerda, mas não notei nenhuma apelação especial.
Quanto ao Cambio (sem acento, em espanhol), não é preciso falar de sua linha editorial, é estatal, criado no início deste ano pelo governo Evo Morales. (Um detalhe: apenas o El Diario é naquele formato grande, standart, todos os demais por aqui são tamanho pequeno, moderno, tipo tabloide).
Além dos quatro, há diários que circulam por aqui editados em cidades como Santa Cruz e Cochabamba (presumo que tenham também circulação nacional). Temos ainda, não poderiam faltar, vários outros daqueles chamados "populares", dedicados a bundas e peitos, futebol, crime e ti-ti-ti de novelas e celebridades.
E uma variedade grande de publicações semanais e mensais, a maioria abordando temas políticos, econômicos e culturais, o que reflete a agitação pela qual o país atravessa nestes tempos de Revolução Democrática e Cultural, como é chamado oficialmente o processo de mudança ("cambio") na Bolívia.
(1) Além de convidados e observadores, participaram presidentes, chefes de Estado e representantes da Bolívia (Evo Morales, o anfitrião), Cuba, Venezuela, Equador, Honduras (representante de Manuel Zelaya, presidente que resiste a um golpe de Estado), Nicarágua e as ilhas caribenhas: Dominica, São Vicente e as Granadinas e Antigua e Barbuda.

Todo ano Cuba faz tudo sempre igual

Parafraseando nosso grande Chico Buarque ("todo dia ela faz tudo sempre igual..."), todos os anos Cuba entra com um projeto de resolução nas Nações Unidas, condenando o bloqueio imposto à ilha pelo império dos Estados Unidos। E todo ano, por esmagadora maioria, os quase 200 países que compõem a ONU aprovam a resolução.

Este ano, na última quarta-feira, dia 28, o placar foi mais ou menos a mesma coisa: 187 votos a favor (ou seja, contra o bloqueio), três contra e duas abstenções (entre os votos contra, estão sempre, infalivelmente, Estados Unidos e Israel, e os demais são daqueles países que a gente não consegue memorizar os nomes).

Para que isso? Certamente para fins de notícia e propaganda. Porque, na verdade, nada muda, fica tudo sempre igual. Cuba, bloqueada, se virando. E o império, bloqueando e falando em democracia e auto-determinação dos povos.
Até quando, dona ONU? (Quosque tandem...?)।

É semelhante à situação de Israel e Palestina। Quantas resoluções (umas 400?) a ONU já aprovou condenando o holocausto (para usar uma palavra tão cara aos judeus) quase diário dos palestinos, massacrados pelo governo israelense, com o apoio do império estadunidense? Nada muda, os massacres se repetem.

Até quando, dona ONU?