segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A BUSCA DO SOCIALISMO NÃO É QUIXOTESCA

O jornal A Tarde, na Bahia, publicou hoje (28/12) entrevista de página inteira concedida por Jadson, com o título acima, que reproduzimos a seguir, na íntegra.



ENTREVISTA Jadson Oliveira

BIAGGIO TALENTO

O jornalista Jadson  Oliveira chutou o pauda barraca em 2007e partiu para correr a América Latina com objetivo de conhecer, na prática, as experiências socialistas. Visitou Cuba, Venezuela e Bolívia, países onde morou nos últimos dois anos. Colaborou com  artigos para vários blogs, entre os quais Fazendo Media:a Média que a Mídia faz. Escreveu também para a Caros Amigos.


O velho comunista que andava desiludido com a política se sentiu revigorado com o que viu. De volta a Salvador, continua escrevendo no seu próprio blog Evidentemente “embora quase não tenha leitor” e cujo endereço é www.blogdejadson.blogspot.com. Nesta entrevista, fala do que viu nas suas andanças.


Como surgiu a ideia de conhecer as experiências socialistas na América Latina? Havia um desencanto com o socialismo petista? Que socialismo petista, companheiro? Fui militante doPCdoB entre 72 e81. Fiz muito trabalho clandestino.

Era encarregado da “gráfica”, que na verdade era ummimeógrafo potente. Depois, numa daquelas rachas do partido, eu saí, embora sempre tenha votado nas esquerdas, defendia em mesa de bar, votava preferencialmente no PT.Quando fiz 50 anos, decidi deixar de trabalhar em jornal.
Fiquei só na assessoria da Assembleia Legislativa. Aliás foi uma virada na minha vida: saí do jornal, me separei e vendi meu Fusquinha (que tinha 15 anos comigo). Em 2007, resolvi parar de trabalhar, eu já era aposentado pelo INSS e fui viver só dessa aposentadoria. Eu já pensava em aproveitar “o resto da minha mocidade” viajando.

Você então não planejou essa viagem?

 A decisão central foi parar de trabalhar e viver da aposentadoria. E aí surgiu aquela coisa do comunista antigo que tem essa ideia de conhecer Cuba, ver como éa coisapolêmica quea gente sempre discute em mesa de bar. A imprensa internacional toda esculhamba e muita gente afinada com aluta do socialismo defende.

Quanto tempo você morou em Cuba? Como ficou lá?

Oito meses. Tem uma fórmula que sai mais barato que é você se hospedar em casas de famílias que são autorizadas pelo governo a receber visitantes estrangeiros. Fiquei na casa de uma senhora, com um quarto exclusivo e direito de usar os outros cômodos da casa.

Qual a sua impressão  sobre a vida em Cuba?

Em termos dos nossos hábitos de consumo de classe média, tem muita precariedade. Só para lhe dar um exemplo, eu não encontrei lá fio dental. Um dentista inclusive me garantiu que esseproduto nãoexistiana ilha. Café descafeinado, tive dificuldade de encontrar, e bloqueador solar eu não achava. Em suma, uma pessoade classe médias entirá muita diferença se for morar em Cuba.

As pessoas já se acostumaram com isso?

 Em parte. Em um dos meus artigos, disse que, apesar de a revolução ter 50anos e ter se consolidado, a coisa do consumismo, acho que eles (os revolucionários) não conseguiram acabar com essa ideologia.

Mas o consumismo é inerente ao ser humano...
Você diz isso. Eu não acredito nisso, não. Acho que o homem pode viver sem isso.Mas o cerco, o apelo consumista é muito grande lá.

Como isso ocorre?

Os cubanos recebem as mensagens pelo cinema americano, que é muito difundido, pelas novelas brasileiras, que são popularíssimas, e tem também as emissoras de TV e rádio clandestinas transmitidas dos EUA justamente para minar a cabeça das pessoas com valores consumistas

Os cubanos têm a percepção de que o regime é ditatorial?

 Eu acompanhei um processo eleitoral, com nível de participação altíssima. É difícil falar sobre isso. Percebi que uma parcela do povo é tocada pelos apelos consumistas e sente falta disso.Outro segmento sente falta da possibilidade de progredir na vida, melhorar o salário. Alguns têm o sonho de mudar para o Brasil ou EUA para ganhar dinheiro. Agora, a maioria da população aceita a situação. Aquela coisa de Raúl Castro substituir Fidel Castro, que nós achamos uma sacanagem, lá seria uma coisa estranha se não fosse o irmão, remanescente da revolução, que substituísse o comandante.

O que dizem de Fidel?

Ele é endeusado por quase todos. Se houvesse uma eleição direta (uma eleição burguesa que nós fazemos aqui), ele teria 90% dos votos tranquilamente. Lembrese dos vários ditadores eleitos pelo voto. Getúlio Vargas no Brasil, Hugo Banzer na Bolívia também, Antonio Carlos Magalhães na Bahia. Então, sem dúvida, Fidel também seria. A percepção que tive é que para os mais pobres o regime cubano é uma beleza.

O nível de exigência dessas pessoas é pequeno?

 Veja só, a repressão policial aqui é muito pior que em Cuba. Aqui a polícia mata negro e pobre todo dia. Em Cuba, não existe isso. Em termos de qualidade de vida, os cubanos têm o mínimopara comer, assistência de saúde e escola de graça.Isso para os pobres é muito representativo.


E como surgiu a ideia de visitar a Venezuela?

No aspecto da efervescência política, Cuba me decepcionou, pois a coisa lá está meio institucionalizada com mobilizações populares burocratizadas. Aí eu inventei ir até a Venezuela. Fiquei lá em Caracas três meses e me encanteicoma ebulição política do lugar.O que me chamou a atenção é que tem manifestação de rua quase todo dia.Eles inclusive usam muito o verbo “trancar”, pois passam grande parte do tempo trancando ruas. Aquilo é democracia participativa, quando o povo procura influenciar nas coisas.

Você me falou certa vez que, apesar das notícias que Chávez cerceia a imprensa, ele sofre um bombardeio de várias TVs...

Quando eu estava lá, Chávez tinha quatro canais de TV estatais, mas havia oito emissoras privadas que batem nele direto, à vontade. E a oposição a Chávez é muito grande? Muito grande e raivosa. Esse debate todo, com o protagonismodo povo,dasorganizações populares, me animou, pois foi uma coisa que eu não vi em Cuba.

Chávez tem conseguido distribuir a riqueza do petróleo? 

Ele é muito centralizador, a implantação da revolução bolivariana depende muito dele e ele tem conseguido incluir organizaçõespopulares no processo político.Claroque tem avançado na distribuição de renda.


Fotos: Jadson Oliveira


E a Bolívia de Evo Morales?

 Lá, sim, a participação é ampla dos camponeses e da classe operária, dos mineiros que foram protagonistas da revolução de 1952. O protagonismo dos movimentos sociais é até bem maior na Bolívia que na Venezuela.



Você esteve lá este ano, no período da eleição presidencial?

Cheguei lá dois meses antes da eleição. E a participação dos movimentos sociais foi excepcional. No Brasil você não vê o povo participando e influenciando na política. O povo vota em Lula e pronto, não vai para a rua para defendêlo dos direitismos do Congresso, da Justiça. Lá, o povo está na rua por qualquer coisa, para defender Evo, que é muito fiel ao povo. Ele tem uma norma muito bonita: “mandar obedecendo”.



Como ele combate a desigualdade social?

 De várias formas. Por exemplo, ele tem três programas sociais semelhantes ao Bolsa Família, um voltado à assistência da mulher parida e com filho até 2 anos; outro para crianças que estudam no primário; e a renda dignidade, que dá salário mensal às pessoas acima de 60 anos.Tudo tirado do dinheiro dos impostos do gás e petróleo que ele nacionalizou no primeiro ano do seu governo, em maio de 2006.

Você é fã de Dom Quixote e fez uma espécie de jornada semelhante ao homem de La Mancha. Mas sua busca foi ao socialismo. Afinal o socialismo está vivo na América?

Não considero a busca do socialismo quixotesca, (embora Dom Quixote na loucura dele também achasse sua jornada uma coisa séria). Hoje, depois de Cuba, Venezuela, Bolívia, Nicarágua, Equador e outros países, como Paraguai, El Salvador e o próprio Brasil, embora tenha avançado pouco, fica claro que o socialismo está vivo na América. Eu reproduzi, há pouco tempo no meu blog, um artigo do (filósofo e ativista americano) Noam Chomsky em que diz que a política da América Latina era uma dos mais interessantes para estudar, pois há a semente de uma integração soberana que contrariava realmente os interesses do império americano.
 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Cuba: crepúsculo ou alvorecer?

O Pilha pura, blog inventado e comandado por Joaninha (Joaninha para os íntimos, minha respeitável editora, a jornalista baiana Joana D’Arck), abriu um debate sobre a sempre polêmica Cuba, a festejada e criticada “ilha de Fidel”. Um saudável debate. Vários “pilheiros” e “pilheiras” têm se manifestado. Há links (que palavra modernosa!) para artigo do jornalista Samarone Lima, que lançou recentemente o livro Viagem ao crepúsculo, e para outro do nosso Frei Betto, falando da blogueira cubana Yoani Sánchez.


Participo do debate com um depoimento (Crepúsculo ou alvorecer?) sobre lembranças dos meus oito meses cubanos. É o Pilha Pura ( http://pilhapuradejoaninha.blogspot.com/) inovando, entrando numa seara que não era a sua, já que sempre foi um espaço mais chegado a amenidades, espaço do qual também tenho participado “con mucho gusto”. É sempre bom variar um pouco, já que costumo escrever mais sobre temas considerados “sérios”.

Aproveito para registrar que algumas das matérias deste meu blog, sobre as eleições bolivianas do dia 6 de dezembro, foram postadas no Fazendo media: a média que a mídia faz, um blog do Rio de Janeiro que conheci através do trabalho do jornalista Marcelo Salles, da revista Caros Amigos. Fiquei muito contente em chegar aos leitores do Fazendo media, pois o tenho em alto conceito. Também o blog Ananindeua Debates, da região metropolitana de Belém, vem publicando matérias minhas aqui de La Paz. Sob os auspícios do companheiro Rui Santana (chamado lá Rui Baiano), foi criado no blog o espaço intitulado Diário de um blogueiro (o blogueiro sou eu, claro).

Quando minha editora estiver postando estes últimos textos de La Paz, estarei aqui arrumando a sacola e a mochila para voar rumo ao verãozão da Bahia, depois de um ano e pouco por Manaus, Belém, Palmas, Goiânia, Campo Grande, Curitiba, Assunção e La Paz. Agora sim, os amigos podem sentir inveja: vou “de férias” para “Salvador de Bahia”, onde “sou amigo do rei” e durmo com “aquela mulher” que quero.

(Somente um senão. Vinha ultimamente avisando aos amigos que no próximo final de semana tomaríamos umas no bar de David, o predileto entre os prediletos. “Se o imponderável não meter o bedelho”, eu acrescentava sempre. Pois não é que o desgraçado do imponderável meteu o bedelho? Já soube que nosso David está passando por uma curta temporada de tratamento médico. Temos então que transferir o ansiado encontro para outro lugar. Que jeito?).

Bem, me desculpem o charme, “de férias” na Bahia não costumo escrever. Até um dia!

Números da grande vitória de Evo



A Corte Nacional Eleitoral (CNE) chegou ontem, segunda-feira, dia 14 - oito dias após as eleições -, aos quase 100% dos votos da vitória do presidente Evo Morales. A computação dos sufrágios chegou aos 99,23%. Eis os números: Evo e seu Movimento Ao Socialismo (MAS): 64,08% dos votos(10 pontos percentuais acima da sua eleição em 2005), enquanto o segundo e terceiro colocados ficaram com 29,5% e 5,6%.

A maioria de 2/3 do congresso foi confirmada. No Senado, onde o MAS é atualmente minoria, e pela nova Constituição passará a ter 36 membros, o placar ficou assim: governo 26 e oposição 10. Na Câmara dos Deputados, o MAS elegeu 87 (ou 88, um ainda está pendente) dos 130 deputados. Dos 327 (ou 328) municípios, os governistas tiveram maioria em 269.

Nos nove departamentos (estados), Evo teve vitórias esmagadoras em três (La Paz, Oruro e Potosí); frentes folgadas em dois (Cochabamba e Chuquisaca); uma vitória equilibrada em Tarija; e derrotas, com votação equilibrada, em três (Santa Cruz, Beni e Pando). Estes quatro últimos departamentos são aqueles da famosa Meia Lua, que era considerado bastião inexpugnável da direita, onde os massistas conseguiram finalmente penetrar. Só para ilustrar: a representação dos senadores nos quatro “estados” está dividida meia a meio.

Houve 5,1 milhões de eleitores inscritos. O comparecimento às urnas foi récorde: mais de 90%, um percentual que faz morrer de inveja as mais badaladas democracias ocidentais. Os votos brancos ficaram na casa dos 3% e os nulos, 2%. No exterior (primeira vez que houve votação), onde 170 mil foram habilitados a votar (número irrisório, há mais de 2 milhões de bolivianos fora do país), o MAS ganhou disparado, especialmente na Argentina, onde votaram mais de 50% dos 170 mil; e no Brasil, com 94,95% dos votos (estavam inscritos 18 mil em São Paulo). Ganhou também na Espanha e perdeu nos Estados Unidos, onde se inscreveram apenas 11 mil pessoas.

O tal do regime autonômico está definitivamente vigente na Bolívia. O “sim” às autonomias teve vitórias contundentes, sempre em torno dos 80%. A consulta foi feita em cinco departamentos (quatro já tinham optado pela autonomia naquele processo conturbado do ano passado), na região do Gran Chaco, do “estado” de Tarija, e em 12 municípios, a chamada autonomia indígena. Somente em um destes 12 municípios, o "não" venceu numa votação apertada (não sei o porquê desta solitária e estranha manifestação).

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Adeus Bolívia!


Paseo El Prado (foto de Deta)


De La Paz - Que significa Bolívia? “Bolívia é um amor desenfreado”. Esta definição é do libertador da hispano-américa, Simón Bolívar (o nome do país, claro, vem do nome do libertador, que foi o seu primeiro presidente após a independência, em 6 de agosto de 1825). Já ouvi a frase algumas vezes, citada pelo presidente da Venezuela (terra de Bolívar), Hugo Chávez, o principal líder anti-imperialista da América Latina, um dos alvos preferenciais da mídia capitalista.



Falando em anti-imperialismo, li outro dia aqui no Cambio, jornal estatal (é bom ter à disposição, todos os dias, um jornal estatal de um governo revolucionário), uma verdade lapidar: vivemos, os latino-americanos, sob cerco militar e midiático. Verdade lapidar. Para resistir, só o povo mobilizado e organizado, o povo nas ruas, a insurgência popular. Sem isso, estamos f...ritos.



Bem, pra mim, Bolívia (estou pensando em La Paz) são duas coisas: revolução e altura. Revolução porque (para usar uma linguagem simples, poderíamos dizer, jornalística), o país tem um presidente - o “furacão Evo”, como chamou o La Prensa, um dos principais jornais bolivianos, em manchete de 7 de dezembro, dia seguinte às eleições – que “manda obedecendo”.



Todo presidente manda obedecendo. A alguém, a alguma coisa, tudo bem.O diabo é que grande parte dos presidentes manda obedecendo aos mais ricos, às empresas transnacionais (as que mandam ou querem mandar no mundo, sem que para isso tenham se submetido a qualquer tipo de consulta ao povo), enfim, para abreviar, ao império dos Estados Unidos.

 Alto, vista de La Paz (foto minha)


Mas o “índio” Evo Morales Ayma manda obedecendo aos mais pobres, aos movimentos sociais, aos seus “hermanos” povos originários/camponeses, aos mineiros, aos trabalhadores. Você duvida? Eu acredito. E pude sentir aquele gostinho da velha e maltratada utopia na Praça Murillo, na festa da vitória, na noite de 6 de dezembro, milhares de bolivianos e bolivianas aplaudindo seu presidente, pulando, dançando e gritando: “Socialismo... socialismo... socialismo”.



Revolução porque eu estava ali na multidão, emocionado, de vez em quando me lembrava que virei repórter depois de aposentado, e tirava um “papelito” do bolso e anotava alguma coisa. Mas... teve uma hora, no decorrer da festa, que o animador de auditório começou a homenagear os diversos “hermanos” latino-americanos ali presentes. Quando citou os brasileiros, não vi ninguém se manifestar, levantei o braço direito, punho fechado, naquele gesto significativo, recebendo sorrisos de simpatia ao meu redor.

La Paz, vista de El Alto (foto de Deta)


Revolução e altura. Altura porque os 3.600 metros acima do nível do mar de La Paz maltrataram bastante o meu coração (em El Alto, a cidade de um milhão de habitantes que é, de fato, um grande subúrbio de La Paz, é pior, são 4.000 metros). Que saudade da minha velha e boa saúde! É um baticum desenfreado do coração, sangramento pequeno, mas constante da mucosa nasal, pele e lábios ressecados, um cansaço dos diabos, deixei de dar minhas caminhadas, acho que não engordei porque o apetite também não é lá grande coisa. Além da pressão alta (controlada), me apareceu até pressão baixa.



Conclusão: resisti bravamente até as eleições, valeu, porém La Paz nunca mais! Nunca mais um passeio pelo Paseo El Prado, meu ponto predileto por aqui, nunca mais o olhar para o alto, para El Alto, para os morros ao redor, com suas casas e edifícios de tijolo sem reboco, a paisagem que mais me impressionou em La Paz (vista lá de cima, de El Alto, La Paz fica num buraco).



“Entonces”, nunca mais! Adeus Bolívia! Longa vida à Revolução Democrática e Cultural do insurgente povo boliviano!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Bolívia rumo à refundação do Estado

De La Paz (Bolívia) – Enquanto o lento processo de computação dos votos vai confirmando a grande vitória do presidente Evo Morales, com ampla maioria no congresso – ontem, dia 8, dois dias após as eleições, a Corte Nacional Eleitoral (CNE) divulgou os números oficiais de 31% dos sufrágios -, o governo e os movimentos sociais avançam rumo à estruturação de um novo Estado.

O toque de avançar foi dado pelo próprio Evo, o indígena Aymara de 50 anos, que era líder sindical dos cocaleiros e foi reeleito com mais de 60% dos votos. Ele disse em discurso na noite do dia 6, na festa da vitória: “Ter 2/3 de senadores e deputados nos obriga a acelerar o ‘proceso de cambio’ (mudança)”. E seu vice, também reeleito, o intelectual Álvaro García Linera, 47 anos, ex-preso político, em entrevista ao jornal estatal Cambio, apontou a tarefa do momento: construir o novo Estado.

Que seria isso? Em que direção navegaria o novo Estado Plurinacional dos bolivianos, sob o timão da chamada Revolução Democrática e Cultural do Movimento Ao Socialismo (MAS)? As declarações das autoridades governamentais – e dos líderes vinculados à Central Obreira Boliviana (COB) e da Coordenação Nacional para o Cambio (Conalcam) – não deixam dúvidas.

MAIS INCLUSÃO SOCIAL E IGUALDADE - Será um Estado marcado por mais inclusão social e igualdade entre os povos; por um papel predominante e determinante na economia (a ênfase é a industrialização dos recursos naturais: gás, petróleo, lítio, etc); pelo combate à corrupção; pela modernização das leis que regem os sistemas judicial e eleitoral; e pela institucionalização dos chamados estatutos autonômicos, inclusive indígenas.

Tudo isso já está chancelado na nova Constituição Política do Estado (CPE), aprovada em referendo popular com 62% dos votos, em janeiro/2009 – fato inédito na história da Bolívia e raríssimo na história das Américas. O problema era que a maioria direitista no Senado engavetava os projetos visando a regulamentação dos dispositivos constitucionais (alguma similitude com o congresso brasileiro emperrando a aplicação da nossa Constituição “cidadã” de 1988?).

Os comentaristas políticos falam de 100 a 200 projetos de lei enterrados lá pelo Senado. O mais notório deles propõe uma luta radical contra a corrupção, a chamada Lei Marcelo Quiroga Santa Cruz - em homenagem ao líder socialista que foi assassinado em 1980, num massacre de uma dezena de políticos de esquerda quando da implantação da ditadura militar de Luis García Meza, atualmente enfermo e cumprindo pena de prisão em La Paz.

(O atual presidente do Senado, Óscar Ortiz, do departamento – estado - de Santa Cruz, ficou muito conhecido por sua liderança na reação ao “proceso de cambio” e, claro, pelo engavetamento dos projetos considerados progressistas. Castigo exemplar das urnas: não foi reeleito).

O GOVERNO DE EVO TEM PRESSA - E o governo tem pressa em discutir e aprovar as novas leis na Assembleia Legislativa Plurinacional, novo nome do congresso a partir da legislatura a ser iniciada em janeiro/2010 (este “plurinacional” tem razão de ser: a Bolívia agora, oficialmente, é composta por 36 povos, incluídas aí as várias nações indígenas).

Parece exagero, mas na segunda-feira, dia 7 – dia seguinte às eleições, com festa da vitória entrando pela madrugada – Evo Morales reuniu seu ministério ampliado (ministros, vice-ministros e dirigentes das empresas estatais) para começar a decidir sobre os projetos prioritários a serem encaminhados ao novo congresso.

Já se discute um amplo pacote de leis. As que ganharam mais repercussão nos meios de comunicação foram as que se referem ao combate à corrupção, como a que faculta a investigação de grandes fortunas e a que ameaça acabar com o sigilo bancário para políticos, ocupantes e ex-ocupantes de cargos públicos (durante a campanha eleitoral, Evo e Álvaro Linera fizeram divulgar comunicado aos órgãos pertinentes da área financeira abrindo mão do seu, deles, sigilo bancário. E desafiaram os candidatos da oposição a fazerem o mesmo. mas estes desconversaram e esqueceram o incômodo assunto).

QUE TAL VOTAR EM GILMAR MENDES? - Estão na pauta vários outros projetos, como a reformulação da previdência social, incluindo aumento no valor dos proventos e pensões; universalização da assistência à saúde; reforma educacional; funcionamento do próprio congresso; reforma do sistema eleitoral (por exemplo, ampliar a participação dos bolivianos residentes no exterior nas eleições), etc, etc, tudo nos marcos da nova Constituição.

Um tema que vai incendiar mentes e corações será a modernização do sistema judicial. Ele está incluído na nova legislação prevista para aprovação nos primeiros 180 dias de atuação do novo congresso, conforme determina a nova Carta Magna. Um detalhe lembrado pela senadora eleita por La Paz (o MAS elegeu todos os quatro senadores do departamento de La Paz), Ana María Romero, cotada para presidir o Senado: a nova Constituição diz que os magistrados do Tribunal Constitucional devem ser eleitos pela população (já imaginou o nosso presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, sendo submetido ao crivo dos eleitores brasileiros?).

Toda essa expectativa deixa os oposicionistas com pedras na mão. O mínimo que dizem é vaticinarem o enterro definitivo da democracia e tacharem o presidente de ditador, de totalitário. Que fazer? A maioria no congresso parece assombrar a baqueada direita boliviana e acender o entusiasmo da esquerda. O analista político Gonzalo Trigoso exalta o momento histórico vivido por seu país e decreta: o povo boliviano deu um cheque em branco a Evo Morales.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Evo festeja a grande vitória

(Fotos do site http://www.abi.bo/)





De La Paz (Bolívia) – A Corte Nacional Eleitoral (CNE) não divulgou à noite nenhum número da apuração dos votos da eleição de ontem, dia 6, mas as pesquisas de boca-de-urna e a festa dos partidários do presidente Evo Morales apontam para uma grande vitória do Movimento Ao Socialismo (MAS), que incluiria a obtenção da maioria de 2/3 do congresso, a meta principal do governo.

Evo, cuja reeleição nunca foi posta em dúvida, aparece nas sondagens de boca-de-urna sempre acima dos 60% de intenção de votos, enquanto Manfred Reyes Villa, do Plano Progresso para Bolívia – Convergência Nacional (PPB-CN), se mantém em pouco mais de 20%, e Samuel Doria Medina, da Unidade Nacional (UN), na faixa dos 10%.

Ainda segundo a boca-de-urna, o presidente e seu “proceso de cambio” (mudança) conseguem finalmente penetrar e neutralizar o antigo reduto da direita, os quatro departamentos (estados) do oriente, a chamada Meia Lua (ou Nação Camba) – Santa Cruz, Pando, Beni e Tarija -, onde no ano passado houve a tentativa de separatismo e golpe de Estado. As pesquisas indicam que Evo ainda perde nos três primeiros, mas por diferenças pequenas, e já ganha no quarto.

MAIORIA DE 2/3 NO SENADO - Tanto assim que os massistas preveem dividir as vagas (são quatro por cada departamento) no Senado com a oposição nos quatro departamentos (na noite do domingo, dois candidatos de Santa Cruz do MAS deram entrevista numa emissora de TV já falando como senadores eleitos).

Ao discursar na festa que entrou pela madrugada de hoje, dia 7, o ex-líder sindical dos cocaleiros deixou claro a certeza de que vai chegar ou ultrapassar os 2/3 no Senado, onde o MAS teve que amargar uma minoria nos quatro anos de governo. Pelas contas de Evo, que citou um a um todos os nove departamentos, os governistas vão ocupar, no mínimo, 26 das 36 vagas. Nos demais cinco departamentos, segundo suas palavras, o MAS só deixa escapar duas vagas: vai eleger três senadores em Chuquisaca e Cochabamba, e todos os quatro em Oruro, Potosí e La Paz (o departamento, onde está a cidade de La Paz e a de El Alto).

De fato, nestes três últimos departamentos, as pesquisas de boca-de-urna apontam triunfo esmagador do MAS, assim, a grosso modo, na base de uns 70% contra uns 20% para dividir com os demais sete candidatos (na verdade, para o segundo e terceiro colocados, pois os demais cinco candidatos têm votação inexpressiva). A senadora eleita por La Paz, Ana Maria Romero, comentou que o governo vai eleger também todos os deputados do departamento (devem ser mais de 20 dos 130 que vão compor a Câmara dos Deputados, onde os massistas já têm maioria).

A grande vitória da Revolução Democrática e Cultural, como é chamado o processo de mudanças na Bolívia, não se delineou apenas nos números citados por Evo Morales quanto à futura composição do Senado. Estava também no sentido geral de seu discurso, aplaudido a todo momento pelos entusiásticos seguidores que lotavam a Praça Murillo, onde fica o Palácio do Governo (“Palacio Quemado”) e a sede do congresso.

CAMINHO ABERTO PARA AS MUDANÇAS - Ele falou do balcão do palácio. Disse que agora o governo tem o “caminho aberto” para aprofundar as mudanças no país em benefício do povo boliviano, dando, mais uma vez, as boas-vindas aos profissionais, intelectuais e setores da classe média que se somaram ao “proceso de cambio”. E, também mais uma vez, destacou as virtudes do seu programa de governo para os próximos cinco anos (com ênfase na industrialização) e seus vínculos com os movimentos sociais.

Terminou com vivas à Central Obreira Boliviana (COB) e à Conalcam (Coordenação Nacional para o Cambio). E o grito de guerra “Pátria ou Morte!”, com a resposta da multidão: “Venceremos!” Logo em seguida, o grupo Kollamarka (toca músicas folclóricas nacionais) atacou com uma tal de “Morenada”, canção que parece conhecidíssima por aqui, e os massistas caíram na festa, inclusive as autoridades lá do balcão do palácio.

A ANIMAÇÃO, PORÉM, ESTAVA CÁ NA PRAÇA: fogos de artifício, bandeiras do MAS (predominância da cor azul), ou com as cores da bandeira nacional (vermelho, amarelo e verde), ou as “wiphalas” do movimento indígena (com quadradinhos coloridos, foto), cartazes exaltando o socialismo, retratos do Che, bonecos dançantes e muita alegria depois de um dia de uma eleição marcada por grande comparecimento às urnas (não sei ainda os índices). Depois, muitas das autoridades, incluindo o vice-presidente Álvaro García Linera (reeleito), desceram para a praça e entraram diretamente na dança.

(Topei, na multidão, com o ministro de Relações Exteriores, David Choquehuanca , que participou muito animadamente da festa, e tentei aproveitar a oportunidade. Mostrei meu crachá fornecido pela Corte Nacional Eleitoral e perguntei: “Ministro, está garantida mesmo a maioria de 2/3?” Ele escorregou, disse: “Amanhã, amanhã vai ser divulgado”).

(Manchete de hoje, dia 7, da primeira página do jornal La Razón, considerado o mais lido da Bolívia: “Reeleito e com mais poder”, sustentada pelo texto: “Pela primeira vez nos 27 anos de democracia, o presidente Evo Morales é reeleito através do voto cidadão (62,5%) e obtém o controle da Assembleia Legislativa Plurinacional” (congresso). Destaques: “O MAS consegue 24 senadores e 84 deputados. Podem ser mais”; “Evo se sente obrigado a acelerar o ‘proceso de cambio’”; “Manfred e Samuel, 5 anos mais na trincheira da oposição”; “Os observadores destacam a transparência da eleição”).

O equilíbrio das "cholitas"




Acrescentei em comentário no texto A fogueira dos insurgentes que estive em El Alto, na mega-concentração do MAS, e me chamou a atenção a quantidade imensa de “cholitas” – as típicas indígenas, mestiças bolivianas, com saias rodadas, chales coloridos e aqueles chapéus redondos na cabeça (ficam quase soltos, não sei como não caem a todo momento, cheguei a perguntar um dia se são amarrados, assim como o de Indiana Jones, mas não são). E outro detalhe curioso: muitas com o filho amarrado às costas.


Como havia prometido, aí estão algumas fotos.
















quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A fogueira dos insurgentes

De La Paz (Bolívia) - Na matéria “Onde erramos? (ficcao e realidade), falei na talvez última tentativa da direita em tentar reduzir o tamanho do triunfo de Evo Morales e seu “proceso de cambio” (mudança) nas eleições de domingo próximo, dia 6. Foi através da Corte Nacional Eleitoral (CNE), que fez uma espécie de depuração nos 5,1 milhões de eleitores inscritos, colocando 400 mil na condição de “observados”, cujos registros no novo padrão chamado biométrico teriam indícios de irregularidades na documentação. Então, foi dado o prazo até o dia 3 para que os “observados” comprovassem sua habilitação ao voto no dia 6. Tal decisão da CNE ocorreu faltando uns 15 dias para o pleito. Falei que no sábado, dia 28, 93 mil dos 400 mil já tinham regularizado sua situação.

Esta posição da CNE, que foi aplaudida pela oposição, provocou uma reação fortíssima do governo: o próprio Evo, que não usa malabarismos verbais para dourar ataques aos adversários - fala direto como fala o povo -, chegou a dizer que Antonio Costas, o presidente da CNE, é o verdadeiro chefe de campanha da oposição; o Cambio, jornal estatal, fez um editorial tachando a atitude da Corte de “genocídio político”, uma tentativa de matar a cidadania de 400 mil bolivianos.

E aqui, ao contrário do Brasil, quando você fala de reação do governo, você está falando de reação dos movimentos sociais, dos indígenas/campesinos, dos “obreros” (obreiros, operários, mineiros, trabalhadores). Para quem tem olhos habituados à pasmaceira social brasileira, é de certo modo inacreditável (não quero desmerecer os esforços dos movimentos sociais do Brasil – os méritos do nosso MST, por exemplo, são reconhecidos internacionalmente -, mas em termos de capacidade de mobilização (de “convocatória”, como dizem por aqui), a diferença é imensa. Na minha modesta opinião, como dizem os argumentadores mais jeitosos, está aí a chave do êxito do processo revolucionário na Bolívia atual, ao contrário do jogo deprimente da política de elite no Brasil, por exemplo. Não se sente o cheiro de povo na política brasileira, no que pese – tento não ser injusto – um certo diferencial e relativo sucesso do nosso presidente Lula).

Mas voltando, ia me perdendo na digressão:
Os movimentos sociais se mobilizaram e os “observados”, os eleitores que seriam excluídos (era muita gente para ser habilitada em tão pouco tempo), correram para as filas, sobrecarregaram as linhas telefônicas da CNE: queriam porque queriam votar no dia 6.

Atenção: falei que no sábado, dia 28, já eram 93 mil os “observados” habilitados a votar. Pois, na segunda, dia 30, o número dos habilitados já chegava a 274 mil, em torno de 68% dos 400 mil “observados”.

Desfecho: na terça-feira, dia primeiro, pela manhã, a CNE decidiu revogar sua decisão: não há mais “observados”, todos estão habilitados a votar no dia 6.

Ouvi a notícia na TV por volta das 13:30 horas do mesmo dia primeiro. Logo em seguida fui à sede central da Corte (para me credenciar a cobrir as eleições e a contagem dos votos). A rua em frente ao prédio da CNE estava cheia de indígenas (uns 300), com aqueles ponchos (é assim mesmo o nome? aquelas mantas coloridas) e chapéus característicos, uma grande faixa de uma federação campesina. Gritavam: “Qué queremos, carajo?” Respondiam: “Habilitación”.

Perguntei a uma policial: “Mas a Corte não já decidiu habilitar todo mundo?” Ela me respondeu: “É, mas eles não sabem ainda”. Minha impressão é que “eles” (a grande massa do que poderíamos chamar de insurgentes populares, a maioria pobre) não querem nem saber, não acreditam no que divulgam os meios de comunicação.

À noite, vi na TV que os manifestantes, no final, lá mesmo em frente ao portão da Corte Nacional Eleitoral, fizeram uma fogueira com as listas distribuídas pela CNE contendo os nomes dos 400 mil “observados”.

(Manchete de primeira página de hoje, quarta-feira, dia 2, do jornal La Razón, considerado o de maior circulação da Bolívia: “Fim da incerteza; todos os observados podem votar”. Destaques: “Antonio Costas diz que a pressão não foi fator decisivo”; “O governo valoriza a decisão e manda uma advertência à CNE”; “A oposição duvida da transparência nas eleições”.

Observação minha: uns 300 observadores internacionais acompanham o pleito, a maioria da União Européia (UE) e Organização dos Estados Americanos (OEA). Até agora, nenhum levantou qualquer suspeita quanto à lisura do processo).

(Escrevi isso aí pensando em botar nos comentários do meu blog. Ao acabar, porém, gostei da coisa e decidi: vou arranjar um título e pedir à minha querida e desprendida editora – me sinto importante quando falo “minha editora” – para postar como matéria).

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Adversários de Evo têm péssima folha-corrida


Foto publicada pela Agência Boliviana de Informação ( http://www.abi.bo/#) , domingo passado (29 /11), em que o Presidente Evo Morales, encerra a Campanha Política na cidade de Llallagua ( Potosí) .


De La Paz (Bolívia) - O presidente Evo Morales Ayma, cuja reeleição no próximo domingo, dia 6, é considerada certa, tem como principais adversários uma dupla que exibe uma biografia barra-pesada: Manfred Reyes Villa e Leopoldo Fernández, candidatos a presidente e vice pelo Plano para Progresso da Bolívia – Convergência Nacional (PPB-CN).



Manfred Reyes e Leopoldo Fernández

Manfred continua em segundo lugar na última pesquisa da Ipsos Apoyo, Opinión y Mercado, divulgada a sete dias do pleito, com 18% das intenções de voto, enquanto Evo está com 55% (o governo diz que suas pesquisas apontam Evo com 67% a 70%). O destino mais provável de Manfred, portanto, não é ser presidente, mas sim ir para a prisão ou fugir do país, como prevê gente do governo. Ele é ex-prefeito (cargo que corresponde a governador no Brasil) de Cochabamba, foi reprovado no referendo revogatório de 2008 (o mesmo em que Evo foi confirmado como presidente com 67% dos votos).

Responde a processo por corrupção, fez parte do governo neoliberal de Gonzalo Sánchez de Lozada e é acusado de participação (é militar) no massacre de uma dezena de políticos de esquerda em 1980, dentre eles o líder socialista Marcelo Quiroga Santa Cruz. Foi na época da ditadura de Luis García Meza, que atualmente cumpre pena de prisão em La Paz.

UM CANDIDATO ATRÁS DAS GRADES - Leopoldo Fernández já está atrás das grades. É ex-prefeito de Pando (um dos quatro departamentos da chamada Meia Lua – chamam também Oriente e Nação Camba). Está preso, preventivamente, respondendo a processo como acusado inclusive de genocídio, no caso do massacre dos indígenas/camponeses em setembro/2008, quando da tentativa do golpe separatista.


Samuel Doria Medina
O terceiro na pesquisa, com 10%, é Samuel Doria Medina, grande empresário do ramo do cimento. Seu partido chama-se Unidade Nacional (UN). Ele e Manfred vivem defendendo a renúncia do outro, alegando que com uma só candidatura Evo teria um adversário mais competitivo e se poderia buscar um segundo turno. Mas cada um rechaça a proposta do outro. Além dos três, há mais cinco candidatos a presidente, os quais são mencionados muito raramente devido à inexpressividade eleitoral.

O vice-presidente de Evo, o professor e intelectual Álvaro García Linera, é também candidato à reeleição. Ele tem uma vida marcada pela militância de esquerda, sempre ligado aos movimentos indígenas, sendo autor de livros neste sentido. Foi preso político durante seis anos. O vice aqui, ao contrário do que ocorre no Brasil, tem ampla atuação política e administrativa. É, inclusive, encarregado de presidir o congresso.

DE OLHO NA MAIORIA DO CONGRESSO - Além do presidente e do vice, os cerca de cinco milhões de eleitores bolivianos vão escolher ainda os 166 membros do congresso. E uma parte desses eleitores vai decidir se aceita ou não a autonomia de cinco departamentos (estados), de uma região e de 12 municípios.




A grande expectativa do dia 6 de dezembro é a composição do congresso, já que o governo se empenha para conseguir uma maioria de 2/3, o que é encarado como fundamental para desatar os nós institucionais que ainda atrapalham o chamado "proceso de cambio" (processo de mudança). São 130 deputados e 36 senadores, quatro por cada um dos nove departamentos. Atualmente o governo tem maioria na Câmara dos Deputados, mas é minoria no Senado, onde a oposição consegue travar muitos projetos. O congresso passará a chamar-se Assembleia Legislativa Plurinacional, de acordo com a nova Constituição aprovada em janeiro deste ano.

AUTONOMIAS TAMBÉM EM JOGO – Quanto ao voto pelo Sim ou pelo Não, no capítulo das autonomias, são três tipos no caso deste pleito:
1 – Autonomia departamental - A consulta se dará nos departamentos de La Paz (o estado onde fica a cidade sede do governo tem o mesmo nome, La Paz – digo sede do governo porque, oficialmente, a capital do país é Sucre), Cochabamba, Potosí, Chuquisaca e Oruro. Nos outros quatro, da Meia Lua, Santa Cruz, Tarija, Pando e Beni, já houve tal consulta no ano passado, na ocasião da briga separatista.

Agora, nos moldes da nova Constituição, os estatutos autonômicos desses quatro departamentos terão que ser adequados. Significa que deverão ser adaptados aos princípios constitucionais, cuja receita básica é unidade e cooperação. Lembremos que tais estatutos foram elaborados sob a égide do separatismo, uma orientação totalmente diversa da atual (justamente por isso agora o governo de Evo Morales faz campanha em favor da autonomia).

2 – Autonomia regional – A consulta se refere apenas à província de Gran Chaco, do departamento de Tarija (aqui, além dos departamentos e municípios, há províncias e cantões).

3 – Autonomia municipal – Somente para os habitantes de 12 dos 327 municípios bolivianos. O eleitor vai dizer se aceita que seu município entre "no regime de autonomia indígena originário camponesa" (não sei exatamente o que isso quer dizer).

O que significa optar pela autonomia? De modo geral, significa que o departamento (ou a província, ou o município) terá mais liberdade administrativa e financeira, uma forma de descentralização - o governo federal e o congresso transferem atribuições aos governos locais.

(ENCERRAMENTO DA CAMPANHA - Evo Morales e Álvaro Linera estão na fase de grandes concentrações para encerrar a campanha eleitoral. As duas últimas serão em locais de forte simbologia: na quarta-feira, dia 2, será em Santa Cruz de la Sierra (capital de Santa Cruz), que foi (ou é, vamos ver o resultado da eleição) a grande trincheira da direita; e na quinta, dia 3, em El Alto, a cidade de um milhão de habitantes que é, de fato, um grande subúrbio de La Paz e a combativa vanguarda da Revolução Democrática e Cultural, como é chamado o processo revolucionário da Bolívia).