sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

CARTA DE NOTÍCIAS AMENAS


video
Minha querida amiga, desde os bons ares da capital argentina, te saúdo nesta carta de notícias amenas, pois sei que não curte papo de política, revolução socialista, democracia participativa, mobilização popular, essas coisas das quais tenho falado neste meu Evidentemente e que tanto me animam. Sei que muitas das matérias você lê mais por consideração, mas tudo bem.


Sob os eflúvios da beberagem de logo mais, supostamente em homenagem ao Ano Novo, posso até te surpreender avisando que tenho uns passeios turísticos programados, sinal de que terei assunto para nossas conversas. Posso inclusive “bailar” uns tangos qualquer dia desses, aguarde (por enquanto, vai aí junto um vídeo com exibição de tango na Rua Lavalle, centro da cidade, gravei para o blog Pilha Pura – www.pilhapuradejoaninha.blogspot.com ).


O Obelisco, com os ornamentos de Natal e Ano Novo, marca o cruzamento das
tradicionais avenidas 9 de Julho e Corrientes, na área central da capital portenha
Vista noturna da Casa Rosada, palácio do governo federal, na Praça de Maio
Parte da Praça do Congresso, tendo ao fundo o prédio do Congresso Nacional
Amiga, Buenos Aires é uma cidade grandiosa, cosmopolita, mesmo a gente vindo da nossa mega-metrópole São Paulo, dá pra sentir o impacto. (Tem apenas quase três milhões de habitantes, mas juntando com a Grande Buenos Aires e a província, estado, de Buenos Aires, a população representa um terço dos 40 milhões do país). Suas ruas e avenidas são imensas, com traçado simétrico, algumas bem largas, um número impressionante de livrarias, teatros, cafés, restaurantes.


Falar em restaurante, a coisa mais cara aqui, para meus modestos padrões, é almoço. Não tem o popular “a quilo” (“por quilo”, como eles dizem aqui), encontrei um, que fica realmente barato, mas você tem que levar para comer em casa ou comer na rua ou num cantinho sem qualquer conforto. Aluguel de apartamento é mais barato, ônibus e metrô são baratíssimos. Andei tomando uns uísques bem caros, mas agora já tenho pontos com preços equivalentes aos de São Paulo e Curitiba, achei um Jack Daniel’s mais barato do que no Rio Vermelho, em Salvador. Cotação do peso argentino: 1 dólar vale 4 pesos e 1 real vale 2,2 pesos.


Minha amiga, os argentinos têm uma certa fama de machões, sei que não tem nada a ver, mas os amigos homens se cumprimentam com um beijo no rosto, somente um (como fazemos aí no Brasil entre homens e mulheres, sendo que aí são dois beijos; aqui, entre homens e mulheres, também é apenas um beijo; na Europa, são três, não é isso?).


El viejo del bosque perdido
A cultura aqui parece ser impregnada de tango e Carlos Gardel. Notei um dito popular expressivo quanto a isso. Vou dar o exemplo: Ricardo Alfonsín é filho do ex-presidente Raúl Alfonsín, quer ser candidato a presidente da República e quando discursa ou se apresenta em público faz tudo pra imitar o pai. Então, um adversário político para criticá-lo, diz assim: “Ele se veste como Gardel, se penteia como Gardel, mas não canta como Gardel”.


Bem, querida e discreta amiga, prometo te escrever mais, apesar da minha pauta por aqui estar sempre lotada de “protestas” e “marchas” pelas ruas. Mando umas fotos da cidade e uma especial nomeada “El viejo del bosque perdido”, sobre a qual falei no Pilha Pura, dê uma espiada lá. Beijo, muita saudade.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

VÍDEO: PARTIDO OPERÁRIO NAS RUAS CONTRA A TERCEIRIZAÇÃO

video
De Buenos Aires (Argentina) - Depois de uma concentração na Praça de Maio, no final da tarde de terça-feira, dia 28, a militância do Partido Operário (PO - Partido Obrero) desfila pela Avenida de Maio. O partido luta contra a terceirização na área dos ferroviários, cuja luta resultou no assassinato do militante Mariano Ferreyra em 20 de outubro último. Sete pessoas ligadas à burocracia sindical da União Ferroviária estão presas como autores materiais do crime. Cerca de mil terceirizados já foram contratados, através de negociações com o Ministério do Trabalho, mas há uma controvérsia entre o PO e o governo federal para a contratação de mais 60 pessoas.

Devido à lista desses 60 houve mais manifestações, acusações de parte a parte e choques, resultando em dois militantes do PO presos na semana passada, soltos logo depois e processados.

O PO é de esquerda, o que aqui significa linha trotskista (aqui usa-se muito o termo "piquetero"), é contra o governo de Cristina Kirchner (que tem o apoio de muitas organizações e partidos de centro-esquerda), não tem representação parlamentar, mas tem poder de mobilização. Acusa o governo de fazer o jogo da burocracia sindical, que é sua aliada, e cobra a punição dos responsáveis políticos pelo assassinato de Mariano, os quais estão justamente entre os dirigentes de tal burocracia, conforme aponta.

O governo, por sua vez, mostra afinidade com os Direitos Humanos, não aplica repressão violenta diante dos conflitos sociais e acusa o PO de, objetivamente, se aliar a líderes políticos da direita (como o "prefeito" da capital, Mauricio Macri, e o ex-presidente Eduardo Duhalde), os quais, segundo o governo, tentam alimentar o caos social e instigam os simpatizantes da repressão violenta contra os movimentos populares, com amplo espaço nos meios privados de comunicação.


STÉDILE: ESTAMOS NA RESISTÊNCIA PARA ACUMULAR FORÇAS


Esta semana, o Porradão de 20 entrevista João Pedro Stédile, fundador e líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra. Ele contou sua história, falou sobre a invasão do crack no campo, a relação do MST com os partidos políticos e disse que Fernando Henrique Cardoso é um político burguês medíocre.

Sem meias palavras, deixo com vocês, João Pedro Stédile.


(Nota do Evidentemente: reproduzo do sítio Porradão, de Celso Athayde, de 17/12/10 – www.celsoathayde.com.br . Fiz o título acima e as legendas das fotos, as quais são também do Porradão).


- Quem é João Pedro Stédile?

Sou um ativista social. Um militante da causa da reforma agrária e da justiça social no Brasil. Como me criei no interior, em uma família de descendentes de camponeses migrantes do norte da Itália que vieram para o Sul, tive uma formação cultural ligada a esse ambiente camponês, formada por migrantes, de vivência no interior.


Stédile: "Um novo ciclo de lutas do movimento de massas vai
 varrer para a lata de lixo da história todos os oportunistas"

- Como chegou à liderança do movimento?

Na cultura de camponeses pobres migrantes, sempre houve dois pilares na formação dos seus filhos: trabalho e estudo. E foi assim que consegui, desde criança, com muito trabalho, estudar e me formei em Economia na Universidade Católica do Rio Grande do Sul. E desde cedo me envolvi nas lutas contra a ditadura militar e nas lutas sindicais camponesas na minha região de agricultores da uva. Depois me envolvi nas lutas pela terra, que deram origem ao MST, onde estou militando até hoje.

- Dizem que o MST é o movimento social mais importante do Brasil. Você não acha isso um exagero?

Claro que é exagero. Nós não gostamos de colocar adjetivos no nosso Movimento nem em ninguém. O povo desenvolve ao longo da história várias formas de luta e instrumentos de organização (seja sindicato, associações, movimentos, partidos, organizações sociais, etc.) e forja seus líderes e suas propostas.

O MST é apenas uma etapa dessa longa história da classe trabalhadora brasileira e, em particular, do campesinato pobre. Somos herdeiros das lutas e das formas de organização de outros tempos, desde os Quilombolas, as lutas messiânicas de Canudos e Contestado, e também das revoltas sociais do século 19. No século 20, somos herdeiros das Ligas Camponesas do Nordeste, das Uniões de Lavradores, que o partido comunista organizava, e do Master, organizado pela esquerda do PTB - além das várias formas de luta social que as igrejas cristãs ajudaram a organizar.

- A ligação do MST com a esquerda não é sequer assunto, a ligação direta com o PT também não. Mas a pergunta é: quando o MST vai virar um partido político formal ?

Ser de esquerda, no conceito clássico ideológico, são todas as organizações sociais que lutam por mudanças sociais, radicais, na construção de sociedades mais justas e igualitárias. Para isso, tratam de organizar o povo para lutar, pois sem luta não há mudança social. Por isso, quem apenas defende ideias, sozinho, sem se preocupar com organizar o povo, acaba sendo idealista, individualista apenas. Por mais que pense que é de esquerda...

Por isso, o MST é de esquerda. Não precisa se vincular com ninguém, já é de esquerda. Existe no Brasil muita confusão, preconceito e ignorância, em relação às diferentes formas de organização do povo. O MST é de esquerda e ajuda a organizar o povo, para conquistar terra, liberdade, direitos. Assim, construir uma sociedade mais justa, democrática e com igualdade. Essas tarefas são de qualquer organização social dos trabalhadores. Não apenas de partido.

Os partidos que defendem transformações na sociedade têm outras funções para alcançar os mesmos objetivos, que pode ser disputar cargos públicos e a hegemonia no Estado, e pode também organizar politicamente o povo, para disputar o poder político. O que falta no Brasil é os partidos terem mais clareza de suas funções e mais coerência na defesa dos interesses da classe trabalhadora. Nesses tempos de crise ideológica, os partidos são usados por pessoas, que querem apenas cargos e projeção pessoal, que são os desvios do oportunismo e do carreirismo. Mas isso será superado quando tivermos um reascenso, um novo ciclo de lutas do movimento de massas, que vai varrer para a lata de lixo da história todos esses oportunistas.

 Stédile: "A classe trabalhadora está em descenso, em um momento
 de derrota política e ideológica"
- É natural que exista desgaste na relação interna do MST pelo fato de muitos do quadro serem ligados a partidos ou correntes. Você acha isso natural ou acha que esses rachas podem ser evitados ?


No MST, há uma centralidade de que todos os seus militantes priorizem a luta pela reforma agrária. Quando alguém tem vocação ou representatividade política e resolve atuar em um partido político eleitoral, tem toda a liberdade, mas precisa sair das instâncias de direção do movimento.


Nunca tivemos problemas de dissidências ou rachas, porque houve qualquer apoio partidário, porque sempre é decidido pela maioria na base. Quanto às decisões dentro do MST, procuramos desenvolver uma metodologia, em que as decisões representam uma ampla maioria de nossa base e da militância. Quando um tema não tem ampla maioria, é preferível esperar um pouco mais e amadurecer em relação à posição. Assim garantimos a democracia da maioria em mais de 25 anos de história.

- Com a entrada do PT no governo, muitas instituições e sindicatos passaram a flexibilizar seus discursos, ou mesmo cessaram suas reivindicações. O próprio MST, apesar de ter promovido ocupações, parece-me que em número modesto. Qual a razão disso? Os movimentos foram cooptados ou contemplados?


Não acredito que os movimentos sociais foram cooptados e nem contemplados após a vitória do governo Lula. O que acontece é que estamos vivendo um período da história da luta de classes, a partir de 1990, que se caracteriza pelo descenso do movimento de massas em geral. A última greve geral foi em 1988. E o Lula ganhou em 2002.

A última grande campanha de massas no Brasil foram as “Diretas Já”. Mesmo a campanha de derrocada do Collor, em 92, foi articulada pela Globo. Não foi um legítimo movimento de massas da classe. No caso do MST, nossas ocupações não diminuíram. Basta olhar as estatísticas da UNESP. O problema é que a classe trabalhadora está em descenso, em um momento de derrota política e ideológica. Nesse quadro, as ocupações não têm o mesmo impacto do passado.

Estamos em um período de resistência, de acúmulo de forças, para que num próximo período histórico, que espero seja em breve, a classe consiga retomar a iniciativa de lutas de massa, acumular forças e partir para a ofensiva política. Nesse novo período de retomada das lutas, surgem novas formas de luta, novos instrumentos e novas lideranças. Anotem e verás!

A luta de classes acontece na forma de ondas históricas, alternando períodos de ascenso do movimento de massas (com disputas de projetos, que podem resultar em situações pré-revolucionárias) e períodos de derrota, que se formam descensos e depois períodos de resistência, para acumular para reascenso.

Agora, estamos na resistência para acumular forças.

- Durante muito tempo o MST virou moda, muitos intelectuais pregavam e reproduziam seu discurso, inclusive. Hoje o MST tem gerado ódio de muitas partes da sociedade. A que se deve isso?

O MST, como qualquer símbolo de mudanças sociais, desperta comportamentos diferentes nas diferentes classes, da mesma forma que Fidel/Cuba e Chávez/Venezuela.


O que frei Betto diz em relação a Cuba se aplica ao MST: comparando o paraíso, purgatório e inferno. Para a burguesia brasileira, o MST é o inferno, nos odeiam, nos chamam de bandidos e pregam a cadeia para os sem-terra.

Para a classe média brasileira, como sempre, em cima do muro, eles dizem que concordam com a democratização da terra, com a reforma agrária, mas discordam dos métodos do MST, que consideram violentos - como se esperar em casa sentado fosse solução. A classe média tem medo de quem se mobiliza, porque ela é o símbolo do individualismo. E ela consegue resolver sozinha qualquer problema social, apenas porque ganha bem. A classe média nos vê como um purgatório necessário na análise do frei Betto.

Já para a classe trabalhadora e para os pobres, o MST é um símbolo positivo, de organização, força e coragem. O MST só existe porque os trabalhadores, os pobres, e suas formas de organização nos apoiam e sustentam. Portanto, para eles nós somos a solução, o paraíso. E por isso nos ajudam e nos admiram. E claro, os intelectuais identificados com as ideias da esquerda também nos defendem e nos ajudam. Os partidos e formas de organização autênticos da classe trabalhadora também. Nós podemos perceber, inclusive, agora nas eleições. Os candidatos claramente identificados com o MST foram muito bem votados, e elegemos uma boa bancada.


Tem um lado positivo quando o Serra ridiculariza o nosso boné e nos ameaça. Isso ajudou os trabalhadores a entender que o papel da burguesia era demonizar o MST. Se o MST é o demônio para a burguesia, com sinal trocado, será o anjo para os trabalhadores pobres.


Claro que com isso o Serra ganhou os votos dos latifundiários, do agronegócio, como aparece claramente no mapa geográfico. Mas a Dilma aumentou seu apoio entre os trabalhadores e os sem-terra. A opinião sobre o MST não tem relação com nossos méritos ou pecados, mas dependerá da posição de classe, de quem nos julga. E assim acontece o mesmo quando há lutas sociais nas favelas e com a juventude pobre. A burguesia e sua imprensa odeia, demoniza. Já os pobres gostam.


- Apesar de você sustentar que a luta pela reforma agrária se dá no campo, a cada dia o MST tem cada vez mais se articulado com os movimentos da cidade. Vocês foram empurrados para essa lógica ou mudaram a estratégia?

Claro. O capital é que nos empurrou para essa lógica e criou uma consciência de classe entre os camponeses pobres, que ainda não tinham. Por que? Antigamente quem era dono das terras eram os latifundiários, coronéis do interior. Mesmo no Ceará, quem era dono das terras? Meia dúzia de coronéis do sertão, que moravam lá inclusive. Hoje quem é dono das melhores terras do Ceará? Os grupos econômicos, os Jereissatis da vida, as empresas de camarão, de irrigação, ligadas ao capital estrangeiro. A agricultura brasileira foi tomada pelo grande capital.

Mais do que nunca, agora a luta pela reforma agrária é uma luta pela disputa do território, da democratização da terra, enfrentando as grandes empresas e seus bancos. E ao mesmo tempo é uma disputa entre dois modelos de produção agrícola. O modelo predador do agronegócio, que expulsa mão-de-obra, usa máquinas, venenos e sementes transgênicas para ganhar dinheiro exportando, e de outro lado o modelo de agricultura familiar camponesa, para produzir com técnicas agroecológicas, os alimentos para o mercado interno.

Nessa luta, os camponeses sozinhos não têm força para derrotar a força do capital. Só com uma grande aliança entre todas as forças sociais e todas as formas de lutas populares, poderemos construir outro modelo econômico na sociedade e no meio rural.

Daí a necessidade de uma grande aliança de classe, entre todos os trabalhadores brasileiros, todos os pobres e excluídos. Todos juntos contra o capital, em especial as empresas transnacionais e os bancos, que são os grandes espoliadores capitalistas do momento.

Stédile: "A mídia se transformou no principal instrumento de
dominação ideológica, de reprodução das ideias da burguesia
na sociedade"
- Durante alguns anos o MST foi inspiração como força de esquerda, hoje alguns agrupamentos políticos já tacham o movimento de chapa branca, apêndice do governo e reformista. Você concorda em parte?


Os julgamentos do MST não têm ligação com a nossa política, mas mudam de acordo com a visão e posição de classe de quem nos julga. Muitos setores pequeno-burgueses, de vertente ideológica trotskista, nos chamam de chapa branca... É muito fácil fazer isso nos bares, em artigos de internet, em debates políticos de salão ou nas universidades.

Mas perguntamos a eles: quantos sindicatos de trabalhadores vocês organizaram? Quantas lutas sociais organizaram? Quantos votos, enfim, conseguiram ter entre os trabalhadores?

Em nossas lutas, ocupações de terra e caminhadas e nos enfrentamentos que temos tido com as empresas transnacionais, nunca vemos esses "nobres revolucionários", que devem estar muito ocupados com a luta interna e criticando os outros.

Aliás, na história já temos muitos exemplos desse tipo de comportamento, que são muito radicais na teoria e depois quando alcançam algum cargo público, ou oportunidade de poder, se transformam...

E quando as críticas são apenas ideológicas, eles têm todo direito de fazê-las, mas saibam que não estamos nem um pouco preocupados... Estamos preocupados em seguir o nosso trabalho de organizar o povo, de organizar luta social, para construir uma sociedade com democracia e igualdade. A história dirá quem contribuirá melhor para esse processo.

- Por várias vezes o MST tomou atitude de ação direta, como invadir laboratórios, queimar plantações, fechar rodovias, etc. Na sua opinião em que isso contribui para educar e sensibilizar politicamente a população sobre esse tema que é sua bandeira ?

Essas formas de lutas sociais de protesto mais contundente são fruto do amadurecimento da percepção de quem são os nossos verdadeiros inimigos e de como agem. A partir dessa análise, as bases tomam essas decisões de protestar de forma veemente.

O objetivo desses protestos é denunciar para a sociedade o mal que essas empresas causam para o meio ambiente, para o povo, e que seus interesses são apenas o lucro.

Às vezes, a população não consegue entender na hora, porque as empresas reagem usando toda sua força nos meios de comunicação de massa, que controlam, para jogar a população contra os trabalhadores, mas depois o povo vai se dando conta.


- Quais símbolos brasileiros você considera os inimigos do MST ?

Os inimigos do MST são os inimigos do povo brasileiro. Hoje as principais classes espoliadoras do povo brasileiro são os banqueiros, as empresas transnacionais, grandes empresas brasileiras espoliadoras e os latifundiários. E, naturalmente, essas classes têm suas formas de organização política, de classe e seus representantes partidários. Na última eleição, o Serra foi seu representante máximo. Esses inimigos alimentam também os setores mais reacionários ideologicamente para tentar manipular o povo, com o conservadorismo religioso, a Opus Dei, a TFP e as articulações dos fazendeiros.

Também seus defensores na mídia e seus jornalistas de aluguel, que ganham fortunas para mentir todos os dias e vender ilusões para o povo. Esses são os inimigos do povo e do MST, que vão se opor a qualquer possibilidade de construção de uma sociedade sem pobreza e sem desigualdade social, para que continuem concentrando a propriedade das fábricas, do dinheiro, das terras, dos bens da natureza e da mídia cada vez mais.

- Um dia assistindo o programa Globo Ecologia, Rede Globo, vi uma matéria sobre agricultura familiar em assentamentos do MST, e em uma de suas palestras, você acusou a mídia de defender o agronegócio e o latifúndio. Qual sua visão sobre a mídia no Brasil?

A mídia se transformou no principal instrumento de dominação ideológica, de reprodução das ideias da burguesia na sociedade e de fazer a luta de classes. A mídia no Brasil está concentrada em seis ou sete grupos econômicos, que além de visar o lucro, constroem a hegemonia completa da burguesia. Para isso, usam esse instrumento contra os trabalhadores, contra qualquer luta social, contra qualquer problema, contra as lideranças dos trabalhadores. Por outro lado, protegem os interesses do capital e de seus líderes.

Na ultima eleição, não só foi clara essa postura, como foi vergonhoso o papel da mídia, de tanta hipocrisia e o cinismo. Depois que a Dilma ganhou, correram para puxar seu saco, pensando nas benesses do poder e nas verbas de publicidade do Governo Federal. Independente disso, seguirão com sua sanha de combater diariamente todas as formas de organização e de luta social.

- O mundo do campo tem valores e símbolos próprios, como está sendo lidar com uma nova geração jovem que chega ao movimento trazendo questões, como homossexualidade, drogas, estéticas e valores diferentes dos tradicionais da base social do movimento?


O mundo rural, embora definido territorialmente, está cada vez mais urbanizado, no sentido de valores e da cultura, influenciado pela televisão e pela sociedade em geral.

Com isso, todas as questões sociais que acontecem na cidade também acontecem no campo. Mas acho que no campo podemos compreender e enfrentar melhor algumas questões com a participação mais ativa das famílias da comunidade, criando oportunidades para que os jovens possam estudar.

- O MST faz alguma coisa para que os jovens do campo tenham as mesmas oportunidades as quais os jovens têm acesso?

O MST vem se esforçando para criar oportunidades para que os jovens do campo estudem em todos os níveis e, sobretudo, tenham acesso à universidade. Nós temos convênios com mais de 40 universidades em todo o país e mais de três mil militantes jovens estão fazendo curso superior.

- O crack está prometendo devastar o Brasil e já chegou no campo com certa força. O MST tem projeto ou pensa em forma de evitar que o crack avance nessa região?

Felizmente, não chegou ao campo com a mesma abrangência da cidade. Estamos muito preocupados e pensamos em nos articular com os movimentos sociais da cidade para desenvolvermos uma grande campanha nacional contra as drogas e contra o crack para salvar nossos jovens.

Stédile: "Faltam ainda mudanças estruturais na nossa sociedade,
 que somente serão feitas combinando a disputa institucional
 com as lutas de massa"

- Há pouco tempo o MST encarou uma CPI que prometia destruir o movimento. Considerando que muitas outras foram abertas, você acha esse pedido natural?


Durante os oito anos do governo Lula, a direita parlamentar montou três CPIs contra o nosso movimento. A primeira era para analisar os problemas da terra, mas se voltou só contra os sem-terra. A segunda era para analisar as ONGs que atuam na Amazônia, e quebraram todos os sigilos bancários, fiscais, telefônicos e de internet de todas as entidades da Reforma Agrária. Por último, por conta do protesto na Cutrale, montaram mais um circo para investigar o MST.

São armadilhas, artimanhas da burguesia, que usa o Judiciário, o Parlamento e mídia para tentar criminalizar a luta social. Já fizeram de tudo para destruir o MST. Mas não conseguiram e não conseguirão, porque a nossa luta é justa e necessária. Se os latifundiários e seus parlamentares reacionários quiserem acabar com o MST, basta fazer a reforma agrária. Distribuam a terra que o MST deixará de ser necessário. Mas enquanto houver um latifúndio no Brasil, haverá pobres, que se organizarão no MST ou em outras formas de organização.

- Com quem o MST contou de fato, para se livrar dessa CPI?


Contamos com as forças políticas de toda a sociedade brasileira, como as igrejas, artistas, intelectuais, com seus artigos, depoimentos, manifestos. E contamos com os parlamentares progressistas, de diversos partidos, como PT, PSOL, PDT, PCdoB, PV, PSB e até do PMDB, que nos ajudaram a desmontar o circo da direita reacionária.

- O José Rainha foi uma espécie de segundo homem do MST aos olhos do mundo externo. Como é sua relação com ele e qual a real razão de sua saída?

O José Rainha em determinada altura de nossa caminhada optou por trilhar um caminho próprio, com suas ideias e métodos, e se afastou do MST, criando seu próprio movimento na região do Pontal, no extremo oeste de São Paulo. Lá ele tem uma base social com muitas famílias assentadas e criou o que ele chama de “MST da Base”.

O MST não quer ter o monopólio da luta social no campo. Pelo contrário, quanto mais gente se organizar e lutar, mais rápido a reforma agrária sairá. Mas achamos que essa luta social, organizada e dirigida por diferentes formas e forças, deve ter uma unidade nacional, pois a luta de classes é nacional e até internacional. E práticas muito corporativas, localizadas, personalistas e exclusivistas não contribuem para a luta de classe.

- Comente sobre:

Lula - Um grande líder popular, que começou na luta social e ascendeu ao maior cargo institucional desse país. No governo, apesar das limitações, articulou forças sociais, que conseguiram fazer mais do que a burguesia fez em 500 anos. Mas temos que diferenciar sempre o Lula do governo Lula, que foi um governo de composição de classes e transitório. Faltam ainda mudanças estruturais na nossa sociedade, que somente serão feitas combinando a disputa institucional com as lutas de massa.


FHC - De príncipe dos sociólogos se transformou em um político burguês, medíocre, vaidoso e vende-pátria. Como disse o eminente jurista Fabio Konder Comparato, se houvesse um Poder Judiciário independente neste país, ele deveria responder nos tribunais pelas falcatruas, desde a emenda da reeleição até a venda-roubo da Vale e das privatizações-negociatas das empresas estatais, entregues ao capital estrangeiro. Triste fim, para quem se achava o cara...

Sarney - O último representante da oligarquia nordestina, que ainda tem muito poder político, não só no Maranhão e no Amapá, mas nas entranhas do Estado brasileiro.


Tarso Genro - Um grande político. Tem boa formação teórica. Sabe como as classes se comportam. Espero que possa desenvolver um governo progressista, que recupere o Estado gaúcho a serviço de todos, e não apenas dos empresários, como o governo fascista de Yeda Crusius. Certamente, a classe trabalhadora gaúcha voltará a acumular forças, na construção de uma sociedade mais democrática.

Collor - Um lúmpem-burguês, que a própria burguesia o afastou do governo, quando percebeu suas verdadeiras intenções.


Dilma - Uma esperança de que o país conseguirá não só ampliar os programas de apoio à classe trabalhadora, mas poderá construir uma nova correlação de forças, que possa fazer mudanças estruturais na sociedade brasileira. Embora não dependa dela pessoalmente, mas espero que no período de seu governo ingressemos num novo período histórico da luta social brasileira.

Marina Silva - Tem um passado honrado, mas fez alianças espúrias com os verdes capitalistas. Basta ver os financiadores de sua campanha. Espero que não se iluda com o número de votos recebidos, que foram desviados da direita ou formado por jovens desiludidos e despolitizados. A sua biografia se manterá na dimensão que ela construiu se Marina voltar a estimular as lutas sociais, como fez Chico Mendes, na defesa dos direitos dos trabalhadores, sejam sociais, ambientais ou econômicos.


José Serra - Espero que como pessoa aprenda a lição e pare de se candidatar. Como político, desempenhou o triste papel udenista de articular a burguesia brasileira com teses direitistas e reacionárias. A Madre Cristina que foi sua formadora na Ação Popular, já falecida, teria vergonha do seu papel recente.


Caetano Veloso - Parece ser um grande músico, com ideias e práticas da pequena burguesia, sempre oscilando.


Gilberto Gil - Um grande músico, gosto muito de suas canções.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

PRISÃO PERPÉTUA PARA EX-DITADOR: DIREITOS HUMANOS EM FESTA NA ARGENTINA

Jorge Rafael Videla comandou a ditadura
sangrenta de 1976 a 1981 (Foto: Reprodução)

(Reprodução da primeira página do
jornal Página 12, de 23/12/10)
De Buenos Aires (Argentina) – Após 27 anos da derrubada da última ditadura, em dezembro de 1983, as entidades e militantes dos Direitos Humanos - uma voz cada dia mais forte no país, com o apoio inclusive do governo de Cristina Kirchner - tiveram muito a comemorar: o ex-general e ex-ditador Jorge Rafael Videla, hoje com 85 anos, símbolo maior da sangrenta ditadura militar, foi condenado à prisão perpétua, a ser cumprida em cela comum. Em 1985 ele teve condenação semelhante, mas foi indultado pelo então presidente Carlos Menem em 1990.

A sentença foi lida no final da tarde desta quarta-feira, dia 22, com milhares de pessoas em concentrações festivas diante de telões em Córdoba (capital da província de Córdoba, região central do país), onde ocorreu o julgamento, e em Buenos Aires. A leitura teve transmissão ao vivo através de seis emissoras de TV. Ao final da sessão, Videla teve que escutar os gritos de “assassino... assassino... assassino...”, partidos dos assistentes na sala do tribunal, repleta de vítimas sobreviventes e familiares de sequestrados, torturados e assassinados, além de representantes da luta pelos Direitos Humanos, como as Mães e Avós da Praça de Maio (Madres e Abuelas de Plaza de Mayo) e Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz de 1980.

Lutadores pelos Direitos Humanos (Mães e Avós da Praça de Maio à frente)
e familiares de mortos e desaparecidos festejam logo em seguida à divulgação
das sentenças (Foto: Reprodução)
Junto com o ex-ditador, foram condenados à prisão perpétua mais 14 pessoas, entre elas o ex-general Luciano Benjamín Menéndez, que era comandante do III Corpo de Exército, sediado em Córdoba. Esta é a quinta prisão perpétua de Menéndez. Oito receberam penas de sete a 14 anos e sete foram absolvidos. Ao todo foram 30 militares e policiais, todos acusados de ordenar ou executar o fuzilamento de 31 presos políticos em Córdoba, logo após o golpe militar de 1976.

Mais de 100 foram condenados por crimes de lesa humanidade somente neste ano

Este foi apenas um dos julgamentos concluídos nesta semana. Houve mais três, todos envolvendo crimes de lesa humanidade praticados durante a ditadura. No dia anterior, terça-feira, dia 21, a militância pró Direitos Humanos tinha se concentrado diante dos tribunais federais da capital (Avenida Comodoro Py), para ouvir (e festejar) a leitura da sentença de um processo envolvendo 183 vítimas e 17 acusados. Os crimes - sequestro, tortura, violação, desaparecimento, assassinato e roubo de bebês – ocorreram num circuito de três centros clandestinos do I Corpo de Exército, sediado em Buenos Aires. Doze foram punidos com prisão perpétua, quatro com penas de 25 anos e um foi absolvido.

Os outros dois processos: em Mar del Plata (cidade costeira, no centro-leste), três oficiais da Marinha foram condenados à prisão perpétua; e em Salta (capital da província do mesmo nome, noroeste), três coronéis reformados do Exército tiveram pena também de prisão perpétua. Segundo dados da Procuradoria Geral da Nação divulgados nos meios de comunicação portenhos, o número de condenados este ano por crimes de lesa humanidade, cometidos durante a última ditadura (1976-1983), chega, com os casos desta semana, a pouco mais de 100. Neste ano 166 acusados foram ou estão sendo julgados. Este número vem crescendo: no ano passado 36 pessoas se sentaram no banco dos réus por atrocidades contra opositores políticos.

Militantes reuniram-se em frente ao prédio de tribunais federais em Buenos
Aires e festejaram a condenação de 16 torturadores (Foto: Jadson Oliveira)
Muitos carregavam fotos de sequestrados, desaparecidos e assassinados
pelos repressores da ditadura (Foto: Jadson Oliveira)
Daí o entusiasmo dos lutadores pelos Direitos Humanos, muitos dos quais sobreviventes e parentes de vítimas. Daí a alegria ao aplaudir, durante o acompanhamento da leitura das sentenças, toda vez que se ouve a menção à condenação. Daí também a emoção – as lágrimas nos olhos ou mesmo o choro desatado em alguns casos – manifestada por muitos ao verem o desfilar de imagens nos telões: fotos de vítimas, caras de torturadores (com o carimbo “genocida”), seus nomes e codinomes, proclamações por Memória, Verdade, Justiça.

É o que se podia observar no Festival (de música) pelo Julgamento e Castigo, em frente aos tribunais em Buenos Aires, na terça-feira. Lá estavam entidades como Mães da Praça de Maio, H.I.J.O.S. (Hijos e Hijas - Filhos e Filhas - por la Identidad y la Justicia contra el Olvido - Esquecimento - y el Silencio), La Cámpora e Juventude Sindical (as duas últimas com jovens militantes kirchneristas). Muitos levavam cartazes com a figura de Néstor Kirchner e com retratos de desaparecidos, mostrados também em broches.


VIDELA: VIGOR FÍSICO E MENTAL

O ex-ditador na bancada dos réus, tendo ao lado Luciano
Menéndez, ex-comandante do Exército em Córdoba
(Foto: Reprodução)
Jorge Rafael Videla, então comandante do Exército, liderou o golpe militar que em 24 de março de 1976 derrubou a “presidenta” Isabelita Perón. Comandou a Argentina até 1981 (a ditadura durou mais dois anos), sendo apontado como o principal responsável por um regime de terrorismo de Estado, extremamente violento, cujo saldo trágico fica patente na estimativa de 30 mil mortos e desaparecidos políticos.

Em 1985, ele foi condenado à prisão perpétua, mas ficou na cadeia por apenas cinco anos, pois foi beneficiado em 1990 por indulto concedido pelo então presidente Carlos Menem. Em 1998 voltou a ser preso, mas somente 38 dias, passando então a cumprir prisão domiciliar. Há dois anos retornou à cadeia, onde vai continuar agora com a nova sentença de prisão perpétua.

Apesar dos 85 anos, exibe vigor físico e mental. Na terça-feira, dia 21, um dia antes da leitura da sentença, leu um alentado discurso na parte das chamadas alegações finais, demonstrando lucidez, firmeza e fidelidade ideológica e política, dentro da visão comum dos ditadores latino-americanos criados pela Guerra Fria. Defendeu sua ação durante a ditadura, disse que travou não uma “guerra suja”, mas sim uma “guerra justa” contra a subversão, contra o terrorismo, contra o marxismo – guerra que ainda não acabou, advertiu -, e ainda semeou algumas polêmicas ao falar de apoios que teria tido entre políticos e a sociedade civil.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

VÍDEO: ARGENTINOS APLAUDEM CONDENAÇÃO DE TORTURADORES, EX-DITADOR DEVE TER PRISÃO PERPÉTUA

video
De Buenos Aires (Argentina) - Reforçando o áudio: a gravação foi ontem, terça-feira, dia 21, em frente ao prédio onde funcionam tribunais federais, na Avenida Comodoro Py, em torno das 19:30 horas, quando está começando a escurecer aqui na capital portenha.

Está sendo lida a sentença do julgamento de 17 acusados de sequestros, torturas, violações, assassinatos e roubos de recém-nascidos durante a ditadura (1976-1983). 12 foram condenados à prisão pertétua, quatro a 25 anos e um foi absolvido.

Ontem foi concluído outrro julgamento, em Mar del Plata, com mais três condenados à prisão pertétua. Hoje, dia 22, no final da tarde, será lida a sentença do terceiro julgamento envolvendo torturadores concluído nesta semana. Este é em Córdoba, com cerca de 30 réus, inclusive o ex-ditador Jorge Rafael Videla, o qual, de acordo com a expectativa geral, deve ser punido com prisão pertétua.

As organizações de defesa dos direitos humanos estão em festa. Os aplausos no início da gravação do vídeo se repetiam sempre que era mencionada a condenação durante a longa leitura da sentença. Depois os militantes participaram de um festival de música.

Fizeram parte da concentração e dos festejos entidades como Mães da Praça de Maio, H.I.J.O.S. (Hijos e Hijas - Filhos e Filhas - por la Identidad y la Justicia contra el Olvido - Esquecimento - y el Silencio), La Cámpora e Juventude Sindical (as duas últimas de jovens militantes kirchneristas). Muitos levavam cartazes com a figura de Néstor Kirchner e com retratos de desaparecidos, mostrados também em broches.

(Vou preparar um texto mais completo, incluindo as condenações a serem anunciadas logo mais no final da tarde desta quarta-feira, dia 22).

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

WIKILIQUIDAÇÃO DO IMPÉRIO?

O mundo irá mudar depois destas revelações? A questão é saber qual das globalizações em confronto - a globalização hegemônica do capitalismo ou a globalização contra-hegemônica dos movimentos sociais em luta por um outro mundo possível - irá se beneficiar mais com as fugas de informação. (Reproduzido de Carta Maior, de 12/12/10).

Por Boaventura de Sousa Santos

A divulgação de centenas de milhares de documentos confidenciais, diplomáticos e militares, pelo Wikileaks, acrescenta uma nova dimensão ao aprofundamento contraditório da globalização. A revelação, num curto período, não só de documentação que se sabia existir mas a que durante muito tempo foi negado o acesso público por parte de quem a detinha, como também de documentação que ninguém sonhava existir, dramatiza os efeitos da revolução das tecnologias de informação (RTI) e obriga a repensar a natureza dos poderes globais que nos (des)governam e as resistências que os podem desafiar. O questionamento deve ser tão profundo que incluirá o próprio Wikileaks: é que nem tudo é transparente na orgia de transparência que o Wikileaks nos oferece.

A revelação é tão impressionante pela tecnologia como pelo conteúdo. A título de exemplo, ouvimos horrorizados este diálogo – Good shooting. Thank you – enquanto caem por terra jornalistas da Reuters e crianças a caminho do colégio, ou seja, enquanto se cometem crimes contra a humanidade. Ficamos a saber que o Irã é consensualmente uma ameaça nuclear para os seus vizinhos e que, portanto, está apenas por decidir quem vai atacar primeiro, se os EUA ou Israel. Que a grande multinacional farmacêutica, Pfizer, com a conivência da embaixada dos EUA na Nigéria, procurou fazer chantagem com o Procurador-Geral deste país para evitar pagar indenizações pelo uso experimental indevido de drogas que mataram crianças. Que os EUA fizeram pressões ilegítimas sobre países pobres para obrigá-los a assinar a declaração não oficial da Conferência da Mudança Climática de dezembro passado em Copenhague, de modo a poderem continuar a dominar o mundo com base na poluição causada pela economia do petróleo barato. Que Moçambique não é um Estado-narco totalmente corrupto, mas pode correr o risco de o vir a ser. Que no “plano de pacificação das favelas” do Rio de Janeiro se está a aplicar a doutrina da contra-insurgência desenhada pelos EUA para o Iraque e Afeganistão, ou seja, que se estão a usar contra um “inimigo interno” as táticas usadas contra um “inimigo externo”. Que o irmão do “salvador” do Afeganistão, Hamid Karzai, é um importante traficante de ópio. Etc, etc, num quarto de milhão de documentos.

Irá o mundo mudar depois destas revelações? A questão é saber qual das globalizações em confronto—a globalização hegemônica do capitalismo ou a globalização contra-hegemônica dos movimentos sociais em luta por um outro mundo possível—irá se beneficiar mais com as fugas de informação. É previsível que o poder imperial dos EUA aprenda mais rapidamente as lições do Wikileaks que os movimentos e partidos que se lhe opõem em diferentes partes do mundo. Está já em marcha uma nova onda de direito penal imperial, leis “anti-terroristas” para tentar dissuadir os diferentes “piratas” informáticos (hackers), bem como novas técnicas para tornar o poder wikiseguro. Mas, à primeira vista, o Wikileaks tem maior potencial para favorecer as forças democráticas e anti-capitalistas. Para que esse potencial se concretize são necessárias duas condições: processar o novo conhecimento adequadamente e transformá-lo em novas razões para mobilização.

Quanto à primeira condição, já sabíamos que os poderes políticos e econômicos globais mentem quando fazem apelos aos direitos humanos e à democracia, pois que o seu objetivo exclusivo é consolidar o domínio que têm sobre as nossas vidas, não hesitando em usar, para isso, os métodos fascistas mais violentos. Tudo está a ser comprovado, e muito para além do que os mais avisados poderiam admitir. O maior conhecimento cria exigências novas de análise e de divulgação. Em primeiro lugar, é necessário dar a conhecer a distância que existe entre a autenticidade dos documentos e veracidade do que afirmam. Por exemplo, que o Irã seja uma ameaça nuclear só é “verdade” para os maus diplomatas que, ao contrário dos bons, informam os seus governos sobre o que estes gostam de ouvir e não sobre a realidade dos fatos. Do mesmo modo, que a tática norte-americana da contra-insurgência esteja a ser usada nas favelas é opinião do Consulado Geral dos EUA no Rio. Compete aos cidadãos interpelar o governo nacional, estadual e municipal sobre a veracidade desta opinião. Tal como compete aos tribunais moçambicanos averiguar a alegada corrupção no país. O importante é sabermos divulgar que muitas das decisões de que pode resultar a morte de milhares de pessoas e o sofrimento de milhões são tomadas com base em mentiras e criar a revolta organizada contra tal estado de coisas.

Ainda no domínio do processamento do conhecimento, será cada vez mais crucial fazermos o que chamo uma sociologia das ausências: o que não é divulgado quando aparentemente tudo é divulgado. Por exemplo, resulta muito estranho que Israel, um dos países que mais poderia temer as revelações devido às atrocidades que tem cometido contra o povo palestino, esteja tão ausente dos documentos confidenciais. Há a suspeita fundada de que foram eliminados por acordo entre Israel e Julian Assange. Isto significa que vamos precisar de um Wikileaks alternativo ainda mais transparente. Talvez já esteja em curso a sua criação.

A segunda condição (novas razões e motivações para a mobilização) é ainda mais exigente. Será necessário estabelecer uma articulação orgânica entre o fenômeno Wikileaks e os movimentos e partidos de esquerda, até agora pouco inclinados a explorar as novas possibilidades criadas pela RTI. Essa articulação vai criar maior disponibilidade para que seja revelada informação que particularmente interessa às forças democráticas anti-capitalistas. Por outro lado, será necessário que essa articulação seja feita com o Forum Social Mundial (FSM) e com os meios alternativos que o integram. Curiosamente, o FSM foi a primeira novidade emancipatória da primeira década do século e o Wikileaks, se for aproveitado, pode ser a primeira novidade da segunda década. Para que a articulação se realize é necessária muita reflexão inter-movimentos que permita identificar os desígnios mais insidiosos e agressivos do imperialismo e do fascismo social globalizado, bem como as suas insuspeitadas debilidades a nível nacional, regional e global. É preciso criar uma nova energia mobilizadora a partir da verificação aparentemente contraditória de que o poder capitalista global é, simultaneamente, mais esmagador do que pensamos e mais frágil do que o que podemos deduzir linearmente da sua força. O FSM, que se reúne em fevereiro próximo em Dakar, está a precisar de renovar-se e fortalecer-se, e esta pode ser uma via para que tal ocorra.

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

domingo, 19 de dezembro de 2010

VÍDEOS, RECITAL MAPUCHE E ESPORRO

video
video


De Buenos Aires (Argentina) – Tem aquela piada de japonês. Os japas saem em viagem turística e, quando retornam, vão ver as fotos pra saber se gostaram da viagem.

Pois é, aconteceu comigo. Sábado à tarde, dia 18, dei uma de turista pra variar um pouco. Visitei no bairro La Boca (onde fica o estádio do famoso time de futebol Boca Juniors) uns pontos turísticos, como o Caminito, com direito a clone de Maradona, exibições de tango, essas coisas.

Mas o que me interessava mesmo era o Concierto de Música Mapuche, com a cantora Beatriz Pichi Malen, às 20 horas, no teatro da Fundação Proa, ali mesmo juntinho ao Caminito. Mapuche é um povo indígena cujo território faz parte do Chile e da Argentina, nos últimos anos muito presente na mídia devido à sua resistência e repressão do Estado chileno.

Pensei, vou fazer um vídeo beleza (meu novo xodó é aprender vídeo). Consegui permissão pra gravar (só era permitido fotografar sem flash), me virei, todo entusiasmado. Quando cheguei em casa, passei pro computador e... decepção, me lembrei da piada de japonês: não gostei nada do passeio. O vídeo ficou uma merda, já fiz até agora uns quatro ou cinco, acho que este ficou pior do que o primeiro, talvez tenha sido a expectativa.

De qualquer forma, me desculpem a insistência, separei dois pedacinhos que me pareceram menos ruins e decidi postar. Aqui e no blog Pilha Pura (www.pilhapuradejoaninha.blogspot.com).

“Começamos mal e acabamos bem”

E o esporro? Sim, o esporro. No final do espetáculo, uma moça veio pra cima de mim, uma fera, me disse que os cliques de minha maquininha digital tinham perturbado todo o recital, tinham quebrado o silêncio, a magia, aquele clima recriado a partir dos cantos, da percussão, das imagens (slides), a natureza, os bichos, a mãe terra (Pachamama). Ela estava certa, pedi mil desculpas, mas...

...mas, veio logo a compensação, são os acasos da vida. No ônibus, voltando para casa, topo com a dita cuja. Eu estava todo enrolado, não tinha moedas suficientes para pagar a passagem, nunca poderia supor que em Buenos Aires só se pode pagar a tarifa de ônibus com moeda.

“Como faço?”, perguntava ao motorista e mostrava as cédulas de dinheiro. E ele, balançava a cabeça negando: “Solo moneda”. Eu pensando: será que esse cara vai me mandar descer (já eram umas 11 horas da noite) ou vai me deixar viajar sem pagar?

Foi aí que apareceu minha salvadora: “Apesar de tudo, vou pagar sua passagem”. Teté Di Leo, artista plástica, “mucho gusto, muy amable... encantada...” Ela estava com uma amiga, nos sentamos e batemos um longo e amigável papo. Lhe disse: “Começamos mal e acabamos bem”, rimos.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

OCUPAÇÃO POR MORADIA AGITA O MOVIMENTO POPULAR E A POLÍTICA ARGENTINA

Partidos e movimentos sociais de esquerda, nas ruas centrais de Buenos
Aires. defendem a moradia popular e protestam contra a repressão
De Buenos Aires (Argentina) - Foram oito dias – de 7 a 14 de dezembro - de agitação política e midiática, depois que algumas centenas de famílias, em busca de moradia, ocuparam o Parque Indoamericano, na Villa Soldati, área verde pública na zona sul, a mais pobre da capital argentina: repressão policial (restrita ao dia 7), seguida de ataques de gangues, conflitos entre ocupantes e moradores, três mortos, dezenas de feridos e detidos e organizações do movimento popular todos os dias nas ruas. E para completar a cena: disputa e troca de acusações nas altas esferas da política nacional, tendo como pano de fundo as campanhas para eleição presidencial.

As passeatas (“marchas”) e protestos na área central da cidade se repetiram. Na quinta-feira, dia 9, por exemplo, uma dezena de partidos e movimentos de esquerda, com mais de mil militantes, se concentrou na Avenida de Maio, já chegando à Praça de Maio, em frente a uma das entradas do palácio do “prefeito” de Buenos Aires, Mauricio Macri (“prefeito” ou “alcaide”, com aspas, porque aqui seu cargo soa mais pomposo aos ouvidos brasileiros, ele é o chefe de Governo da capital).

Marcando lotes e armando precárias barracas: os sem-teto enquanto
ocupavam o Parque Indoamericano, na Villa Soldati, zona sul da capital
A repressão policial foi violenta no primeiro dia de ocupação e tentativa
de desalojamento, causando as duas primeiras mortes
Os manifestantes protestavam contra a repressão aos ocupantes do parque. E cobravam a construção de moradias para os mais pobres, cobrança endereçada tanto ao governo da cidade (Macri), como ao governo “da Nação” (como eles se referem aqui), ou seja, à “presidenta” Cristina Kirchner.

Também o protesto contra a repressão ia para os dois governos, porque atuaram policiais de duas corporações: a Federal, que é uma das polícias subordinadas ao governo federal e atua no policiamento do dia-a-dia, como faz a Polícia Militar aí no Brasil (no caso brasileiro, subordinada ao governador do estado); e a Metropolitana, que é subordinada ao governo da capital. O “prefeito” de Buenos Aires também tem sua polícia. (Os governadores das províncias, ou estados, também têm as suas).

O “prefeito” portenho e o “discurso xenófobo e racista contra nossos irmãos”

Discursaram representantes das variadas agrupações políticas e as críticas e acusações foram bem mais pesadas contra Macri, que é um político de direita, opositor ao kirchnerismo. (Seu “partido” chama-se PRO, pensei que fosse uma sigla, não é. Perguntei: o que significa PRO? Me explicaram: “pro, em favor de algo”).

Cristian Cartillo, do PTS: "Não podemos aceitar que banalizem a repressão
e os assassinatos"
Falando pelo Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS), Cristian Cartillo, além de protestar pelas vítimas caídas na Villa Soldati, lembrou o assassinato de Mariano Ferreyra, militante do Partido Operário (“Obrero”, PO), ocorrido no dia 20 de outubro último (matéria neste blog de 22 de novembro), e as mortes na repressão aos indígenas na província de Formosa, norte do país, no último dia 23 (vídeo e texto neste blog postados no dia 14). Denunciou a violência da Polícia Federal e da Metropolitana: “Não podemos aceitar que banalizem a repressão e os assassinatos. Querem disciplinar a classe trabalhadora”, ressaltou, conclamando à luta “com piquetes e mobilização” contra “a Argentina dos grandes empresários, a Argentina dos exploradores”.

Cartillo criticou “o discurso xenófobo e racista contra os nossos irmãos paraguaios, bolivianos e peruanos, que são parte da classe trabalhadora argentina e latino-americana”. Entre os mortos dos ocupantes do parque (no Brasil eles seriam chamados de sem-teto), um é paraguaio e outro é boliviano. E o discurso a que ele se refere é de Macri, que ao se pronunciar sobre o assunto condenou a “imigração desordenada” a partir dos países vizinhos. O “prefeito” foi bombardeado por isso: até a “presidenta” se juntou ao coro das condenações, chegando até a pedir desculpas aos países “hermanos”.

Marcelo Ramal, do PO: "As terras da zona sul da capital
estão nas mãos de duas corporações empresariais"
Já o dirigente do PO, Marcelo Ramal, convocou a militância a lutar para garantir a ocupação da terra e criticou duramente a gestão de Macri, afirmando que ele tinha acabado com os programas de moradia popular e compactuava com a especulação imobiliária, em benefício de grupos empresariais. “Todos nós sabemos que as terras da capital federal, da zona sul da capital, estão nas mãos de duas corporações”, denunciou.

Deputado e jornal de olho na tomada e matança nas favelas do Rio de Janeiro

O deputado federal Jorge Cardelli, do Projeto Sul (partido considerado de centro-esquerda, mas opositor ao governo de Cristina), ao discursar na mesma linha de condenação à repressão e defesa dos sem-teto, falou do risco da situação dos bairros pobres de Buenos Aires chegar à gravidade do que ocorre no Rio de Janeiro, Brasil, referindo-se à tomada de favelas cariocas, no final de novembro, por tropas da polícia e das Forças Armadas (o termo “villa”, que aqui se pronuncia “vija”, tem também o sentido de “favela”). Tal ilação relacionada com o Rio foi feita, na semana passada, também por um dos principais jornais diários daqui, o La Nación, de linha conservadora, em matéria com abertura na primeira página (não digo com chamada na capa, porque o La Nación adota aquela velha técnica de iniciar a matéria na primeira e continuar numa página interna).

Para registrar algumas outras organizações políticas, cujos cartazes, faixas e bandeiras eram mais visíveis: Partido Comunista Revolucionário (PCR) e sua Juventude Comunista Revolucionária (JCR), Corrente Classista Combativa (CCC), Bairros de Pé, Jovens de Pé, Central de Trabalhadores Argentinos (CTA), Movimento dos Trabalhadores Desocupados (MTD - tradução literal, no Brasil o termo mais adequado seria Desempregados) e MST Nova Esquerda (Movimento Socialista dos Trabalhadores). (Um militante deste MST me disse que sua linha política e ideológica é a mesma do PSOL brasileiro).

(Todos esses partidos e entidades – trotskistas, anarquistas, piqueteiros - são enquadrados aqui como “de esquerda”. Já muitos outros, também do campo popular, que geralmente são afeitos ao jogo eleitoral e a maioria apoia o kirchnerismo, são considerados “de centro-esquerda”. São “carimbos” aceitos de forma bastante consensual, independentemente de se achar correta ou não a linha política, o que não acontece no Brasil. Para marcar a diferença: os brasileiros PT, PC do B e CUT, por exemplo, nunca seriam classificados aqui como “de esquerda”, mas sim como “de centro-esquerda”).

Ainda sobre as “protestas” de rua em apoio aos sem-teto, logo em seguida houve uma bem mais agressiva, no mesmo local, isto é, defronte do palácio do “prefeito”, na parte que fica na Avenida de Maio. Só que desta vez os manifestantes usaram pneus de carros como tochas e incendiaram o portão do palácio.

De como a ocupação dos sem-teto mexeu com a alta política nacional

Cristina Kirchner
O caso Villa Soldati dominou a pauta política e as manchetes, com emissoras de TV – em especial a Crónica TV, do grupo Clarín, em guerra declarada contra os Kirchner – reprisando a todo momento as imagens dos conflitos. Ainda na quarta-feira, dia 15, foi o tema central dos noticiários, já que, na noite anterior, os governos federal e da cidade chegaram finalmente a um acordo, após muita polêmica, e anunciaram um plano conjunto de construção de casas populares, uma das reivindicações básicas do movimento popular. Foi a solução encontrada, sob pressão, não só para a desocupação do parque, mas também de olho em outras “invasões” que já começavam a pipocar pelos bairros pobres.

Condições do plano anunciado: serão atendidas com prioridade famílias que participavam da ocupação, sempre levando em conta as mais necessitadas; os que moram na Argentina no mínimo dois anos; e uma exigência chave: quem continuar ocupando terra pública ou privada não será beneficiado. O efeito foi imediato: no dia 15 o imenso parque, com 130 hectares, já estava totalmente desocupado. As cerca de seis mil pessoas, número a que já tinha chegado a população acampada, levantaram acampamento rapidamente. O número de ocupantes já batia nos mais de 13 mil, quando se incluíam os familiares dos acampados que estavam fora do parque, conforme o censo feito às pressas por funcionários do governo federal. Foi anunciado ainda que serão apuradas as responsabilidades pela repressão e mortes.


Mauricio Macri
Até se chegar ao acordo, no entanto, foram muitas e pesadas as acusações entre os dois governos, inclusive de que um e outro estariam patrocinando gangues violentas entre os moradores da área (a terceira morte ocorreu depois de cessada a repressão policial e as gangues passaram a agir. Foi apontada a presença de traficantes de terra e há suspeita de participação também de traficantes de droga, embora este último aspecto tenha ficado ofuscado).

O que brilhou mesmo foram as disputas e especulações políticas e eleitorais. É que Mauricio Macri pretende ser candidato a presidente da República e as campanhas para a eleição de outubro/2011 estão a todo vapor, com três pré-candidatos já lançados oficialmente, número que não inclui nem Macri, nem Cristina. Entretanto, o “prefeito” está aparecendo em segundo lugar em pesquisas de opinião, na faixa dos 10% das intenções de voto. E a “presidenta”, depois da morte do marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, disparou para mais de 40%, percentual que já faz o peronismo kirchnerista sonhar com uma vitória no primeiro turno.

Ex-presidente Duhalde entra em cena com O Poderoso Chefão


Eduardo Duhalde
A polêmica alcançou ainda mais um pretendente à Casa Rosada, o ex-presidente Eduardo Duhalde, também peronista, mas dissidente do kirchnerismo (ficou interinamente mais de um ano no cargo, 2002/2003, da rebelião popular de dezembro/2001 que derrubou o presidente Fernando de la Rúa até a posse de Néstor Kirchner). No decorrer do caso Soldati, Duhalde fez um chamado “à ordem”, dizendo que o país estava vivendo “um clima pré-anárquico”, dando a entender que o governo estava perdendo o controle da situação.

Cristina, que já vinha denunciando “operações” políticas para desgastar seu governo, respondeu com um jogo de palavras que só faz sentido se se usa o espanhol: “No es que se desmadró, se apadrinó, que es diferente”, o que seria “não é que se desmandou (se perdeu o controle), se apadrinhou, o que é diferente”. O “apadrinó” é uma referência a El Padrino, título em espanhol da famosa trilogia de Francis Ford Coppola, que no Brasil é O Poderoso Chefão. A chave para se entender o contra-ataque da “presidenta”: Duhalde tem a má fama de ser mafioso.

Mais um ingrediente do caso Soldati: no mesmo dia 15, quarta-feira, Cristina dava posse à ministra da Segurança, novo ministério já anunciado no decorrer dos dias da ocupação, nascido do desmembramento do Ministério da Justiça. Quem assumiu o comando da Segurança foi Nilda Garré, que já estava no governo como ministra da Defesa e parece totalmente afinada com a prioridade aos Direitos Humanos, conforme a “presidenta” proclama em todas as oportunidades. No ato de posse, Garré apontou logo o rumo: “A repressão não serve para solucionar os conflitos sociais”.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

VÍDEO: POVO ORIGINÁRIO NAS RUAS CONTRA REPRESSÃO

video
De Buenos Aires (Argentina) - Representantes de uma comunidade indígena da província (estado) de Formosa (região do Chaco, norte da Argentina, vizinha do Paraguai), na verdade menos de 20 pessoas, fecharam a Avenida 9 de Julho, no centro de Buenos Aires, na segunda-feira, dia 13, em protesto contra a repressão policial. Acusados de invadir terras - eles contestam, dizem que moram nas terras há mais de 500 anos -, foram atacados por forças policiais no último dia 23, resultando dois mortos, mais de 40 feridos e 17 casas incendiadas (correção do que falo no vídeo: um dos mortos é policial). Na imprensa aqui a comunidade é chamada "toba-qom de La Primavera".

Os manifestantes fecharam uma das pistas da avenida (é larguíssima, tem duas largas pistas, mão e contra-mão, além de duas ruas laterais com outros nomes). Um bafafá tremendo no trânsito, mas não houve qualquer repressão. Chegaram muitos policiais, com aqueles escudos e equipados como nossos homens da Tropa de Choque (havia mais policiais do que manifestantes). Depois de negociações, os indígenas abriram uma estreita brecha, suficiente para apenas um carro de cada vez. Não sei quanto tempo durou a avenida "trancada", fato aqui, aliás, muito corriqueiro.

(O governo de Cristina Kirchner se auto-proclama Governo dos Direitos Humanos, portanto, nada de reprimir os movimentos sociais. Mas há as polícias das províncias e, no caso de Buenos Aires, o "prefeito", aqui chamado chefe de Governo da capital, também tem sua polícia. Aí, às vezes, se esquece o tal dos Direitos Humanos e tome repressão no lombo dos pobres).

Os representantes dos indígenas (ou povos originários, como se passou a nominá-los) pediram intervenção do governo federal na província de Formosa. O líder da comunidade, Félix Díaz, esteve em Buenos Aires e recebeu a solidariedade de organizações ligadas à defesa dos Direitos Humanos, inclusive das Madres de Plaza de Mayo e de Adolfo Pérez Esquivel, detentor do Prêmio Nobel da Paz. (Curiosidade: Félix Díaz disse que não gosta da expressão "povos originários", prefere mesmo o tradicional "povos indígenas").

domingo, 12 de dezembro de 2010

AS CONFISSÕES NEGADAS DE ALAN GARCÍA

O JORNALISTA JAIME BAYLY REVELOU UMA CONVERSA QUE DEIXA EM SITUAÇÃO DIFÍCIL O PRESIDENTE PERUANO

Bayly assegura que o presidente lhe disse que promoveria um golpe de Estado se o candidato nacionalista Ollanta Humala ganhar a eleição de 2011. O jornalista fez estrago com uma frase de Alan: “Cuando uno es presidente ‘la plata llega sola’” (Quando se é presidente a grana chega fácil, fácil).

Por Carlos Noriega, de Lima (Peru) – Traduzido do jornal Página 12 (Argentina – edição de 12/12/10)

O escritor e jornalista Jaime Bayly colocou em apuros o presidente Alan García (foto). Na coluna que semanalmente escreve no diário Perú 21, Bayly revela trechos de um diálogo privado que manteve, neste ano mas em data que não precisa, com o presidente peruano. E o que conta deixa García muito mal situado. O jornalista assegura que o presidente lhe confessou que promoveria um golpe de Estado se o candidato nacionalista Ollanta Humala, que propõe acabar com o modelo econômico neoliberal, ganhar a eleição presidencial em abril de 2011, para evitar que assuma a presidência. Mas isso não é tudo. García havia dito também a Bayly, que no momento dessa reunião aspirava a ser candidato presidencial, que quando se é presidente “a grana chega fácil, fácil”. Frase que é toda uma confissão, e com a qual García havia tentado animar Bayly a ser candidato sem se preocupar com o salário presidencial, o qual o escritor considerava muito baixo para manter seu ritmo de vida.

O revelador diálogo entre Alan García e Jaime Bayly ocorreu durante um jantar na casa do jornalista, que então conduzia um programa diário na televisão peruana. Bayly convidou o presidente García a jantar em sua casa, um amplo apartamento no bairro de San Isidro, uma das zonas mais nobres da capital peruana. García deve estar arrependido de ter aceito o convite e de ter sido demasiado loquaz com seu anfitrião. “García disse que se o senhor Humala ganha as eleições, ele promoverá um golpe, e impedirá, passando por cima da lei, que Ollanta Humala seja presidente”, relata Bayly em sua coluna. A revelação desencadeou o escândalo e encheu de dúvidas o processo eleitoral. “Mesmo que me prendam, Humala não será presidente”, garante Bayly que lhe disse o presidente peruano durante o jantar.

Segundo o relato do jornalista, ambos falaram também da presidência e de dinheiro. Quando se deu o encontro, Bayly buscava lançar sua candidatura presidencial, intento que finalmente fracassou por não encontrar um partido político que aceitasse lançá-lo como seu candidato. Bayly confessa que estava preocupado pelo que ganha um presidente e perguntou a García quanto ganhava, e este lhe respondeu que uns três mil dólares mensais. O jornalista retrucou que esse dinheiro não seria suficiente para manter o alto nível de vida que levam ele, sua ex-esposa e suas duas filhas adolescentes. E foi nesse momento que Alan García soltou o que o escritor qualifica como a frase da noite: “Não seja bobo (“cojudo”), homem, a grana chega fácil, fácil”.

A frase é especialmente significativa vindo de um presidente que em seus dois mandatos esteve cercado por escândalos de corrupção. Após seu primeiro governo (1985-90), García foi acusado de enriquecimento ilícito, saiu do país e viveu oito anos entre Paris e Bogotá, regressando ao Peru no início de 2001 quando as acusações contra ele já haviam prescrito, o que o livrou de responder perante os tribunais pelas acusações de corrupção. Seu segundo mandato também tem estado marcado por denúncias de corrupção.

O presidente García confirmou que houve realmente a reunião com Bayly, porém negou as afirmações contidas em sua coluna, qualificando-as como produto da “imaginação literária” do escritor. García garante que nunca falou de Humala e de golpe de Estado e que quando disse que “a grana chega fácil, fácil” não se referia a comissões ilegais, e sim que quando um presidente termina seu mandato pode ganhar muito dinheiro dando conferências. “Tudo o que contei na coluna é rigorosamente verdadeiro”, tem reafirmado. “Quando falou de Humala disse explicitamente que promoveria um golpe antes que este chegue ao poder”, reafirmou Bayly. Sobre o argumento de García de que a frase “a grana chega fácil, fácil” se referia ao dinheiro que pode ganhar um ex-presidente, o escritor respondeu: “Que Alan não nos tome por loucos (tontos)”.

Ollanta Humala, aludido diretamente como vítima de uma conspiração golpista promovida por Alan García, tem denunciado uma fraude em marcha contra ele. Não é a primeira vez que o presidente peruano manifesta sua intenção de intervir na campanha eleitoral para evitar o triunfo de algum candidato que não seja do seu agrado. E esse candidato é Humala. Em março de 2009, num discurso público perante um grupo de banqueiros e investidores latino-americanos, García lhes assegurou que tinha o poder para evitar que chege à presidência alguém que questione o modelo econômico neoliberal. Não mencionou seu nome, mas foi uma clara alusão a Humala.

“No Peru o presidente tem um poder, não pode fazer presidente a quem ele queira, mas sim pode evitar que seja presidente quem ele não queira”, foi a frase que o presidente peruano disse diante dos empresários para tranquilizá-los diante do possível triunfo de um candidato presidencial que questione as regras do atual modelo econômico. Privadamente havia ido mais longe e falou, de acordo com o relato de Bayly, sem inibições de golpe de Estado. E se ufanou, segundo as revelações feitas pelo jornalista, da sua capacidade para fazer com que “la plata llegue sola”. Seu folgado ritmo de vida logo após seu primeiro governo, que incluía um amplo apartamento numa das zonas mais caras de Paris, tem sido lembrado nestes dias como uma mostra dessa capacidade para que a grana lhe chegue fácil, fácil.

Tradução: Jadson Oliveira