domingo, 28 de março de 2010

Grande imprensa golpeia a democracia

Depois de dois anos de viagens pelo Brasil, América Latina e Caribe, tentando acompanhar os movimentos sociais e a política, me saltam na cabeça dois fenômenos:



1 – O protagonismo dos segmentos mais pobres da população no processo revolucionário de países como Venezuela e Bolívia, cujos governos hoje podem ser catalogados entre os mais progressistas da região, e onde já está em vigência o que podemos chamar de democracia participativa (por extensão, onde avança a luta em busca do socialismo por caminhos considerados não ortodoxos).


2 – A ação deliberada dos principais meios de comunicação - sob a tutela dos interesses do império estadunidense - para desqualificar tal processo e satanizar suas lideranças, em especial o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, hoje o mais destacado líder anti-imperialista nas Américas.



O fator determinante no avanço democrático é a participação ativa das maiorias mais pobres no dia-a-dia da política, o que resulta na aplicação de políticas públicas de inclusão social e de freios ao apetite insaciável dos conglomerados transnacionais. Quer dizer, as maiorias dos dois países acima (e outros, poderíamos acrescentar, por exemplo, Equador e Nicaragua) conseguiram ultrapassar a fase da democracia apenas representativa, na qual o povo é convocado somente para votar e escolher seu presidente periodicamente. Os movimentos sociais raramente vão às ruas defender os interesses das camadas mais esquecidas e injustiçadas e, quando vão, não logram mobilizações significativas.

O que se vê em Caracas e La Paz é a presença quase diária de manifestações de rua, passeatas, ruas “trancadas”, promovidas pelos mais diversos segmentos sociais. Uma vez, na Bolívia, escrevi um artigo me perguntando “com quantas ‘marchas’ e ‘bloqueos’ se faz uma democracia participativa (marchas e bloqueos).


Este critério – a participação direta do povo no dia-a-dia da política – é o básico, na minha opinião, para identificar o grau de democracia de um país. Em consequência, o grau de avanços em favor dos trabalhadores e dos mais “fracos”, como o povo costuma chamar os pobres. Ou ao contrário: o grau de assaltos às riquezas nacionais perpetrados pelos mais ricos.


Mas os critérios da chamada grande imprensa são outros. O básico é identificar se tais políticas e tais governos ameaçam ou não os ganhos das grandes empresas transnacionais, que insistem em governar o mundo, mesmo que os eleitores de qualquer país nunca tenham sido consultados neste sentido. Hugo Chávez é tratado pela maioria dos órgãos de comunicação do Brasil como “ditador”, como “truculento”, embora nos seus 11 anos de presidência tenha enfrentado 12 eleições: ganhou 11 e perdeu uma. Evo Morales, que é menos atacado que seu aliado Chávez, mas volta e meia é referido como “totalitário”, enfrentou cinco eleições a partir de 2005, quando foi eleito presidente da Bolívia: ganhou todas.
Aliás, o professor norte-americano Noan Chomsky, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, sigla em inglês), disse em recente entrevista que os comentários elogiosos do presidente Lula sobre Chávez e Morales não são publicados pela imprensa dos Estados Unidos, porque os dois não são considerados modelo (modelo do agrado do império, evidentemente).


Só para ilustrar: no Jornal Nacional, da TV Globo, no dia primeiro de fevereiro, foi noticiado que a oposição venezuelana divulgou um manifesto pedindo o afastamento de Chávez, alegando que após 11 anos de governo ele já teria demonstrado cabalmente sua incapacidade para resolver os problemas do país, etc, etc. Entretanto, o JN sonegou aos seus milhares de telespectadores a resposta do presidente: se a oposição quer o seu afastamento, é só apelar para o referendo revogatório, um dispositivo que está lá na Constituição (dispositivo existente apenas em constituições das democracias mais avançadas), pelo qual os eleitores podem dizer, a qualquer altura do mandato, se o presidente continua ou sai.


(Na mesma noite, o mesmo Jornal Nacional sonegou aos brasileiros a informação mais “quente” do noticiário político do dia: a última pesquisa da CNT/Sensus sobre a corrida presidencial indicava que a ministra Dilma Rousseff tinha empatado, tecnicamente, pela primeira vez, com o governador José Serra).


Ainda bem que temos os diversos blogs/sítios/sites na Internet, algumas rádios e TVs comunitárias, a imprensa sindical e alguns órgãos de comunicação que tentam contrabalançar, de alguma forma, os monopólios da mídia brasileira. O povo tem o direito a informar e não apenas a ser informado.


(Texto escrito em Salvador/Bahia/Brasil em fevereiro/2010).

quinta-feira, 25 de março de 2010

Revisitando as Américas

O título acima se refere à  entrevista publicada no jornal  O Bancario, em que  falo sobre a atuação do movimento sindical bancário e do meu giro pelo países da América do Sul.



Íntegra da entrevista:

16/03/2010

O jornalista Jadson Oliveira trabalhou em diversas assessorias e jornais da Bahia – Tribuna da Bahia, Jornal da Bahia, sucursal do Estadão, jornal Movimento – entre 1974 e 2007. Na década de 70, militou no PCdoB (Partido Comunista do Brasil) e no movimento sindical bancário. Ao aposentar-se, começou a viajar pelo Brasil, América Latina e Caribe. Esteve, inclusive no Paraguai e Bolívia, onde acompanhou o processo que reelegeu o presidente Evo Morales.


O Bancário – Como foi sua participação no Sindicato dos Bancários da Bahia?

Jadson Oliveira – Lá pelo ano de 1972, começamos com alguns colegas um movimento, chamado depois de “oposição bancária”, visando participar da vida do Sindicato com o objetivo de, se ou quando possível, tomar a direção da entidade das mãos dos pelegos, que faziam o jogo dos banqueiros e da ditadura. O mais empenhado nesta fase era Geraldo Guedes, velho companheiro de militância política, como eu do antigo Banco do Estado da Bahia (Baneb).

Em 1975, chegamos a formar uma chapa para concorrer às eleições sindicais, mas ela foi vetada pelos “órgãos de segurança”. Era presidida pelo companheiro Corinto Soares Joazeiro, do antigo Banco Econômico, remanescente do movimento bancário desarticulado em 1969.

Depois desta tentativa, a “oposição bancária” perdeu a eleição em 1978 e ganhou a seguinte, em 1981.


O Bancário – Como era o momento político que o país vivia naquele período?

JO – Bem, pelo veto dos chamados órgãos de segurança, já dá para sentir o clima. Hoje as pessoas têm até dificuldade de entender tal veto, soa como algo inacreditável. Mas, naquela época era considerado normal (se não estamos violentando o termo). Lembrar que estávamos sob a égide do AI-5, o auge do arbítrio, os militares – com os civis aproveitadores da ditadura, como os pelegos nos sindicatos dos trabalhadores – podiam tudo. Em agosto/2009, publiquei em meu blog Evidentemente (blogdejadson.blogspot.com), artigo intitulado “Lembrança do destemido dom Timóteo”, onde falo um pouco dessa luta e lembro inclusive a ajuda do advogado Adelmo Oliveira.

O Bancário – Você trabalhou ou chegou a colaborar com o jornal da entidade?

JO – Não. Aproveito a pergunta para lembrar que no início dos anos 70, quando iniciamos o movimento em torno do Sindicato dos Bancários, circulava entre nós um jornalzinho mimeografado, clandestino ou semi-clandestino, cujo nome era justamente O Bancário. Era elaborado e circulava graças aos esforços, principalmente, do companheiro Geraldo Guedes. Não sei até que ponto tal jornalzinho está inserido na trajetória de O Bancário, jornal da entidade, que está festejando 20 anos de edição diária.

O Bancário – Como você vê tal experiência? É o único jornal sindical impresso diário no país?

JO – Lido profissionalmente como jornalista desde 1974 (há uns dois anos, depois de aposentado, virei blogueiro), mas nunca trabalhei na imprensa sindical. Todavia, depois de minha experiência acompanhando um pouco os movimentos sociais e a política – especialmente em Curitiba, Caracas, Assunção e La Paz –, tenho a convicção de que os trabalhadores e os segmentos mais explorados e injustiçados da sociedade têm que construir seus próprios meios de comunicação. Não deve ser fácil, mas, na conjuntura atual, está claro que os compromissos da grande imprensa capitalista são de outra ordem. Imprensa sindical, rádios e TVs comunitárias, novos instrumentos fornecidos pela tecnologia da informação, pela Internet, eis as alternativas. O povo tem o direito a informar e não apenas ser informado. Os bancários baianos, neste sentido, dão um belo exemplo.

domingo, 21 de março de 2010

Caribe: em busca de novas rotinas


De Porto Espanha (Trinidad e Tobago) – De novo na estrada. Desta vez, como já tinha anunciado a minha editora, a jornalista Joana D’Arck (Joaninha, para os íntimos), no seu blog Pilha Pura, recomeçando pela cidade Porto Espanha, capital de Trinidad e Tobago, ilhas (com outras menores) que formam o pequeno país caribenho de cerca de 1,3 milhão de habitantes.

É o que chamo, meio contraditoriamente, de busca de novas rotinas. A busca de novas paragens, outras gentes, aquela excitação diante do novo, aquele medo do desconhecido, os amigos que esperam (ou não), os amigos do porvir, a espera do retorno – “só quem partiu, pode voltar...” -, o andar sozinho, “solito” ou “alone”, já que aqui tenho que mexer com o diabo do inglês (aliás, nesta minha terceira escapada tenho sentido com mais intensidade o peso do estar só, devo estar ficando velho).

Então, mais uma vez, o aeroporto de Salvador, aquela imensidão do de Guarulhos, São Paulo, depois Panamá City, e afinal Port of Spain ou Puerto España (São Paulo a Panamá, seis horas de voo, e até Trinidad mais três). Aquele corre-corre e/ou as esperas nos aeroportos, a “prisão” das salas de embarque, a comidinha péssima do avião parecendo plástico ensaboado... convenhamos, o glamour das viagens tem também muita chatice.

Enfim, o que não se faz por amor às pequenas aventuras que temperam o doce (ou amargo) sabor da vida! Rufam os tambores, estalam as trombetas: eis-me aqui, já vencidos todos os trâmites burocráticos – troca de moeda, hotel, celular, Internet... Em Porto Espanha, uma pequena cidade com 50 mil habitantes, mas que, na verdade, tem toda pompa de grande cidade (veja as fotos) e está inserida na maior concentração urbana da ilha, uma região metropolitana com quase a metade da população do país.

Uma população negra, a maioria com cara de africano, como a nossa de Salvador/Bahia, e grande parte com cara de indiano. E que fala inglês. Aí é que está a grande barreira, pelo menos para mim que falo e entendo pessimamente a língua do império, ainda mais diante das diferenças de pronúncia do chamado inglês crioulo. Começo já esta semana o curso de inglês, vou tentar entender as coisas, mas é complicado.

Que saudade da ebulição política da Venezuela e da Bolívia, captada através do espanhol! Aqui me parece que o sistema político, que é parlamentarista, está naquela pasmaceira da chamada democracia representativa.

Para quem quer aprender geografia (alô Ana Carolina), Trinidad e Tobago fica bem ao sul do Mar do Caribe, ao norte (um pouco acima, olhando no mapa) da América do Sul, mais precisamente da Venezuela. Pelo mapa, Trinidad é a primeira, a partir de baixo, daquele arco de ilhas e ilhotas caribenhas que vai chegar até Cuba, a maior de todas elas.

terça-feira, 9 de março de 2010

Nove dias de emoções - 1




De Salvador (Bahia) – Enquanto me preparo para embarcar numa nova viagem, desta vez ao Caribe (Trinidad e Tobago), peço licença aos meus leitores para publicar o diário de uma caminhada de 158 quilômetros, da Praia do Forte, na Bahia, a Abaís, em Sergipe, entre os dias 4 e 12 de janeiro de 2001. Os protagonistas: Deta, minha namorada e fotógrafa titular do blog, e eu, o autor do diário, escrito no fulgor da “batalha”. Andamos, pela praia, uma média de 17,5 Km por dia – o mínimo de 9 Km/dia e o máximo de 28 Km/dia.

Foram nove dias de muitas emoções, uma aventura gostosa e inesquecível, uma experiência marcante. Nove dias convivendo somente com a areia, o mar, os povoados e as gentes/pescadores do litoral norte baiano, atravessando o Rio Real e chegando pertinho de Aracaju, a bela paisagem, os coqueiros, os pássaros, o desafio, os pés machucados, o cansaço, a superação dos limites, o exercício de outras rotinas. Um barato! poderíamos dizer se estivéssemos nos anos 60.

Sei que é um tema diferente do que normalmente é tratado no meu blog, mas não resisto à tentação de ver o diário publicado. Ao relê-lo agora, depois de nove anos, confesso que me emocionei. E botei um título mais bonito nesta abertura. O título original está aí embaixo. Muito frio, né? Como, aliás, é o estilo do diário, informativo, técnico, seco, sem devaneios, sem “viagens”.
Creio ser útil e interessante para as pessoas que curtem aventuras semelhantes.


UMA AVENTURA DE 158 KM EM NOVE DIAS
Da Praia do Forte (BA) a Abaís (SE)

1º dia – 4/1/2001 (quinta-feira)
Escrito à noite – Pousada Tendal (Diogo)

Salvador – Praia do Forte – 9:45 a 12h (de ônibus)
Almoço – peixe grelhado, arroz e batata recheada (ótimo). Mas a entrada (casquinha de siri) estava muito salgada e Deta, com medo de pressão alta, deixou quase tudo pra mim.
Durante o almoço, Deta retoma a grande idéia ocorrida ainda no ônibus: por que não sair caminhando logo hoje, pois o tempo está nublado. Antecipamos, então, o início da esperada, planejada, ansiada e temida caminhada. Ao invés de dormirmos em Praia do Forte e iniciarmos a jornada no dia seguinte cedo (sexta-feira), decidimos começar logo.

Praia do Forte – Diogo
Saída – 1:30
Chegada Imbassaí – 4h (10 Km)
Saída Imbassaí – 4:15
Chegada Diogo – 5:30 (5 Km)
Chegada Pousada de Ivan/Sandra (travessia de uns 500 metros de areia/dunas) – 6h

Início desanimador – Meio desajeitados, começamos a tão esperada aventura. Antes compramos 2 litros de água mineral. Molhamos as toalhas amarelas (toalhas apropriadas contra o calor – são molhadas, mantêm-se por muito tempo umedecidas e são usadas na cabeça e pescoço) num banheiro do Projeto Tamar, disfarçando para não chamarmos a atenção. Os primeiros 30 minutos foram desastrosos. A partir da pracinha de Praia do Forte e do Projeto Tamar, andamos com dificuldade na areia fofa, maré alta, ainda sem todos os preparativos/apetrechos da caminhada. Após meia hora (durante esse tempo tememos fracassar na empreitada, embora, lembrando o companheiro Fábio Rego, “fracasso é não tentar”), demos uma parada e nos preparamos para a jornada, conforme o planejado:
- protetor solar
- camisas e bermudas adequadas
- água nos cantis
- toalha molhada na cabeça

Aí começamos a dar um ritmo melhor. Passamos a andar pela borda do coqueiral – pelo mato – pois é cansativo e vagaroso andar na areia fofa, praia inclinada, com maré alta. Experimentamos mais adiante andar pela praia, mas não deu e voltamos pro mato. Comecei a sentir os pés, os dedos dos pés atritando na basqueteira. Após 1:30h caminhando resolvi tirar a basqueteira. “Ah que sensação maravilhosa sentir os dedos e os pés na água, uma sensação de liberdade”, disse Deta, que me acompanhou e se livrou também da basqueteira. Passamos a andar, então, descalços, beirando a água, sentindo a água nos pés e nas pernas.
Antes, quando ainda estávamos pelo mato, um homem, com jeito de gringo, acompanhado por um negro, mancando, nos saudou no trajeto, demonstrando simpatia. De volta ao relato (andando descalços), tivemos um longo trecho deserto, não encontramos mais ninguém numa longa quebrada, com areia batida, boa para a caminhada. Já perto do final deste longo trecho, avistamos o que parecia, de longe, duas pessoas pescando e duas varas de pescar. Ao nos aproximarmos, pouco a pouco, constatamos se tratar de três pessoas e três varas. Comentamos que deveria haver um aglomerado por ali. Ou então, (será?), já é Imbassaí.
Grande expectativa – uma dorzinha já incomodava as batatas da perna. Será que já é Imbassaí? Alegria geral, era mesmo. Tínhamos conseguido fazer os 10 km em 2:30h. O feito foi saudado como uma grande vitória.
Agora é tocar pra frente e chegar logo no Diogo. Compramos três garrafinhas (500 ml) de água mineral e tomamos logo uma – “Oh! Como é boa uma água gelada”. Botamos as outras duas nos cantis e tocamos.
“Meus cascos estão doendo”, eu disse, arrancando uma risada de Deta: “Casco não, amor, solado, casco é de bicho”. Pois é, meu solado estava irritado e ardia. Calcei então uma meia de Deta, conforme sua sugestão. Aliviou um pouco e marchamos os 5 Km rumo a Diogo, cheios de júbilo, certos de que conseguimos, no primeiro dia, superar nossas expectativas.

Escrito no dia 5 (pela manhã) – ainda na Pousada Tendal (Diogo)

A “longa travessia” ontem na chegada – trecho de 500 mts, de dunas, entre a praia de Santo Antonio e Pousada Caminho do Rio (de Ivan/Sandra) – nunca foi tão longa. O cansaço, a sensação de que já tínhamos chegado, tudo contribuiu para aquela moleza no corpo – os membros recusando a obedecer as ordens do cérebro – depois dos 15 Km de caminhada a partir de Praia do Forte.
Chegamos afinal. Tomamos duas cervejas. Não havia vaga em Ivan/Sandra e fomos, então, a outra pousada, Tendal, de Roger, Rosane e o pequeno Raul. Uma cabana agradabilíssima. Deta tomou duas latinhas de cerveja e eu uma dose de Chivas, comemos uma pizza deliciosa (o adjetivo é por conta de Deta) e dormimos por volta das 22h.

Nove dias de emoções - 2







2º dia – 5/1/2001 (sexta-feira)
Escrito às 12:15h – Pousada de D.Lita

Diogo a Porto do Sauípe
10 km – Consideramos a distância de 10 Km uma média, pois as informações são muito divergentes, variando entre 8 a 12 Km.
Saída da Pousada de Ivan – 8:45
Chegada à praia – 9:05 (20 minutos na “longa travessia”, quando voltamos a apreciar os restos da famosa pinguela, a antiga e mais conhecida atração turística do Diogo)
Saída p/P.Sauípe – 9:05 (a partir da praia)
Chegada – 10:50 – 1:45h de caminhada – Novamente um desempenho surpreendente. Ou as distâncias estão subdimensionadas ou nossa marcha está acima do previsto (Napoleão, nosso “consultor técnico” da loja Trekkers, tinha estimado 3 Km/hora).
Fato principal – Passamos tanto tempo nos preparando para enfrentar o sol e o calor (um dos dois problemas principais, segundo Napoleão – o outro é o cuidado com alimentação) e acabamos enfrentando chuva. No primeiro dia tivemos uns 8/10 minutos de chuva e hoje uma chuva mais forte na altura do megaempreendimento da Odebrecht – o chamado Costa do Sauípe – após cerca de 30 minutos do início da caminhada. Chegamos molhados, embora na metade do caminho – por insistência de Deta – tivéssemos colocado as toalhas molhadas. É que, mesmo molhados e com tempo nublado, há o risco de se queimar a pele do rosto e do pescoço.
Quinze minutos após a partida, um pequeno incidente: nos distraímos Deta amarrando melhor meu cantil e a onda molhou meus sapatos – às vezes um incidentezinho desse pode perturbar nosso desempenho. Os dedos dos pés começaram a doer (na verdade, começa com um pequeno desconforto). Foi piorando, cheguei a mancar um pouco, mas resisti e só tirei a basqueteira umas 11:30h quando chegamos à pousada.
Deta quer interromper o diário para tomar uma cervejinha, acha que deixamos de curtir para ficar escrevendo, mas não concordo.
Continuo: tivemos um bom trecho de terra batida, ótimo para caminhar na areia. Após Costa do Sauípe voltou a areia fofa e andamos um longo trecho na borda do mato. Depois voltamos à areia, um pouco fofa, mas deu para encarar.
Após Costa do Sauípe, encontramos apenas um pescador e em seguida um casal, já divisando ao longe o Porto de Sauípe.
Chegamos e um rapaz, Jau, que estava pescando, se dispôs logo a nos atravessar numa rústica jangada (um de cada vez, 3 reais ao todo). Daí fomos até o povoado – 20 minutos a pé – e à pousada. Tomamos banho, comemos pêssego, escrevemos o diário (sempre sob os protestos de Deta) e saímos (12:45h) para passear e a famosa cervejinha. Estamos nos devendo a experiência do sol/calor.

Nove dias de emoções - 3


3º dia – 6/1/2001 – sábado
Escrito às 12:20h – Pousada de D.Didi (Subaúma)

De Porto de Sauípe a Subaúma – 21 Km
Saída P. Sauípe – 5:40h
Chegada entrada de Massarandopió – 8:20h (2:40h – 9 Km)
Saída Massarandopió – 8:35h
Chegada Subaúma – 11h (2:25h – 12 Km)
Jornada longa e dura, especialmente devido aos pés – estamos bastante castigados pelas basqueteiras e o consumo de bandeide cresceu enormemente. Tive de tirar o calçado logo após sair de Massarandopió – os dedos doendo, um chegou a sangrar um pouco. Andei então com duas meias, depois coloquei as palmilhas da basqueteira entre uma meia e outra, aliviando bastante o ardor no solado dos pés, principalmente nos calcanhares.
Há três pequenos riachos desembocando no mar entre Massarandopió e Subaúma – logo no primeiro molhei os sapatos e tive de tirá-los.
Deta aguentou com sapato até faltando cerca de 4 Km para Subaúma – ficou com as duas meias. Ela que teve tantos problemas na compra da basqueteira, está com os pés menos castigados do que eu.
Até agora, terceiro dia, continuamos poupados pelo sol – hoje não houve chuva. Um pouco de calor a partir das 10h.
Todos os 21 Km fomos pela areia – tudo terra batida – ótima para caminhada se não fosse o castigo dos pés. Todo o trajeto bastante deserto.
A cerca de 4 Km de Subaúma um grupo de pescadores/turistas (cinco homens), em dois Bugres, nos ofereceu carona. “Foi difícil recusar”, diz Deta, pois estávamos cansados e os pés doendo. Mas agradecemos, dissemos que se tratava de um desafio e seguimos em frente.
A 2 Km da entrada de Massarandopió (o povoado fica a 4 Km), deparamos com uma área da praia destinada à prática do nudismo (os adeptos usam o termo naturismo). É da Abanat (Associação Baiana de Naturismo), filiada à FBN (Federação Brasileira de Naturismo). Chegamos a uma barraca (era cedo e não havia ninguém na praia) e fomos recebidos, gentilmente, por dois senhores devidamente “trajados” (isto é, nus).
Como saímos às 5:40h perdemos o café da manhã, pegamos umas coisas na pousada – batata cozida (meio estragada), laranjas, uma manga de vez, um quiuí. Péssima experiência. Deta passou a manhã sustentada por rapadura.
Ao chegarmos, tomamos logo uma cerveja, compramos Violeta Gensiana para amenizar os problemas dos dedos dos pés e providenciamos pousada.
Deta observa que até agora não tomamos banho de mar e eu observo que nosso objetivo é a caminhada, o mais é secundário. Deta retruca que eu sou muito caxias, defende que fazemos a caminhada, mas entremeada por diversão – parar mais, tomar banho, tirar um coco na estrada, etc.
13:05h – agora vamos tomar uma e comer.
Volto ao diário na madrugada (dia 7 – 0,40h – Pousada D.Didi/Subaúma):
Há duas expectativas para o 4º dia: 1ª - decidimos abandonar as basqueteiras (pra mim, definitivamente; pra Deta, temporariamente). Vamos tentar a sandália japonesa, pois o castigo nos pés está intolerável; 2ª - continuamos esperando aparecer o sol brabo do verão baiano para testarmos nossa resistência ao calor.
No mais, é difícil dormir, após já ter dormido à tarde, ouvindo a famigerada música baiana (tipo Tchan e “Desarmonia” do Samba), uma erva daninha que grassa pelos ares da Bahia.

4º dia – 7/1/2001 (domingo)
11:40h - Pousada de D.Zezé e Seu Virgílio – Encantos Pousada – Baixio

De Subaúma a Baixio – 20 Km
Saída – 5:15h
Chegada – 10h

Como perdemos 1h (ver em seguida), 3:45h p/20 Km – se a quilometragem estiver realmente correta, batemos recorde (mais de 5 Km/hora).
Tivemos um problema grave logo de saída: erramos o local da travessia do rio Subaúma e nos embrenhamos por um mangue, pedras e mata. Andamos uma hora, meio perdidos, tentando atravessar o rio. Acabamos voltando, sem perceber, ao povoado. Como era muito cedo, havia pouca possibilidade de encontrarmos pessoas para nos orientar. Ainda estava clareando o dia. Encontramos, afinal, dois pescadores, que, com a natural boa vontade dos nativos, nos mostraram onde atravessar. Fácil, fácil, a maré estava baixa, passamos com água até as virilhas. Nos informaram da maré baixa até 10h, bom para caminhada (areia batida) e como dissemos que iríamos até Baixio, um deles comentou com naturalidade: “Ah! Dá pra ir”.
Levamos um susto, eu fiquei um pouco irritado e perdemos 1h.
Após a travessia, porém, a coisa foi melhor do que o esperado. A experiência da sandália japonesa deu certo, por enquanto. Deta teve dois calos pequenos (já está com quatro calos) e usou uma meia com a sandália. Eu fiquei só com a sandália e tudo correu bem depois que aprendemos a tirar os resíduos de areia, que machucam a pele com o atrito nas correias. Pelo menos com maré baixa e areia batida, a sandália superou plenamente a basqueteira.
A outra expectativa do dia (o sol/calor) foi enfrentada muito bem. Houve efetivamente sol, mas como conseguimos chegar até 10h, o castigo foi ameno. Deta nem chegou a molhar a toalha usada para umedecer a cabeça e pescoço.
O percurso bastante deserto: encontramos apenas três nativos de bicicleta (vinham em direção contrária, passaram por nós e voltaram) e um outro a pé.
Como saímos sem café, comemos andando quatro sanduíches de queijo e pedaços de rapadura (por sinal, um pão gostosíssimo).
Eu senti bastante cansaço nas pernas. Deve ter sido agravado pelo uso da japonesa – doeram o pé (as articulações), as batatas da perna e os músculos das coxas. Foi duro, mas aguentei.
Pensávamos em chegar em torno de 11h, quando muito 10:30h, mas, com alívio, chegamos às 10h.
Atingimos mais ou menos a metade do percurso previsto para a costa baiana.
Em Baixio fomos alvos de duas manifestações de simpatia: quando fomos comprar álcool canforado, numa pequena farmácia, a dona não quis cobrar, comentando sobre nossa aventura com admiração; a outra foi quando atravessávamos o povoado em direção à pousada: um casal passou de carro, o cara comentou para a mulher que “esse pessoal tava ontem em Subaúma” e nos saudou buzinando o carro. Na pousada de Subaúma uma moça tinha nos falado sobre sua vontade de fazer uma caminhada semelhante, dizendo que se achava capaz fisicamente da empreitada, mas lembrava não poder, porque tinha um filho pequeno para cuidar.

5º dia – 8/1/2001 (segunda-feira)
12:45h - Pousada Canto do Mar – Barra de Itariri

De Baixio a Barra de Itariri – 16 Km (?)
Saída – 8h (após travessia do rio Inhambupe)
Chegada – 11:15h (3:15 para 16 Km)
Uma grande confusão sobre as distâncias: de Subaúma a Baixio seriam 20 Km, enquanto de Baixio a B.de Itariri seriam 16 Km. Pela nossa caminhada, ficamos convencidos de que o trajeto de hoje pode ser mais de que 16 Km e o de ontem pode ser mais curto de que 20 Km. Ficamos confusos. Como as pessoas sabem a quilometragem pela rodovia, me parece que em alguns casos a distância pela praia é bem menor e, às vezes, bem maior.
Hoje, na saída, tivemos um pequeno contratempo na travessia do rio Inhambupe. Outra vez informação truncada ou mal entendida sobre o local da travessia. Mas encontramos Seu Nilson, já avisado pelo dono da pousada (Seu Virgílio), e fizemos a travessia por barco.
Mais uma vez tivemos sorte com a maré baixa – “maré morta”, como disse Seu Nilson.
Mais um dia de sandália japonesa. Acredito que, pelo menos pra mim, a basqueteira está descartada definitivamente. Andei sem problemas com sandália. Aprendemos inclusive a técnica de arrastar a sandália, relaxando os músculos do pé e da perna, tipo “sarga-bunda”, Prá mim tudo bem. Deta, no entanto, teve problemas com sandália: dor nas costas e no pé direito, que ela atribui à sandália, além de uma bolha estourada no pé esquerdo. Teve de usar sandália com meia. Ela chegou bastante castigada e vai voltar amanhã à basqueteira.
Eu continuo com dois dedos com as unhas roxas, herança da basqueteira, e pretendo me desfazer dela o mais rápido possível, pois é um peso a mais na mochila.
O sol hoje foi mais ou menos, saiu cedo, mas foi amenizado por algumas nuvens.
O trecho hoje foi bem mais movimentado por pescadores (nativos).
A travessia do rio Itariri (na chegada) foi a pé com água até a cintura, guiados por um salva-vida. Após a travessia, já em pleno povoado, sentamos num bar e tomamos duas cervejas, prática que vem se tornando uma praxe nas chegadas a cada povoado (depois, no almoço, havia sempre mais duas cervejas e uma dose de bebida quente).
19:20h – B.de Itariri (retomando o diário)
Estamos bem com alimentação até aqui. Almoço todos os dias com peixe. Eu já estou meio enjoado, doido por um ensopado de galinha (devido ao tratamento de dentes devo evitar carne). Já Deta está adorando peixe todo dia.
À noite, temos conseguido café com leite. Hoje mesmo está programado um com cuscuz de milho, minha predileção. Além disso, comemos uma pizza ótima no Diogo e um macarrão italiano do Porto de Sauípe.
Pela manhã, só duas vezes (até agora) não esperamos o café da manhã da pousada: numa vez comemos gostosíssimos pães com queijo e noutra fomos mal, com umas frutas ruins e batata cozida azeda (claro que só eu comi as batatas azedas). No mais, temos o adjutório da rapadura.

Nove dias de emoções - 4


6º dia – 9/1/2001 (terça-feira)
15:10h - Pousada de Celso – Siribinha

Jornada dupla hoje:
De Barra de Itariri a Siribinha, passando por Sítio do Conde – 25 Km
De Barra de Itariri a Sítio do Conde – 13 Km
Saída – 7:05h
Chegada – 9:35h (2:30h para 13 Km)
Novamente pegamos maré baixa, areia batida, ótima para caminhada. Horário de sol ameno. Saímos já com café da manhã. Tudo tranquilo. Mais uma vez usei sandália sem nenhum problema. Deta com basqueteira – pequeno problema com formação de bolha no calcanhar esquerdo.
Como a jornada foi moleza, resolvemos queimar etapa e fazer o trecho até Siribinha, mesmo tendo de ir até Conde pegar dinheiro no BB. Aproveitamos para fazer umas compras (entre outras coisas, uma tesourinha, e lembramos das “sugestões” do companheiro Agnello Brito: a gente deveria levar bandeide, tesourinha, um celular e um jegue). Fomos de ônibus (são apenas 6 Km) e voltamos de táxi.

Sítio do Conde a Siribinha – 12 Km
Saída – 11:30h
Chegada – 13:50h (2:20h para 12 Km)
Enfrentamos horário de sol e calor, embora tenha chovido um pouco.
Trecho bastante diferente dos demais – a maré estava enchendo e a maior parte do caminho é com arrecifes. Todo trecho com muitos pescadores (veranistas e nativos).
Outra mudança foi com os calçados – um tema que sempre está na ordem do dia, pois é o que tem originado mais problemas.
Eu resolvi voltar à basqueteira, apesar de ter decidido o contrário anteriormente. Pensei inclusive em dar a alguém minha basqueteira. Mas usei, por experiência, a basqueteira de Deta, que é maior (39), por sugestão dela. Usei com duas meias. Foi interessante. Me dei razoavelmente, mas um dedinho que tinha sangrado das outras vezes voltou a doer, sem muitos danos. Cheguei até Siribinha com a dita cuja.
Deta voltou à sandália, um pé com gase, esparadrapo, bandeide e meia. Foi razoável e deu pra chegar a Siribinha. Aliás, ela diz que estava muito disposta hoje, ao contrário de ontem.
Deta se queixa de ainda não ter tirado um coco pelo caminho, acusando-me de caxias, de não querer parar durante a caminhada, curtindo um pouco pelo caminho. Garanti que na primeira oportunidade seu tão desejado coco vai sair.
Chegamos felizes com mais um recorde – 25 Km num dia – e saudamos o feito com as já costumeiras duas cervejinhas geladas. Depois pousada e etc.

Nove dias de emoções - 5


7º dia – 10/1/2001 (quarta-feira)
12h - Pousada Janaína – Costa Azul/mun. de Jandaíra

De Siribinha a Costa Azul – 12 Km
Saída – 8:45h (após travessia da barra do rio Itapicuru)
Chegada – 11:15h (com parada de 40 minutos)
2:30h para 9 Km (3 Km foram suprimidos em decorrência da travessia por barco).
A parada foi para a tão ansiada tirada de coco, reclamada durante toda a viagem por Deta. Tiramos o coco, bebemos água e, depois de cerrado com o canivete suíço, comemos a polpa. Deta, insatisfeita, ainda reclamou: queria tirar o coco num momento de muita sede e fome. Mas, retruquei, tiramos no dia apropriado.
É que hoje, na verdade, foi o dia mais ameno, jornada pequena, apelidada por mim de “jornada recreio”, depois de termos batido o recorde de 25 Km/dia.
Saímos de Siribinha após o café da manhã e ainda cobrimos cerca de 3 Km de barco para travessia do rio Itapicuru. Um programa tipicamente ameno.
Mas, mesmo assim, Deta ainda teve problemas no ítem calçados, o mais problemático até o momento. Começou de basqueteira, depois um pé de basqueteira e outro de sandália e meia e, no final, os dois pés com sandália e meia, meio capengando, devagar. Deta vem usando todas as alternativas de calçados e continua com problemas. É uma dor na perna por causa da sandália, é uma bolha por causa da basqueteira, sempre há um problema.
Eu, porém, neste ítem, me estabilizei – estou bem. Voltei à sandália sem nenhum problema. Até agora me dei o luxo de não testar a alternativa da sandália com meias.
Hoje, mais um dia de maré baixa (na verdade, tivemos sorte, pois durante a nossa caminhada a maré está predominantemente baixa no período da manhã). Encontramos só dois nativos e, já perto, um grupo de pescadores (veranistas e nativos). Não chegamos nem a molhar as toalhinhas amarelas.

Nove dias de emoções - 6


8º dia – 11/1/2001 (quinta-feira)
12:15h - Pousada Aconchego da Telma – Mangue Seco

De Costa Azul a Mangue Seco – 28 Km (mais um recorde)
Saída – 4:45h
Chegada – 11h (6:15h para 28 Km)
Hoje jornada duríssima. “Deta e Jadson excederam de novo”, disse Deta parafraseando o bordão da Shell. Foram 6:15h de jornada ininterrupta, agravada pela maré cheia (areia fofa) nas primeiras três horas da caminhada. Ambos descalços. No início cheguei a duvidar se conseguiríamos, pois na primeira hora sentimos cansaço. Lembramos até da primeira hora no início da jornada na Praia do Forte (também com areia fofa). Mas, resistimos e fomos em frente. A partir das 7:30/8h a maré já tinha baixado o suficiente para retomarmos nosso terreno predileto (areia batida).
Até a chegada, porém, foi duro. Avistamos os primeiros sinais da praia de Mangue Seco – depois de passarmos na altura da entrada para o povoado de Coqueiros (a 6 Km de Mangue Seco) – e parecia difícil completar. Perguntei a um pescador/nativo se já estava perto de M.Seco. Isso junto da entrada pra Coqueiros, distante, portanto, cerca de 6 Km. Ele mirou, apontou e me respondeu: “Tá sim. É lá naquele moi de coqueiro”. Chegamos aos trancos e barrancos. Sentamos numa barraca, tomamos banho de mar e as tradicionais duas cervejinhas. E, como ninguém é de ferro, entramos pra M.Seco de bugre – cerca de 1,5/2 Km às margens do rio Real.
Trecho todo com bela praia, limpa, especialmente na maré baixa. Encontramos pouca gente e, já próximo, alguns carros e muitos bugres. Já na praia de M.Seco e no povoado, inúmeros bugres.
No nosso ítem mais badalado – o calçado – tudo bem hoje. Deta fez todo o percurso descalça e eu acabei com sandália. Um dos melhores dias neste ítem.
Em Costa Azul topamos com um companheiro andarilho. O paulista Paulo, que, conforme nos contou, já andou por todo este Brasil. Ficamos na mesma pousada e saímos juntos hoje de manhã, mas ele acabou ficando para trás. Não sabemos se resolveu se atrasar, para curtir, ou foi obrigado devido à maré cheia e por andar bastante pesado – uma mochila grande e uma pequena. Provavelmente o encontraremos hoje aqui em Mangue Seco.
Um susto. Durante o percurso, ao passarmos defronte de um grande conjunto de imóveis (na verdade instalações de um enorme empreendimento de criação e beneficiamento de camarões, conforme nos informaram), dois enormes cachorros, tipo pastor alemão, vieram em nossa direção latindo ameaçadoramente. Deta, sabiamente, disse logo pra não corrermos, pra continuarmos caminhando como se nada estivesse acontecendo. Dito e feito. A uns 20 metros de nós eles foram se acalmando, pararam e voltaram.
Amanhã entraremos em território sergipano e talvez cheguemos até Aracaju, encerrando a aventura.

Nove dias de emoções - 7

9º dia – 12/1/2001 (sexta-feira)
Escrito no dia 13 – sábado – 7:35h (horário SE) – Pousada do Sol – Coroa do Meio/Aracaju

De Mangue Seco a Abaís – 14 Km
Saída - 8:15h (após travessia do rio Real)
Chegada - 11h (2:45h para 14 Km)
Deixamos a Pousada Aconchego da Telma, tomamos o café da manhã (da pousada) no Bar Bafo de Bode, pegamos uma lancha (R$20,00) e atravessamos o rio Real, ficando perto do que eles chamam de “marina”.
Iniciamos então a caminhada na margem do rio até o povoado Ponta do Saco (Estância). Fomos bem devagar, pois era chão mole, maré ainda cheia (nos últimos dias a maré só baixava depois das 8h).
No povoado nos abastecemos de água (pra beber e molhamos as toalhinhas amarelas) e tocamos para Abaís. Informações bastante divergentes sobre distância. Aí, saindo de Ponta do Saco, já pegamos nosso terreno predileto: maré vazando e chão batido. Beleza.
Estabilizamos em termos de calçado: descalço e/ou sandália tipo japonesa. Não tivemos mais problema. Sobraram em mim duas unhas podres, uma em cada pé – herança da basqueteira. E em Deta, alguns calos e bolhas, uma delas estourada. Chegamos à conclusão que o calçado (tênis, basqueteira, sandália) mais indicado para uma jornada desta pela praia é o que a pessoa já use em caminhadas por cerca de um ano, totalmente adaptado aos pés. De quebra, é bom levar um reserva ou uma sandália tipo japonesa ou se preparar para andar também descalço. Nunca um sapato novo, como fizemos, equivocadamente, com a basqueteira.
Paisagem bem diferente na terra sergipana: raros coqueiros e casas grandes de veraneio em quase todo percurso. Não vimos nenhum nativo (pescador/morador) em toda a praia – só pescadores veranistas. Uma coisa meio sem vida. Abaís também é constituída de veranistas (a maioria, claro). Pertence também ao município de Estância.
Chegamos a Abaís, começamos a tomar cerveja num bar e conversar com dois senhores (um deles vereador de Jandaíra, de nome Noilson). Nos informaram que a próxima praia seria Caueira, a 11 Km, mas a travessia de balsa do rio Vaza-Barris seria meio complicada a partir da praia – falaram em mais 16 Km (de carro) até a balsa. Discutimos e resolvemos encerrar nossa aventura logo ali, pegando uma Topic para Estância e, de lá, um táxi (lotação – R$ 6,00 cada) para Aracaju. Após a decisão de encerrar a caminhada, incrementamos as cervejas e eu tomei logo três doses de uísque (Teacher’s, o melhor do bar). Os dois senhores e o garçon se admiraram de nossa façanha e se interessaram pelas informações sobre ela.
O táxi nos deixou em Coroa do Meio, tomamos mais um uísque e uma cerveja e conseguimos vaga na nossa pousada predileta lá na capital sergipana.
Depois de instalados, fomos comemorar na Cantina d’Itália, pois não aguento mais comer peixe. Tomei mais dois uísques. E haja comemoração.
Agora estamos no conforto com ar condicionado, TV por assinatura, frigobar, chuveiro elétrico e etc. As pernas e o corpo e o espírito, tudo em forma.

Balanço: 1º dia - P.Forte/Diogo – 15 Km; 2º dia - Diogo/P.Sauípe – 10; 3º dia - P.Sauípe/Subaúma – 21; 4º dia - Subaúma/Baixio – 20; 5º dia - Baixio/B.Itariri – 16; 6º dia - B.Itariri/Siribinha - 25; 7º dia – Siribinha/C.Azul – 9; 8º dia – C.Azul/M.Seco – 28; 9º dia – M.Seco/Abaís – 14 Km.
Total: nove dias - 158 Km.
Média: 17,5 Km por dia.

Este relato é dedicado a DETA,
essa moça que tanto amo, quem
realmente provocou e alimentou
tão gostosa aventura.

Em 20/4/2001 (três meses depois)

Jadson