segunda-feira, 26 de abril de 2010

Diálogos trinidenses

De Porto Espanha (Trinidad e Tobago) – “Ah! Você é do Brasil! Conheço algumas coisas do Brasil, da música brasileira, do futebol, sou muito ligado a música, conheço, por exemlo, Antonio Carlos Jobim, ‘very good’, cantou nos Estados Unidos com Frank Sinatra, muito bom...”



Não sei se o “diálogos” do título é apropriado. É uma conversa entrecortada, através do estranho inglês crioulo caribenho. George tem 68 anos e guarda lembranças antigas de um Brasil antigo, ou nem tanto, digamos do tempo da juventude de minha geração, anos 50, 60.



Estamos no Parque Savana (Queen's Park Savannah), final de uma tarde de abril, ainda batendo aquele vento quente da ensolarada e calorenta cidade Port-of-Spain, aquele “bafo” que conheci no agreste do norte da Bahia, lá para as bandas de Jeremoabo, Cícero Dantas e Paulo Afonso, onde imperou no início do século passado o rei do cangaço Lampião, bandido/heroi do Nordeste brasileiro. Aliás, o Parque Savana, com o calorzão e a secura da vegetação, tem todo o jeito do nosso Nordeste. Numa das suas margens - para dar o tom da paisagem -, vemos a monumental National Academy of Performing Arts, que lembra logo a Sydney Opera House (Austrália). Em outro lado, o belo e antigo prédio do Queen’s Royal College.



“Sim, Tom Jobim, muito importante, muito conhecido no Brasil, morreu relativamente jovem, é considerado um dos três principais criadores do movimento chamado Bossa Nova, juntamente com João Gilberto e Vinicius de Moraes. Conhece João Gilberto? Ele tem um disco, famoso internacionalmente, com o saxofonista norte-americano Stan Getz”.



“Não me recordo, conheço bem Stan Getz, mas me lembro de Astrud Gilberto”, respondeu George. Ele não se lembrava de ter ouvido falar em João Gilberto e Vinicius. Conhece, no entanto, Astrud Gilberto, praticamente desconhecida no Brasil, mesmo porque tem toda sua carreira no exterior, a partir dos Estados Unidos. Astrud vem a ser ex-mulher de João Gilberto, era amiga da musa da Bossa Nova, Nara Leão. Atualmente, aos 70 anos, continua cantando a músca brasileira no exterior.

George me falou então das orquestras de Sérgio Mendes e de Peruzzi, ambos brasileiros que fizeram muito sucesso no Brasil e no exterior, anos 60, 70, creio que tiveram grande atividade nos Estados Unidos.

“Me recordo bem das músicas dançantes da orquestra de Sérgio Mendes, porém da de Peruzzi nunca tinha ouvido qualquer menção”, disse eu.

Ele falou dos ritmos mais tocados e cantados em Trinidad e Tobago: “soca” (o tipo de música mais ouvido por aqui, de origem africana), “calipso” (segundo ele, herança dos tempos de colônia francesa – T&T foi colonizado pela Espanha, depois França e depois Inglaterra) e também o reggae, marca registrada da Jamaica, outra ilha do Caribe.

“Outra coisa que não esqueço – continuou George - é a seleção de futebol de 1958, quando o Brasil foi campeão do mundo pela primeira vez. Pelé, Vavá, Nilton Santos, Bellini...”

“...Garrincha, Clodoaldo, Gilmar”, acrescentei e, na minha cabeça, flashes da turma na minha pequena cidade natal, Seabra, interior da Bahia, Chapada Diamantina, ouvindo os jogos pelo rádio, Alceu Correia Guedes e Gonçalves, pernambucano, coletor (hoje seria auditor) federal, vibrando com um gol do centroavante Vavá, também nascido em Pernambuco, gritando “do pernambuquinho!!!”

“O que mais conheço do Brasil?”, George repete minha pergunta e responde: “De Eder Jofre, grande lutador de box” (foi campeão mundial em 1960, “peso galo”, e 1973, “peso pena”).

E assim, a tarde termina e a conversação vai chegando ao fim, fatiada e maltratada pelo idioma.

(As fotos, de autoria do colombiano Armando Viveros, são do Parque Savana, da National Academy of Performing Arts e do Queen’s Royal College).



segunda-feira, 19 de abril de 2010

Trinidad terá eleições em 24 de maio


De Porto Espanha (Trinidad e Tobago) – Depois de muita pressão da oposição e outros setores da sociedade, o governo do primeiro-ministro Patrick Manning (foto) do Movimento Nacional do Povo (People’s National Movement – PNM), anunciou na sexta-feira, dia 16, a convocação de eleições gerais para 24 de maio.



Segundo matéria do jornal Newsday, deve ser uma das campanhas mais intensas em décadas, embora (observo com olhar brasileiro) tenha a duração de apenas cinco semanas. Manning e seu partido estão no poder desde dezembro/2001, tendo sido confirmado no cargo em eleições de 2007. (Há o presidente George Richards, que faz o papel de rainha da Inglaterra, já que o regime é parlamentarista).

Os partidos vão definir os candidatos ao Parlamento até o próximo dia 3. Os jornais falam de apenas três partidos: além do governista, dois outros que estão aliados na oposição: Congresso Nacional Unido (UNC – United National Congress) e Congresso do Povo (COP – Congress of the People).

As pressões contra Patrick Manning (os jornais usam muito a sigla PM, ele é o chefe do governo e líder do PNM) são sustentadas por três supostas debilidades de sua administração: o relacionamento com os trabalhadores (ou os sindicatos), as denúncias de corrupção e o problema da insegurança pública (criminalidade).

Nestes últimos 30 dias em que estou por aqui, sempre que abro um jornal há matérias sobre investigação de corrupção no órgão governamental Corporação (ou Empresa) de Desenvolvimento Urbano de Trinidad e Tobago. O governo já mudou toda a direção do órgão, mas o assunto continua em pauta diariamente.


No início do mês, a principal líder oposicionista, Kamla Persad-Bissessar (foto), do UNC, tinha proposto uma moção de desconfiança contra Manning e este reagiu dissolvendo o Parlamento (não tem nada a ver com golpe, são procedimentos normais, constitucionais, no parlamentarismo). PM, para usar a sigla comum aqui, declarou então que as novas eleições seriam antes de 8 de julho. A pressão foi aumentando pela definição da data, até o anúncio da sexta-feira.


 

Topei mais uma eleição

Após a excitante experiência da cobertura das eleições de 6 de dezembro na Bolívia, eis que, assim de surpresa, topo com tal evento aqui em Trinidad, onde julguei que a política estivesse fora da minha pauta. Vou tentar acompanhar o processo, mas sei que com mil e uma limitações, a começar pelo não domínio do inglês.

Como vocês podem ver, fiz a matéria acima baseado nas informações dos jornais, com dados factuais, bastante óbvios. Evidentemente, não tenho condições de entrar em questões de fundo, tentar entender o que realmente está em jogo num pleito desse. O tom que vejo nas declarações publicadas nos jornais me dá a idéia de um jogo meramente moralista, numa sociedade capitalista bastante estável.

O Newsday fala num cartaz da campanha eleitoral, chamando o dia 24 de maio de “Deliverance Day”, que na minha tradução seria mais ou menos “Dia da Salvação”. Parece coisa de religião. E a líder da oposição, Kamla Bissessar, candidata, portanto, a primeira-ministra, já apareceu de braços com um dos marqueteiros da campanha de Barack Obama. O jornal que fala do assunto deu à matéria um título sugestivo: “Yes she can” (“Sim ela pode”), cópia do slogan de Obama.

Que tal? Mas, sem precipitações, vamos em frente.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

ENTURMANDO


De Porto Espanha (Trinidad e Tobago) – Amiga, conforme te prometi, estou enviando uma foto de confraternização com alguns dos colegas do curso de inglês. Las muchachas y los muchachos são todos jovens – venezuelanas(os), colombianas(os) e este brasileiro, não tão jovem assim. Da esquerda para a direita: José, Yessica, Jadson, Angélica, Carlos, Desireé e Rafael. (A foto é de Yessica, armou a maquininha para disparar automaticamente).



Estávamos no bar Coco Lounge, na simpática Avenida Ariapita, na sexta feira, dia 9, tomando uns tragos (nem todos bebiam) para relaxar depois de uma semana no intensivo curso do Pro-Language Institute (PLI). Relaxando e enturmando, certo amiga? Até breve.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Pra não dizer que não falei de bares

De Porto Espanha (Trinidad e Tobago) – Amiga, como estás? Há muito tempo não nos falamos. As últimas cartas que te fiz, creio, foi de Assunção, lá para os idos de setembro/2009, falavam de coisas feias, ditadura, tortura, Stroessner.

Pois é, estou passando uma temporada no Caribe, exercitando a estimulante arte da solidão e da busca do não sei o quê. Mas já estou me enturmando, não com os nativos e seu inglês quase intransponível, sim com os latino-americanos do curso de inglês. Talvez te mande umas fotos com jovens venezuelanos(as) e colombianos(as), não na escola, sim num bar.

Ah, é isso aí, vou te falar do assunto titular. Já andei neste quase um mês por aqui em cinco bares, tu sabes que é uma das minhas especialidades (há outras?), frequentar bar, se fosse possível, boteco. Todos no bairro Woodbrooke, a uns 20 minutos de caminhada para o miolo da cidade.

Os prediletos: Crobar, na Avenida Ariapita, e Red Bull, no centro comercial junto ao Movie Towne, onde funcionam 10 salas de cinema (uma cervejinha custa o equivalente a 3 a 5 reais e uma dose de uísque Black&White, 10, 11 reais, bem mais caras do que em Salvador/Bahia, Assunção ou La Paz).

CADÊ A INSERÇÃO? - Sobre o curso de inglês aqui no PLI – Pro-Language Institute, faço uma observação talvez na esperança de que algum colega estudante leia esta carta: o curso parece muito bom, intensivo mesmo, mas tem um problema fundamental: não há inserção. O que é isso? É você estudar num país onde se fala a língua que você está estudando. Seria o caso daqui, mas, na prática, não é.

Porque os estudantes são todos de fala espanhola (acho que a única exceção sou eu), e eles estão sempre juntos, falando espanhol. Na própria escola, quando saem da sala de aula, falam espanhol, moram em grupos nas mesmas casas, saem juntos, comem juntos, bebem juntos, sempre falando sua língua original. Para que se vai estudar inglês num país de fala inglesa? Para, enquanto estuda, falar o inglês no dia-a-dia, a tal da inserção.

“ISSO NÃO É VENTO, É BAFO” - Pois então, amiga, vou te dar umas dicas sobre Port of Spain (nome oficial), esta pequena e charmosa cidade habitada por negros, de temperatura durante o dia sempre acima dos 30 graus. Já é muito calor e ainda estamos a dois meses do verão caribenho, muito sol, e sempre bate um vento quente, o qual costumo chamar bafo (conheci um semelhante lá pelo norte da Bahia, região de Jeremoabo/Paulo Afonso, onde constatei: “Isso não é vento, é bafo”).


CRÍQUETE, BEISEBOL E FUTEBOL - Li na Internet que o esporte mais importante aqui é o tal do críquet (deve ser críquete em português), vi inclusive, de fora, um grande estádio. O beisebol também é muito praticado, acho que os dois têm muitas semelhanças, mas não os entendo. O país ganhou, em 1976, uma única medalha de ouro nos Jogos Olímpicos.

Já o nosso velho futebol é muito popular por aqui, mas Trinidad e Tobago só conseguiu chegar uma única vez à Copa do Mundo. Foi em 2006, na Alemanha. Aguentou, claro, só a primeira fase, empatou uma partida e perdeu as outras duas. Os craques brasileiros (Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, etc) que jogam ou jogaram na Europa são, óbvio, muito conhecidos.

Na tarde do último sábado, dia 10, por exemplo, viam-se aglomerações de trinidenses em frente a TVs em vários pontos da cidade, assistindo às proezas de Messi e Cristiano Ronaldo (Kaká não jogou), no jogo Barcelona 2 X 0 Real Madrid (é o caso das pessoas que aparecem na frente do Movie Towne, numa das fotos que vou tentar postar, se não conseguir peço socorro à minha editora).

Querida amiga, depositária anônima de minhas anotações, depois te conto mais, beijos, abraços.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Turistando em Trinidad

De Porto Espanha (Trinidad e Tobago) – No sábado, dia 3, fiz meu primeiro passeio turístico fora da capital trinidense. Até agora o turismo estava restrito às caminhadas pelas ruas da cidade e visitas a alguns locais, como o porto e a bela biblioteca pública. Fomos – três colegas colombianos do curso de inglês e eu – à Praia de Maracas (Maracas Beach), a mais badalada por aqui.


Praia é praia. Quem é de Salvador/Bahia/Brasil, sabe que é difícil encontrar praias tão belas quanto as baianas ou, de modo geral, do Nordeste brasileiro. Mas podemos dizer que a de Maracas é também muita bonita, com aquelas águas claras típicas do mar do Caribe.


Fica na baía do mesmo nome (uns 40 minutos de ônibus, pequeno, tipo van), uma impressionante vista na parte nordeste da ilha, enfeitada por morros totalmente cobertos pela mata – o azul do mar, o verde da floresta e as tiras esbranquiçadas da areia, formando uma linda paisagem. No mais, muito calor e sol forte (parte do dia, porém, esteve nublado, chegou a chover à tarde quando retornávamos, um alívio no calorzão).

Tomamos umas cervejinhas Carib, pelo gargalo à moda de Trinidad (os amigos colombianos, que são bebedores moderadíssimos, me disseram que há esse hábito também em seu país, inclusive com garrafas grandes). E dois do grupo comeram o famoso por aqui Bake and Shark, comida típica da região.


Vou tentar explicar, mas quem me conhece sabe que nesse negócio de comida não entendo nada (pra compensar, como de tudo, ou de quase tudo): é um sanduíche, cujo principal ingrediente é um pedaço de peixe (shark, olhei no dicionário, é um tipo de peixe), coberto com aquela capa de fritura. Aí você acrescenta, a seu gosto, vários complementos, como abacaxi, tomate, repolho, ketchup, caldo de alho, outros caldos, etc, etc, inclusive pimenta, fortíssima por sinal.


Aliás, aqui quase toda comida tem pimenta. Sofri até aprender a perguntar: no pepper? no hot? (não pimenta? não quente?), fazendo gestos com a mão e a boca para indicar ardor. Mesmo eles garantindo que não há pimenta, você termina sentindo a boca arder, nem que seja pouco.

CURIOSIDADE DA SÉRIE turista é sempre Garfado: perguntei no hotel onde tomar ônibus para a Praia de Maracas. Me disseram que não havia ônibus para Maracas, eu teria que tomar um táxi, custaria 100 dólares americanos – US$ (o equivalente a 600 dólares trinidenses – TT$).
Estranhei: e as pessoas mais pobres como é que viajam pra lá? Me responderam, certamente tentando me enrolar, não entendi nada. Eu disse OK (já sabia, pelo celular, que os colombianos estavam indo de ônibus) e saí pra batalhar pelo centro da cidade. Após mais de uma hora, me batendo aqui e acolá, às voltas com o inglês incompreensível, um senhor me levou até a rua onde os ônibus fazem ponto (ele já ia para aquelas bandas). Sabem quanto paguei? nove dólares trinidenses - TT$. Pode ser? Todo mundo acha que turista é besta e rico, o que tem muita lógica.
NOVOS AMIGOS COLOMBIANOS – Como é quase impossível me entrosar com os nativos de Trinidad, por causa do idioma, estou me enturmando com os colegas do curso de inglês, todos falam espanhol (na minha turma de 10, tem gente, todos jovens, da Venezuela, Colômbia e Argentina, parece que as garotas são todas venezuelanas).

Armando Viveros, 18 anos, Frederico Santo Domingo, 25, e Jesus David, 27 (citados na ordem que aparecem na foto) foram meus companheiros de Maracas (combinamos passar o próximo final de semana na outra ilha, Tobago).

Armando gosta de viajar, conhecer outras terras, se diz um “viajero”. Já esteve no Peru, Equador e Panamá. Agora aproveita o curso também para conhecer mais um país. Disse que vai me visitar quando eu estiver no Brasil. Não pensa em fazer universidade, quer um curso técnico, arranjar logo uma profissão, “quero estudar Culinária na Austrália”, planeja. Ele é da cidade de Santa Marta, no departamento (estado) de Madalena, na costa norte da Colômbia.

Frederico e Jesus são de Barranquilla, departamento de Atlántico, também no norte do país. São pilotos comerciais, trabalham na Aerorepública, empresa aérea colombiana que programa iniciar uma linha para São Paulo/Brasil lá para o próximo mês de junho. A aprendizagem do inglês é por conveniência da própria companhia. Eles se conheceram no curso de Aviação. Jesus lembrou que a vantagem de estudar em Trinidad é pela maior facilidade do visto, além da proximidade.

Digam três coisas que lembram o Brasil, pedi. Todos incluíram o Carnaval, sendo que Armando acrescentou “do Rio de Janeiro”. E mais: jogo bonito de futebol e as garotas brasileñas, de ouvir falar, “gostaria de conhecer de fato”. Frederico também citou as garotas e mais o Cristo Redentor, enquanto Jesus fez mais três referências: os aviões da Embraer, os carros brasileiros e a floresta amazônica.