quarta-feira, 23 de junho de 2010

LIBERDADE DE IMPRENSA É LIBERDADE DE EMPRESA

Fotos: Bia Barbosa/Carta Maior


Lançamento de livro e debate no Sindicato dos Engenheiros

De São Paulo (SP) - Não existe liberdade de expressão para os cidadãos brasileiros, pois na sociedade atual ela depende da intermediação dos meios de comunicação de massa e estes são dominados por meia dúzia de grupos empresariais que se servem deles em proveito próprio. Com exceção, até agora, da Internet, os jornais, revistas, TVs e rádios estão nas mãos de algumas famílias privilegiadas, únicas a gozar hoje, no sistema capitalista, da tão badalada liberdade de imprensa, ou seja, a liberdade de imprimir e difundir notícias e opiniões, uma conquista fundamental dos cidadãos no final do século 18. Atualmente, liberdade de imprensa foi transformada em liberdade de empresa.


Venício Lima autografa seu livro 

Tais constatações são discutidas e fundamentadas no livro Liberdade de Imprensa x Liberdade de Expressão, do sociólogo e jornalista Venício de Lima, lançado na segunda-feira, dia 21, em São Paulo (sede do Sindicato dos Engenheiros). No lançamento, organizado pela editora Publisher Brasil e pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, houve debate com o autor, com o professor Fábio Konder Comparato (que assina o prefácio) e com os jornalistas Paulo Henrique Amorim (blog Conversa Afiada), Mino Carta (revista Carta Capital) e Luis Nassif (Portal Luis Nassif).
 Lima: para  patrões  liberdade de imprensa é  liberdade de empresa

A burguesia abusa de termos ambíguos

Venício de Lima falou do uso e abuso das duas expressões do título do livro por parte dos “donos” da mídia e Comparato ensinou sobre a grande habilidade da burguesia na utilização de termos ambíguos, visando dominar o Estado e o mercado. Exemplificou com a propriedade, um direito conquistado nas revoluções do final do século 18, antes privativo da aristocracia e do clero. Acontece que, então, o direito à propriedade era entendido como uma garantia da dignidade humana, ter uma casa, por exemplo, um agricultor ter um pedaço de terra.

Hoje, com a imensa concentração da propriedade nas mãos de uma minoria, ela mudou de caráter, passou a ser um instrumento de dominação, de poder, devendo, portanto, ser controlada. Mas a burguesia continua brandindo os mesmos argumentos do final do século 18. Não, nos moldes atuais, a propriedade não é mais um direito fundamental, alerta o professor.

A mesma coisa com a liberdade de imprensa, de imprimir. Antes só se podia imprimir uma publicação qualquer com a chancela da igreja ou do Estado. Tais restrições foram abolidas, proliferaram jornais: em 1821/22 havia 20 periódicos no Rio de Janeiro, talvez mais do que hoje, diz Comparato, os reacionários da época chamavam de “praga periodiqueira”. Mas com a concentração dos meios de comunicação isso mudou, a mídia passou a ser também um instrumento de dominação, de poder, de geração de lucro. Então, deve ser também controlada, de alguma forma, pela sociedade, trata-se de um serviço público essencial, trata-se de uma questão de direitos humanos.

“Não somos uma verdadeira república”

O professor Comparato disse que não podemos ficar somente com lamúrias e fez um apelo para que se providencie uma ação judicial com o objetivo de forçar o Congresso Nacional a regulamentar os dispositivos da Constituição de 1988 que proibem o monopólio da mídia e determinam os procedimentos necessários (parece até inacreditável, mas o parágrafo quinto do artigo 220 da Constituição diz claramente: “Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio"). Informou ter sugerido tal medida ao Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), mas até agora sem resultado. Por sugestão de Paulo Henrique, representantes do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e da Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores de Comunicação (Altercom), participantes do debate, ficaram de examinar o assunto no âmbito das duas entidades.

Para alongar um pouco os ensinamentos do professor, segue um pequeno trecho do seu prefácio: “Não somos uma verdadeira república, porque o bem comum do povo, que os romanos denominavam exatamente res publica, não prevalece sobre os interesses particulares dos ricos e poderosos. Não somos uma autêntica democracia, porque o poder soberano não pertence ao povo, mas a uma minoria de grupos ou pessoas abastadas; o que é a própria definição de oligarquia. Tampouco constituímos um Estado de Direito, porque, com escandalosa frequência, as pessoas investidas em cargos públicos – no Executivo, no Legislativo e até mesmo no Judiciário – exercem um poder sem controle, e logram pôr sua vontade e seus interesses próprios acima do disposto na Constituição e nas leis”.


Querem nos calar pelo bolso”

Sobre o surgimento da Internet como um meio de comunicação ainda livre, no contexto da sufocante concentração midiática, Paulo Henrique e Nassif destacaram os riscos decorrentes dos processos judiciais contra os blogueiros, acarretando muitos gastos financeiros, a começar pelo pagamento de advogados. Os dois são alvos de várias ações com pedidos de indenização, por iniciativa, por exemplo, do banqueiro Daniel Dantas, no caso do primeiro, e por iniciativa da revista Veja, no caso do segundo. Há já também muitas ações pelo Brasil afora contra alvos mais frágeis, blogueiros de menor visibilidade.



Luís Nassif fala sobre mudanças na imprensa

“Querem nos calar pelo bolso”, alertou Paulo Henrique, propondo a criação de mecanismos, um fundo, por exemplo, “o mais rápido possível”, para defender os blogueiros independentes. Luis Nassif fez uma rápida avaliação das mudanças ocorridas na imprensa desde o fim do regime militar, pondo em evidência a perda de influência de jornais como Folha de S.Paulo, Estadão e O Globo, bem como revistas como a Veja, e o crescente poder de fogo de blogs/sítios/sites/postais na Internet. Ele vê se extinguindo a mediação da grande imprensa na criação de fatos políticos, a tendência que se acentua a cada dia é o jornalista deixar de ser dono da informação, passando à condição de mero mediador. O protagonismo das pessoas que acessam a Internet é cada vez mais importante para a circulação das notícias e opiniões. “Órfãos da mídia”, como chamou Nassif o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), sindicatos, movimentos sociais de modo geral, passam a exercitar sua liberdade de expressão através da Internet.

Contra a expressão “imprensa alternativa”

Repetindo a frase da qual gosta muito – “o Brasil é o único país do mundo onde o jornalista chama o patrão de colega” -, Mino Carta foi cáustico com a imprensa brasileira, “de péssima qualidade”, e com os jornalistas: “Seguem cegamente as ordens do patrão, acabam acreditando no que escrevem, têm medo de perder o emprego e perder o sorriso do patrão”.

Ele defende que se deve brigar contra o super-poder dos monopólios da mídia “com algum tipo de eficácia”, ou seja, temos que ser eficazes, não fazer jornalecos com papel ruim, por exemplo, precisamos de “um jornalismo independente e bem feito”, com realismo, procurando atuar dentro das regras do capitalismo. Uma receita, aliás, condizente com sua experiência à frente de várias revistas de sucesso, como a atual, Carta Capital. Daí Mino se colocar contra o uso da expressão “imprensa alternativa”. Sua observação motivou inclusive outra sugestão de Paulo Henrique, no sentido de se retirar a palavra do nome do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.

terça-feira, 22 de junho de 2010

AOS 50 EU POSSO TUDO

Vivi tempos de paz e enterrei meus pais meus filhos estão aí para chorar ou não no meu enterro vivi tempos de guerra e chorei no adeus de jovens amigos não no último adeus horrível como dizem os jornais. Então descobri que aos 50 anos eu posso tudo posso escrever a lápis num caderno um poema ao amor revisitado posso vislumbrar uma virada socialista em cada esquina da América Latina posso virar direitista ou reviver minha adolescência de udenista gritar na praça pública viva a UDN União Democrática Nacional viva o general Juracy Magalhães posso me tornar carola meu irmão é espírita e não tem medo de morrer então posso muito bem virar carola apesar do padre da minha infância que não era pedófilo mas era agiota digo agora porque minha mãe já morreu não lhe daria tal desgosto vim a saber por acaso no gabinete da presidência da Assembleia Legislativa da Bahia. Posso escrever no meu blog assim aos borbotões sem parágrafos e sem vírgulas como a gente pensa para bombardear os leitores com mil incoerências pedindo desculpas à minha querida editora Joana D’Arck sei que ela vai dizer esse rapaz anda muito estiloso pra meu gosto mas espero que ela entenda que agora eu posso tudo ou quase tudo. Posso não torcer para o time de Dunga e Kaká posso aderir à “hinchada/barra brava” de Maradona e Messi posso me drogar de política nas eleições para presidente do Brasil ou na agitação da Bolívia e da Venezuela ou de amor ou de droga propriamente dita no rum/ron do Caribe no singani dos altiplanos bolivianos na cachaça brasileira se o fígado não aguentar mais posso fumar/beber drogas mais naturais posso até perguntar ao médico como aquele famoso teatrólogo qual é mesmo a drogra que posso consumir porque na verdade na verdade ninguém aguenta tanta sobriedade como diz uma amiga minha. Posso viver um novo sentimento de paixão dilacerante que está no ar provar de novo as emoções do alvorecer viver esse momento mágico após ser largado como um sapato velho pelo amor de tantos anos e eu desesperado mas nem tanto proclamar arranco você desgraçada da minha cabeça na vida tudo é provisório tudo passa por que só meu amor por você não passará? passou porque a natureza é como é não tem contraditório e o melhor está no agora posso desafiar os medos dos 50 a sensação da última oportunidade de amar um grande amor de viver uma revolução de saltar para o escuro destemido temerário desfrutar do resto da mocidade o grande amor pode ser o último como disse Balzac embora o grande romancista na vida real nesta disciplina da paixão homem/mulher tenha sido um fracasso. Posso me matar por que não? Sem deixar bilhete porque aí perde a graça pois a gente busca o tudo mas também busca o nada o infinito o absoluto o insondável os dois extremos se tocando como dizemos ou dizíamos nas intermináveis masturbações político/ideológicas. Posso mudar de mulher trocar de carro deixar o emprego passar a usar somente camisa social como meu pai posso dar de presente aquele velho relógio que Barretinho meu primeiro chefe no jornalismo me vendeu quando queria entortar sua vida e foi embora pro México posso deixar de usar relógio e carregar um computadorzinho chamado celular posso usar uns óculos mais modernos para ficar parecendo Jack Nicholson posso deixar o cabelo crescer como nos anos 60 meu chefe me chamava Gal Costa posso arranjar um álibi por não aderir ao Twitter e Facebook posso reler mais uma vez as assombrosas aventuras de Dom Quixote e Sancho Pança posso adquirir mesmo tardiamente o hábito de escutar música posso começar tudo de novo tabula rasa não tenho ideologia nem amor nem parente nem amigo nem mesmo conhecido sou um “cachorro sem dono” como disse meu amigo Demão lá da Chapada Diamantina posso voltar a estudar inglês posso me aposentar e iniciar um giro pela América Latina/Caribe posso dar a volta por cima ou por baixo e me transformar num esposo fiel pai extremoso e avô idem posso comprar um apartamento bonito se o dinheiro der se possível no Rio Vermelho posso arranjar uma profissão diferente fotógrafo por exemplo começar a fazer terapia posso comprar um pandeiro aprender percussão com os cubanos posso voltar a surfar na onda dos movimentos sociais ou ao contrário me quedar num canto qualquer calado mofando apodrecendo esperando a morte e parece que vou ter um infarto ou um AVC e vou parar por aqui porque já estou sem fôlego e o leitor coitado!




(Último texto escrito em Porto Espanha, capital de Trinidad e Tobago. Vamos ver se começo a “trabalhar” neste mundão chamado São Paulo, onde pretendo cobrir principalmente atividades dos movimentos sociais).

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Tragédia colombiana

Marcelo Salles escreveu no último dia 9 em sua coluna Sobre Mídia e Política, no blog Fazendo Media: a média que a mídia faz, a seguinte nota:


Sobre as eleições na Colômbia (segundo turno neste domingo, dia 20), é bom ficar de olhos bem abertos. As pesquisas de opinião davam empate técnico, mas o candidato uribista, Juan Manuel Santos (foto), ex-ministro da Defesa, venceu o primeiro turno com quase o dobro dos votos. Observadores internacionais disseram que muitos eleitores deixaram de votar por conta da “violência”. A direita põe a culpa nas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Eu tenho lá minhas dúvidas. Por que as Farc fariam uma ação que favorecesse o candidato uribista?



Fiz o comentário abaixo lá no Fazendo Media e ampliei um pouco para publicar aqui no meu blog:

Marcelo, sobre as eleições na Colômbia, você faz uma pergunta pertinente: por que as Farc fariam uma ação em benefício de seus inimigos – o presidente Álvaro Uribe e seu candidato Juan Manuel Santos?

Acrescento outra: por que a disparidade enorme nas pesquisas – do empate técnico à vitória esmagadora do candidato uribista? A qual, ao que parece, deve ser confirmada ou ampliada no segundo turmo, próximo dia 20.

Tenho lido os sítios que considero mais confiáveis (além dos brasileiros, os de Telesur, La Jornada/México, Página 12/Argentina e Público/Espanha) e não consegui entender bem. (Quando candidato, para o público aqui no meu blog, as pesquisas apontavam vitória de Antanas Mockus, ex-prefeito de Bogotá, pelo Partido Verde, escrevi  Esperança de "cambio" na Colômbia, postado aqui em 10/maio e no Fazendo Media em 04/maio).

Para as forças que costumamos chamar, na falta de uma designação mais precisa, progressistas, a Colômbia é uma tragédia.

 Desde 1948, quando assassinaram aquele líder popular/liberal Jorge Gaitán, o país vive até hoje, 62 anos após, uma conflagração. Além da incrível longevidade de grupos guerrilheiros (as Farc em especial), é um tal de assassinar opositores, candidatos a presidente, sindicalistas e simples camponeses (os últimos para serem “transformados” em guerrilheiros, os “falsos positivos”). Tudo mesclado com paramilitares, narcotraficantes e espionagem de opositores; agravado com os milhões de miseráveis e refugiados (os “desplazados”, deslocados); e reforçado com o domínio da mídia, inclusive internacionalmente.

Parece ser uma violência institucionalizada, uma coisa horrível. Ficando pela América Latina, vemos matança semelhante no México, mas confesso minha igonorância quanto à realidade mexicana (no nosso Brasil também se mata muita gente pelas periferias das grandes cidades - além de sindicalistas rurais, sem-terra -, mas aí a maioria é pobre/negra, ninguém liga).

Há dois ingredientes no caso das eleições colombianas que me parecem importantes:

1 – O poder de manipulação das informações do pessoal de Uribe (com apoio integral do império), cuja política belicista parece encontrar amplo respaldo nas camadas médias e no chamado povão, que não vislumbram outras opções em meio a tanta violência;

2 – O poder de intervenção, legal e supra-legal, do pessoal de Uribe no interior do país, lá onde a voz do terror é a voz de Deus, lá nos grotões, como dizemos (ou dizíamos) no Brasil.

Os analistas políticos às vezes destacam também o êxito da adoção de medidas compensatórias/assistenciais, como crédito subsidiado para as camadas de renda média/pequena – a exemplo das aplicadas com sucesso no Brasil. Tais medidas ajudariam a compor o quadro em que o presidente Uribe aparece com elevados índices de aprovação popular, na faixa dos 80%.

Um dia desses, no meu caminhar pela América Latina/Caribe, espero fazer uma temporada na Colômbia para ver mais de perto a sua realidade.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Bye, Bye, Trinidad!

Minha turma de inglês, com diretor, secretária e professoras

De Porto Espanha (Trinidad e Tobago) – “Quem parte leva saudade...” Estou vivendo os últimos momentos trinidenses, aquele olhar meio nostálgico de quem sabe que, muito provavelmente, não verá mais estas paragens, ou invertendo, não comporá mais estas paisagens. Port of Spain, com seu calor abrasador (iniciou-se agora a temporada de chuvas, mas o calor continua), sua população originária de africanos e indianos, seu inglês crioulo, será em breve, para mim, imagens cada dia mais descoradas na parede da memória. Ou fotos no computador, que não amarelam, mas podem ser sumidas por um vírus. Coisas da modernidade!


Quando minha editora Joaninha (jornalista baiana Joana D’Arck) estiver postando este texto, estarei – se o imponderável não meter o bedelho – voando para o frio da maior cidade da América do Sul, onde pretendo montar acampamento por uma temporada:


Cumpro minha sina

Estou numa esquina

Da América Latina.
Dou meus últimos passeios pelo centro da cidade (downtown), pela Praça da Independência, que em verdade não é uma praça, e sim uma larga e curta avenida, espio o porto, faço uma caminhada até a Avenida Ariapita, onde estão bares e restaurantes meus conhecidos, principalmente no primeiro mês dos três que por aqui passei. Chego até o Movie Towne (bairro Woodbrooke), com suas salas de cinema e o centro comercial, parada obrigatória no bar Trader Jacks, que chamei em outra matéria, equivocadamente, Red Bull (uma bebida energética muito anunciada aqui).



Outro dia um último olhar no bairro St.James, na Western Main Road, onde estive com uns amigos numas noites de farra. Um me dizia que “aqui a cidade nunca dorme” e eu dizia “como Nova York naquela canção famosa cantada por Frank Sinatra, a cidade que não dorme”, e repetia em péssimo inglês, “the city that doesn’t sleep”... tomando rum...



Em St.James está o curso de inglês que frequentei durante dois meses, o Pro-Language Institute (PLI), realmente intensivo, muito bom. Me diverti bastante com os jovens colegas venezuelanos e colombianos, mais garotas do que rapazes. Na “formatura” foi divertidíssimo. O diretor Denis Pierre não se esqueceu de registrar, na solenidade, ao me entregar o certificado (conclusão do nível Pre-Intermediate), que fui o estudante mais velho da escola. E bote mais velho nisso! Me recordo minha mãe dizendo: “Meu filho, você não acha que está muito velho pra andar nesse negócio de escola, não?”



Mas ultimamente tenho andado mesmo é no bairro Belmont, mais simples, mais barato, onde morei nos últimos dois meses. Passagem obrigatória pelo Parque Savana ou pela Rua Charlotte (Charlotte Street), que me lembra a Baixa dos Sapateiros (Salvador/Bahia) e, especialmente, frequência assídua no bar JJ’s, numa esquina da Belmont Circular Road.



Uma última cerveja Carib, uma última dose de rum e de uísque Black & White. Uma última saideira. Há sempre um negro/negra mexendo o corpo ao som do “soca”, o ritmo mais tocado nesta terra caribenha, meio parecido com o reggae, que também é daqui do Caribe, Jamaica. Há sempre um negão que te aborda, “where are you from?” (de onde é você?). Em seguida fala de futebol, começando, claro, por Pelé, que eles pronunciam, inacreditavelmente, Pili ou Pilê.



E vai por aí... bye, bye, Trinidad, até de repente, como diria meu velho companheiro bancário Pedro Barbosa.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Como fazer a cabeça do povo

Sede do governo cubano

“Só está faltando Cuba. Eu espero que Fidel Castro, Raúl (Castro) e muitos outros sejam punidos por maltratar, torturar e assassinar a muitos cubanos”. Esta pesada acusação abre um pequeno comentário, feito por alguém que assinou como “anônimo” aqui no meu blog, a respeito do artigo “Direitos Humanos: Brasil na vanguarda do atraso”, postado no último dia 24 (foi publicado também no blog Fazendo Media: a média que a mídia faz).

É realmente chocante ver pessoas arrotarem “verdades absolutas” como se fossem opiniões próprias, genuínas, nascidas do seu livre pensar. Uma espécie assim de revelação paranormal. “Tortura em Cuba nos últimos 50 anos? Nunca ouvi falar de nenhum caso”, respondi ao “anônimo” exagerando de propósito na linguagem e tentando mostrar o quanto ele está desinformado.

Acusar o regime cubano de “maltratar, torturar e assassinar” opositores, uma coisa corriqueira nas recentes ditaduras brasileira e sulamericanas, é, simplesmente, repetir o que diz (ou dá a entender) quase todos os dias a nossa grande mídia, sem o mais leve exercício do livre pensar.

Tradição humanística da revolução cubana

Claro que as lições dadas pela revista Veja e jornais e TVs irmanados ensinam o contrário. Mas a esquerda e os homens/mulheres de bem têm o dever/direito de proclamar: o socialismo cubano pode ter muitos defeitos, mas não tortura e assassina opositores, nunca o fez. Vou mais longe, arriscando-me a levantar a indignação dos direitistas de plantão: a revolução cubana nasceu e viveu, mesmo com mil e uma dificuldades, sob uma tradição humanística que faz jus aos sonhos generosos da geração dos anos 60.

Talvez o que mais simbolize esta tradição seja o fato dos então rebeldes da Sierra Maestra adotarem o hábito de cuidar dos inimigos feridos após as batalhas que venciam, um fato histórico já enterrado na poeira do tempo, do qual gostaria muito que a juventude soubesse. Um dos médicos (ou, pelo menos no início, o médico) dos guerrilheiros era um argentino chamado Ernesto Guevara, que em seguida foi promovido a comandante e se tornou uma lenda chamada El Che.

Pode-se contraditar com uma série de procedimentos ocorridos no processo cubano: os julgamentos e execuções no fragor da vitória da luta armada; a existência até hoje da pena de morte, mesmo muito raramente aplicada; a manutenção do partido único e meios de comunicação só estatais; a perseguição às religiões no início do novo regime, o que foi corrigido mais tarde; a intolerância contra os homossexuais, o que só agora vem-se tentando corrigir.

Em suma, o socialismo cubano demonstra um engessamento perigoso nas questões que podemos chamar de democráticas. A tendência a identificar os críticos, que são uma minoria, como "contra-revolucionários" financiados pelo governo dos Estados Unidos, o que não deixa de ser verdade para grande parte. Porém, serão todos os insatisfeitos financiados pelo império?

Mudança rumo às “delícias” do mercado

Cuba é uma pauta permanente da grande mídia internacional, sempre afinada com as táticas/estratégias do império norte-americano. Os temas às vezes se renovam – ultimamente são as greves de fome de dissidentes presos e as manifestações de Las Damas de Blanco -, mas o enfoque é sempre o mesmo, a necessidade de mudanças. Para corrigir e aperfeiçoar o sistema socialista? Claro que não! A grande imprensa sonha com mudanças rumo ao capitalismo (leia-se, colonialismo), rumo às “delícias” do mercado, rumo às “delícias” do consumismo.

Na minha curta resposta ao “anônimo”, mencionei as imensas vantagens do regime cubano para os mais pobres, mas quero me ater aqui à questão crucial das torturas e assassinatos. Digo de novo: é chocante ver as pessoas repetirem aleivosias que a nossa grande imprensa mete na cabeça do povo, através do velho método nazista de repetir uma mentira mil vezes até que ela se torne uma verdade.



Como criar uma “matriz de opinião
Quando estive na Venezuela (março a maio/2008), se discutia muito por lá sobre a criação de “matriz de opinião”, conforme os sábios ensinamentos dos serviços de inteligência estadunidenses (Agência Central de Inteligência – CIA, sigla em inglês)।


Cheguei a participar de um seminário sobre terrorismo midiático। É assim: os meios de comunicação dizem todo santo dia que o presidente Hugo Chávez é um

ditador, um truculento, criando aí a tal matriz de opinião. No dia em que a imprensa noticia que Chávez fez um ato truculento, mesmo que a coisa tenha sido distorcida ou simplesmente inventada, as pessoas estão prontas para acreditar. (Sobre isso escrevi o artigo Proibição de os simpsons e matriz de opinião, postado aqui no blog em 20/05/2008, e reproduzido no sítio da revista Caros Amigos ).

Na época li um livro espetacular sobre os mecanismos para se botar mentira na cabeça do povo, intitulado “A formação da mentalidade submissa” – tradução literal, de autoria do professor espanhol Vicente Romano. Encontrei na Internet editado por Rebelión - http://www.scribd.com/doc/5865328/La-formacion-de-la-mentalidad-sumisa. Não sei se há alguma edição em português).

Então, no caso de Cuba, é a mesma coisa. Se se trata de uma ditadura, como repetem sempre os jornais, as TVs e as rádios, claro que existem torturas e assassinatos de opositores. Às vezes, não é necessário nem mais noticiar o suposto fato. Depois de consolidada a matriz de opinião, a pessoa, jactando-se de ter opinião “própria”, já deduz e chega às suas “próprias” conclusões.

Há muitos problemas a serem discutidos, avaliados, criticados, com relação a Cuba, mas vamos tentar ser criteriosos: pelo que sei, não há caso/casos de tortura/assassinato de opositores atribuídos ao governo socialista cubano, cuja denúncia ou comprovação parta de pessoas, entidades ou instituições confiáveis.

(Vivi em Cuba oito meses, de julho/2007 a fevereiro/2008. Sobre a realidade cubana escrevi “Crepúsculo ou Alvorecer?”, postado no blog Pilhapuradejoaninha.blogspot.com , em 14/12/2009 ).