terça-feira, 28 de setembro de 2010

SERIA A CAMPANHA DA MÍDIA CONTRA DILMA INVENÇÃO DOS BLOGUEIROS?

Dilma, Serra, Marina e Plínio se enfrentaram no debate da TV Record
De São Paulo (SP) – É incrível o medo dos políticos de enfrentar os meios de comunicação, mesmo quando está claro que órgãos como a TV Globo, a revista Veja e os jornais Folha de S.Paulo, Estadão e O Globo têm lado e o seu lado é o outro. Especialmente quando se trata de candidatos. Me refiro ao desempenho de Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) e Dilma Rousseff (PT) no debate dos presidenciáveis na TV Record, neste domingo, dia 26, os quais teriam todos os motivos para condenar a campanha orquestrada pela chamada velha mídia em favor do candidato da direita, José Serra (PSDB-DEM), tentando, a todo custo, levar as eleições ao segundo turno: Plínio porque tem sido mais coerente como um dos representantes da esquerda e Dilma porque sofre os ataques sistemáticos.

Fica até parecendo que tal campanha é invenção dos chamados blogueiros progressistas e do movimento democrático e popular, que fizeram um expressivo ato “contra o golpismo da mídia” na última quinta-feira, dia 23, no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Afinal de contas, o próprio presidente Lula e sua candidata já se manifestaram explicitamente contra o denuncismo partidarizado da mídia – Dilma chegou a falar de “má fé” da Folha -, mesmo tendo o cuidado de proclamar que todas as denúncias são e serão apuradas pela Polícia Federal, ou seja, pelo próprio governo.

Se se reconhece que a velha mídia tem lado – e esse lado é a direita, é anti-popular, anti-democrático, anti-movimentos sociais - e a maioria das denúncias de corrupção não é comprovada, configura-se claramente o abuso de poder da imprensa, a badalada liberdade de imprensa conspurcada pela liberdade das empresas, dos monopólios dos meios de comunicação, proibidos pela Constituição de 1988 e imperando no dia-a-dia dos brasileiros. Esperava-se, então, que durante o debate tal abuso fosse denunciado por candidatos como Plínio e Dilma. Por Serra não, porque a campanha visa beneficiá-lo; e por Marina Silva (PV) tampouco, porque ela, por ingenuidade ou oportunismo, tem se embalado na onda da mídia, reforçando os objetivos da oposição à direita.

“Prefiro as múltiplas vozes críticas na democracia do que o silêncio da ditadura”

Plínio e Dilma não o fizeram nem quando lhes foi dada a oportunidade através da corajosa pergunda da jornalista Adriana Araújo. Ela indagou a Plínio, para comentário de Dilma, se a imprensa está fazendo uma cobertura imparcial da eleição. O postulante do PSOL bateu numa de suas teclas prediletas – a meu ver, corretamente -, denunciando que os candidatos de esquerda são censurados pela mídia, e chegando a dizer que a Folha não cita seu nome “nem a pau”. Defendeu ainda o controle social da mídia de massa, uma tese consagrada entre os movimentos sociais. Porém, sobre o “denuncismo” para tentar empurrar Serra, nem uma palavra. Ao contrário: ao deitar falação contra a corrupção, sem qualquer menção à campanha contra Dilma e a favor do tucano, ele acabou fortalecendo tal campanha.

E Dilma, o alvo da campanha da mídia, por que não aproveitou a pergunda da jornalista? Pois é. Ela não tocou no assunto, preferiu a tentativa de conciliação com os poderosos senhores da mídia privada, um dos pilares da ainda não tão nova república, que continua oligárquica, certamente reconhecendo quão poderosos eles ainda são, apesar dos ditos em contrário pelos emergentes meios de comunicação representados pelos blogueiros. A candidata do governo, que apanha todo santo dia nas manchetes dos jornalões, preferiu se somar ao discurso vazio dos mesmos jornalões que a atacam, preferiu tranquilizá-los, soltou até uma frase bem bonita: prefere “as múltiplas vozes críticas na democracia do que o silêncio da ditadura”. Bonito!

Os verdadeiros democratas, os que sonham com a aceleração do processo de inclusão do povo pobre, os que se reuniram contra o golpismo no Auditório Vladimir Herzog do Sindicato dos Jornalistas, certamente, se perguntam: de que democracia se fala? De que ditadura se fala? Da dos monopólios da mídia? Da do governo Lula?

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

“É URGENTE UMA OPERAÇÃO ‘FICHA LIMPA’ NA MÍDIA BRASILEIRA”

Renato Rovai (editor da revista Fórum), Ubiraci Oliveira, o Bira (da CGTB),
Guto (do Sindicato dos Jornalistas) e Miro (do Centro Barão de Itararé)
De São Paulo (SP) – O inverno está indo embora e os paulistanos viveram uma quinta-feira, dia 23, de calor. Daí que cerca de 300 pessoas se apertaram e suaram muito no Auditório Vladimir Herzog (jornalista morto sob tortura durante a ditadura), do Sindicato dos Jornalistas – com capacidade para 120 pessoas sentadas – para mostrar sua indignação contra o que consideram uma campanha suja e desesperada da velha mídia brasileira, que busca levar a disputa presidencial para o segundo turno, diante da provável vitória no próximo dia 3 da candidata do governo Lula, a ex-ministra Dilma Rousseff (da coligação liderada pelo PT), conforme preveem todos os institutos de pesquisa.

A frase-título acima está na mensagem Pela mais ampla liberdade de expressão, lida - e interrompida seguidamente pelos aplausos – por Altamiro Borges, o Miro, presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, entidade organizadora da manifestação: “Solicitar, através de pedidos individuais e coletivos, que a vice-procuradora regional eleitoral, Dra. Sandra Cureau, peça a abertura dos contratos e contas de publicidade de outras empresas de comunicação – Editora Abril, Grupo Folha, Estadão e Organizações Globo –, a exemplo do que fez recentemente com a revista CartaCapital. É urgente uma operação “ficha limpa” na mídia brasileira”.

Aprovadas cinco propostas do Centro Barão de Itararé

Miro dirigiu o ato (atrás Gilmar Mauro, do 
MST, e ao lado Nivaldo Santana, da CTB)
Esta foi uma das cinco propostas feitas pelo Centro Barão de Itararé e aprovadas com entusiasmo pela plateia. Foi uma decorrência da primeira: “Desencadear de imediato uma campanha de solidariedade à revista CartaCapital, que está sendo alvo de investida recente de intimidação”. Foi ressaltada a necessidade de fortalecimento dos chamados veículos alternativos e sugerida uma campanha de assinaturas entre as pessoas comprometidas com a democracia e os movimentos sociais de publicações como Carta Capital, Revista Fórum, Caros Amigos, Retrato do Brasil, Revista do Brasil, jornal Brasil de Fato, jornal Hora do Povo, entre outros, “que sofrem de inúmeras dificuldades para expressar suas idéias, enquanto os monopólios midiáticos abocanham quase todo o recurso publicitário”.

Outra proposta : “Deflagrar uma campanha nacional em apoio à banda larga, que vise universalizar este direito e melhorar o PNBL (Plano Nacional de Banda Larga) recentemente apresentado pelo governo federal”, com o pedido de “pressão social” neste sentido. Decidiu-se também apoiar a proposta do jurista Fábio Konder Comparato, que prepara uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) por omissão do Congresso Nacional na regulamentação dos artigos da Constituição que versam sobre comunicação, inclusive proibindo os monopólios.

A última proposta foi a redação de um documento, “assinado por jornalistas, blogueiros e entidades da sociedade civil, que ajude a esclarecer o que está em jogo nas eleições brasileiras e o papel que a chamada grande imprensa tem jogado neste processo decisivo para o país. Ele deverá ser amplamente divulgado em nossos veículos e será encaminhado à imprensa internacional”.

“Os inimigos da democracia não estão no Auditório Vladimir Herzog”

A mensagem lida por Miro se ocupou ainda em explicar que aquele ato “adquiriu uma dimensão inesperada”, acrescentando: - Alguns veículos da chamada grande imprensa atacaram esta iniciativa de maneira caluniosa e agressiva. Afirmaram que o protesto é “chapa branca”, promovido pelos “partidos governistas” e por centrais sindicais e movimentos sociais “financiados pelo governo Lula”. De maneira torpe e desonesta, estamparam em suas manchetes que o ato é “contra a imprensa”. E retrucou que, na verdade, ali estavam os comprometidos com a democracia, com a verdadeira liberdade de imprensa, ao contrário da grande mídia, que apoiou o golpe militar de 1964, apoiou a censura, apoiou a tortura.

Cerca de 300 pessoas se apertaram no auditório do sindicato dos jornalistas
“Os inimigos da democracia não estão no Auditório Vladimir Herzog”, proclamou, arrancando palmas e muita emoção especialmente entre os assistentes mais idosos, que viveram os tenebrosos dias da ditadura. Lembrou que “o movimento social sabe que a democracia é vital para o avanço de suas lutas e para conquista de seus direitos. Por isso, está aqui! Ele não se intimida mais diante do terrorismo midiático”, arrematando: “Não propomos um “controle da mídia”, termo que já foi estigmatizado pelos impérios midiáticos, mas sim que a sociedade possa participar democraticamente na construção de uma comunicação mais democrática e pluralista”.

Logo em seguida, José Augusto Camargo, o Guto, presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e secretário geral da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), leu o manifesto Em defesa dos jornalistas, da ética e do direito à informação, falando do aviltamento do trabalho dos profissionais da redação diante da tirania das empresas. Destacou que “a liberdade de imprensa é o principal instrumento do jornalista profissional. Não é propriedade dos proprietários dos meios de comunicação”. E esclareceu: “Os jornalistas perderam força e importância no processo de elaboração da informação no interior das empresas. Cada vez menos jornalistas detêm o poder da informação que será fornecida à opinião pública. Ela passa por uma triagem prévia já no seu processo de edição e aqueles que descumprem a dita orientação editorial são penalizados”.

Os manifestantes expressaram sua indignação
contra o "denuncismo" partidarizado da mídia
O espírito do ato “contra o golpismo midiático e em defesa da democracia” foi, portanto, a exaltação da democratização da mídia, pela liberdade de expressão, e críticas veementes aos “latifúndios” da chamada grande imprensa e ao “denuncismo” partidarizado. A todo momento alguém gritava entre os participantes algum dito em favor de Dilma e contra o candidato da oposição, o ex-governador de São Paulo, José Serra (PSDB-DEM). E também contra publicações da cada vez mais conhecida como “velha mídia”, “mídia gorda” ou PIG (Partido da Imprensa Golpista), designação já consagrada entre blogueiros e internautas. Um cartaz aberto na platéia escancarava: “Folha mente”.

“O próximo governo tem de investir na democratização da mídia”

Este mesmo espírito impregnou os pronunciamentos dos representantes de partidos, centrais sindicais e entidades do movimento social. Gilmar Mauro, da direção nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), frisou estar dentro da lógica da luta popular a criminalização dos movimentos sociais por parte da velha mídia. Disse mais ou menos assim: “Se ela começar a falar bem da gente, aí sim devemos nos preocupar, porque certamente estaremos do lado errado ou fazendo algo errado”. E defendeu: “O próximo governo tem de investir na democratização da mídia, na democratização da terra e na democratização da economia”. Falaram também dirigentes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB), Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores da Comunicação (Altercom), Movimento dos Sem-Mídia (MSM), e dos partidos políticos PC do B, PDT e PSB. 

Os representantes do PT e da UNE (União Nacional dos Estudantes) foram anunciados, mas não chegaram a tempo, pois o ato teve a duração abreviada (pouco mais de uma hora, a partir das 7:15 da noite), devido ao aperto e ao calor. Os discursos foram breves, de acordo com o apelo de Miro, que explicou que os ataques da mídia contra a manifestação chamaram mais gente do que o esperado. Pensou-se até em transferi-la para a porta do sindicato, na Rua Rego Freitas, mas não havia infraestrutura para tal. Além do pessoal comprimido no auditório, muita gente ficou pelos corredores e entrada do prédio.

Luiza Erundina (ao lado Miro) fez o último discurso
da noite, o mais exaltado e, claro, muito aplaudido
O último discurso e o mais exaltado – evidentemente aplaudidíssimo – coube à deputada federal Luiza Erundina (PSB), ex-prefeita da capital, que dedica grande parte de sua ação parlamentar à luta pela democratização da mídia. Realçou os avanços representados pela realização da primeira Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), em dezembro do ano passado, e enfatizou a iminente vitória de Dilma Rousseff, a primeira mulher a ser presidente do Brasil, conforme todos os prognósticos. No final foi entoado o Hino Nacional.

(A íntegra dos manifestos do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo está, respectivamente, no blog Vi o Mundo, de Luiz Carlos Azenha, e no sítio do sindicato).

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

FAMOSOS E OUTROS NEM TANTO NA ELEIÇÃO PAULISTA

Salete Campari
De São Paulo (SP) – Na esteira de Tiririca, “pior que tá não fica” (nota aqui no meu blog postada no último dia 11), vai aí um levantamento dos candidatos nas eleições paulistas que tentam pescar votos valendo-se da fama e sucesso colhidos em outros ramos, especialmente os artistas (nos dois sentidos).

Na verdade, não é um fenômeno novo. Em todas as eleições há sempre uma parcela do eleitorado que está mais para o deboche (pelo menos em se tratando da maioria dos famosos), diante do descompromisso de grande parcela dos candidatos com os interesses do povo, diante da despolitização geral e diante do festival de promessas.

A gente termina não segurando o riso quando aparece na tela da TV gente como Paulo Maluf, que pretende, apesar de pendurado no Ficha Limpa (ou Suja), continuar na Câmara Federal. Ele aparece repetidas vezes no espaço do seu PP, com aquele timbre de voz inconfundível, dizendo coisas como: “Você sabe, já fiz muito por São Paulo e vou fazer muito mais...”

“Meu nome é Enéas” virou “Meu nome é Luciana”

Kiko do KLB e Leandro do KLB
Bem, minha relação está concentrada mais nos candidatos a deputado federal, aliás, como o Tiririca (PR), agora o mais cotado entre os famosos:

1 – O velho Juca Chaves (PR), cantor e compositor de muito êxito na década de 50, já fez pelo menos uma tentativa vã na Bahia;

2 – Vampeta (PTB), jogador de futebol que iniciou carreira na Bahia, é baiano nascido em Nazaré das Farinhas;

3 – Maguila (PTN), nosso popular ex-lutador de box que sempre está aparecendo em programas de TV;

4 – Raul Gil Júnior (DEM), que ponga no nome do pai apresentador de TV, o pai pede votos para o filho na propaganda eleitoral;

5 – Marcelinho Carioca (PSB), craque da bola, se apresenta com a camisa do Corinthians;

6 – Kiko do KLB (DEM) se diz na luta contra a pedofilia e faz campanha com o irmão Leandro do KLB, também do DEM e candidato a estadual;

7 – Um cacique indígena chamado Darã (PHS);

8 – Um imitador do grande baiano Raul Seixas que se apresenta como Maluco Beleza (PHS);

Mulher Pêra
9 – Mulher Pêra (PTN) é dançarina e explora na sua propaganda ser conterrânea do Frei Galvão (ambos são de Guaratinguetá), primeiro santo da Igreja Católica nascido no Brasil. Posa sempre exibindo um belo par de coxas e foi bastante badalada depois que o senador Suplicy (PT) pediu votos para ela na TV;

10 – Marcelo Francis (PTN), cantor que quebra sua guitarra ao aparecer na propaganda eleitoral na TV;

11 – Luciana Costa (PR) talvez não pudesse ser incluída nesta lista, mas, pelo menos para mim, é a mais cômica: sua propaganda é colada no exitoso “meu nome é Enéas”, que resultou na eleição de Enéas Carneiro (do já extinto Prona) com 1,5 milhão de votos. Era suplente de deputado federal e assumiu após a morte do seu suposto guru. Ela aparece abraçando-se com o dito cujo, diz “quem me ensinou foi Enéas” e fecha com o famoso grito de guerra, com aquela veemência nas palavras e nos gestos: “Meu nome é Luciana!!!”

Vão agora alguns em situação semelhante na disputa para deputado estadual: o humorista Batoré (PP), que atuava em A Praça é Nossa; Simony (PP), que, quando criança, cantava no grupo Balão Mágico e, hoje, ainda cantora, conserva a sua franja infantil; Lecy Brandão (PCdoB), cantora/sambista de sucesso e sempre afinada com os movimentos sociais e populares; e Salete Campari (PT), travesti.

Artistas que já se deram bem na política

Alguns outros artistas que disputam o pleito já são detentores de mandatos eletivos. São os casos de Netinho de Paula, cantor/pagodeiro/apresentador de TV, que é vereador pelo PCdoB e concorre para senador na chapa do PT; o cantor Agnaldo Timóteo (PR), que já foi deputado federal e vereador no Rio de Janeiro e agora é vereador em São Paulo, quer voltar à Câmara dos Deputados, para onde pretende retornar também outro cantor, Frank Aguiar (PTB – ele é atualmente vice-prefeito de São Bernardo do Campo).

Já o radialista Eli Corrêa Filho (DEM), filho de consagrado radialista paulistano, é deputado estadual e candidato a federal. Outro radialista que se deu bem na política é Celso Russomanno (PP), apresentador de TV que ficou conhecido como defensor dos consumidores e virou deputado federal dos mais votados em São Paulo. Nesta eleição é candidato a governador, o terceiro colocado nas pesquisas, depois de Geraldo Alckmin (PSDB) e Aloizio Mercadante (PT).

Mais um cantor e também comediante: Moacyr Franco (PSL, em coligação com o PSB), que já exerceu um mandato de deputado federal, disputa uma vaga no Senado. Usa na sua propaganda um bordão de um de seus personagens na TV: “Chorei largado!!!” (Deixei de mencionar os vários candidatos que são pastores das igrejas evangélicas).

terça-feira, 21 de setembro de 2010

NASSIF, ARRASADOR: O FIM DE UM CICLO EM QUE A VELHA MÍDIA FOI SOBERANA


(Recebi da companheira baiana Mônica Bichara e repasso aos meus leitores. De autoria do jornalista/blogueiro Luis Nassif, do Portal Luis Nassif, de 18/09/2010. O “arrasador” acima é meu. Só tenho a comentar que se trata de uma opinião respeitável).

Por Luis Nassif

Dia após dia, episódio após episódio, vem se confirmando o cenário que traçamos aqui desde meados do ano passado: o suicídio do PSDB apostando as fichas em José Serra (foto); a reestruturação partidária pós-eleições; o novo papel de Aécio Neves no cenário político; o pacto espúrio de Serra com a velha mídia, destruindo a oposição e a reputação dos jornais; os riscos para a liberdade de opinião, caso ele fosse eleito; a perda gradativa de influência da velha mídia.

O provável anúncio da saída de Aécio Neves marca oficialmente o fim do PSDB e da aliança com a velha mídia carioca-paulista que lhe forneceu a hegemonia política de 1994 a 2002 e a hegemonia sobre a oposição no período posterior.

Daqui para frente, o outrora glorioso PSDB, que em outros tempos encarnou a esperança de racionalidade administrativa, de não-sectarismo, será reduzido a uma reedição do velho PRP (Partido Republicano Paulista), encastelado em São Paulo e comandado por um político – Geraldo Alckmin – sem expressão nacional.

Fim de um período odioso

Restarão os ecos da mais odiosa campanha política da moderna história brasileira – um processo que se iniciou cinco anos atrás, com o uso intensivo da injúria, o exercício recorrente do assassinato de reputações, conseguindo suplantar em baixaria e falta de escrúpulos até a campanha de Fernando Collor em 1989.

As quarenta capas de Veja – culminando com a que aparece chutando o presidente – entrarão para a história do antijornalismo nacional. Os ataques de parajornalistas a jornalistas, patrocinados por Serra e admitidos por Roberto Civita, marcarão a categoria por décadas, como símbolo do período mais abjeto de uma história que começa gloriosa, com a campanha das diretas, e se encerra melancólica, exibindo um esgoto a céu aberto.

Levará anos para que o rancor seja extirpado da comunidade dos jornalistas, diluindo o envenenamento geral que tomou conta da classe.

A verdadeira história desse desastre ainda levará algum tempo para ser contada, o pacto com diretores da velha mídia, a noite de São Bartolomeu, para afastar os dissidentes, os assassinatos de reputação de jornalistas e políticos, adversários e até aliados, bancados diretamente por Serra, a tentativa de criar dossiês contra Aécio, da mesma maneira que utilizou contra Roseana, Tasso e Paulo Renato.

O general que traiu seu exército

Do cenário político desaparecerá também o DEM, com seus militantes distribuindo-se pelo PMDB e pelo PV.

Encerra-se a carreira de Freire, Jungman, Itagiba, Guerra, Álvaro Dias, Virgilio, Heráclito, Bornhausen, do meu amigo Vellozo Lucas, de Márcio Fortes e tantos outros que apostaram suas fichas em uma liderança destrambelhada e egocêntrica, atuando à sombra das conspirações subterrâneas.

Em todo esse período, Serra pensou apenas nele. Sua campanha foi montada para blindá-lo e à família das informações que virão à tona com o livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr e da exposição de suas ligações com Daniel Dantas.

Todos os dias, obsessivamente, preocupou-se em vitimizar a filha e a ele, para que qualquer investigação futura sobre seus negócios possa ser rebatida com o argumento de perseguição política.

A interrupção da entrevista à CNT expôs de maneira didática essa estratégia que vinha sendo cantada há tempos aqui, para explicar uma campanha eleitoral sem pé nem cabeça. Seu argumento para Márcia Peltier foi: ocorreu um desrespeito aos direitos individuais da minha filha; o resto é desculpa para esconder o crime principal.

Para salvar a pele, não vacilou em destruir a oposição, em tentar destruir a estabilidade política, em liquidar com a carreira de seus seguidores mais fiéis.

Mesmo depois que todas as pesquisas qualitativas falavam na perda de votos com o denuncismo exacerbado, mesmo com o clima político tornando-se irrespirável, prosseguiu nessa aventura insana, afundando os aliados a cada nova pesquisa e a cada nova denúncia.

Com isso, expôs de tal maneira a filha, que não será mais possível varrer suas estripulias para debaixo do tapete.

A marcha da história

Os episódios dos últimos dias me lembram a lavagem das escadarias do Senhor do Bonfim. Dejetos, lixo, figuras soturnas, almas penadas, todos sendo varridos pela água abundante e revitalizadora da marcha da história.

Dia após dia, mês após mês, quem tem sensibilidade analítica percebia movimentos tectônicos irresistíveis da história.

Primeiro, o desabrochar de uma nova sociedade de consumo de massas, a ascensão dos novos brasileiros ao mercado de consumo e ao mercado político, o Bolsa Família com seu cartão eletrônico, libertando os eleitores dos currais controlados por coronéis regionais.

Depois, a construção gradativa de uma nova sociedade civil, organizando-se em torno de conselhos municipais, estaduais, ONGs, pontos de cultura, associações, sindicatos, conselhos de secretários, pela periferia e pela Internet, sepultando o velho modelo autárquico de governar sem conversar.

Mesmo debaixo do tiroteio cerrado, a nova opinião pública florescia através da blogosfera.

Foi de extremo simbolismo o episódio com o deputado do interior do Rio Grande do Sul, integrante do baixo clero, que resolveu enfrentar a poderosa Rede Globo.

Durante dias, jornalistas vociferantes investiram contra UM deputado inexpressivo, para puni-lo pelo atrevimento de enfrentar os deuses do Olimpo. Matérias no Jornal Nacional, reportagens em O Globo, ataques pela CBN, parecia o exército dos Estados Unidos se valendo das mais poderosas armas de destruição contra um pequeno povoado perdido.

E o gauchão, dando de ombros: meus eleitores não ligam para essa imprensa. Nem me lembro do seu nome. Mas seu desprezo pela força da velha mídia, sem nenhuma presunção de heroísmo, de fazer história, ainda será reconhecido como o momento mais simbólico dessa nova era.

Os novos tempos

A Rede Record ganhou musculatura, a Bandeirantes nunca teve alinhamento automático com a Globo, a ex-Manchete parece querer erguer-se da irrelevância.

De jornal nacional, com tiragem e influência distribuídas por todos os estados, a Folha foi se tornando mais e mais um jornal paulista, assim como o Estadão. A influência da velha mídia se viu reduzida à rede Globo e à CBN. A Abril se debate, faz das tripas coração para esconder a queda de tiragem da Veja.

A blogosfera foi se organizando de maneira espontânea, para enfrentar a barreira de desinformação, fazendo o contraponto à velha mídia não apenas entre leitores bem informados como também junto à imprensa fora do eixo Rio-São Paulo. O fim do controle das verbas publicitárias pela grande mídia, gradativamente passou a revitalizar a mídia do interior. Em temas nacionais, deixou de existir seu alinhamento automático com a velha mídia.

Em breve, mudanças na Lei Geral das Comunicações abrirão espaço para novos grupos entrarem, impondo finalmente a modernização e o arejamento ao derradeiro setor anacrônico de um país que clama pela modernização.

As ameaças à liberdade de opinião

Dia desses, me perguntaram no Twitter qual a probabilidade da imprensa ser calada pelo próximo governo. Disse que era de 25% - o percentual de votos de Serra. Espero, agora, que caia abaixo dos 20% e que seja ultrapassado pela umidade relativa do ar, para que um vento refrescante e revitalizador venha aliviar a política brasileira e o clima de São Paulo.

sábado, 18 de setembro de 2010

CENA OPERÁRIA: COMENDO JABÁ NA CASA DO NORTE

Ovídio, Juvenal, Jadson (com a camisa do Tô à Toa) e Antônio Carlos
De São Paulo (SP) – Tem costela, joelho de porco, rabada, jabá... foi dizendo o garçon ao sentarmos para uma cervejinha na Casa do Norte, em Guarulhos, cidade da região metropolitana de São Paulo, aquele mundão de 18 milhões de habitantes.

Juvenal, baiano de Itapetinga
- Traga logo uma cerveja, avisou Juvenal, baiano de Itapetinga, que estava meio chateado: “Viu aí? Do time mesmo só vieram dois, assim não dá, o pessoal marcou e não apareceu quase ninguém”. É uma espécie de diretor técnico do grupo de futebol de salão, de nome Tô à Toa. Tinha perdido de 7 a 2 num torneio numa quadra comunitária, “estava aí abandonada, mas agora por causa da eleição um político chegou aí e reativou o campinho de futebol, é sempre assim...”, explicou Antônio Carlos, o único paulista do grupo e também o único com experiência de militância política. O terceiro é Ovídio, outro baiano, de Ilhéus/Itabuna, que se dizia da “comissão técnica”, porque jogar mesmo que é bom, só a turma jovem. O quarto é este repórter, encarregado de escrever a crônica do que vou chamar “um domingo de lazer dos operários paulistas” (os três são companheiros metalúrgicos da Molas Aço, indústria instalada em Guarulhos, só que Ovídio agora está em outra fábrica, mas continuam amigos).

- Os movimentos sociais, populares, estão meio parados por aqui. Participei muito das greves operárias, metalúrgicas, aqui de São Paulo, do ABC, nos anos 70 e 80, mas agora... Se você quiser conhecer o ambiente, podemos nos reunir com uns amigos no final de semana, participar de um torneio de futebol de salão, bater um papo, comer um churrasco, tomar umas cervejas. Eu tinha dito a Antônio Carlos que queria conviver um pouco com operários, pessoal mais simples da periferia, dentro do possível cobrir para meu blog atividades do movimento social e operário, afinal de contas não me interessa estar em São Paulo apenas circulando pela Avenida Paulista.

Antônio Carlos, paulista e militante político
- O trabalho lá na fábrica é duro, quem tá de fora, vocês jornalistas, nem imaginam, ficar levantando marreta e batendo, levantando e batendo horas seguidas, pra acertar as molas, naquela quentura dos diabos, com pouco tempo começam a aparecer problemas nos músculos dos ombros – é Antônio Carlos falando do óbvio para os companheiros metalúrgicos e de novidades pra mim.

- Me lembro da luta que tivemos quando eu fazia parte da Cipa (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes), conseguimos depois de muita discussão instalar uns ventiladores gigantes que espirram água para amenizar o calorzão, mas quando a água bate em seu corpo já tá quente, é dureza... por mais que a tecnologia avança, muita coisa continua dependendo da força bruta do homem. Produzimos, por exemplo, grampos para os trilhos de estradas de ferro, para o metrô, já pensou a fortuna que a fábrica vai ganhar produzindo grampos para esse “trem bala” que vai ligar São Paulo ao Rio? Uma vez, numa mesa de negociações, quando eu militava na oposição metalúrgica e o Lula (hoje o presidente Lula) ainda era líder sindical, brinquei com ele perguntando quanto tempo fazia que ele tinha perdido aquele dedo da mão e se ele ainda lembrava como era manejar um torno, ele deu risada.

Ovídio, baiano de Ilhéus/Itabuna
Curió, pernambucano
- Olha quem vai passando ali, Curió, CURIÓÓÓÓ!, chamou Ovídio. Era outro colega da Molas Aço, pernambucano. Tinha trabalhado naquele domingo e acabava de encerrar seu turno, já estávamos pelo meio da tarde. Ele se juntou ao grupo, à cerveja, ao papo, aos camaradas, que nessa altura do “campeonato”, terminavam de comer dois joelhos de porco e um prato de carne de jabá, com arroz, pimenta e farinha, que um deles chamou de “neve”, branca, fina e boa como a farinha da Bahia.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O SEM-VOTO PERNAMBUCANO

De São Paulo (SP) – “Cassado” por seus patrícios pernambucanos, o sem-voto Roberto Freire (foto), depois de mudar com malas, bagagens e discursos para a direita, está nestas eleições garimpando votos em São Paulo: é candidato a deputado federal pelo seu PPS, Partido Popular (chamado) Socialista, surgido a partir do tradicional PCB, Partido Comunista Brasileiro, e hoje aliado ao PSDB e DEM, ex-PFL. Vi outro dia desses ele se apresentando na propaganda eleitoral na TV como “uma voz de São Paulo para o Brasil”. Não fez qualquer menção a Pernambuco.

Por que gastar espaço na blogosfera (antes a gente dizia gastar papel e tinta) com um político em decadência, a quem seus conterrâneos passaram a negar o voto? Por que chutar cachorro-morto? Explico: é que me intrigam esses caras que mudam de lado depois de uma trajetória política admirável, abandonam a trincheira dos injustiçados e despossuídos e se transferem para as fileiras dos exploradores do povo. Me choca esse desprezo pela própria história. (Foi por esta mesma motivação que escrevi sobre o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, ex-deputado pelo PT-SP, que passou de defensor de presos políticos e de sem-terra a defensor do banqueiro Daniel Dantas – artigo Greenhalgh, quem diria!?, postado aqui no meu blog em 06/05/09).

Quem participou da luta contra a ditadura, lá pelos anos 70 (do século passado, como gosta de dizer Carmela Talento, nossa antiga companheira de redação lá na Bahia), conheceu bem a ação política do então bravo pernambucano Roberto Freire, que integrou o combativo grupo dos chamados “autênticos” do velho MDB, deputados federais de esquerda que combatiam o bom combate na plena vigência da tirania, quando defender as posições democráticas e populares era estar correndo riscos – ameaças, prisões, torturas e até morte. Cito mais um dos “autênticos” do MDB, como uma homenagem: o nosso deputado baiano Francisco Pinto, o popular Chico Pinto, destemido combatente contra a ditadura, que viveu seus últimos dias lá na sua Feira de Santana-Bahia, sempre fiel à luta contra os opressores.

Pois é, ficamos nós recordando a trajetória do hoje desterrado candidato a deputado. Será que os eleitores paulistas o conhecem, ou o conheceram? Me lembro da amiga Lena Massad, baiana/pernambucana/suíça, falando dos seus tempos de estudante em Recife (ou no Recife, como eles dizem),quando teve a satisfação de conhecer um então opositor ao regime militar chamado Roberto Freire. (Sinto muito, Lena, estar maculando tuas boas lembranças da juventude).

terça-feira, 14 de setembro de 2010

AS 10 ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO DA MÍDIA

Por Noam Chomsky, ativista político estadunidense e professor de Linguística do Instituto de Tecnologia de Massachusetts

(Artigo reproduzido do blog Provos.Brasil)

1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto 'Armas silenciosas para guerras tranquilas')”.

2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES

Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por que? “Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”)”.

6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…

7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossível para o alcance das classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranquilas’)”.

8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE

Promover o público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto…

9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE

Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo, do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!

10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM

No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

domingo, 12 de setembro de 2010

“VOTE TIRIRICA, PIOR QUE TÁ NÃO FICA”

De São Paulo (SP) – Pois é, vocês se lembram do humorista Tiririca, aquele da música Florentina? É candidato a deputado federal aqui nestas plagas paulistas pelo PR, Partido da República (ou Republicano?), número 2222, e o pessoal de sua campanha fala que está esperando uns 300 mil votos. É um prato cheio pra aqueles eleitores que debocham dos políticos, da política, da vida.

Além da mensagem central (título acima), aparece na propaganda eleitoral da TV soltando outras “pérolas” nada republicanas, como “Vote no abestado”, “Vocês sabem o que um deputado faz? Eu não sei, mas quando chegar lá eu conto a vocês”, e algumas frases desconexas.

Como o PR faz parte da coligação liderada pelo PT, o candidato a governador, Aloizio Mercadante, cujo nome aparece no cenário da propaganda do Tiririca, reclamou exigindo uma mensagem mais edificante. A reclamação, porém, parece não ter surtido efeito: no último dia 4, o candidato estava lá na tela da TV com seu bordão predileto: “Vote Tiririca, pior que tá não fica”.

(Nota de minha autoria postada em 06/09/10 no blog Pilha Pura - http://www.pilhapuradejoaninha.blogspot.com/)

VIVA A LIBERDADE!

De São Paulo (SP) – Corriam os primeiros dias da Revolução de 1817 em Pernambuco, onde os patriotas brasileiros implantaram uma heroica e efêmera República. Durou apenas cerca de dois meses. Foi tombada pelas forças portuguesas fiéis a D.João VI, cuja corte estava instalada no Rio de Janeiro, escorraçada que foi de Lisboa pelo exército de Napoleão. Eram os tempos áureos da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, evangelho dos revolucionários franceses do século 18.

A saga dos pernambucanos é relatada por Paulo Santos de Oliveira no livro A Noiva da Revolução, de forma romanceada e descontraída. Tem de tudo no relato: paixão, sonho, idealismo, sangue, traição, heroísmo, covardia, opressão. E passagens divertidas, das quais transcrevo aqui um pequenino trecho. O autor utiliza dois narradores. Um conta:

- E o sisudo coronel Amaro Coutinho (da província vizinha da Paraíba), de tão entusiasmado, desfilou pelas ruas empunhando uma bandeira branca (no início, na falta de uma bandeira, eles improvisaram um pano branco) e dançando à frente de um bando. No auge da empolgação e da cachaceira, ele ofereceu à causa revolucionária um de seus engenhos, 40 bois e 40 escravos.

O outro narrador acrescenta:

- Alguns dias depois eu soube que quando o coronel Amaro Coutinho chegou em casa, trocando as pernas, sua mulher, dona Ana Clara, partiu para cima dele feito uma cobra caninana, reclamando da palhaçada e da dilapidação do patrimônio da família. Aí ele aproveitou para agitar também a sua vida privada: abandonou-a na mesma hora, alegando não poder continuar a viver com uma inimiga da Revolução.

- Qual mulher nem filhos!... – ele gritou – Viva a Liberdade!

(Nota de minha autoria postada em 06/07/10 no blog Pilha Pura - http://www.pilhapuradejoaninha.blogspot.com/)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

GRITO DOS EXCLUÍDOS EM SÃO PAULO É FEITO NAS ESCADARIAS DA SÉ

De São Paulo (SP) - Por causa da chuva, o Grito dos Excluídos este ano em São Paulo limitou-se a uma concentração nas escadarias da Catedral da Sé. Durante duas horas - das 10 horas ao meio-dia desta terça-feira, dia 7 -, umas 300 pessoas, com bandeiras, cartazes e faixas, aplaudiram uma dezena de oradores que falaram em nome de várias entidades sociais, sindicais e comunitárias. Os discursos foram marcados por forte conteúdo crítico aos governos municipal e estadual, dirigidos pelo DEM (prefeito Gilberto Kassab) e PSDB (governador Alberto Goldman), e também ao governo do presidente Lula, do PT. Alguns cantores e grupos musicais animaram a manifestação.

Apesar da efervescência do período eleitoral, faltando menos de um mês para a votação do dia 3 de outubro, não houve a participação de nenhum candidato e de nenhum partido político, apenas alguns cabos eleitorais aproveitaram para distribuir “santinhos” e folhetos de seus candidatos. O evento foi organizado pela Pastoral Operária. Seria uma passeata pelo Centro Velho da capital paulista, da Praça da Sé até o Monumento da Independência no Ipiranga, onde se daria a concentração. As pessoas iam chegando e se abrigando da insistente garoa na entrada da Catedral. Os organizadores resolveram então cancelar o desfile.


Plebiscito sobre o limite da propriedade da terra

Durante toda a manifestação ocorreu a tomada de votos no “plebiscito popular” sobre o limite da propriedade da terra, coordenado por organismos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e tocado em todo o país com a ajuda de movimentos sociais e populares, cujo processo de votação foi iniciado no dia 1º. e encerrado no dia 7. O objetivo é demonstrar que parcelas ponderáveis da população brasileira apoiam a luta em favor da reforma agrária, da distribuição de terra de forma mais justa - em contraste com os escandalosos latifúndios existentes no Brasil, onde 1% dos proprietários rurais são donos de 46% das terras agricultáveis -, tentando abrir caminho para se chegar a um projeto de emenda constitucional . Em anos anteriores houve consultas semelhantes sobre a necessidade de auditoria da dívida externa, sobre a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e sobre a defesa da reestatização da Companhia Vale do Rio Doce.

Enquanto as pessoas votavam dentro da igreja, os representantes das entidades falavam do caminhão de som para os assistentes e ativistas aglutinados nas escadarias. José Geraldo, conhecido como Gegê, da Central Sindical e Popular (CSP) – Conlutas, que dirigiu o ato, defendeu a necessidade do país se tornar realmente independente (o Grito dos Excluídos é realizado em todo o país no mesmo dia em que se comemora a independência do Brasil, no 7 de Setembro), com uma “ruptura radical” do capitalismo, capitaneado pelo império dos Estados Unidos, e adoção do sistema socialista.

Pela democracia participativa e direta

Pedro Paulo, representando outra central sindical, a Intersindical, falou das reivindicações dos trabalhadores, como a redução da jornada de trabalho sem redução do salário, e condenou a concentração de terras, criticando a prioridade dada pelo governo federal ao agronegócio. Cristian Cayupan denunciou as perseguições sofridas pelos indígenas da nação Mapuche, especialmente no Chile, onde 32 prisioneiros, considerados por eles como “presos políticos”, estão há mais de 50 dias em greve de fome. Em nome do Movimento Nacional da População de Rua, Ánderson Lopes defendeu o direito de moradia para os mais pobres, principalmente nos grandes centros urbanos. E Atnágoras Lopes, da direção nacional da CSP – Conlutas, fez duras críticas aos governos do PSDB e do PT e anunciou a “jornada nacional de mobilizações” nos próximos dias 20 a 23, organizada pela central.

Discursaram ainda representantes de outras entidades como a União de Núcleos de Educação Popular para Negros e Negras e para a Classe Trabalhadora (Uneafro), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Fórum das Pastorais Sociais e a Pastoral da Juventude. Uma participação especial foi da 13ª. Romaria a pé 2010, grupo da Região Episcopal Brasilândia (da Arquidiocese de São Paulo e da Diocese de Santo André), que se deslocou da periferia da cidade e se incorporou ao Grito na Praça da Sé. A manifestação encerrou-se com o canto da Internacional, o tradicional hino do movimento comunista.

Nacionalmente, esta é a 16ª. edição do Grito dos Excluídos, iniciado em 1995 (em São Paulo é a 13ª. edição). O tema central deste ano foi “vida em primeiro lugar, onde estão nossos direitos? Vamos às ruas para construir um projeto popular”. Na convocação feita pelos organizadores, Ari Alberti, membro da Coordenação Nacional, declarou que “a sociedade já não se sente representada nesta democracia, que deve ser participativa e direta”.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

VELHA MÍDIA E POVO NÃO SE MISTURAM

De São Paulo (SP) - É impressionante a falta de influência hoje no Brasil de veículos de comunicação considerados há pouco tempo como os mais influentes, a exemplo da TV Globo, revista Veja, jornais Folha de S.Paulo, Estadão e O Globo, representantes do que podemos chamar “a velha mídia”. Pelo menos quando observamos o comportamento das amplas massas da população diante da política nacional e, particularmente, de cara com o processo eleitoral.

A antes chamada grande imprensa vai por um lado e o chamado povão vai pelo lado contrário, é como se um falasse o perfeito inglês e o outro o surrado português brasileiro, a mídia patina num mundo de ficção, o povo caminha em seu mundo real. Adaptando uma frase do saudoso líder nacionalista Leonel Brizola, “não se misturam, são como água e azeite”.

Decididamente, o povo não lê os jornalões, se lê salta as folhas das editorias de política. Ou lê e ouve (no caso das rádios e TVs), e não acredita. A propósito: estava eu a passear com um advogado boliviano pelas ruas de La Paz – lá pelo Paseo El Prado – falando da quase unanimidade da aceitação do presidente Evo Morales entre o povo, em contraste com as pauladas diárias que ele levava nos jornais privados (lá tem um jornal estatal, chamado Cambio). E concluí: “Acho que o povão não lê os jornais”. Meu amigo foi então me apontando algumas pessoas, com aquelas caras de indígena, lendo jornais pelas ruas: “Não, eles lêem, mas não acreditam”.



Os jornais batem todo dia: o povo não lê ou, se lê, não acredita



Bem, seja como for, deve ser um fenômeno parecido. Quase todos os dias os esforçados mancheteiros dos jornalões brasileiros arranjam uma manchete de primeira página lenhando o lombo do presidente Lula, dizendo o diabo de seu governo e de sua candidata a presidente (ou presidenta), Dilma Rousseff. Sempre se arranja um suposto fato novo (um factoide, palavra hoje muito popular entre os jornalistas). E enquanto não “aparece” um mais novo, ficam matracando em cima e ao redor de um, a exemplo agora da violação do sigilo fiscal de pessoas ligadas ao candidato tucano José Serra, supostamente a mando de Dilma (se este artigo demorar um pouco a ser publicado, já deve ter outro na pauta).

Os apresentadores da Globo, com aquelas caras circunspectas de corregedores da Verdade, da Justiça, da Moral e dos Bons Costumes, falam das “graves implicações do aparelhamento do Estado”. (Como dizem lá no meu interior baiano, “é o cego falando do aleijado”).

É um jogo interessantíssimo. Costumo chamá-lo “noticiário redemoinho”: vira e mexe, roda em torno de si mesmo, não resulta em nada e, quando vai enfraquecendo, vem outro e outro e outro...

Para usar uma metáfora tão ao gosto do popular Lula: a revista chuta a bola pra TV, a TV mata no peito e passa pros jornalões, e daí pras rádios e vão fazendo firulas... só não fazem gol! É o que os jornalistas chamamos repercussão, um faz a “revelação”, o outro repercute, um outro “descobre” um aspecto ainda não “revelado”, aí se incrementa a tal da repercussão, um tucano comenta, um “especialista” analisa, aí a oposição anuncia que vai pedir a cassação da candidatura da Dilma na Justiça Eleitoral, e tome repercussão.

Seis títulos numa única primeira página de O Globo contra Lula/Dilma

Qualquer pessoa com um nível médio de informação percebe que as manchetes dos jornalões são pura e simplesmente campanha eleitoral, meio beirando ao desespero, mas mesmo assim campanha. Para citar de memória: anúncio de arrocho fiscal num futuro governo Dilma; o ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu, conspirando pra impedir que o ex-ministro da Fazenda, Antônio Palocci, ocupe um destes dois cargos num futuro governo Dilma; denúncias de supostas irregularidades na Petrobras; manchetes e mais manchetes sobre a quebra do sigilo dos tucanos, etc, etc.

Outro dia um blogueiro desses aí que vivem atanazando a já baqueada velha mídia deu-se o trabalho de contar os títulos da primeira página de uma única edição de O Globo contra Lula, seu governo e sua candidata: apontou seis títulos, quase toda a capa do dia 16 de julho último. É mole? Deve ser um dos tais blogueiros progressistas que andaram se reunindo no 1º. Encontro Nacional, em São Paulo, nos últimos dias 21 e 22 de agosto. Os mesmos que foram classificados por Serra de “blogs sujos”.

Enquanto isso – suprema insensibilidade dessa gentalha! -, o povo brasileiro passa ao largo, se lê, se ouve, se vê, não acredita. Especialmente a maioria, os mais pobres, esses incorrigíveis nordestinos/nortistas/ignorantes/esfomeados. Os índices de aprovação de Lula e seu governo não param de bater récordes e já se crê que sua candidata seja eleita no primeiro turno.
 

sábado, 4 de setembro de 2010

FIDEL: “TEMOS QUE CONVENCER OBAMA A EVITAR A GUERRA NUCLEAR” (3ª. parte/final)

(Final da entrevista exclusiva de Fidel Castro ao jornal La Jornada, do México, a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite o obrigou a afastar-se da liderança do governo cubano, há quatro anos. Foi publicada na edição de 30 de agosto. Aqui no meu blog ela foi dividida em três parte: a 1ª. falou do “calvário” provocado pela doença e da condição de quase-morto a que chegou o entrevistado; a 2ª. parte abordou o imenso poder do uso das novas ferramentas da informática na luta contra os monopólios da comunicação, dominados pelo império e suas empresas transnacionais; e esta última é sobre as crescentes ameaças contra o Irã e o perigo do governo dos Estados Unidos apelar para as armas nucleares. A versão em português que reproduzo é de Carta Maior, com tradução de Katarina Peixoto. O título acima é deste blog e a foto é do jornal mexicano).

Por Carmen Lira Saade – do jornal La Jornada (México)

De Havana (Cuba) - Muitas vezes se acusa Cuba e em particular a você (Fidel Castro) de manter uma posição antiestadunidense rigorosa; chegaram até a acusá-lo de ter ódio dessa nação - digo-lhe.

— Não é nada disso – esclarece: por que odiar os Estados Unidos, se é apenas um produto da história?

Mas, com efeito, há uns 40 dias, apenas, quando ainda não tinha terminado de ressucitar, ocupou-se – para variar -, em suas novas Reflexiones, de seu poderoso vizinho.

“É que comecei a ver muito claramente os problemas da tirania mundial crescente – e se apresentou à luz de toda a informação que tinha, a iminência de um ataque nuclear que desataria a conflagração mundial".

Mas não podia sair a falar, a fazer o que está fazendo agora, indica-me. Apenas podia escrever com certa fluidez, pois não só teve que aprender a caminhar, mas também, em seus 84 anos, teve de voltar a aprender a escrever.

“Saí do hospital, fui para casa, mas caminhei, excedi-me. Depois tive de fazer reabilitação dos pés, para então conseguir começar a escrever de novo. O salto qualitativo se deu quando pude dominar todos os elementos que me permitiam tornar possível tudo o que estou fazendo agora. Mas posso e devo melhorar... Posso chegar a caminhar bem. Hoje, já te disse, caminhei 600 passos só, sem bengala, sem nada; e devo conciliar isso com o que subo e desço, com as horas que durmo, com o trabalho".

"Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está numa fase mais interessante e perigosa de sua existência”

- O que há por trás desse frenesi no trabalho? O que mais que, depois de uma reabilitação, pode conduzi-lo a uma recaída?

Fidel se concentra, fecha os olhos como para começar a dormir, mas não... volta à carga: "Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está numa fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que venha a acontecer. Tenho coisas a fazer, ainda".

- Como o quê?

– Como a conformação de todo um movimento antiguerra nuclear – é ao que vem se dedicando desde a sua reaparição.

Criar uma força de persuasão internacional, para evitar que essa ameaça global se concretize representa um rumo, e Fidel nunca pôde resistir aos rumos.

“No princípio pensei que o ataque nuclear iria se dar sobre a Coréia do Norte, mas logo retifiquei, porque a China vetaria isso no Conselho de Segurança [da ONU]...”

“Mas o do Irã ninguém o fará, porque não há veto nem chinês nem russo. Depois veio a resolução (das Nações Unidas), e embora o Brasil e a Turquia tenham vetado, o Líbano não o fez e então se tomou a decisão”.

Fidel convoca cientistas, economistas, comunicadores, etc, a que deem sua opinião sobre qual pode ser o mecanismo mediante o qual se vai desatar o horror, e a forma que se pode evitá-lo. Até a exercícios de ficção científica os conduziu.

“Pensem, pensem!”, anima as discussões. “Raciocinem, imaginem!”, exclama o entusiasta professor em que se converteu, nestes dias.

Nem todo mundo compreendeu sua inquietude. Não são poucos os que viram catastrofismo e até delírio em sua nova campanha. A tudo isso tinha de acrescentar o temor que assaltava a muitos, de que sua saúde sofra uma recaída.

Fidel não para, e ninguém é capaz de sequer freá-lo. Ele necessita, o mais rápido possível, CONVENCER, para assim DETER a conflagração nuclear que –insiste– ameaça com o desaparecimento de uma boa parte da humanidade. Teremos que mobilizar o mundo para persuadir Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, para que ele evite a guerra nuclear. Ele é o único que pode, ou não, impedir o botão de ser apertado.

Esta barbaridade pode se produzir em uma questão de dias; para sermos mais precisos, no próximo 9 de setembro

Com os dados que ele já detém como um expert e os documentos que avalizam o que diz, Fidel questiona e faz uma exposição arrepiante:

– Tu sabes o poder nuclear que alguns países do mundo têm, na atualidade, em comparação com a época de Hiroshima e Nagazaki?

Quatrocentas e setenta mil vezes o poder explosivo que qualquer dessas bombas que os Estados Unidos jogou sobre essas duas cidades japonesas tinha. Quatrocentas e setenta mil vezes mais! Sublinha, escandalizado.

Essa é a potência de cada uma das mais de 20 mil armas nucleares que – se calcula – há hoje em dia no mundo.

Com muito menos do que essa potência – com tão só 100 – já se pode produzir um inverno nuclear que obscureça o mundo em sua totalidade.

Esta barbaridade pode se produzir em uma questão de dias; para sermos mais precisos, no próximo 9 de setembro, que é quando vencem os 90 dias concedidos pelo Conselho de Segurança da ONU para que se comece a inspeção dos barcos do Irã.

– Acredita que os iranianos vão retroceder? O que imagina? Homens valentes, religiosos que veem na morte quase um prêmio...Bem, os iranianos não vão ceder, isso é certo. Vão ceder os ianques? E o que ocorrerá se nem um nem outro ceder? E isto pode ocorrer no próximo 9 de setembro.

Um minuto depois da explosão, mais da metade dos seres humanos terão morrido, a poeira e a fumaça dos continentes em chamas derrotarão a luz solar e as trevas absolutas voltarão a reinar no mundo, escreveu Gabriel García Márquez por ocasião do 41º. aniversário de Hiroshima. Um inverno de chuvas alaranjadas e furacões gelados inverterão o tempo dos oceanos e voltarão o curso dos rios, cujas espécies terão morrido de sede em águas ardentes... A era do rock e dos corações transplantados estará de volta à sua infância glacial...

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

FIDEL: “VOCÊ SE DÁ CONTA DO QUE SIGNIFICA A INTERNET?” (2ª. parte)


(Continuação da entrevista exclusiva de Fidel Castro ao jornal La Jornada, do México, a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite o obrigou a afastar-se da liderança do governo cubano, há quatro anos. Foi publicada na edição de 30 de agosto. Aqui no meu blog ela foi dividida em três parte. A primeira falou do “calvário” provocado pela doença e da condição de quase-morto a que chegou o entrevistado. Esta 2ª. parte aborda o imenso poder do uso das novas ferramentas da informática na luta contra os monopólios da comunicação, dominados pelo império e suas empresas transnacionais; e a 3ª. parte/final – “Temos que convencer Obama a evitar a guerra nuclear” –, a ser postada em seguida, é sobre as crescentes ameaças contra o Irã. A versão em português que reproduzo é de Carta Maior, com tradução de Katarina Peixoto. O título acima é deste blog e a foto é do jornal mexicano).

Por Carmen Lira Saade – do jornal La Jornada (México)

De Havana (Cuba) - A tarefa de acúmulo informativo cotidiano deste sobrevivente (Fidel Castro) começa desde que ele acorda. Com uma velocidade de leitura, cujo método ninguém conhece, devora livros, lê entre 200 e 300 notas informativas por dia, está debruçado sobre as novas tecnologias da comunicação, e fica fascinado com o Wikileaks, a garganta profunda da Internet, famosa pela revelação da existência de 90 mil documentos militares sobre o Afeganistão, nos quais esse novo internauta já está trabalhando.

“Você se dá conta, companheira, do que isso significa?” – pergunta-me. “A Internet colocou em nossas mãos a possibilidade de nos comunicarmos com o mundo. Não contávamos com nada disso antes” – comenta, ao mesmo tempo em que se deleita vendo e selecionando informes e textos baixados da rede, que tem sobre a mesa do escritório: um pequeno móvel, demasiado pequeno para o tamanho (mesmo que diminuído pela enfermidade) de seu ocupante.

“Estamos diante da arma mais poderosa que já existiu, que é a comunicação”

“Acabaram-se os segredos, ou ao menos parece isso. Estamos diante de um jornalismo de investigação de alta tecnologia, como o chama o New York Times, e ao alcance de todo o mundo. Estamos diante da arma mais poderosa que já existiu, que é a comunicação” – resume. “O poder da comunicação tem estado, e está, nas mãos do império e de ambiciosos grupos privados que fazem uso e abuso dele. Por isso os meios de comunicação fabricaram o poder que hoje ostentam”.

Escuto-o e penso em Chomsky: qualquer das fraudes que o império tente executar deve contar antes com o apoio dos meios de comunicação, principalmente jornais e televisão, e hoje, naturalmente, com todos os instrumentos que a Internet oferece. São os meios que, antes de qualquer ação, criam o consenso. Preparam a cama, diríamos...Formatam o teatro de operações. “No entanto, diz Fidel, ainda que pretendessem manter intacto esse poder, não conseguiram. E estão perdendo-o dia-a-dia. Enquanto outros, muitos, muitíssimos, emergem a cada momento...”

Faz-se necessário, então, um reconhecimento aos esforços de alguns sites e meios, além do Wikileaks: pelo lado latinoamericano, a Telesur da Venezuela, a televisão cultural da Argentina, o Canal Encontro, e todos aqueles meios, públicos ou privados, que enfrentam poderosos consórcios particulares da região e transnacionais da informação, da cultura e do entretenimento.

Informes sobre a tirania que o império exerce estão agora ao alcance de todos os mortais

Informes sobre a manipulação dos grupos empresariais locais ou regionais poderosos, seus complôs para introduzir ou eliminar governos ou personagens da política, ou sobre a tirania que o império exerce, através das transnacionais, estão agora ao alcance de todos os mortais.

Mas não em Cuba, que dispõe apenas de uma entrada de Internet para todo o país, comparável à que o Hotel Hilton ou o Sheraton tem. Essa é a razão por que conectar-se em Cuba é desesperador. A navegação é como se fosse em câmara lenta.

- Por que isso ocorre? - pergunto.

- Pela rotunda negativa dos Estados Unidos em nos dar acesso à Internet na ilha, através de um dos cabos submarinos de fibra ótica que passam próximo às costas. Cuba se vê obrigada, em troca, a baixar o sinal de um satélite, o que encarece muito mais o serviço do que o governo cubano pode pagar, e impede que se disponha de uma banda maior, que permita dar acesso a muito mais usuários e na velocidade que é normal em todo o mundo, com a banda larga.

Por essas razões o governo cubano dá prioridade para conectar-se não a quem pode pagar pelo custo do serviço, mas para quem mais necessita, como médicos, acadêmicos, jornalistas, professores, quadros do governo e clubes de Internet de uso social. Não se pode fazer mais.

Penso nos descomunais esforços do site cubano Cubadebate para alimentar seu conteúdo e levar ao exterior a informação sobre o país, nas condições existentes. Mas, segundo Fidel, Cuba em breve poderá solucionar esta situação.

Ele se refere à conclusão das obras do cabo submarino que se estende do porto de La Guaira, na Venezuela, até as proximidades de Santiago de Cuba. Com estas obras, levadas adiante pelo governo Hugo Chávez, a ilha poderá dispor de banda larga e de possibilidades de conceder uma grande ampliação do serviço.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

FIDEL: “CHEGUEI A ESTAR MORTO, MAS RESSUSCITEI” (1ª. parte)


Em entrevista exclusiva ao jornal La Jornada (a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite obrigou seu afastamento da liderança do governo cubano), Fidel Castro fala sobre o que aconteceu, diz que esteve à beira da morte, mas ressuscitou. E fala de seus planos para o futuro: "Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está na fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que está acontecendo. Ainda tenho muitas coisas para fazer".


(A entrevista foi publicada na edição impressa de 30 de agosto do La Jornada, do México. Aqui no meu blog ela está dividida em três parte. Esta primeira fala do “calvário” provocado pela doença e da condição de quase-morto a que chegou o entrevistado. As outras duas serão postadas a seguir: 2ª. parte – “Você se dá conta do que significa a Internet?” – sobre o imenso poder do uso das novas ferramentas da informática na luta contra os monopólios da comunicação, dominados pelo império e suas empresas transnacionais; e a 3ª. parte/final – “Temos que convencer Obama a evitar a guerra nuclear” – sobre as crescentes ameaças contra o Irã. A versão em português que reproduzo é de Carta Maior, inclusive o título e a chamada acima, com tradução de Katarina Peixoto. A foto é do jornal mexicano).

Por Carmen Lira Saade – do jornal La Jornada (México)

De Havana (Cuba) – Ele esteve quatro anos debatendo-se entre a vida e a morte. Um entra e sai da sala de cirurgia, entubado, recebendo alimentos através de veias e catéteres e com perdas frequentes de consciência. “Minha enfermidade não é nenhum segredo de Estado”, teria dito pouco antes que ela se tornasse crise e o obrigasse a fazer o que tinha que fazer: delegar suas funções como presidente do Conselho de Estado e, consequentemente, como comandante em chefe das forças armadas de Cuba. “Não posso seguir mais”, admitiu então - segundo revela nesta sua primeira entrevista a uma publicação impressa estrangeira desde então. Fez a transmissão do cargo e entregou-se aos médicos.

A comoção sacudiu a nação inteira, os amigos de outras partes, despertou esperanças revanchistas em seus detratores e colocou em estado de alerta o poderoso vizinho do Norte. Era o dia 31 de julho de 2006 quando foi divulgada, de modo oficial, a carta de renúncia do líder máximo da Revolução Cubana. O que seu inimigo mais feroz (bloqueios, guerras, atentados) não conseguiu em 50 anos foi alcançado por uma enfermidade sobre a qual ninguém sabia nada e se especulava tudo. Uma enfermidade que para o regime, quisesse ou não, iria se converter em um segredo de Estado.

“Penso em Raúl, no Raúl Castro daqueles momentos. Não era apenas o pacote que lhe tinham confiado há muito tempo; era a delicada saúde de sua companheira Vilma Espin – que pouco depois faleceria vítima de câncer – e a muito provável desaparição de seu irmão mais velho e chefe único nos âmbitos militar, político e familiar”.

Hoje faz 40 dias que Fidel Castro reapareceu em público de maneira definitiva, ao menos sem perigo aparente de recaída. Em um clima tranquilo e dando a entender que a tempestade passou, o homem mais importante da Revolução Cubana ressurge orgulhoso e com vitalidade, ainda que não domine totalmente os movimentos de suas pernas.

Durante as quase cinco horas que durou a entrevista ao La Jornada – incluindo o almoço – Fidel aborda os mais diversos temas, ainda que mostre uma obsessão por alguns em particular. Permite perguntas sobre tudo – ainda que quem mais interrogue seja ele – e repassa pela primeira vez e com dolorosa franqueza alguns momentos da crise de saúde que sofreu nos últimos quatro anos. “Cheguei a estar morto”, revela com uma tranquilidade assombrosa. Não menciona pelo nome a diverticulite da qual padeceu, nem se refere às hemorragias que levaram os especialistas de sua equipe médica a intervir em muitas ocasiões, sempre com risco de perder a vida. Mas no que ele se estende é no relato do sofrimento vivido. E não mostra inibição alguma em qualificar a dolorosa etapa como um calvário.

“A única esperança que alimentava é que o mundo parasse para que eu não perdesse nada”

“Eu já não aspirava a viver, nem muito menos... Perguntei-me várias vezes se essa gente (seus médicos) iriam deixar-me viver nestas condições ou iriam permitir que eu morresse. E sobrevivi, mas em condições físicas muito ruins. Cheguei a pesar cinquenta e poucos quilos”. Sessenta e seis quilos, precisa Dália, sua inseparável companheira que assiste a conversa. Só ela, dois de seus médicos e dois de seus colaboradores mais próximos estão presentes.

- Imagine: um tipo da minha estatura pesando 66 quilos. Hoje já estou entre 85 e 86 quilos e esta manhã consegui dar 600 passos sozinho, sem muleta nem ajuda.

“Quero dizer-te que estás diante de uma espécie de ressuscitado”, afirma com certo orgulho. Sabe que, além da magnífica equipe médica que o assistiu durante todos estes anos, que pôs à prova a qualidade da medicina cubana, contou muito a sua vontade e essa disciplina de aço que se impõe sempre que se empenha em algo.

“Não cometo nunca mais a mínima violação” – assegura. “Tornei-me médico com a cooperação dos médicos. Com eles discuto, pergunto (pergunta muito), aprendo (e obedece)...” Conhece muito bem as razões de seus acidentes e quedas, ainda que insista que não necessariamente umas levem às outras. A primeira vez foi porque não fez o aquecimento devido, antes de jogar basquete. Depois veio a de Santa Clara: Fidel descia da estátua do Che, onde havia presidido uma homenagem, e caiu de cabeça. Aí influiu também, afirma, que aqueles que deveriam cuidar dele também estão ficando velhos, perdem habilidades e não conseguiram cuidar direito. A seguir veio a queda de Holguín. Todos esses acidentes ocorreram antes que a outra enfermidade se tornasse crítica e o deixasse por longo tempo no hospital.

- Estendido naquela cama, só olhava ao meu redor, ignorante de todos esses aparatos. Não sabia quanto tempo ia durar esse tormento e a única esperança que alimentava é que o mundo parasse para que eu não perdesse nada. Mas ressuscitei, disse satisfeito.

- E quando ressuscitou, comandante, o que encontrou? – perguntei

- Um mundo de loucos...Um mundo que aparece todos os dias na televisão, nos jornais, e que não há quem entenda, mas que eu não queria perder por nada deste mundo – sorri, divertido.

Com uma energia surpreendente em um ser humano que acabou de levantar-se da tumba, como ele mesmo diz, e com a mesmíssima curiosidade intelectual de antes, Fidel Castro vai se atualizando. Aqueles que o conhecem bem dizem que não há um projeto, colossal ou milimétrico, no qual ele não se empenhe com uma paixão encarniçada, em especial se em situação de adversidade, como era o caso. Nunca, então, parece de melhor humor. Alguém que pretende conhecê-lo bem resumiu: “As coisas devem andar muito mal, porque você está radiante”.