quinta-feira, 31 de março de 2011

BALIBÓ-TIMOR LESTE: CRIMES ENCOBERTOS POR MAIS DE 30 ANOS


O filme ganhador do festival mostra o assassinato
de seis jornalistas australianos e de milhares de
timorenses por tropas da Indonésia
(Foto: Reprodução)
De Buenos Aires (Argentina) – “Balibó” é o filme ganhador, na categoria longa-metragem, do 1º. Festival Internacional de Cinema Político (Ficip), realizado na capital portenha de 25 a 29 últimos. Mostra o assassinato de seis jornalistas australianos quando da invasão do Timor Leste pela Indonésia em 1975, poucos dias depois do país se tornar independente de Portugal, crimes que ficaram encobertos por mais de 30 anos do chamado grande público, que não é tão grande assim (na verdade, uma pequena minoria, porque o tema Direitos Humanos só entra na pauta das corporações da mídia quando há por trás o assalto às riquezas dos pequenos países pelo império dos Estados Unidos e seus aliados, como é o caso nos dias de hoje com o petróleo da Líbia).


Por que as potências ocidentais iriam se importar com o massacre do povo timorense (e não só dos seis jornalistas)? Timor Leste é a metade da diminuta ilha Timor, na Ásia, atualmente com um milhão de habitantes (grande parte fala português). A outra metade faz parte do território da Indonésia, que manteve sua ocupação até 1999. É uma tragédia recente, entrando no século 21, silenciada e já condenada ao esquecimento. Mesmo porque os meios de comunicação não têm interesse de ficar falando dessas coisas “pequenas”, ainda mais com tantas tragédias mais recentes – Iraque, Afeganistão, Palestina, Líbia...


Integrantes da comissão organizadora e das equipes de jurados no
encerramento, logo após a premiação, no Espaço INCAA Km 0 -
Gaumont (Foto: Jadson Oliveira)
O filme vencedor é uma produção australiana dirigida por Robert Collonny, de 2010, baseada em fatos realmente ocorridos, escancarando a barbárie das tropas invasoras contra civis. Vemos a luta do jovem José Ramos-Horta (ator Oscar Isaac) como representante da Frente Revolucionária Timor Leste Independente (Fretilin) e, no final, uma rápida aparição dele, já de cabelos grisalhos, cinquentão, 24 anos depois, quando retorna do exílio para se tornar uma das lideranças do novo país (foi ministro das Relações Exteriores e hoje é presidente da República).


E vemos o veterano jornalista australiano Roger East (ator Anthony LaPaglia) tentando desesperadamente encontrar os cinco colegas e conterrâneos (duas equipes de duas emissoras de TV da Austrália). Tinham sido mortos na cidade de Balibó (daí o título), perto da fronteira com a Indonésia, e ele acabou tendo o mesmo destino. Tudo envolto em cenas de extrema violência e realismo.


Festival teve mais de 350 filmes inscritos


Como o nome do festival sugere, nas mais de 350 “películas” inscritas estava grande parte das inquietudes políticas de nosso tempo. Segundo os organizadores, foram tratados nos filmes temas como a luta dos países da América Latina para mudar sua história de colonização e exploração, os desaparecidos políticos e os bebês roubados durante a ditadura (assunto atualíssimo na Argentina), o nazismo, os problemas da migração e imigração, o neoliberalismo, a luta dos povos contra as grandes corporações, a história dos movimentos sociais, os golpes e as democracias e a guerra na Faixa de Gaza.


O Espaço INCAA (na Praça do Congresso) foi um dos três locais
onde foram exibidos os filmes (Foto: Jadson Oliveira)
Houve filmes da Austrália, Polônia, Palestina, Honduras, Paraguai, Chile, México, Brasil, Canadá, Cuba, Guatemala, Venezuela, Bolívia e Peru, além da Argentina, claro, que mereceu uma competição especial, com premiação à parte, já que os cineastas da casa inscreveram mais de 120 obras. Além dos longa-metragem, foram premiados os melhores curtas e os de meia-metragem (é isso mesmo em português? em espanhol é mediometrajes). Houve mostras especiais de Cuba, Paraguai e México. Venezuela foi o país convidado de honra. Durante os cinco dias, os filmes foram exibidos, gratuitamente, nas salas do Espaço INCAA (Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais) Km 0 – Gaumont, do Centro Cultural da Cooperação e do Hotel Bauen.


Pequena participação do Brasil


O entrosamento dos brasileiros e argentinos parece não ser dos melhores na área do cinema. De acordo com informação da comissão organizadora, somente quatro ou cinco filmes do Brasil foram inscritos e apenas um mereceu uma certa atenção (pelo menos foi lembrado e elogiado por um dos organizadores), embora não tenha recebido nenhum prêmio. Trata-se de “Andiroba – Uma luta pela terra”, cujo diretor é Jérôme Perret, um suíço que já viveu no Brasil e atualmente vive em Buenos Aires, conforme pesquisa na Internet. É uma produção brasileira/suíça. Conta a luta de moradores do Baixo Parnaíba, no Maranhão, em defesa do meio ambiente e contra a monocultura de eucalipto, com a participação do ex-padre Vale (José Vale dos Santos).




sábado, 26 de março de 2011

DIA DA MEMÓRIA: OS ARGENTINOS NÃO ESQUECEM OS CRIMES DA DITADURA


Praça de Maio emendada com a Avenida de Maio, de onde vinham
as colunas de militantes das dezenas de entidades dos mais variados
matizes políticos da esquerda (Todas as fotos: Jadson Oliveira)
Crianças abriam o desfile no bloco da Juventude Gráfica, ligada
à Federação Gráfica Bonaerense (da província de Buenos Aires)
De Buenos Aires (Argentina) – Não ao esquecimento! Sim à punição dos culpados! Tais palavras-de-ordem parecem resumir os anseios de quase toda a militância política dos nossos vizinhos, o que significa muita gente, ao contrário do Brasil onde a mobilização popular anda muito escassa. Daí que as ruas centrais da capital portenha (houve atos também em outras cidades do país) se encheram de manifestantes na quinta-feira, dia 24, feriado nacional, Dia da Memória, da Verdade e da Justiça. Há estimativas que chegam a centenas de milhares de pessoas. (Em 24 de março de 1976 – há 35 anos, portanto – os militares derrubaram o claudicante governo de Isabelita Perón e instauraram a última ditadura - 1976-1983).


A natureza colaborou: o sol brilhou na quinta-feira, enquanto a véspera e a sexta seguinte foram nubladas e com alguma chuva. Desfilaram dezenas (ou talvez mais de uma centena) de entidades partidárias, de defesa dos Direitos Humanos, de movimentos sociais, de bairros, de trabalhadores, estudantis e comunitárias, identificadas nos variados cartazes, bandeiras, faixas, gritos-de-guerra e camisetas. É peronismo dos mais variados matizes, uma corrente política (de Juan Domingo Perón) que José Pablo Feinmann, pensador muito respeitado por aqui, chama de “uma obstinação argentina”.


Uma das muitas organizações peronistas presentes (26 de julho
foi a data da morte de Eva Perón, em 1952)
Milhares de jovens de La Cámpora estão sempre nas ruas exaltando
a memória de Néstor Kirchner e gritando slogans pró reeleição de
Cristina 
A UES (União dos Estudantes Secundaristas) reclamou seus
desaparecidos/assassinados
Foram então peronistas, no caso enfileiradas no kirchnerismo, muitas agremiações que exaltaram nas ruas e praças o ex-presidente Néstor Kirchner e gritaram consignas em favor da reeleição da presidenta Cristina Kirchner. Talvez a mais representativa destas seja La Cámpora, que sempre arrasta milhares de jovens sob a “cobertura” de suas bandeiras azuis e brancas.


Estavam lá também, sempre em posição de vanguarda, as Abuelas e Madres (avós e mães – Madres da Linha Fundadora) da Praça de Maio, que iniciaram sua heróica militância desde 1977, no segundo ano da ditadura (muitas já morreram, claro), e são hoje referência mundial quando se fala de Direitos Humanos. Continuam nas suas denúncias sobre os desaparecidos/assassinados e na luta pelo castigo aos culpados – os últimos números divulgados indicam que atualmente existem 169 condenados e 856 sendo julgados. E apoiam também o projeto político dos Kirchner.


(Digo “Madres da Linha Fundadora” para diferenciar da Associação das Madres da Praça de Maio, que há quatro anos passou a atuar numa linha distinta e tem grande visibilidade pública, mesmo porque ampliou muito seu raio de ação. As “madres” da associação, que também estão com Cristina, fizeram uma comemoração do Dia da Memória à parte, com o chamado “que o sangue de nossos filhos se converta em escolas, hospitais, casas e trabalho para todos”, a qual culminou com uma concentração num bairro popular. Sua presidenta, Hebe de Bonafini, diz, por exemplo: “Nos importa mais que uma criança seja feliz do que meter um milico na cadeia”).


Frente do grupo que desfilou com a bandeira do Movimento
Independente dos Desocupados Organizados - MIDO
O Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) levou uma grande
coluna de militantes às ruas
Voltemos ao centro de Buenos Aires. Desfilaram também por lá as muitas organizações políticas que por aqui são chamadas “de esquerda” (no Brasil seriam “trotskistas), aparentadas com os aguerridos “piqueteros” da década de 90. São oposição ao governo de Cristina, não têm poder de fogo eleitoral e podem ser identificadas numa grande faixa que carregaram: “Com impunidade e repressão não há Direitos Humanos”.


Apregoam que a repressão continua, falam dos mortos, presos e processados nas lutas populares recentes, dizem que 90% dos repressores da ditadura ainda estão sem punição, que 16 foram absolvidos e cerca de 450 morreram sem castigo e/ou são fugitivos. Para citar dois partidos que parecem ter boa representatividade neste espaço político-ideológico: Partido Operário (para dar um tom brasileiro, aqui é “Partido Obrero” - PO) e Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS).


Uma das pistas da larguíssima Avenida 9 de Julho, que ficou
totalmente (as duas pistas) fechada ao tráfico de carros
Tais militantes “de esquerda”, que aqui têm grande poder de mobilização (pelo menos se comparamos com o Brasil), se concentraram a partir do início da tarde na Praça do Congresso. Os de quem falei antes – de atuação mais institucionalizada e pró Cristina – fizeram sua concentração inicial na 9 de Julho (a larguíssima avenida que corta o centro da cidade e que estava fechada ao trânsito de carros) e na Avenida de Maio, que liga a Praça do Congresso à Praça de Maio, cruzando a 9 de Julho, umas oito a 10 quadras.

No final da tarde e início da noite todos passaram, em fluxos sucessivos (não haveria espaço para tanta gente ao mesmo tempo), pela Praça de Maio, o coração político da capital, onde está o palácio do governo, a Casa Rosada. Praça que varou a madrugada apinhada de gente, especialmente jovens, já que depois das manifestações políticas seguiu-se uma apresentação musical.







sexta-feira, 25 de março de 2011

DIA DA MEMÓRIA: CENTENAS DE MILHARES DE ARGENTINOS VÃO ÀS RUAS (dois vídeos)

"MADRES" NOS 35 ANOS DO GOLPE NA ARGENTINA

As "madres" (de Madres - mães - de Plaza de Mayo) tiveram ampla participação nos atos que marcaram mais um aniversário do golpe militar de 24 de março de 1976 na Argentina. Neste vídeo está apenas uma pequenina mostra de um dos vários eventos que marcaram a semana e culminaram com as manifestações massivas do dia 24, Dia da Memória, da Verdade e da Justiça (voltaremos ao tema em outras postagens). 

Foi gravado no salão da entrada do Espaço Cultural Nossos Filhos (ligado à Associação das "Madres" da Praça de Maio), que fica num dos prédios da ex-Escola de Mecânica da Armada (Marinha), a famosa ESMA, o principal centro clandestino de tortura e extermínio durante a ditadura (1976/1983), hoje Espaço para a Memória e para a Promoção e Defesa dos Direitos Humanos.

Enquanto eu gravava, na noite do dia 23, a presidenta da associação, Hebe de Bonafini, lançava no auditório ao lado o livro A Convicção das "Madres" - A Covardia do Inimigo (comecei a gravação no ato de lançamento, mas as imagens ficaram ruins e cortei, porisso no áudio há algumas imprecisões, as quais tento sanar com este esclarecimento e com as fotos abaixo). Antes do lançamento do livro, foram inauguradas fotos do ex-presidente Néstor Kirchner (algumas com sua mulher, a presidenta Cristina) na alameda que dá acesso à entrada do Espaço Cultural.

Hebe de Bonafini (com microfone) durante lançamento do seu livro
A presidenta da Associação das "Madres" junto a uma das fotos de
Néstor Kirchner (ao seu lado, Daniel Roncoroni, que a ajudou na
redação do livro). Legenda parcialmente coberta: "Obrigado
 por nos devolver a Pátria"




COM O AMIGO PEDRO NO BAR EL RÁPIDO

Vídeo do dia 23, véspera dos 35 anos do golpe que instaurou a última ditadura militar na Argentina (24 de março de 1976/1983). Ontem, dia 24, foi feriado nacional, Dia da Memória, da Verdade e da Justiça, dia em que centenas de milhares de argentinos foram às ruas dizer "ditadura nunca mais" (voltaremos ao assunto em outras postagens). Gravado no bar El Rápido, bairro de Palermo, Buenos Aires .

terça-feira, 22 de março de 2011

EX-DITADOR ARGENTINO OUTRA VEZ NO BANCO DOS RÉUS

Jorge Rafael Videla (à esq. o também ex-ditador Reynaldo Bignone)
responde desta vez pelo roubo de bebês (Foto: reprodução da capa
do jornal Página/12)
De Buenos Aires (Argentina) – Já na prisão cumprindo duas condenações por crimes de lesa humanidade – uma de 25 anos e outra de prisão perpétua -, o ex-ditador Jorge Rafael Videla, 85 anos, volta a se sentar no banco dos réus. Desta vez é acusado de subtrair e ocultar menores, ou seja, o famoso roubo e apropriação de bebês nascidos (ou sequestrados juntamente com os pais) durante o cativeiro de presas políticas desaparecidas (assassinadas) durante a ditadura militar (1976-1983). São oito os acusados, incluindo ainda um médico e outro ex-ditador, ex-general Reynaldo Bignone, que comandou o governo já na fase terminal do regime militar.


O caso se refere ao roubo de 34 bebês que está em julgamento nos tribunais federais da Avenida Comodoro Py, em Buenos Aires, cuja ação foi iniciada em 30 de dezembro de 1996 por iniciativa de Abuelas de Plaza de Mayo (Avós da Praça de Maio), uma das entidades em que se organizam as conhecidas “madres” (mães) argentinas, engajadas há 34 anos na busca dos desaparecidos e na luta pela punição dos repressores.


Cartaz com as fotos das 34 mães desaparecidas que tiveram seus
recém-nascidos apropriados pelos repressores, as quais constam
do julgamento atualmente em curso na capital argentina 
(Foto: Reprodução)
No final do mês passado começou a fase das audiências públicas, devendo ser ouvidas cerca de 370 testemunhas. O desfecho está previsto para daqui a oito meses. São, portanto, 15 anos, durante os quais morreram alguns dos acusados no início do processo, como o ex-almirante Emilio Massera e o ex-general Cristino Nicolaides, que integraram juntas militares em distintas fases da ditadura.


No meio jurídico usa-se com frequência a expressão “plano sistemático de roubos de bebês” para marcar que não era uma prática isolada ou eventual. Foi a forma adotada pela sangrenta repressão para resolver o problema das mulheres sequestradas grávidas, chegando a ser instaladas verdadeiras “maternidades” em alguns dos centros clandestinos de tortura. O monitoramento feito por Abuelas de Plaza de Mayo registra que até hoje foram identificados 102 bebês tirados das mães e entregues para adoção de outras famílias, às vezes famílias dos próprios repressores. A estimativa é que o número total das crianças nesta situação (hoje adultos na faixa dos 30 anos) chegue em torno de 500.


É uma ferida sempre aberta na sociedade argentina. Há um caso rumoroso que volta e meia está em destaque nos meios de comunicação, por envolver altas figuras do poder. Os filhos adotivos de Ernestina Herrera de Noble (Marcela e Felipe Noble Herrera – foto), diretora do jornal Clarín, do maior grupo de mídia na Argentina, são suspeitos de serem fruto desse crime. A ação vem tramitando na Justiça, mas os advogados da poderosa família sempre conseguem barrar (ou adiar) as ordens judiciais para que os dois se submetam aos exames de DNA.


Recentemente, a presidenta de Abuelas de Plaza de Mayo, Estela Carlotto, declarou logo depois de mais um adiamento: “Os advogados os utilizam e os vitimizam (Marcela e Felipe), e impedem de se chegar à verdade num crime horrendo da ditadura. O Estado tem a obrigação de chegar a saber a verdade”.


segunda-feira, 21 de março de 2011

LÍBIA, OBAMA, DILMA E O EXEMPLO DE TANCREDO


Por Beto Almeida – Presidente da TV Cidade Livre/Brasília (Reproduzido de Carta Maior, de 21/03/2011)


Foi um ultraje, um abuso, um desrespeito total ao povo brasileiro o fato de Obama ter usado o território brasileiro, e mais precisamente as dependências do Palácio do Planalto, durante audiência com a presidenta Dilma, para dar as ordens de ataque com mísseis à Líbia!

Não merece, em absoluto, o Prêmio Nobel da Paz, mas o da guerra!

Mas, o episódio, mais um para a coleção de atitudes desrespeitosas com o povo brasileiro que dirigentes dos EUA praticaram - a mais grave de todas foi o Golpe de 1964, organizado a partir da Casa Branca que o pop star não mencionou -, nos faz reviver um outro episódio.

Eleito pelo Colégio Eleitoral, Tancredo Neves fez um giro por diversos países para comunicar a nova fase da política no Brasil a partir de 1985. O primeiro visitado foi os Estados Unidos. Recebido por Ronald Reagan, que na época sustentava criminosa agressão contra a Nicarágua por meio de sabotagens e de apoio a grupos terroristas chamados de “contras”, Tancredo ouve com paciência o presidente estadunidense discorrer sobre América Latina e, praticamente, solicitar ou assediar apoio brasileiro contra a Nicarágua Sandinista, por ele chamada de “expansão comunista-terrorista na região”.

Mineirice e soberania

Reagan só mais tarde foi compreender qual é a manha dos mineiros. Aparentemente, pelo comportamento de Tancredo na reunião privada, Reagan foi iludido acreditando que o mineiro estaria de acordo com os absurdos intervencionistas e criminosos que os EUA estavam lançando contra a Nicarágua. E por desdobramento, desrespeitando o povo brasileiro também convocando o Brasil para uma guerra contra um país irmão, a Pátria de Sandino.

Pois Tancredo deixou a Casa Branca sem dizer palavra e dirigiu-se ao Congresso. Aí sim, estava a caixa de ressonância de que precisava. Ao ser sabatinado por senadores e deputados, em meio a indagações protocolares, genéricas e as imbecilizantes de sempre, sem que ninguém lhe perguntasse, Tancredo declara alto e bom som para surpresa de todos, inclusive de sua assessoria que sequer fora avisada: “o Brasil não vai admitir uma intervenção militar estrangeira na Nicarágua Sandinista!!!”

O embaixador norte-americano no Brasil, um afrodescendente, ficou pálido com o que ouviu, segundo relato do experimentado jornalista José Augusto Ribeiro, assessor de imprensa de Tancredo, que também só naquele instante tomava conhecimento da postura do presidente brasileiro recém-eleito em defesa da autodeterminação dos povos, e, concretamente, em defesa do direito da Nicarágua de escolher seu modelo político soberanamente, reconhecendo seu sagrado exercício de independência.

Fidel e Tancredo

Imediatamente a declaração corajosa e soberana de Tancredo Neves, no Congresso dos EUA, minutos após ter se reunido com o presidente Ronald Reagan que lhe fez a proposta indecente, ecoava mundo afora pelas agências de notícias. Minutos depois um despacho das agências noticiosas chegava às mãos de Fidel Castro que estava à tribuna num Congresso Internacional Contra o Pagamento da Dívida Externa, em Havana, quando também havia acabado de advertir para o risco de uma intervenção militar norte-americana na Nicarágua. Fidel pára seu discurso, lê o telegrama com as declarações de Tancredo Neves e fulmina da tribuna: “invadir a Nicarágua é relativamente fácil, quero ver invadir o Brasil de Tancredo Neves!”

Sabe-se que, quando Obama foi interrompido por seu secretário à mesa de reunião com Dilma, ele deu a ordem de ataque que pode levar à morte milhares de civis líbios e destruir tudo o que foi construído pelo processo de transformações da Líbia. E, ato contínuo, teria comunicado sua decisão à presidenta Dilma, como a querer apoio ou adesão ao ataque. Dilma, segundo os relatos, teria recusado e declarado: “o Brasil é um país pacífico e não concordamos que a ação militar vá produzir os efeitos esperados”. Não aderiu. Mas não declarou publicamente.

Desrespeito ao povo brasileiro

Teria sido importante que Dilma, a exemplo do também mineiro Tancredo Neves, ecoasse esta declaração em cadeia de tv e rádio, enquanto Obama estivesse em território brasileiro. Era uma maneira de reprovar publicamente a abusiva atitude de Obama de usar o território brasileiro, em visita oficial, para determinar um ataque mortal contra um país com o qual o Brasil tem relações normais, incluindo a participação de empresas, técnicos e produtos no processo de transformação que levou a Líbia a ter o mais elevado Índice de Desenvolvimento Humano da África.

Aliás, envolto em profundo simbolismo e em sintonia histórica com as declarações de Tancredo Neves, está a recusa de Lula a comparecer ao almoço com Obama. Talvez esteja no gesto de Lula o que verdadeiramente Dilma e o Itamaraty queriam ou deviam dizer.

Sabemos que os primeiros mísseis lançados contra Trípoli destruíram um hospital e mataram 48 pessoas, inclusive crianças. As agências de notícias, controladas pela indústria bélica e pelo poder petroleiro com sanguinária voracidade pelo óleo negro líbio, continuam a mentir, agora dizendo que nenhum alvo civil foi atingido. (...)


(O artigo completo está em Carta Maior - www.cartamaior.com.br )


sexta-feira, 18 de março de 2011

KIRCHNERISMO SAI NA FRENTE NA CORRIDA ELEITORAL DE 2011


De Buenos Aires (Argentina) – Na primeira eleição estadual (provincial) do ano – processo que vai culminar em 23 de outubro com o pleito presidencial -, o peronismo kirchnerista, liderado pela presidenta Cristina Fernández de Kirchner, saiu na frente: ganhou no domingo, dia 13, o governo de Catamarca, pequena província (estado) do noroeste argentino. Quase uma dezena das 23 províncias do país (24 se se inclui a capital federal) terá eleições assim, descasadas da de presidente, até outubro.


Apesar de se tratar de uma província diminuta – menos de 1% dos mais de 20 milhões de eleitores do país -, a vitória das forças governistas (aqui se usa o termo oficialistas) agitou a política nacional. Por alguns motivos óbvios: foi o primeiro pronunciamento das urnas no ano, cujo resultado coincide com o favoritismo dos Kirchner (veja mais adiante números de uma pesquisa); a província estava (ainda está, porque a posse do novo governo só ocorrerá daqui a oito meses) há 20 anos em poder da União Cívica Radical (UCR) e o governador Eduardo Brizuela foi derrotado ao tentar sua segunda reeleição (em algumas províncias a reeleição é indefinida).


Governadora eleita virou o jogo com a boa imagem dos Kirchner


Motivo mais significativo: a governadora eleita, senadora Lucía Corpacci, começou a campanha aparentemente sem nenhuma chance de vencer e venceu justamente porque usou como bandeira os êxitos do governo nacional, a boa imagem da presidenta, sua identificação com o “oficialismo” e até um distante parentesco com a família Kirchner. O governador, já no final da campanha, notando a reviravolta, apelou até para aumento salarial dos funcionários e aposentados, mas não houve jeito.


No final, 48% a 44% (no caso, é turno único). Os aliados de Cristina (oposição local) ganharam até na capital da província, San Fernando de Catamarca, considerada uma fortaleza do “radicalismo” (o termo refere-se aos partidários da UCR, nada tem a ver com radical x moderado). Foram eleitos também prefeitos (chamados aqui intendentes), legisladores provinciais e vereadores.


O próximo teste será no domingo, dia 20, quando a Frente para a Vitória (FpV, coligação liderada pelo peronismo kirchnerista – a banda governista do Partido Justicialista – PJ) vai enfrentar a banda opositora, o Peronismo Federal. Em disputa o governo da província de Chubut, no sul, região da Patagônia. O panorama se repete, vamos ver o desfecho. O candidato do governador Mario das Neves começou a campanha como franco favorito e agora está acossado pelo representante dos Kirchner, que utiliza a mesma tática vitoriosa em Catamarca: identidade total com Cristina.


Pesquisa aponta favoritismo da presidenta Cristina


É uma situação semelhante à que ocorreu no Brasil nas eleições do ano passado: ser aliado do então presidente Lula, com mais de 80% de aprovação popular, era sempre uma boa vantagem. A presidenta argentina está com mais de 60% de aprovação, patamar alcançado depois da morte de seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, em outubro último. Pesquisa divulgada no início deste mês pelo Centro de Estudos de Opinião Pública (Ceop) aponta 44% de intenções de voto para ela, ou seja, tem chance de ganhar no primeiro turno.


O segundo na mesma pesquisa está bem distante, com 12%. É Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires (“chefe de Governo da capital”, como se diz aqui), filho de um rico empresário que se elegeu em 2007, sem tradição política. (Seu partido chama-se PRO, que não é uma sigla, é simplesmente PRO, em favor de alguma coisa). Em terceiro, com 10% das preferências, aparece o deputado federal Ricardo Alfonsín (UCR), que é filho de Raúl Alfonsín, o primeiro presidente eleito após a queda da última ditadura (1976-1983).


terça-feira, 15 de março de 2011

ARGENTINA: MILITÂNCIA KIRCHNERISTA SE ORGANIZA DE OLHO NA REELEIÇÃO DE CRISTINA

Cerca de 50 mil partidários dos Kirchner lotaram o estádio do
Huracán (time de futebol) para marcar a formação da Corrente
Nacional da Militância (Foto: Deta Maria)
Cristina Fernández de Kirchner exaltou a mobilização popular e
dirigiu-se aos jovens: "Vocês têm a imensa oportunidade histórica
de participar na construção de um país diferente".
(Foto: Leandro Teysseire/Página/12)
De Buenos Aires (Argentina) – Os militantes do kirchnerismo (ou peronismo kirchnerista) deram uma demonstração de força na última sexta-feira, dia 11. Reuniram cerca de 50 mil pessoas, a maioria jovens, no estádio do Huracán (time de futebol, no Parque dos Patrícios, Buenos Aires), para culminar a formação da Corrente Nacional da Militância e intensificar a campanha pela reeleição da presidenta Cristina Fernández de Kirchner (a sua candidatura continua não assumida formalmente, mas sobre isso parece não haver dúvida). “Borombombón, borombombón, para Cristina la reelección” foi um dos bordões mais gritados pela entusiasmada plateia.


E bote entusiasmo nisso. A numerosa assistência, que representava vários movimentos sociais e populares explicitados no emaranhado de bandeiras e cartazes, interrompeu dezenas de vezes, com aplausos, canções e consignas, os discursos, especialmente o da presidenta, recebida com euforia, sempre vestida de luto e sempre fazendo repetidas menções a “él” (ele), seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, cuja morte, há quase cinco meses, deu um enorme empurrão na sua popularidade (as últimas pesquisas dão sempre mais de 40% de intenções de voto a Cristina, enquanto os possíveis concorrentes ficam de 10% para baixo).


Ao chegar, a presidenta saúda demoradamente a plateia e é brindada
com o bordão: “Borombombón, borombombón, para Cristina
la reelección” (Foto: Deta Maria)
A plateia interrompeu os oradores dezenas de vezes com aplausos,
canções e gritos de guerra (Foto: Deta Maria)
O emaranhado de bandeiras e cartazes mostra a grande variedade
de movimentos sociais engajados na campanha liderada por Cristina
(Foto: Deta Maria)
A presidenta – de aparência física frágil, impressão que se dissipa ao começar a falar – exaltou o avanço da mobilização e organização popular, visando a institucionalização do campo nacional e popular, o que “não é obra de uma lei ou um decreto”. Dirigindo-se aos jovens, a quem chamou de “geração do Bicentenário” (referência aos 200 anos de independência do país, conseguida em 1810), disse que “vocês têm a imensa oportunidade histórica de participar na construção de um país diferente, (...) uma juventude que construa sua própria história, como fizemos nós, a geração dos anos 70, (...) tenham exemplos, mas sejam vocês mesmos”.


Falou da integração soberana da América Latina (os aplausos foram seguidos pelos gritos “pátria sim! colônia não!”), da recuperação dos valores culturais e da verdadeira história argentina, da ação para consolidar o modelo de universidade nacional, pública e gratuita. E, claro, dos êxitos obtidos na economia e na área social a partir de 2003, quando Néstor Kirchner assumiu o poder. Ou seja, depois do “fundo do poço” em que foi jogada a Argentina subjugada aos ditames neoliberais do Fundo Monetário Internacional (década de 90), particularmente durante o governo de Carlos Menem.


O ato começou em torno de 6 horas da tarde e durou quase três horas. Antes de Cristina chegar e discursar, houve pronunciamentos de lideranças da Corrente Nacional da Militância e de entidades que ajudaram a organizar o evento, como Movimento Evita, Juventude Sindical, Frente Transversal e La Cámpora. Participaram ministros, governadores, parlamentares, prefeitos, autoridades governamentais e caravanas de várias províncias (estados) do país. Na chegada da presidenta foi entoado o hino nacional e, no final, já sem sua presença, os militantes e dirigentes esbanjaram fervor ao cantar a marcha peronista (o refrão: “¡Perón, Perón, qué grande sos! ¡Mi general, cuanto valés! ¡Perón, Perón, gran conductor, sos el primer trabajador!”).


Foi a primeira vez, neste ano eleitoral, que a presidenta participou de um ato estritamente político e inserido na campanha (a eleição será em outubro). E representou o coroamento da mobilização que a militância kirchnerista vinha promovendo há alguns meses, com debates, seminários e manifestações públicas, dentro da meta de unificar a atuação dos diversos movimentos sociais afinados ou próximos do peronismo alinhado aos Kirchner (há também o peronismo opositor, à direita, chamado Peronismo Federal, liderado pelo ex-presidente Eduardo Duhalde).


Eis como o secretário-geral do Movimento Evita, Emilio Pérsico, define os objetivos da ação visando influenciar o governo a adotar posições afinadas com os interesses populares: “Para institucionalizar o Movimento Nacional, temos que agir no social transformando os avanços em direitos; no institucional, transformando o Estado Neoliberal num Estado Democrático, Participativo e Popular, incorporando os Jovens, os Trabalhadores, os Militantes fortemente ao Estado; e no político, organizando a Corrente Nacional da Militância como força política”.


Seguem três vídeos:
Vídeo 1: A chegada de Cristina e o início do hino nacional.
Vídeo 2: Início do discurso de Cristina. Ela se refere ao marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, "companheiro de toda minha vida". E a assistência canta: "Néstor não morreu..."
Vídeo 3: Marcha peronista. O refrão: “¡Perón, Perón, qué grande sos! ¡Mi general, cuanto valés! ¡Perón, Perón, gran conductor, sos el primer trabajador!”


segunda-feira, 14 de março de 2011

NOTÍCIAS INTERNACIONAIS TÊM PAUTA ÚNICA

Por Laurindo Lalo Leal Filho (Reproduzido de Carta Maior, de 11/03/2011)


Quando a revolta árabe chegou à Líbia, fornecedora de grande parte do petróleo consumido na Europa, a batalha da informação tornou-se mais acirrada.

Notícias falsas começaram a circular pelas agências internacionais de notícias e por algumas redes de televisão. No Brasil foram reproduzidas sem crítica.

Duas delas:

1) O presidente Muhamar Kadaffi recebe asilo político da Venezuela e segue para Caracas.

2) Kadaffi negocia com rebeldes sua saída do país. Quer levar a família e grande quantia em dinheiro.

Mentiras logo esquecidas. Quando o repórter da Telesur relatou, ao chegar a Trípoli, que a situação era de calma na cidade foi ridicularizado pela Folha de S.Paulo e por uma de suas articulistas, até com chamada de capa.

Àquela altura toda a corrente majoritária da mídia internacional, acompanhada pela brasileira, dava como certa uma rápida vitória dos rebeldes.

A Telesur mostrava que na Líbia a situação era diferente do que havia ocorrido na Tunísia ou no Egito. As manifestações de massa não tinham chegado ao centro do poder e poderia haver um equilíbrio maior entre os lados em conflito, o que acabou se confirmando.

A atuação da Telesur, ao lado da Al-Jazira e outras emissoras árabes, mostra a importância de uma diversidade maior no fluxo internacional de informações.

As agências de notícias tradicionais foram criadas como empreendimentos para a divulgação de informações financeiras em meados do século 19.

A Reuters, de 1851, esteve durante muito tempo a serviço da família Rothschild, interessada em informações rápidas e precisas sobre os mercados financeiro e mercantil da Europa.

Apoiadas pelos governos dos países onde tinham sede, essas agências nunca deixaram de ver o mundo segundo a ótica peculiar desses mesmos países.

Tanto é que a UNESCO, nos anos 1970/80, impulsionou o debate por uma Nova Ordem da Informação e da Comunicação, interrompido com ascensão dos governos Reagan, nos EUA, e Thatcher, no Reino Unido.

Perceberam esses governantes que uma “nova ordem” informativa implicaria num enfraquecimento do projeto neoliberal, em fase inicial de implantação no mundo.

A sonhada circulação de notícias sul-sul, capaz de quebrar o fluxo informativo norte-sul, foi adiada. EUA e Reino Unido chegaram a cortar suas contribuições financeiras para a UNESCO como forma de pressioná-la a deixar de lado o debate sobre a comunicação.

E foi o que aconteceu. Os anos 1990 assistiram a um perfeito entrosamento entre a ordem econômica e a ordem informativa, alinhadas no projeto neoliberal.

Mantinha-se praticamente intacto o fluxo informativo internacional implantado no século 19 pelas três grandes agências internacionais europeias (Reuters, Wolff e Havas) e, associado no século 20, às estadunidenses AP e UPI.

A centralidade de poder era tão grande que notícias da Bolívia só chegavam ao Brasil depois de passar por Nova York, Paris ou Londres.

Se a UNESCO não conseguiu romper essa lógica, o surgimento de novas tecnologias da informação e a visão estratégica de alguns governos, como os da Venezuela e do Qatar, puseram em xeque a ordem estabelecida.

No Egito, relata Paulo Cabral, ex-correspondente da BBC Brasil no Cairo, as antenas parabólicas estão em quase todos os domicílios captando essencialmente emissoras árabes como a Al-Jazira.

Suas informações – ao longo de muito tempo – serviram de caldo de cultura para desencadear a revolta, ampliada a seguir pelas redes na internet.

A Telesur, por sua vez, vem demonstrando a importância da existência de pautas alternativas às das grandes agências.

Como exemplos, pode-se citar as coberturas do golpe de Estado contra o presidente Zelaya, em Honduras; as libertações de reféns pelas Farc na Colômbia; e mesmo as reuniões de chefes de Estado sul-americanos, tão maltratadas pela mídia tradicional.

Infelizmente, no entanto, imagens da Telesur e da Al-Jazira quase não chegam até nós. No caso da emissora latina é necessária a compra de um decodificador, ligado a uma antena direcionada para o satélite por onde trafegam os seus sinais televisivos.

Mas existem dois caminhos bem mais simples: sua inclusão no menu das operadoras de TV por assinatura e a utilização dos seus serviços pelas emissoras brasileiras nos telejornais, como o que é feito com CNN, Reuters e outras.

Isso só não ocorre porque as operadoras de canais fechados e as TVs abertas negam-se a veicular visões de mundo desalinhadas do pensamento único.

E mesmo emissoras públicas, com poucas exceções, preferem seguir a pauta diária estabelecida pelas grandes agências internacionais, curvando-se ao modelo em vigor no mundo desde 1835, quando Charles Havas fundou a primeira agência internacional de notícias na França.

Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial). Twitter: @lalolealfilho.

sábado, 12 de março de 2011

“NOSSOS VERDADEIROS ALIADOS SÃO OS NOSSOS VIZINHOS”

Por Martín GranovskyPágina/12 (Reproduzido de Carta Maior, de 07/03/2011)


Se o Departamento de Estado dos EUA confiava em um fissura cada vez mais importante entre Venezuela e Brasil para recuperar posições na América do Sul, as posições brasileiras parecem desmentir essa ilusão nos fatos e nas ideias. Junto com a queda das exportações brasileiras aos Estados Unidos desapareceu a possibilidade de uma ameaça norte-americana. “Sabem que se quiserem implementá-las, essas sanções seriam ineficazes”, acaba de escrever o diplomata brasileiro Samuel Pinheiro Guimarães (foto). E acrescenta: “Nossos verdadeiros aliados são os vizinhos”.

Pinheiro Guimarães aponta que hoje o Brasil só exporta 17% de sua produção para os Estados Unidos. Essa cifra é que tornaria impossível de cumprir uma eventual represália como a que, recorda o diplomata, Washington empregou em 1987 com as patentes farmacêuticas. Quando Fernando Collor de Mello assumiu como presidente, em 1989, satisfez em cascata as exigências norte-americanas, que questionavam a Lei da Informática.

O diplomata acaba de escrever algumas reflexões no prefácio ao livro “Relações Brasil-Estados Unidos no contexto da globalização: rivalidade emergente”, do pesquisador Luiz Alberto Moniz Bandeira. Pinheiro Guimarães foi vice-chanceler de Luiz Inácio Lula da Silva e ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos. Por proposta de Lula, o Mercosul – que, para os EUA, é um “organismo antinorte-americano”, conforme telegrama divulgado por Wikileaks – designou-o em dezembro passado como seu Alto Representante com atribuições de negociar em nome do bloco, propor a formulação de estratégias e articular políticas comuns. O secretário do organismo é o argentino Agustín Colombo Sierra.

A seguir, alguns trechos do texto escrito por Samuel Pinheiro Guimarães:


“Um indicador da crescente hegemonia norte-americana é a ressurreição do Conselho de Segurança das Nações Unidas logo após a posse de Boris Yeltsin e Alexandre Kozirev, que alinharam a política russa à política externa norte-americana. Na prática, este alinhamento redundou na desaparição dos vetos russos, que passaram de um total de 118 no período 1945-1991 para apenas 4 no período 1992-2009. Como resultado, os EUA obtiveram, inclusive sem a oposição da China, apoio para suas ações de punição política, comercial ou militar”.

“Em 1988, os gastos militares norte-americanos eram de 533 bilhões de dólares. Entre 1988 e 2009 registraram um aumento acumulado de 10,376 bilhões de dólares, contra 1,683 bilhões do segundo país em gastos militares, a Rússia”.

“Em 1988, a renda per capita dos oito principais países desenvolvidos (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Canadá e Austrália) era de 18.000 dólares, e a renda média per capita dos oito principais países subdesenvolvidos (China, Índia, Brasil, Rússia, Indonésia, México, Argentina e África do Sul) era de 1.300 dólares. A diferença era, em 1988, de 16.700 dólares. Em 2008, a renda per capita média dos oito países desenvolvidos alcançou os 43.000 dólares e a renda média dos oito principais subdesenvolvidos chegou a 6.000. A diferença aumentou de 16.700 para 37.000”.

“Os Estados Unidos possuem a moeda de reserva e de uso internacional, o dólar, e são, sem dúvida, para os grandes capitalistas – quer se trate de megaempresas, megabancos, megafundos ou indivíduos de alta renda – o centro do sistema capitalista internacional e seu baluarte. Estes sucessos norte-americanos encontram-se, na verdade, entrelaçados. A elite norte-americana está absolutamente convencida de que tudo o que ocorre em todos os países que integram o sistema internacional é de interesse para sua sociedade e para sua sobrevivência”.

“O Brasil atravessa um momento de sua história onde as classes populares, conduzidas pelo Partido dos Trabalhadores e pelos partidos progressistas sob a liderança do presidente Lula, iniciaram um processo de transformação econômica, política e social para construir uma sociedade democrática de massas. Todavia, diferentemente dos Estados Unidos, o Brasil é um país subdesenvolvido e está na periferia do sistema internacional”.

“O Brasil vive um momento de transformação na natureza da inserção de sua sociedade e de seu Estado no sistema internacional. A estrutura do comércio exterior se alterou, reduzindo muitíssimo a dependência da economia brasileira não somente em relação a terceiros mercados como também em relação a produtos específicos. Os fluxos de investimento direto estrangeiro se diversificaram, com um aumento significativo da participação de capitais de novas origens. O Brasil passou de devedor a credor internacional, acumulando reservas de quase 300 bilhões de dólares, maiores que as da França, Inglaterra e Alemanha. O Brasil passou a exportar capitais por meio de empréstimos e investimentos diretos de empresas brasileiras no exterior”.

“O presidente José Sarney assumiu a presidência em um momento delicado da política brasileira, e foi capaz de conduzir a transição de um regime autoritário para um regime democrático em meio a uma pertinaz crise econômica. Garantiu a liberdade de imprensa, iniciou um processo de firme aproximação com a Argentina, base do futuro Mercosul, resistiu às pressões para adotar medidas arbitrárias, convocou a Assembleia Constituinte, promulgou a Constituição de 1988 e enfrentou, com serenidade, uma campanha eleitoral de grande violência verbal contra ele e sua família. Desempenhou um papel fundamental na transição democrática e apoiou programas estratégicos vitais para o Brasil, como os programas nuclear, espacial e cibernético. Ao resistir às pressões norte-americanas para desmantelar esses programas, contrariou poderosos interesses econômicos e políticos, nacionais e estrangeiros. Talvez seja essa a razão do antagonismo sistemático que é dirigido contra sua pessoa por setores dos grandes meios de comunicação” (Nota do autor: Sarney é o presidente do Senado, resultado de um acordo com o PT).

“Vivemos o momento em que se desenvolve a estratégia de transformar a inserção – política, econômica e tecnológica – no mundo por meio de uma nova ação do Brasil na América do Sul, na África, no Oriente Próximo e nos organismos internacionais, frente às grandes potências e na conquista da autonomia em relação ao Fundo Monetário Internacional”.

“É necessário, prudente e proveitoso manter as melhores relações com as grandes potências, devido a sua importância no mundo em geral e para o Brasil em particular, mas fundamo-nos nos princípios de igualdade soberana, reciprocidade, não intervenção e autodeterminação, sem perder de vista que os interesses nacionais brasileiros, que são os de um país subdesenvolvido, apesar de seu extraordinário potencial, não são idênticos aos interesses nacionais de cada uma das grandes potências em geral e, muito menos, aos interesses da maior potência mundial, os Estados Unidos”.

“(Desenvolvemos) uma política altiva, ativa, soberana, não intervencionista, não impositiva, não hegemônica, que luta pela paz e pela cooperação política, econômica e social, em especial com os países vizinhos e irmãos sul-americanos, começando pelos países sócios do Brasil no Mercosul, um destino comum que nos une, com os países da costa ocidental da África, também nossos vizinhos, e com países semelhantes: com mega-populações, mega-territoriais, mega-diversos, mega-ambientais, mega-energéticos, mega-subdesenvolvidos, mega-desiguais. Nossos verdadeiros aliados são nossos vizinhos, daqui e de ultramar, com os quais nosso destino político e econômico está definitivamente entrelaçado, e nossos semelhantes, os grandes Estados da periferia”.

terça-feira, 8 de março de 2011

PARA EUA, MERCOSUL É “ANTINORTE-AMERICANO”

Por Martín Granovsky – Página/12 (Reproduzido de Carta Maior, de 07/03/2011)


Pela primeira vez vem a público um documento do Departamento de Estado dos Estados Unidos que qualifica o Mercosul como um organismo “antinorte-americano”. Não consta nos arquivos públicos nenhuma menção neste sentido por parte de uma autoridade do Departamento de Estado. O documento ao qual o Página/12 teve acesso, via Wikileaks, revela o conteúdo de uma reunião de embaixadores estadunidenses no Cone Sul, realizada no Rio de Janeiro. Segundo o texto final do encontro, a chave que, segundo os EUA, muda a natureza do Mercosul é a decisão de incorporar a Venezuela aos quatro membros originais: Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. “A entrada da Venezuela no Mercosul altera claramente o balanço e a dinâmica da organização”, diz o texto. “O Mercosul gradualmente foi transformando-se de uma união aduaneira imperfeita em uma organização mais restritiva e antinorte-americana”.

A reunião ocorreu nos dias 8 e 9 de maio de 2007 no Rio de Janeiro. O telegrama com um resumo foi classificado como secreto no dia 17 de maio pelo número dois da embaixada no Paraguai, Michael J. Fitzpatrick. Seu título original é “Conferência: uma perspectiva do Cone Sul sobre a influência de Chávez”. Participaram os embaixadores norte-americanos no Brasil, Uruguai, Argentina, Paraguai e Chile, e o relatório agradece ainda as contribuições da embaixada na Bolívia.

Quase quatro anos depois do encontro adquire ainda mais importância que tenha sido um diplomata sediado no Paraguai o encarregado de qualificar o grau de confidencialidade da reunião. O protocolo de adesão da Venezuela foi firmado em março de 2006. Mas até hoje não entrou em pleno vigor porque um país só passa a ser membro pleno do Mercosul quando os parlamentos dos países que já são membros ratificam a decisão dos poderes executivos. A única coisa que falta para a entrada da Venezuela no bloco é, hoje, a ratificação do Senado paraguaio.

Na última reunião do Mercosul (Foz do Iguaçu, em 2010), a presidenta Cristina Fernández de Kirchner disse que “a incorporação da Venezuela ao Mercosul, além de aportar sua generosidade, vai ajudar estrategicamente a consolidar-nos em uma das frentes mais importantes deste século, a energética”. Cristina disse confiar “nos irmãos do Paraguai”, destacou o Mercosul como um bloco que permitiu deixar para trás uma hipótese absurda como o enfrentamento entre a Argentina e o Brasil e acrescentou que o peso dos mercados internos dos dois países permitiu “superar a crise global mais importante desde 1930”.

O atrativo de Chávez


A conclusão final dos embaixadores é que “a campanha de Chávez para expandir sua influência no Cone Sul é multifacetada e repousa em boa medida, mas não totalmente, em uma generosa assistência energética e em acordos de investimento”. Concede que a figura de Chávez pode ser “atrativa para muitos dos despossuídos da região, que todavia esperam que a globalização lhes traga os benefícios do livre comércio e o governo verdadeiramente democrático”.

Segundo o telegrama, “ao integrar a Venezuela às instituições existentes e ao criar novos organismos regionais, Chávez quer que o Cone Sul siga essa ideia”. Que resultados teria produzido a suposta campanha do presidente venezuelano? “Poucos países provaram ser capazes de resistir ao atrativo da ajuda venezuelana e de seus pacotes de investimento”.

Para a sorte dos críticos da integração venezuelana, “ao mesmo tempo que a influência de Chávez na região se expandiu significativamente, os líderes regionais suspeitam de seus motivos e objetivos”. Muitos desses líderes “coincidem na ideia de que o Cone Sul, e sobretudo a América do Sul, deve estabelecer uma identidade separada em relação à hegemonia norte-americana, mas não se sentem cômodos se são usados”.

Uma frase dos embaixadores indica o estado do diagnóstico estadunidense: “os Estados Unidos não podem esperar que os líderes da região corram em nossa defesa”.

E depois do diagnóstico vem a recomendação: “Precisamos nos convencer da necessidade de implementar uma estratégia transparente para a região”. O texto segue assim: “Nossa ideia de uma comunidade de nações democrática e inclusiva que assegura a perspectiva de um futuro mais próspero para seus cidadãos é a resposta correta a Chávez”. Os participantes também pediram “mais ferramentas e recurso” para se contrapor ao que definem como “esforços políticos de rachar a democracia, desenhar estratégias econômicas para estrangular o comércio livre, a politização do Mercosul, a expansão das relações na área da Defesa e a campanha nos meios de comunicação de massa”.

País por país

Os diplomatas reunidos no Rio de Janeiro se manifestaram convencidos de que existe uma campanha pública de Chávez e outra clandestina, de distribuição de recursos, e analisaram a posição dos governos da América do Sul detalhadamente.

No caso argentino, um dado chave é o fato de que, segundo os participantes, “uma pesquisa realizada em dezembro de 2006 apontava que Chávez era popular para 52% dos argentinos” e que a imagem dos EUA não era popular. Ao mencionar o nome de Néstor Kirchner, então presidente da Argentina, o relatório diz que “Kirchner tentou distanciar-se publicamente da posição antinorte-americana de Chávez e tratou de manter a percepção de uma linha mais independente para resultar palatável ao eleitor médio, mas sua estratégia econômica claramente busca laços mais estreitos com Chávez no comércio e nas finanças, procurando posicionar-se, além disso, entre Lula e Chávez no espectro regional”. Na visão estadunidense, Kirchner tentava balancear a relação com Chávez. “Isso é evidente no apoio de Kirchner e sua esposa à comunidade judia da Venezuela e, simultaneamente, no fato de que tenham se abstido de qualquer comunicado em favor da liberdade de imprensa no caso da RCTV, por exemplo”.

“Ainda que Kirchner compartilhe algumas das posturas esquerdistas de Chávez, ele é muito mais um pragmático”, diz o texto. E nomeia os empréstimos de 4,2 bilhões de dólares concedidos à Argentina.

O documento assinala ainda que “o que levou o Brasil a apoiar a admissão da Venezuela no Mercosul foi a crença de que Chávez poderia ser controlado mais facilmente dentro do organismo do que se deixado à sua própria inspiração fora dele”. O texto põe em questão essa ideia com dois exemplos. Um, que Chávez estimulou Evo Morales a nacionalizar a Petrobras na Bolívia. Outro, que Chávez disputava protagonismo com Lula nas reuniões do Mercosul.

“Esse atrito oferece uma oportunidade”, analisa o texto (e parece encher-se de esperança) classificado por Fitzpatrick em 2007. Obviamente se refere a uma oportunidade para os EUA causar alguma erosão nas relações do bloco sul-americano.

No entanto, quando Morales nacionalizou o petróleo, nacionalizou também a Petrobras e não só a Petrobras. Brasil se irritou com a ocupação militar das suas unidades, mas um diálogo entre os dois países solucionou a diferença.

Tampouco houve, finalmente, uma disputa de protagonismo entre Lula e Chávez, a tal ponto que o então presidente brasileiro seguiu impulsionando a entrada da Venezuela no Mercosul. O Senado brasileiro ratificou a posição em 2009, com Lula presidente. E sua sucessora, Dilma Rousseff, disse em janeiro último em uma entrevista com meios de comunicação argentinos, entre eles Página/12, que “a Venezuela é um grande produtor de petróleo e gás”. Opinou que o país “tem muito a ganhar entrando no Mercosul, e nós com sua presença”. Também tocou na questão da liderança, mas despersonalizou-a, preferindo colocá-la em um plano binacional argentino-brasileiro por tamanho e desenvolvimento econômico. “Até para os outros países é absolutamente importante que Brasil e Argentina estejam juntos porque não é uma relação de hegemonia a que os dois países se propõem a estabelecer com o resto da América Latina”, declarou.

Na visão norte-americana daquele momento, outro tema a seguir de perto eram os contatos militares venezuelanos e, no caso da Bolívia, os supostos contatos na área da inteligência. Até o Uruguai aparece sob suspeita, porque segundo o telegrama, os temas relacionados à segurança, do então presidente Tabaré Vázquez, eram implementados no dia-a-dia por seu irmão, Jorge, “um ex-membro da guerrilha OPR-33 (Organização Popular Revolucionária)”. Vázquez, subsecretário do Interior, teria trabalhado segundo os Estados Unidos com “agentes do serviço secreto recrutados sob o guarda-chuva da central sindical PIT-CNT, dominada pelo Partido Comunista, e treinados em Caracas e Havana”.

Na verdade, a OPR-33 foi mais libertária do que comunista e na PIT-CNT há também peso de socialistas e do Movimento de Participação Popular do ex-tupamaro Pepe Mujica. Jorge Vázquez é o mesmo que denunciou no Uruguai uma campanha por meio da qual teria sido falsamente acusado de armazenar armas para o Irã em combinação com a Venezuela.

Tradução: Katarina Peixoto


domingo, 6 de março de 2011

LIÇÕES ÁRABES PARA NUESTRA AMÉRICA


Por Marcelo Salles (Reproduzido do Fazendo Media: a média que a mídia faz, de 03/03/2011)


Andrés Soliz Rada é um dos bolivianos mais patriotas que já conheci. No breve encontro que tivemos em La Paz, pude ouvir com atenção as propostas do primeiro ministro de Hidrocarbonetos do governo Evo Morales, sua concepção indo-socialista de Estado, a luta contra interesses daninhos de multinacionais em seu país – Petrobrás incluída – e a tentativa de utilizar os recursos naturais da Bolívia para desenvolver o país e melhorar a vida de seu povo.


Mas Soliz Rada não é apenas patriota em sentido stricto. Ele é um patriota no sentido de quem defende a construção da Grande Pátria, dos caminhos que levam à unificação dos povos latino-americanos para a defesa dos interesses comuns e da soberania da região. Para tanto, ele reconhece a importância do Brasil – apesar de todos os atritos que teve com a Petrobrás durante sua gestão no Ministério de Hidrocarbonetos – na liderança desse processo, que deve ser conduzido via Mercosul e Unasul.


Em artigo recente, Soliz Rada faz a defesa radical dos blocos “del sur”: “Nas mãos das atuais gerações de latino-americanos está a escolha entre o Mercosul ou a morte. A primeira implica a formação a médio prazo da Nação do Continente Latino-Americano. A segunda, resignar-se a que a América do Sul converta-se em um novo Porto Rico”, anotou na agência Bolpress.


O alerta chega em boa hora, sobretudo para aqueles que não enxergam paralelo entre as revoltas árabes e a atual situação do nosso continente. Para além das ditaduras árabes – que parecem ter sido descobertas pelas corporações de mídia agora, depois de perseguir opositores políticos por 30 anos – há que se considerar os interesses econômicos que movem montanhas. Uma boa dica vem do chanceler cubano, Bruno Rodriguez, que criticou as ameaças de invasão à Líbia em pronunciamento feito nesta terça-feira (1º) durante a 16ª sessão do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. “Cuba rechaça categoricamente qualquer tentativa de aproveitar a trágica situação criada para ocupar esse país e controlar seu petróleo”, afirmou.


Também temos que ir além da mudança da posição brasileira em relação às violações de Direitos Humanos no mundo. Sim, antes nós não condenávamos quem as potências queriam condenar só porque elas assim desejavam. Agora nós condenamos, mas deixamos claro que não ficaremos à mercê do jogo político internacional, e também condenaremos as violações para as quais elas, as potências, fecham os olhos – como Guantánamo e Abu Ghraib.


Enxergar os interesses econômicos por trás das transformações no mundo árabe é fundamental para preservar a soberania dos povos latino-americanos. Se nossos povos acreditarem na auto-proclamada boa vontade e defesa dos Direitos Humanos desinteressada das grandes potências, a qualquer momento elas podem construir uma imagem negativa de determinado governo só para destituí-lo. Já fizeram isso outras vezes, basta consultar a História.


A questão se torna ainda mais central se considerarmos que o Petróleo, matriz das sociedades modernas, é um recurso finito e cada vez mais raro. Sendo que alguns países que mais têm descoberto o óleo nos últimos anos estão em Nuestra América, como Brasil e Venezuela.


Portanto, é necessário que os governos interessados na soberania dos povos latino-americanos invistam na defesa comum do continente. Além das armas tradicionais e da união entre os países da região, é fundamental o fomento às iniciativas de comunicação democrática, tendo em vista que muitas vezes os interesses das corporações de mídia coincidem com os das potências estrangeiras. Como já dizia José Martí, um dos libertadores da América, “um povo culto é um povo livre”.


(*) Marcelo Salles, jornalista, atuou como correspondente da revista Caros Amigos no Rio de Janeiro (2004 a 2008), e em La Paz (2008 a 2009). Artigo publicado originalmente na coluna “Até a vitória, sempre!”, no blog Escrevinhador.


sexta-feira, 4 de março de 2011

DEBATE QUESTIONA PODERES E LIMITES DA INTERNET

Marcos Dantas, Manuela D'Ávila, Altamiro Borges (Miro), Sérgio
Amadeu e Luis Nassif (Foto: Jadson Oliveira)
Por André Cintra (Reproduzido do sítio do Centro Barão de Itararé, de 28/02/11)


Não faltou polêmica no debate inaugural do seminário “Internet: Acesso Universal e Liberdade da Rede”, promovido pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, no sábado (26/2), em São Paulo. Com mediação de Altamiro Borges, presidente do Barão, a discussão teve ares de um julgamento em que à Web cabia o banco dos réus.


“A internet foi construída de maneira diferente das outras mídias de massa e tornou mais fácil a articulação de ações coletivas”, afirmou o professor Sérgio Amadeu, da UFABC (Universidade Federal do ABC). Citando as “revoltas árabes” e o fenômeno WikiLeaks, Amadeu opinou que, na Rede Mundial de Computadores, o “difícil não é obter um canal para falar — mas, sim, ser ouvido”.


A essa “liberdade” — que, em tese, revelaria uma mídia altamente democrática —, contrapõe-se o domínio da infraestrutura da internet por grandes corporações. São interesses desse tipo que põem em xeque a neutralidade da rede. “Querem transformar a internet numa TV a cabo, com controle sobre as opções das pessoas. O controle técnico — que já existe — não pode se tornar controle civil, cultural, político”, protestou Sérgio Amadeu.


Já Marcos Dantas, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), questionou o suposto poder da internet em transformar os valores e os comportamentos da sociedade. “Será que a internet muda a cultura dominante ou apenas a reforça? Que tipo de entretenimento ela está gerando?”, indagou. Para Dantas, as pessoas buscam na internet conteúdos parecidos com o que elas mesmas procuram em outras mídias, como as rádios.


“A comunidade originária da internet acreditava na neutralidade da rede e tinha certo poder, que, no entanto, não foi socialmente constituído — virou espaço político e social. Há uma massificação não para forjar a democracia, mas para produzir comportamentos e identidades voltadas ao consumo”, diz Dantas. “O que derrubou Mubarak (o ex-presidente egípcio Hosni Mubarak) não foram as redes sociais. Foi o povo na rua e os 236 mortos. O Facebook só ajudou a comunicar”.


A deputada federal Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) centrou sua exposição nas possibilidades de tornar a internet mais próxima aos cidadãos. “Não precisamos lutar por contradições falsas. É preciso trazer o debate para a conjuntura atual e lutar por uma regulamentação livre da rede”, analisou.


Na opinião da parlamentar, “à medida que cresce a democratização da rede, crescerá a repressão”, sob o argumento central da insegurança. “Hoje responsabilizam a internet por crimes como a pedofilia, que acontecem nas casas, nos clubes, nas igrejas. Pela lógica deles, teriam de instalar câmeras nas residências — e nem assim coibiriam os crimes”, sustenta Manuela. Segundo ela, “não podemos abrir mão das liberdades individuais — já consagradas na Constituição — pelo bem-estar coletivo”.


O jornalista Luis Nassif trouxe ao debate outra abordagem, ao ressaltar a força da internet — especialmente das redes sociais — como alternativa à grande imprensa. “Acabou o monopólio da informação pelo jornal. Todos os fatos relevantes tinham de passar pela velha mídia, que agora é batida de igual para igual com a rede”, comentou.


O poderio contra-hegemônico da rede impõe à blogosfera o desafio do apuro na checagem de dados. “A credibilidade da nova estrutura de informação é fundamental”, diz Nassif. De acordo com o jornalista, a internet já provocou, sim, transformações culturais. “Há uma nova mentalidade, uma renovação política, que vem da internet. Vejo ressurgir a militância, inclusive do PSDB.”


Realizado no auditório do Sindicato dos Bancários de São Paulo, o seminário do Barão de Itararé contou com 80 participantes presentes e outros 400 que acompanharam a programação on-line. No final do evento, entidades da área de educação e movimentos sociais lançaram o manifesto “Banda Larga é um direito seu! Uma ação pela internet barata, de qualidade e para todos.”