quinta-feira, 28 de abril de 2011

BEBÊ ROUBADO NA DITADURA: FOI CRIADA PELO ASSASSINO DE SEU PAI

Victoria Montenegro: "Para mim a subversão estava se vingando
 deles que haviam sido soldados" (Foto: Reprodução)
De Buenos Aires (Argentina) – “Me chamaram María Sol Tetzlaff Eduartes, nascida em 28 de maio de 1976 em Boulogne, San Isidro (cidade da província de Buenos Aires), como filha do coronel Herman Antonio Tetzlaff e de sua esposa, María del Carmen Eduartes. Eu nunca tive dúvidas de que não era María Sol, me diziam que era filha deles”, explicou Victoria Montenegro, respondendo indagação feita pelo “fiscal” (procurador/promotor) Martín Niklison – “A senhora viveu com outra identidade durante muitos anos?” - em audiência num Tribunal Federal de Buenos Aires, no último dia 25, em julgamento sobre o roubo de bebês de presos políticos desaparecidos no período da ditadura (1976-1983).


(Na verdade, Victoria nasceu em 31 de janeiro de 1976. Seus pais eram Hilda Ramona Torres e Roque Orlando Montenegro, dois militantes da Juventude Peronista (JP) e em seguida do Exército Revolucionário do Povo (ERP). Treze dias depois do seu nascimento, um grupo da repressão entrou na casa onde viviam, em Boulogne. Herman Tetzlaff era o chefe do grupo, um militar que ocupou destacados cargos nas forças repressivas. Se apropriou de Victoria seis meses depois da invasão de sua casa, em cuja operação ele mesmo assassinou seu pai, conforme confessou mais tarde).


- Que versão lhe deram? – continua o procurador.


- Eu sempre tive dúvidas, mas sobre o horário em que havia nascido. O que perguntava à minha apropriadora era a hora: sabia que 29 de maio era o Dia do Exército. Me diziam que dia 28 Herman teve um desfile militar em San Isidro, ela se sentiu mal e eu nasci na Clínica do Sol.


- Quando apareceram as dúvidas de que não seria filha deles?


- Quando tinha nove anos, calculo, chamam Herman a uma Vara Criminal de Morón. Um dia eu o acompanho. Entro com ele no gabinete do juiz e o juiz pergunta se não era melhor que eu esperasse fora. Ele disse que não. O juiz tira do arquivo um processo e lhe diz que as “velhas” (“abuelas” e “madres”, avós e mães da Praça de Maio) já estavam começando a incomodar. Que ficasse tranqüilo, que o encarregado de tudo era outro colega, mas que tomasse conhecimento do que estava ocorrendo.


Isso aconteceu em torno de 1989, então ela devia ter cerca de 13 anos. Victoria não se lembra do nome do juiz, mas sabe que nesse momento começou o processo contra o coronel Herman Tetzlaff.


“Pensava que os desaparecidos eram mentira, uma invenção das ‘Abuelas’”


- Até então o que eu sabia era que na Argentina houve uma guerra, nesse momento eu considerava Herman como meu pai, para mim a subversão estava se vingando deles que haviam sido soldados; que os desaparecidos eram mentira. Pensava que não eram pessoas físicas, e sim uma invenção das ‘Abuelas’ (Avós da Praça de Maio)”.


Toda vez que aparecia na TV alguma informação que não batia com a versão sustentada na família, Tetzlaff sentava-se com ela para doutriná-la. Lhe dizia que a primeira coisa que a subversão fazia era atacar a família, a célula vital de uma sociedade sã. Que as “Abuelas” disseminavam as dúvidas para criar medo.


- Por isso, para mim, tudo eram mentiras: eu era filha dele e estava convencida de que tudo era uma invenção.


Tetzlaff era enorme: media dois metros e pesava 145 quilos. Era louro como sua mulher, descendentes de alemães. Viviam rodeados de policiais e de militares. Falava da causa:


- A causa não sei o que era exatamente, mas era uma bandeira celeste e branca (cores da bandeira argentina); eles eram os bons, havia uma causa nacional; era o cheiro de couro, as botas, a família cristã, a missa, jantar fora porque Mary (apelido da esposa) não cozinhava, para mim essa era a família: os restaurantes cheios e Herman que terminava as conversas com a 45 encima da mesa dizendo: ‘Eu tenho sempre razão, e mais ainda quando não a tenho’.


Quando Victoria completou 15 anos, Tetzlaff foi detido pela primeira vez:


- Herman estava muito nervoso. Um dia me chama e me comunica que já havia um processo a cargo de (o juiz Roberto) Marquevich, que era um juiz montonero, que as “Abuelas” estavam pelo meio, que o mais provável era que me tirassem sangue para comparar com o Banco Genético que na realidade era manejado pelas “Abuelas”.


Foi então advertida pelo suposto pai que iam dizer que ela era...


- ...filha da subversão, assim é que com certeza depois venham e te tiram de casa. Enquanto isso, eu dizia que não: que aconteça o que acontecer, ia ficar com ele; ele me agradeceu e me disse que não esperava outra coisa de mim.


“Me tomou um terror, porque era filha da subversão”


O resultado do exame de DNA deu o esperado: ela não era filha do coronel e sua mulher.


- Me disseram que em 99% eu não era filha deles, mas eu disse que ficava com esse 1%, porque sim era filha deles. Lhes dizia que eram todos uns subversivos, porque pensava que era filha deles.


Tetzlaff, que já morreu, desta vez ficou preso somente três meses. A Justiça pediu nova mostra de sangue para tentar identificar seus pais. Ela se negou e a questão chegou até a Corte Suprema, que respaldou sua recusa. Victoria levou a sentença da Corte Suprema ao coronel:


- Me lembro que Herman me esperava num restaurante próximo, e eu fui lá e levei a sentença. Me felicitou: ‘Muito bem, minha filha’, me disse. Dei a ele e me lembro que quando me sentei creio que foi o início do momento de começar a tomar conhecimento da outra história. Pensei: agora me deu um sinal se quero saber de algo”.


Finalmente, o desfecho: os avanços tecnológicos fizeram com que não fosse mais necessária nova mostra de sangue. O juiz Marquevich a chamou para dizer-lhe qual era sua verdadeira família.


- Me tomou um terror, porque era filha da subversão, esse foi o primeiro medo.


Hoje parece perfeitamente integrada à sua nova vida


Atualmente, Victoria Montenegro, 35 anos, casada, três filhos, lamenta não ter conhecido seus avós e uma tia (além dos pais, evidentemente), mas parece perfeitamente integrada à sua nova vida, inclusive dentro do espaço político e ideológico da democracia, talvez até da esquerda. Tive esta impressão ao vê-la e ouvi-la no programa “6, 7, 8” de Visión 7, TV Pública (estatal) da Argentina, na terça-feira, dia 26, no mesmo dia em que o excelente jornal argentino Página/12 publicou reportagem de capa com ela. Esta minha matéria é baseada nesta reportagem, da qual, além das declarações entre aspas de Victoria, me apossei até de pequenos trechos do texto de Alejandra Dandan, que assina a reportagem.


O destaque principal da matéria de Página/12, no entanto, não é o drama enfrentado por Victoria na descoberta de sua verdadeira família. De fato, um drama já meio corriqueiro num país em que se estima a existência de 500 recém-nascidos roubados pelos repressores da ditadura (103 já tiveram sua verdadeira identidade restituída). O enfoque principal da reportagem foi a denúncia feita por Victoria sobre a cumplicidade do procurador Juan Martín Romero Victorica com Tetzlaff, tema de nova matéria de capa do jornal no dia seguinte. Romero Victorica continua tendo posição de destaque no Poder Judiciário e o assunto deve render, no cenário de avanço da sociedade argentina no sentido de apertar o cerco contra os cúmplices civis da ditadura.




terça-feira, 26 de abril de 2011

“CONFIAMOS EM DILMA”

Krischke: "Ela não é Lula, que com o tema Direitos Humanos
não queria saber de nada" (Foto: Reprodução)

Fala Jair Krischke sobre a Comissão da Verdade

Por Luciana BertoiaPágina/12, de 18/04/2011


O Brasil está debatendo a criação de uma Comissão da Verdade, uma proposta que existia desde a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, mas que foi retomada com mais força por Dilma Rousseff. Jair Krischke é conselheiro fundador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos e dias atrás visitou Buenos Aires, onde fez para Página/12 uma avaliação crítica da administração de Lula e compartilhou suas esperanças de que o mandato de Rousseff traga alento aos que lutam por castigo dos repressores da ditadura brasileira (1964-1985).


- Que opinião tem da Comissão da Verdade que propõe o governo?


- É um problema. Custou muito trabalho e muito esforço das organizações de direitos humanos e dos familiares para chegar até este momento. O ministro de Defesa, Nelson Jobim, quer unir verdade com reconciliação. Isso é absolutamente impossível. A reconciliação é uma palavra muito bonita mas traz exigências: quem ofendeu tem que reconhecer o que fez, que cometeu um crime; logo tem que pedir perdão aos familiares das vítimas, que o perdoarão ou não. Porém os militares brasileiros não reconhecem o que fizeram e jamais pedirão perdão.


- Tem esperança de que se concretize a comissão?


- Eu confio em Dilma. Ela não é Lula, que com o tema não queria saber de nada. Durante os oito anos que esteve no governo, nunca recebeu os familiares. Dilma é diferente. É uma mulher ligada no tema, sabe do que se trata e quer que se crie a Comissão da Verdade. Temos grandes expectativas, mas sabemos que não vai ser fácil.


- Como analisa o trabalho da atual Secretaria de Direitos Humanos?


- A ministra Maria do Rosário já declarou publicamente que compartilha com a posição do ministro Jobim. Isso nos preocupa, mas a sociedade civil brasileira vai trabalhar no tema para ver se conseguimos um avanço. Maria do Rosário declarou à imprensa que a Comissão da Verdade não vai punir ninguém. Claro que nenhuma Comissão da Verdade vai castigar alguém. O que deve fazer é entregar a informação à Justiça.


- Que pensa do Supremo Tribunal Federal (STF) ter ratificado no ano passado a Lei da Anistia de 1979?


- Antes de apresentar a ação perante a Justiça, eu disse ao presidente da Ordem dos Advogados que não deveríamos fazê-lo. Porque conhecendo como se posiciona sempre nossa Corte Suprema, entrar com a ação e sair perdendo ia resultar no encerramento do assunto. E este tema não é nada jurídico: é político e se tem que discuti-lo politicamente.


- Pode servir para isso a condenação no ano passado da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) pela vigência dessa norma?


- Isso foi muito importante para nós. As organizações de direitos humanos mandamos uma carta à presidenta para lhe pedir que se cumpra a decisão da CIDH.


- A condenação da Corte IDH se refere à repressão contra a guerrilha do Araguaia. Que aconteceu com os arquivos secretos que se referem à ação dos militares nesse caso?


- Quando Lula assumiu, a Justiça mandou abrir os arquivos sobre o tema Araguaia. A ordem dizia que se não fosse cumprida em 15 dias, pesaria uma multa diária. O governo foi ao STF para apelar dessa decisão e perdeu. A notificação final que exigia a abertura chegou em outubro de 2007 ao Palácio do Planalto. Imediatamente, Jobim designou uma comissão para ir a Araguaia buscar os corpos, mas sem os familiares. A comissão não encontrou nada. Uma semana ou 10 dias depois, uma irmã de um dos desaparecidos foi e fez umas escavações a 30 metros e encontrou ossos. Parece uma piada, mas essa era a posição de Lula: não fazer nada.


Tradução: Jadson Oliveira


domingo, 24 de abril de 2011

VARGAS LLOSA: “LULA NÃO SABIA NADA DE ECONOMIA”


Mario Vargas Llosa dá sua versão de como deu uma
guinada da esquerda para a direita (Foto: Reprodução)
De Buenos Aires (Argentina) - Partes da longa entrevista concedida pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura, a Martín Granovsky e Silvina Friera, do jornal Página/12. Ele foi um dos conferencistas da Feira Internacional do Livro de Buenos Aires, que se realiza de 20/abril a 9/maio, participação que gerou uma tremenda polêmica entre a intelectualidade devido à sua pregação política francamente de direita e às críticas que vem sustentando contra o governo argentino. Durante a entrevista, ele confessou sua perplexidade com o profundo golpe sofrido pelo neoliberalismo com a crise do capitalismo, estourada no segundo semestre de 2008, embora continue como um fanático adorador do deus mercado.

Dedico esta postagem aos que aprenderam a apreciar o grande escritor e, ao mesmo tempo, repudiam suas atuais preferências políticas e ideológicas. Dos seus livros que li, gostei especialmente de “Conversa na Catedral”. O título acima e a ordem dos temas são deste blog.

Sobre a opção entre Ollanta Humala e Keiko Fujimori, que disputam o segundo turno das eleições no Peru, cujo desfecho será em 5/junho:

Mario Vargas Llosa - Há um mal maior e um mal menor. O mal maior é Keiko Fujimori e então eu voto por Humala. Isso é claríssimo. Os problemas que possa trazer Humala já os enfrentaremos quando chegarem. Mas tenho uma esperança que quero que fique escrita. Minha esperança é que Humala se distancie realmente de (Hugo) Chávez e se aproxime realmente de gente como (Luiz Inácio) Lula (da Silva), como (José) Mujica, como (Mauricio) Funes, e haja uma política semelhante no campo econômico.

Sobre Lula e Fernando Henrique Cardoso:

Página/12 – O senhor falou de Lula como modelo. Sua estratégia foi de intervenção forte do Estado.

- Não tão intervencionista graças a que o anterior presidente foi Henrique Cardoso. As grandes reformas que Lula aproveitou as fez Cardoso. Ele é o grande estadista.

- Fernando Henrique Cardoso?

- Sim.

- Mas Lula não representou a continuidade de Cardoso, e sim a ruptura.

- Não, não, não! Como? Que horror, que injustiça! Que diz!

- O Brasil cresceu e se fez mais justo com Lula.

- Mas porque a grande reforma econômica, a grande reforma monetária a fez Henrique Cardoso. Cria as bases de uma economia de mercado. Abre as fronteiras do Brasil. O que acontece é que o fez com discrição, com uma elegância britânica porque não é um populista. Então Lula, que não sabia nada de economia, que não entendia absolutamente nada...

- O senhor diz que um homem que foi fundador do Partido dos Trabalhadores e presidente do Sindicato dos Metalúrgicos não sabia nada de economia?

- Lula encontra um país preparado graças à extraordinária habilidade e a imensa cultura de Henrique Cardoso, que é quem abre a modernidade para o Brasil, quem introduz uma economia de mercado autêntica, quem faz a esquerda brasileira entender que não há criação de riqueza sem mercado, sem empresa privada, sem investimentos, sem integração ao mundo. E Lula, em boa hora para o Brasil, segue essa rota.

- Talvez Lula seja considerado “tribal” por (Friedrich von) Hayek (economista ultra-direitista que respaldou a ditadura de Pinochet no Chile e que é reverenciado por Vargas Llosa), porém é Lula quem fala de justiça social, não Cardoso.

- Falar de justiça social não quer dizer nada...

- Hayek dizia que buscar a justiça social é uma atitude que vinha das tribos ou das hordas. Lula foi tribal ao colocar em prática esse princípio?

- Para fazê-lo há que criar riqueza. Um país tem que prosperar. Isso é o que permitiu a política de Henrique Cardoso, que esse país prospere.

- Mas o país não cresceu com Cardoso, e não superou 3% anual.

- Mas criou as condições e começou a crescer e regularizou a moeda. Encontrou uma estabilidade que na história brasileira praticamente nunca havia existido. Essa estabilidade é fundamental para que haja uma economia de mercado. Como pode haver investimento, como pode um empresário projetar seu plano de trabalho, de investimentos, se a moeda está sujeita aos vai-e-véns permanentes como estava quando Henrique Cardoso subiu ao poder?

Sobre sua conversão de socialista para democrata liberal (ou de esquerdista para direitista):

- O senhor fez um clique em suas ideias políticas de um momento para outro?

- Não. Um clique de um momento para outro nunca, creio. Foi um processo. Por exemplo, passar de convicções socialistas a convicções democráticas e liberais foi um processo que tem distintas etapas, mas creio que se inicia em meados dos anos 60, com relação a Cuba, basicamente.

- Mas em algum momento faz um clique entre não dizer as coisas ou dizê-las?

- Não, não. Digamos que eu creio que estava muito identificado com a esquerda, basicamente a partir da Revolução Cubana, e comecei a ter certas dúvidas, mas não me atrevia a fazê-las públicas. A primeira dúvida séria que eu tenho com a Revolução Cubana é quando da Umap, as unidades militares de apoio à produção, um eufemismo para campos de concentração.

- Por que o diz?

- Eram campos de concentração onde colocaram vermes, criminosos comuns e gays. Para mim isso foi uma experiência muito chocante, eu não esperava. Conheci muitos dos jovens que foram para os campos de concentração.

- No ano passado Fidel Castro disse ao diário La Jornada, do México, que a perseguição aos gays havia sido um dos grandes erros da Revolução Cubana.

- Um pouco tarde, não? Porque nessa experiência não somente sofreram terrivelmente moças e rapazes que eram identificados com a revolução, os do grupo El Puente. Foi muito traumático, muito violento, e para mim foi a primeira vez que tive dúvidas muito sérias se a Revolução Cubana era o que eu acreditava e o que eu dizia que era. Esse fato me foi mudando muitíssimo, me criou muitas dúvidas, começou a estimular atitudes críticas frente à revolução. Outra experiência que resultou confirmatória e muito mais importante para minha evolução foi o apoio de Fidel à invasão da Tchecoslováquia, quando da invasão dos países do Pacto de Varsóvia.

- A de 1968.

- Sim. Foi a primeira vez que já não me importou “armar o inimigo”, e o digo entre aspas para falar da fórmula chantagista que mantinha sempre os críticos de esquerda em silêncio. Aí escrevi um artigo que se chamou “O socialismo e os tanques”, claramente fazendo uma crítica à revolução. Mas fui ainda uma vez mais a Cuba depois disso, que foi a última vez que estive lá, já não me lembro o ano, não sei se 69 ou 70, imediatamente antes do caso (do poeta Heberto) Padilla. Ainda não o haviam prendido, mas era evidente que iam fazê-lo a qualquer momento. Padilla estava enlouquecido pela tensão em que vivia, e o clima era um clima... de uma... uff, havia ansiedade, havia medo entre muitos escritores que conhecia muito bem. Eu saí completamente angustiado dessa viagem, e logo ocorreu o caso Padilla, que foi definitivo.

- Essa foi a mudança das ideias socialistas às ideias liberais?

- Não, o liberalismo é posterior. Nesse momento o socialismo entusiasta passa a ser um socialismo muito crítico, passa a ser uma social-democracia. Eu me senti como se sentem os padres que de repente se tornam ateus: muito desamparado, muito sozinho, num mundo muito confuso. Foi um processo lento de revalorização da ideia de democracia, a importância dessa democracia formal tão criticada pela esquerda, e comecei a ler Raymond Aron, (George) Orwell, (Arthur) Koestler e (Albert) Camus, a quem havia lido e havia atacado quando eu era muito sartreano. Inclusive publiquei um livrinho que se chama “Entre Sartre e Camus”, contando essa evolução.

- E o liberalismo quando começou no senhor?

- Primeiro foi uma espécie de resgate da ideia democrática, da importância desses valores formais, das formas no político. E em seguida creio que o liberalismo foi o descobrimento de Isaiah Berlin e (Karl) Popper. A leitura de Popper, a leitura de “A sociedade aberta e seus inimigos” para mim foi fundamental; é um dos livros que mais me marcou, me mudou, me enriqueceu extraordinariamente o que é a visão do autoritarismo, do que é o totalitarismo, e como essa é uma ameaça que está sempre presente, inclusive nas sociedades mais livres, mais avançadas.

Um pouco mais sobre o liberalismo:

- Os liberais não estamos a favor de que haja desigualdade.

- Que querem?

- Que tudo nasça do êxito, do esforço, da produção de bens ou serviços que beneficiam o conjunto da comunidade. Que haja gente que tenha maiores ou menores rendas em função da sua excelência, do seu talento, é legítimo para um liberal. O que não é legítimo é que essas diferenças se estabeleçam a partir do privilégio ou da desaparição da igualdade de oportunidades de base, que é um princípio liberal.

Tradução: Jadson Oliveira


quinta-feira, 21 de abril de 2011

1 - PRAIA GIRÓN: PRIMEIRA DERROTA MILITAR DOS EUA NA AMÉRICA LATINA (Quatro notas latino-americanas)

Uma epopéia latino-americana: soldados e patriotas cubanos, sob 
o comando do então jovem Fidel Castro, derrotaram os invasores
em 66 horas (Foto: Reprodução)
Na madrugada de 15/abril/1961, há 50 anos – passados então dois anos e pouco do triunfo da Revolução Cubana -, aviões camuflados como se fossem cubanos bombardearam aeroportos militares da Ilha e, logo em seguida, tropas mercenárias sob orientação do Pentágono e da CIA (serviço de inteligência) desembarcaram na Baía de Cochinos. Seriam “insurgentes cubanos” retomando o domínio de Cuba, conforme informavam entusiasmadas as agências de notícias.


A farsa durou pouco. Em 66 horas, os militares e patriotas cubanos, sob o comando direto do então jovem Fidel Castro, derrotaram os invasores e a grande maioria se rendeu. O combate decisivo deu-se no dia 19 na Praia Girón, foi a primeira derrota militar do império estadunidense na América Latina, uma epopéia latino-americana.


O sonho do governo norte-americano era reconhecer de imediato o “governo provisório” a ser declarado pelos invasores numa “zona libertada” e, com respaldo da então submissa OEA (Organização dos Estados Americanos), prestar ajuda militar aos “rebeldes” cubanos. Eram os tempos do glamoroso John Kennedy alimentando os sonhos de mudança em Cuba, ou seja, a volta do neocolonialismo. Hoje, mais de meio século depois, continuam tentando e sonhando...


(Pena que façanhas como essa não possam chegar ao conhecimento do povo brasileiro de forma mais ampla, devido à censura dos monopólios privados de comunicação).






2 - SENADO DO URUGUAI DERRUBA ANISTIA AOS TORTURADORES


Foi um parto traumático. Depois de uma polêmica imensa, o Senado do Uruguai decidiu, no dia 12/abril, pelo apertado escore de 16 a 15, derrubar a chamada Lei de Caducidade, que durante 25 anos garantiu a vigência de anistia aos repressores da ditadura uruguaia (1973-1985), impedindo que fossem a julgamento acusados de crimes de lesa humanidade – sequestros, torturas, desaparições e assassinatos de opositores políticos. A decisão terá que passar ainda na Câmara dos Deputados e ser sancionada pela Presidência.


A Lei de Caducidade estava respaldada por dois referendos populares, isto é, tinha sido confirmada duas vezes pelo eleitorado do país, o que sinaliza o grau de enfrentamento em torno da decisão do Senado. O senador Fernández Huidobro, ex-tupamaro, surpreendeu ao anunciar que votou com a governista Frente Ampla por disciplina partidária, seguindo a posição da maioria, mas renunciaria a seu mandato, lembrando que a maioria do povo uruguaio, nos dois plebiscitos, aprovou a anistia aos repressores.


Chegou-se a prever o veto presidencial, no caso da aprovação na Câmara, mas tal hipótese foi descartada pelo presidente José Mujica, também um ex-guerrilheiro, eleito pela mesma Frente Ampla que patrocinou a derrubada da lei.






(Ilustração de Página/12)
3 - OS “10 MANDAMENTOS” DA SEGURANÇA ARGENTINA


O jornal Página/12 (edição de 29/março) criou o que chamou os “10 mandamentos” da segurança do governo da Argentina, com base na orientação da ministra da Segurança, Nilda Garré, no que diz respeito à atuação das forças policiais diante dos chamados “conflitos sociais”, ou seja, greve de trabalhadores, protestos de caráter sindical, ocupação de terras, ocupação de prédios na luta por moradia popular, fechamento de ruas, manifestações populares, etc. Em síntese, diálogo e não repressão policial, dentro da ótica de defesa dos Direitos Humanos, de acordo com a política oficial do governo federal. (No “IX mandamento”, “funcionário político” quer dizer uma pessoa designada pelas autoridades dos órgãos de segurança).


I - Não portarás armas de foto;


II – Não usarás pistolas lança-gases;


III – Só usarás balas de borracha para defesa;


IV – Deverás estar identificado;


V – No utilizarás veículos sem identificação;


VI – Garantirás a livre cobertura jornalística;


VII – Não impedirás a tomada de imagens;


VIII – A intervenção policial será progressiva;


IX – Um funcionário político coordenará as ações;


X – Antes de tudo, dialogarás.






4 - CORREA: SIP QUER “MENTIR, CALUNIAR E FICAR NA IMPUNIDADE”


Declarações no sábado, dia 16, em seu programa de rádio, do presidente do Equador, Rafael Correa, um dos presidentes da América Latina que vivem sob bombardeio cerrado dos monopólios dos meios privados de comunicação:


“A SIP (Sociedade Interamericana de “Prensa” - Imprensa), apesar de ter nome bonito, não representa nem os jornalistas nem os cidadãos, e sim os donos dos principais jornais da América (...) É o sindicato dos donos de jornais, empresários que produzem em vez de batatas, informação, mas que perseguem uma finalidade, lucro, dinheiro (...) Esses senhores, que são empresários como quaisquer outros, por manejar meios de comunicação, se crêem acima do bem e do mal”. Enfatizou que não cederá ante a lógica do poder dos meios de comunicação, que pretendem colocar-se acima da lei, “mentir, caluniar e ficar na impunidade”. (Com base em matéria do sítio da TV Telesur).


terça-feira, 19 de abril de 2011

TROTSKISTAS FAZEM “FRENTE DE ESQUERDA” NA ARGENTINA

O Partido Operário em recente manifestação, cobrando punição pelo
assassinato de seu militante Mariano Ferreyra (os acusados estão
presos, respondendo a processo) (Foto: Jadson Oliveira)
De Buenos Aires (Argentina) - O Partido Operário (PO – “Obrero”), o Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) e a Esquerda Socialista firmaram a “Frente de Esquerda e dos Trabalhadores” para concorrer às eleições presidenciais de 23 de outubro. O acordo visa driblar as restrições legais para que os partidos possam apresentar candidatos. A lei eleitoral determina que um partido só pode apresentar um candidato a presidente, por exemplo, se conseguir a participação de 1,5% do eleitorado nacional (cerca de 320 mil dentro de um universo de pouco mais de 20 milhões de eleitores) na eleição interna que cada partido é obrigado a realizar no dia 14 de agosto (são as chamadas Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias – PASO).


Tais agremiações de orientação trotskista (aqui são referidos também como “de esquerda” e às vezes, com sentido pejorativo, como “piqueteros”) não têm tido, até hoje, protagonismo eleitoral e parlamentar, não têm um único representante no Congresso Nacional (nas eleições legislativas de 2009, o PO conseguiu apenas 1,1% dos votos na província – estado – de Buenos Aires). Sozinhos não teriam como cumprir as exigências legais para a disputa eleitoral, embora tenham um poder de mobilização bem superior ao de seus irmãos brasileiros. Para comparar: se houvesse exigência semelhante na legislação brasileira, certamente partidos como os nossos PSTU, PCO e PCB não poderiam apresentar candidato.


Militância da Juventude do PTS (Partido dos Trabalhadores
Socialistas) nas ruas da capital portenha (Foto: Jadson Oliveira)
Segundo o jornal Prensa Obrera (Imprensa Operária), do PO, consta do acordo um “programa de urgência” com 10 pontos, a exemplo da reivindicação de um salário mínimo no valor de 5.000 pesos (o atual é 1.270 pesos, mais ou menos equivalente ao do Brasil). São propostas, em sua maioria – uma outra: “Nacionalização, sem indenização, dos bancos, do petróleo, da mineração, das telecomunicações e do comércio exterior agrário” – fora das perspectivas do possível no momento, dentro de uma visão mais realista, uma postura que é peculiar aos partidos similares no Brasil, onde os trotskistas são mencionados também como “de extrema-esquerda”.


O órgão oficial do PO do dia 14/abril, em matéria de capa “Vamos com a Frente de Esquerda”, faz críticas aos blocos de centro-esquerda, inclusive o kirchnerismo (da presidenta Cristina Kirchner), investe contra a “burocracia sindical e suas gangues” e diz que pretende “constituir um pólo de independência de classe e de delimitação política frente aos blocos capitalistas”. Informa que a Frente ora formada apresentará “listas” de candidatos não só no pleito presidencial, mas também em 19 dos 24 distritos eleitorais (23 províncias e a capital Buenos Aires).


No editorial do jornal, Jorge Altamira, dirigente do partido, diz que o candidato a presidente da Frente será designado no congresso do PO, a realizar-se “nos próximos dias”. Comenta ainda que espera que se juntem ao acordo outras agremiações de esquerda, citando o Novo MAS (Movimento Ao Socialismo). E martela a preocupação constante com a luta de massas: “A natureza eleitoral do acordo político não contradiz que seu desenvolvimento dependerá de uma inserção crescente na luta de classes”.


domingo, 17 de abril de 2011

FAMÍLIAS DESALOJADAS PROTESTAM PELO DIREITO À MORADIA (Vídeo)

video
De Buenos Aires (Argentina) – Vídeo de 12/04/2011: um pequeno grupo de manifestantes acabam de sair da frente do Ministério de Desenvolvimento Social do Governo da capital portenha, onde protestavam contra a retirada de 16 famílias (segundo eles, 50 crianças e 47 adultos) que estavam ocupando um prédio (não casas, como falo no áudio), durante nove anos, na Rua México, no bairro de Monserrat (perto da área central da cidade). Eles reivindicam a construção de casas populares.


A luta das famílias pobres é apoiada por várias entidades do movimento social. No vídeo, a faixa maior é do Movimento Evita. Diz: “Pelo direito de morar dignamente na cidade”.


As famílias foram retiradas do prédio na segunda-feira, dia 11, e
jogadas, literalmente, na rua, onde estavam pelo menos até a sexta,
dia 15 (Foto: Reprodução)
Cartaz de Mauricio Macri (primeiro à esquerda), junto às famílias na
Rua México, adulterado com xingamentos: "Macri 2011 na cidade faz
cagadas - Mentiroso Ambicioso Corrupto Repugnante Inútil - 'Ladrão'
- Gosto de rir dos pobres" (Foto: Jadson Oliveira) 
Os manifestantes na frente do Ministério do Desenvolvimento Social
do Governo da capital (Foto: Jadson Oliveira)
Menciono no áudio, mas me parece que fica meio confuso: aqui tudo é Ministério e o titular é ministro, tanto do governo federal, como dos governos estaduais (províncias) e do governo da capital (quem governa a capital Buenos Aires é chamado aqui de “chefe de Governo da capital”, o que equivale ao nosso prefeito de uma capital ou ao nosso governador de Brasília, do Distrito Federal). É diferente do Brasil, onde Ministério e ministro são somente do governo federal, enquanto os governadores e prefeitos têm Secretarias e secretários.


Bem, é só questão de terminologia, porque na prática dá no mesmo.


O “chefe de Governo da capital” (prefeito ou governador de Buenos Aires) é Mauricio Macri, aparentemente o pré-candidato a presidente “da Nação” (como dizem aqui) mais forte contra o favoritismo da presidenta Cristina Kirchner. É de direita. Seu partido é sempre mencionado como PRO. Erradamente, eu disse em matérias neste meu blog que PRO não seria uma sigla, seria simplesmente PRO, em favor de alguma coisa, baseado na informação de um deputado. Recentemente vi no blog de Ariel Palacios, correspondente do Estadão aqui na Argentina, que Macri criou em 2003 o partido Compromisso pela Mudança (“Cambio”), CpC, e integra a coalizão Proposta Republicana, vindo daí o PRO.


São detalhes que, creio, não chegam a interessar os leitores brasileiros, mas detesto quando dou informação factual errada.



sexta-feira, 15 de abril de 2011

DUBLÊ DE TORTURADOR E POLÍTICO É CONDENADO À PRISÃO PERPÉTUA


Luis Patti: de ex-policial da ditadura a ex-prefeito e quase deputado
(Foto: Reprodução) 
De Buenos Aires (Argentina) - Nesta quinta-feira, dia 14, a militância política argentina - especialmente familiares de desaparecidos (leia-se assassinados) durante a ditadura e organismos de defesa dos Direitos Humanos - comemorou a sentença, anunciada por um Tribunal Federal, de prisão perpétua para o policial Luis Patti por seqüestros, torturas e assassinatos de opositores. O julgamento, iniciado em setembro último, incluiu mais quatro repressores, também condenados, a exemplo do ex-ditador Reynaldo Bignone, que assumiu o governo quando o regime já estava na fase terminal e recebeu sua segunda pena de perpétua.


Mas todas as atenções estavam concentradas em Patti, que começou a atuar na polícia da província (estado) de Buenos Aires desde 1973, antes, portanto, do início da última ditadura (1976) – tem uma longa lista de acusações por crimes de lesa humanidade -, e teve uma atuação política de relativo destaque após a queda do regime militar. Daí a sua grande “popularidade”.


Chegou a ser prefeito (“intendente”) duas vezes do município de Escobar, onde trabalhou como policial, e se candidatou duas vezes a governador da província (na segunda vez ficou em segundo lugar). Em 2005 foi eleito deputado federal, mas a Câmara dos Deputados recusou-se a reconhecer a sua eleição, não lhe deu posse, o que gerou uma polêmica enorme, inclusive no âmbito judicial. Mesmo sem nenhuma condenação na Justiça, foi preso em 2008. Em 2009, mesmo na cadeia, tentou nova candidatura a deputado, mas foi barrado pela Justiça.


Agora, finalmente, a condenação. Luis Abelardo Patti tem apenas 58 anos, está enfermo, se recuperando de um AVC, cuja gravidade, segundo seus acusadores, seria uma simulação para atenuar seus crimes.


Segundo dados veiculados na imprensa argentina, até hoje existem 204 repressores da última ditadura condenados, alguns com mais de uma condenação (o ex-ditador Jorge Rafael Videla, por exemplo, tem duas: uma a 25 anos e outra à perpétua); e mais de 800 estão sendo submetidos a julgamentos; este envolvendo Luis Patti é o quarto julgamento encerrado neste ano.




quinta-feira, 14 de abril de 2011

ALÔ ALÔ, REALENGO!

Por José Ribamar Bessa Freire – Diário do Amazonas, de 10/04/2011


Não tinha amigos, não batia papo nem contava piada, nunca namorou, jamais lhe deram um cheiro no cangote ou alisaram sua mão, nunca transou, não torcia por time algum, nunca foi ao Maracanã, não xingou juiz de ladrão, de sua garganta jamais saiu um grito apaixonado de gol, não desfilou em qualquer bloco de carnaval. Passava o tempo na internet, em jogos eletrônicos, mas nunca recebeu um aviso no facebook solicitando: “me adicione como amigo”.


Esse filme a gente já viu. Ele é americano. Surge, agora, uma produção brasileira, um compacto que mistura roteiros das várias versões importadas dos Estados Unidos. Aqui o cenário foi uma escola em Realengo, no subúrbio carioca. O personagem principal invadiu a escola, executou friamente doze alunos e feriu mais de dez. Foram importados dos Estados Unidos seu nome – Wellington - e os dois apelidos - Sherman e depois Suingue, botados pelos colegas.


O primeiro foi inspirado na figura nerd de Chuck Sherman, “the Sherminator”, do filme American Pie. O segundo, no seu jeito desajeitado de caminhar, causado por uma perna ligeiramente menor que a outra, que produz um balanço, um ‘suingue’, no dizer debochado dos colegas. Na versão americana de Ohio, o aluno H. Coon, que entrou na escola e atirou em quatro colegas antes de se suicidar, também mancava e ficou conhecido pelo apelido de Deixa-que-eu-chuto.


A história de Wellington começa a ser contada, aos fragmentos, por colegas, vizinhos e irmãos adotivos entrevistados pela mídia, com registros esparsos sobre seu nascimento e sua passagem pelo mundo da família, da escola e do trabalho. Aliás, ele não nasceu, foi excluído do ventre de sua mãe - uma moradora de rua com problemas mentais.

Precisa de carinho


Na escola, usava calças com cós acima da cintura e meias até os joelhos. A menina mais bonita da turma se jogava em cima dele, fingindo assediá-lo, só pra sacanear. Ganhou fama de homossexual. Não reagia às agressões, à semelhança do estudante de origem sul-coreana, nos Estados Unidos, Cho Seung-hui, que matou 32 pessoas na Universidade de Virginia e deixou uma carta dizendo ter sido discriminado como um bicho: “eu morro como Jesus Cristo, para inspirar gerações de pessoas fracas e indefesas”.

Seguindo o modelo americano, Wellington também escreveu uma carta, “rogando para que na sua vinda Jesus me desperte do sono da morte”. Nela, deixou um testamento, legando sua casa para alguma instituição encarregada de cuidar dos animais abandonados, “pois os animais são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos que possuem a vantagem de poder se comunicar”.


Wellington não tinha o poder de se comunicar. “Mal ouvíamos a voz dele, vivia no mundo dele – contou uma vizinha. “Era muito calado, muito fechado e a galera pegava muito no pé dele, mas não a ponto de ele fazer isso – disse seu ex-colega Bruno Linhares, 23 anos, se referindo ao massacre. Precisava de proteção e carinho?


Outros colegas admitiram que o rapaz foi vítima de ‘bullying’ na Escola Municipal Tasso da Silveira, onde estudou de 1999 a 2002, quando sofreu constantes intimidações. “Além de tudo, ele ainda tirava notas baixas” – completou Bruno. No 8º ano, ficou em recuperação em quase todas as matérias.


A gente chorou muito pensando que Wellington matou aquelas 12 crianças em represália pelo que aconteceu com ele quando nós estudávamos juntos” – contou Thiago da Cruz, outro ex-colega, que usou o adjetivo assustador para se referir ao bullying e à chacota a que Wellington foi submetido. Em entrevista à Folha, reconheceu que não suspeitava do dano que cometeram e acrescentou chorando: “Não era para ninguém ter pago por uma coisa que nós fizemos”.

Ele era tímido e calado” – confirmou ao Globo o gerente da fábrica de alimentos Rica, sediada em Jacarepaguá, adiantando que Wellington permaneceu silencioso o tempo todo numa dinâmica de grupo realizada na firma, onde trabalhou durante dois anos como auxiliar de almoxarifado. A indústria, que abate 170.000 aves por dia e aloja cerca de 46 milhões de pintos, considerou “baixa” a produtividade dele.


Por isso, Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, foi excluído do trabalho, demitido em agosto de 2010. Ficou desempregado. Depois da morte da mãe adotiva, passou a morar sozinho mergulhado na mais extrema solidão. Não foi apurado ainda com que recursos ele sobreviveu nos últimos meses.

Nessa quinta-feira, 7 de abril, vestido de preto e com duas armas, como o menino de Ohio, Wellington voltou ao local do crime - a escola onde estudou - para acabar com aquilo que o molestara. Incorporou o apelido de “the Sherminator”, encurralou e executou 12 crianças, feriu outras 13, quase todas mulheres, num banho de sangue nunca visto numa escola brasileira. Depois, ferido, se suicidou com um tiro na boca.

Escola de merda


Errou o alvo. Atirou no que viu e matou o que não viu. Ceifou os sonhos de Larissa,14 anos, que queria ser modelo; de Bianca, a gêmea de 13 anos, que gostava de navegar na internet; de Mariana, 12 anos, o xodó da família, que adorava tirar fotografias; de Géssica, 15 anos, uma menina alegre que havia feito planos de estudar na Marinha; de Igor que gostava de futebol, torcia pelo Flamengo e jogava na Escolinha do Vasco. E de tantas outras adolescentes sonhadores.

Ela morreu naquela escola de merda” gritava dentro do hospital dona Suely, mãe de Géssica. Familiares e amigos ficaram imersos no desespero, na revolta, na dor e na perplexidade. Como foi possível isso acontecer? Podíamos ter evitado? Como?

- “Poderia ter sido um de nós, um de nossos filhos” – escreveu uma leitora do Globo, sem atentar que foram doze de nós, doze de nossos filhos. Por isso é que o Brasil inteiro se sentiu ferido com os tiros disparados por Wellington, que atingiu a todos nós, embora com intensidade diferente.


O presidente do Senado, José Sarney, sempre ‘brilhante’, sugeriu que “o governo deve, a partir desse episódio, reforçar a segurança dentro das escolas brasileiras e até mesmo incluir no currículo um item chamado segurança”. Outras sugestões foram feitas: instalação de câmeras, detectores de metal, catracas, guaritas, porteiros armados. Por que não canhões? Ou fossos ao redor como nos castelos feudais? Isolar a escola da comunidade onde está encravada é alguma garantia de segurança?


A prefeitura do Rio chegou a iniciar, em novembro do ano passado, a contratação de porteiros para as escolas, mas houve denúncias de que as vagas estavam sendo loteadas através de indicação política, naquele modelo que o Sarney gosta, usa e abusa. Suspenderam as contratações e abriram uma CPI.

O governador Sérgio Cabral, ainda desorientado, diagnosticou o assassino como “psicopata”, como um “animal”, reforçando as palavras de Sarney para quem Wellington é “um fanático”, “um fronteiriço, possesso – esta é a palavra – entre a loucura e a maldade”. O diagnóstico dos dois configura ‘exercício ilegal da profissão’.


Quem produziu Wellington? Por que um espetáculo tão macabro, no qual todos somos perdedores? Se não procurarmos responder essa pergunta, outros Wellingtons surgirão, tirando o gostinho dos Bolsonaros por seu linchamento, já que se suicidou. O diabo é que estamos todos perplexos, confusos. Quem diz que sabe o porquê do acontecido, sinalizando um único fator como a causa de tudo, comete um erro. Uma certeza nós temos: nem o presidente do Senado nem o governador sabem o que dizem.


No meio de tanta dor, não temos ainda a grandeza sequer de dizer: Descansa em paz, Wellington. Desconfio que além das pessoas tocadas de perto pela tragédia, precisamos todos, os 180 milhões de brasileiros, de assistência psicológica. Enquanto isso, só nos resta fazer como os familiares das crianças assassinadas e os moradores de Realengo que nesse sábado deram um enorme abraço na Escola Tasso da Silveira.

Alô, Alô, Realengo, aquele abraço solidário e aquele cheiro no cangote que Wellington nunca recebeu, levando consigo três fiapos de humanidade: o beijo na testa da professora de literatura, a preocupação com os animais desamparados e a retirada de um aluno de sua mira: “fica frio, gordinho, que eu não vou te matar”.


(Este artigo me foi enviado, através de e-mail, pelo colega baiano Otto Filgueiras, que vive em São Paulo há muitos anos. Não é bem o foco do meu blog, mas publico por achá-lo interessante e originalíssimo).


quarta-feira, 13 de abril de 2011

MOTORISTAS FECHAM RUA E FAZEM PROTESTO (Vídeo)

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De Buenos Aires (Argentina) - Vídeo gravado segunda-feira, dia 11/abril. Reforçando o áudio: a Rua Callao ficou fechada parcialmente na altura do prédio do Ministério do Trabalho, pertinho da Praça do Congresso, a partir das 2 horas da tarde (passei por lá por volta das 8:30 e continuava a manifestação);
"Somos todos delegados. Se mexem com um, mexem com todos.
Trabalhadores de MONSA e Linha 60"

À direita, o delegado sindical Hugo Sorma
nome do delegado dos trabalhadores: Hugo Sorma; nome da empresa: MONSA - Microónibus Norte S/A; nome da organização sindical: UTA - União Tranviária Automotor, dos empregados das empresas de ônibus e do metrô; os manifestantes eram motoristas que trabalharam no turno da manhã (nos ônibus daqui não há cobradores, os passageiros colocam as moedas, somente moedas, numa máquina, sob controle do motorista através de um painel.
Neste caso, o corte atingiu só uns 3/5 da pista (muitas vezes o corte é total)

Fechar a rua ("cortar la calle") é o tipo de protesto mais corriqueiro por aqui. Creio que não passa um dia sem que haja algum corte, às vezes parcial, às vezes total, e muitas vezes há dois, três num único dia. Me lembro que via muito isso em Caracas (lá usam o verbo "trancar") e La Paz. Penso ser uma característica de democracias participativas, um tipo mais avançado de democracia, mais avançado no sentido de maior protagonismo dos trabalhadores, da população mais pobre.

E sem qualquer indício de repressão policial. Nos chamados "conflitos sociais" quando se necessita da ação policial, os policiais aqui em Buenos Aires atuam desarmados (que diferença do Brasil! Falo pensando especialmente na polícia dos tucanos paulistas, cuja truculência tive oportunidade de acompanhar nas minhas recentes passagens por lá).

Um dia desses um policial comentou comigo, com ar de reprovação: "Aqui tem muito Direitos Humanos, se a gente reprimir, somos presos", falava e reforçava cruzando os punhos, numa referência às algemas. Outro dia ia de ônibus a um lugar que eu identificava indo pela Avenida Rivadavia (é uma compridíssima, eles dizem por aqui ser a mais comprida do mundo). Acontece que o ônibus desviou para outra rua e aí fiquei preocupado.

- Este ônibus não vai direto pela Rivadavia? - perguntei ao motorista.

- É que tem um corte - respondeu.

- Será algum protesto? - perguntei.

- É um protesto, disse sem qualquer alteração, deixando claro a banalidade do fato.

Os manifestantes se sentem inteiramente à vontade, mas claro que muita gente não gosta. Os políticos mais à direita, com respaldo dos monopólios da comunicação, falam de "caos" e prometem mais segurança, de olho nos votos dos descontentes, principalmente das classes alta e média. Na bandeira de mais segurança está incluída a repressão aos movimentos sociais. O governo federal, por seu lado, mantém alçada a bandeira dos Direitos Humanos e a ministra da Segurança, Nilda Garré, já declarou: conflito social se resolve com diálogo.

terça-feira, 12 de abril de 2011

PARQUE DA MEMÓRIA: A VIOLÊNCIA EXTREMADA DA DITADURA ARGENTINA (VÍDEO)

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De Buenos Aires, Argentina - Visita ao Parque da Memória, vizinho à Cidade Universitária, no bairro de Núñez, onde estão gravados em vários murais milhares de nomes de desaparecidos (assassinados) políticos pela última ditadura argentina (1976-1983), período do "terrorismo de Estado".

domingo, 10 de abril de 2011

MÍDIA E ELEIÇÕES NO PERU


Capas de jornais peruanos (Foto: Reprodução)
Por Júlia Nassif de Souza (Reproduzido do sítio de Caros Amigos, de 08/04/2011)


À véspera das eleições presidenciais no Peru, o clima de medo caracteriza as campanhas de candidatos que mostram todas suas armas para conquistar o eleitorado indeciso e contam com o apoio indiscreto de diversos meios de comunicação. Jornais, revistas e programas televisivos levantam opiniões como verdades, exageram fatos e demonstram suas preferências desesperadas em uma eleição ainda indefinida.


Esse fato se dá pela quantidade de eleitores indecisos, pela grande aproximação dos índices de votos dos cinco principais candidatos e, além disso, pelo medo criado contra a continuidade do progresso econômico capitalista do país.


No total, essa eleição apresenta 10 candidatos à presidência, dentre eles cinco que estão na disputa da liderança e mostram uma diferença pequena entre si, com uma leve vantagem de Ollanta Humala (militar presente na destituição de Fujimori), sobre Alejandro Toledo (ex-presidente), Luis Castañeda (ex-prefeito de Lima), Pedro Pablo Kuczynski (ex-ministro de Toledo) e Keiko Fujimori (a filha do ex-ditador preso). Os dois mais votados disputam o segundo turno em junho.


Enquanto que Alan Garcia, o atual presidente, não pode ser reeleito e seu partido não apresenta candidatos presidenciais, mas sim para o Congresso e para o Parlamento Andino, os outros dois cargos que são definidos nessas eleições.


Realizada pela Ipsos Apoyo, a última pesquisa, no dia 3 de abril, antes do debate presidencial, relatava os seguintes resultados: Ollanta 27.2%; Fujimori 20.5%; Toledo 18.5%; PPK 18.1%; e Castañeda 12.8%. O que gerou um clima de desespero nos meios e na classe média limenha, pelas denúncias amedrontadoras de uma suposta aproximação e inspiração do candidato Ollanta ao Chávez da Venezuela.


A última pesquisa terminou surpreendendo não só os meios, mas os candidatos também, principalmente porque visualizando desde o centro econômico do país, não se podia imaginar que Ollanta alcançaria tanta popularidade. O candidato tem somente 16.860 admiradores na rede social Facebook, a mais popular do país, enquanto que Kuczynski, o candidato de dupla cidadania peruana/norte-americana, já passou de 215.320, naturalmente explicável quando se tem em conta que é a população das classes média e alta que tem acesso à internet no Peru, recebendo Ollanta os votos dos setores mais humildes do país.


Apesar da fama de radical, Ollanta foi muito criticado no último debate presidencial por ter ficado preso a um roteiro pré-determinado durante todo o ciclo de perguntas e respostas, e mantém um discurso tranquilo, ensaiado e familiar, assessorado pelos brasileiros Luís Favre e Valdemir Garreta, que participaram da campanha de transição do Lula sindicalista ao Lula presidente de 2002.


Por desespero, os demais candidatos e a mídia se unem para criar uma situação de medo da expropriação de empresas estrangeiras por parte do Estado, caso este seja representado por Ollanta, exagerando o termo “expropriação” à generalização de toda atividade de regulamento do ingresso de capitais estrangeiros que possa estar no seu projeto de governo, capitais entendidos como a causa do crescimento econômico que, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), é o maior da América Latina e chegou a nivelar um 7% em 2010.


Ao mesmo tempo em que a população acompanha o crescimento em cifras do país, acompanha também a saída de seus recursos, ainda maiores que as entradas de inversões estrangeiras, principalmente por responsabilidade das grandes corporações de atividades mineiras e de extração de recursos naturais.

Faltam poucos dias para a eleição que poderá mudar ou manter o rumo de um país que deve mostrar se tem medo de Hugo Chávez, se não tem memória ou se se entrega de mãos beijadas ao neoliberalismo, que pode estar representado por um cidadão de interesses norte-americanos. Essa decisão está nas mãos do povo peruano.


Júlia Nassif de Souza é comunicadora e antropóloga. Colaborou Ignacio Lemus, comunicador.
(A eleição no Peru é hoje, domingo, dia 10 de abril).


sábado, 9 de abril de 2011

NOVAS CONDENAÇÕES DE MILITARES NA ARGENTINA


O prédio onde funcionou o centro clandestino de torturas "Automotores
Orletti" (Rua Venancio Flores, 3.519/21, bairro de Floresta, Buenos
Aires) está sendo recuperado para ser mais um Espaço da Memória.
(Foto: Jadson Oliveira)
Do jornal Página/12 (Reproduzido de Carta Maior, de 01/04/2011)

Automotores Orletti era uma velha casa de dois andares com uma fachada similar a de uma oficina mecânica, que foi alugada por agentes do Serviço de Inteligência do Exército argentino (SIDE) para ser base operativa da chamada Operação Condor, desenhada por ditaduras latino-americanas para perseguir opositores políticos. Hoje o prédio é conservado como “lugar recuperado para a memória”.

Pelo centro clandestino passaram argentinos, uruguaios, chilenos, peruanos, bolivianos e cubanos. Entre as 65 vítimas (fazem parte deste julgamento terminado no dia 31 de março, vítimas do Plano Condor, coordenação repressiva das ditaduras sul-americanas, inclusive a brasileira) há 18 desaparecidas: dez são argentinas, três uruguaias, duas cubanas, duas argentinas sequestradas na Bolívia e uma chilena. Outros seis argentinos foram assassinados.

Após nove meses de audiências, o tribunal condenou o general Eduardo Cabanillas, que foi o chefe do centro, a prisão perpétua; a 25 anos de prisão os agentes da SIDE Eduardo Ruffo e Honorio Martínez Ruiz, e a 20 anos de prisão Raul Guglielminetti, ex-integrante do Batalhão 601 de Inteligência do Exército.

O tribunal considerou o chefe militar como “partícipe necessário” e responsável por cinco homicídios, 29 privações ilegais de liberdade e outros crimes. Ruffo e Martínez Ruiz foram condenados por 65 sequestros e 60 casos de maus-tratos cada um. Guglielminetti, aliás major Guastavino (apelido ou codnome), foi condenado por 25 sequestros e 21 casos de torturas, em todos os casos agravados pelo fato se tratarem de ex-funcionários públicos.

De acordo com a investigação realizada pelo juiz federal Daniel Rafecas, responsável pela megacausa envolvendo o Primeiro Corpo do Exército, pelo centro passaram cerca de 300 pessoas que ficaram à disposição do organismo de inteligência. Entre elas, um grupo de cidadãos uruguaios sequestrados para roubar-lhes 10 milhões de dólares, dinheiro que foi repartido entre o SIDE e o grupo de tarefas que interveio no operativo, incluindo interrogadores uruguaios.

Esta circunstância explica que o julgamento tenha sido transmitido ao vivo pela TV no Uruguai. Foi assistido na embaixada argentina em Montevidéu. Na sala de audiência, junto ao subsecretário de Direitos Humanos, Luis Alem, estava a cônsul geral do Uruguai na Argentina, Lilian Alfaro. Por Orletti passaram, entre outros, o filho do poeta Juan Gelman, Marcelo Gelman, que apareceu assassinado dentro de um tambor de cimento no canal San Fernando, e sua esposa Maria Claudia Iruretagoyena, levada ao Uruguai para dar à luz a Macarena, a filha de ambos, antes de ser assassinada.

A criação deste centro já havia sido decidida no final de 1975 pelo general Otto Paladino, então chefe da SIDE e um dos fundadores da Aliança Anticomunista Argentina (Triple A), para que fosse operado pelo bando de Anibal Gordon, o grupo paraestatal de ultradireita que logo foi assimilado pela ditadura.

O coronel Rubén Visuara, falecido há apenas um mês e julgado até esse momento, foi o encarregado de mandar o agente Eduardo Ruffo buscar uma “caverna” que funcionou desde o dia 1° de junho de 1976 e que, na gíria repressiva, era conhecida como “O Jardim”. Outro dos acusados, o comodoro da Força Aérea, Néstor Guillamondegui, foi afastado do julgamento às vésperas de sua realização por problemas de saúde.

Tradução: Katarina Peixoto


quarta-feira, 6 de abril de 2011

CIVIS QUE FORAM CÚMPLICES DA DITADURA ESTÃO NA MIRA DOS ARGENTINOS


"Eu não esqueço!": Franco Macri, Ernestina Herrera de Noble (dona
do Grupo Clarín) e Constancio Vigil em cartazes colados no centro
da capital portenha (Foto: Jadson Oliveira)
De Buenos Aires (Argentina) – No dia 24 de março último, 35º. aniversário do golpe militar que instaurou a ditadura, Dia da Memória, da Verdade e da Justiça, as paredes dos prédios da Avenida de Maio, no centro de Buenos Aires, amanheceram com cartazes exibindo os rostos de três grandes empresários com emblemáticos quepes militares. Foi um sinal bem visível de que os argentinos, depois de avançarem no castigo aos militares e agentes policiais – já são mais de 170 sentenciados, incluindo o ex-ditador Jorge Rafael Videla, e mais de 800 atualmente em julgamento -, querem seguir em frente.


Querem julgar e punir os civis que, de uma forma ou outra, foram cúmplices da tirania e dos crimes de lesa humanidade e se locupletaram com a tirania e com os crimes. No mesmo dia 24, Estela de Carlotto, presidenta de Abuelas de Plaza de Mayo (Avós da Praça de Maio) - uma das entidades mais atuantes na defesa dos Direitos Humanos – reforçou: é preciso buscar meios para castigar também os criminosos civis. E mencionou os grandes empresários, os meios de comunicação e os juízes que arquivavam milhares de habeas corpus dos familiares dos desaparecidos.


Estela de Carlotto, presidenta de Abuelas (Avós) de Plaza de Mayo:
julgar e punir grandes empresários, dirigentes de meios de comunicação
e juízes que ajudaram a manter a ditadura (Foto: Reoprodução)
As três caras dos cartazes parecem ser bem conhecidas dos argentinos, mas mesmo assim cada uma mereceu o registro de suas “proezas” no próprio cartaz: o empresário Franco Macri, 81 anos, é acusado de ser um dos maiores beneficiários das ações da ditadura, durante a qual seus negócios tiveram uma enorme expansão. Atua em vários ramos, como construção civil e indústria de automóveis e de alimentos. É pai do atual prefeito (aqui “chefe de Governo da capital”) de Buenos Aires, Mauricio Macri, mas os dois são rompidos devido a querelas empresariais.


Grupo Clarín sempre em parceria com a tirania


A segunda cara no cartaz é de Ernestina Herrera de Noble, 86 anos, herdeira e à frente, desde 1969, do Grupo Clarín, o maior conglomerado de comunicação do país. Esteve sempre junto dos ditadores e é envolvida em rumorosos casos judiciais, como a aquisição supostamente ilegal, durante a ditadura, da empresa Papel Prensa, que monopoliza a fabricação de papel para jornais; e a suspeita de que seus filhos adotivos (Marcela e Felipe Noble Herrera) foram dois dos bebês roubados de presas políticas desaparecidas (assassinadas), processo que rola há oito anos, mas seus advogados sempre conseguem evitar (ou protelar) os exames de DNA.


Jorge Videla e Ernestina de Noble na inauguração da fábrica de
Papel Prensa em 1978 (Foto: Reprodução)
O Grupo Clarín vive em guerra declarada e, claro, muito ruidosa, contra os Kirchner (governo de Néstor e agora Cristina). Quase todo dia o diário Clarín estampa uma manchete de capa contra o governo, o que é amplificado por todo o país em dezenas de jornais, revistas e emissoras de rádio e TV (a aplicação da Lei dos Serviços de Comunicação Audiovisual, a famosa “Ley de Medios”, anti-monopólio, aprovada em meio a intensas batalhas parlamentares e populares em 2009, até hoje está travada na Justiça).


Quando as manchetes não são diretamente contra o governo, são contra Hugo Moyano, líder da poderosa CGT (Confederação Geral do Trabalho) e aliado de Cristina (o poder dos trabalhadores argentinos, através da estrutura sindical criada pelo peronismo, parece continuar forte ainda hoje).


E o terceiro rosto exibido é de Constancio Vigil, cuja família era dona de várias publicações. Ele se notabilizou na direção da revista El Gráfico, dedicada à cobertura do futebol, que se destacou especialmente na campanha da seleção argentina, campeã mundial da Copa de 1978. Ficou famoso o seu empenho em exaltar a figura do então ditador Videla e, de tabela, as “maravilhas” do regime militar, negando as denúncias de violações dos Direitos Humanos que pipocavam pelo mundo.


Atrás da fumaça já há fogo


Os cartazes foram somente o sinal mais visível, a fumaça por baixo da qual o fogo já vem queimando. Ainda no mesmo dia 24 de março, o jornal argentino Página/12 publicava matéria, assinada por Alejandra Dandan, sobre o tema. O título: “De olho nos cúmplices e instigadores civis”. Título de apoio: “Avança a análise do papel de grupos econômicos e do Poder Judiciário durante o terrorismo de Estado”.


A matéria cita cinco magistrados e dois promotores acusados em questões judiciais já em andamento, se refere a juízes (sem citar nomes) que estariam envolvidos nos processos de legalização de bebês roubados de presas políticas e menciona casos em que empresas aparecem sob suspeitas, chegando a citar algumas delas, como a Ford e a Mercedes-Benz.


Um fato significativo do ponto de vista jurídico – apontado na matéria – é que entre os magistrados, os promotores/procuradores e os advogados, inclusive em peças judiciais e nos interrogatórios de testemunhas, vem se tornando cada dia mais frequente o emprego da expressão “ditadura cívico-militar”. A advogada Ana Oberlin, que é especialista em Direito Penal, diz: “Com tudo que está surgindo nos processos, está cada vez mais claro que a expressão “ditadura militar” invisibiliza o papel muito importante que tiveram todos os interesses econômicos”.


terça-feira, 5 de abril de 2011

VÍDEO: MANIFESTAÇÃO CONTRA A IMPUNIDADE

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Manifestação em Buenos Aires, dia 04/04/2011, pela punição dos responsáveis pelo assassinato do professor Carlos Fuentealba, ocorrido há quatro anos na província (estado) de Neuquén (região da Patagônia - sul), durante um protesto político reprimido pela polícia. Faz parte da Jornada Nacional de Luta contra a Impunidade, organizada pela Confederação dos Trabalhadores da Educação (Ctera), ligada à Central dos Trabalhadores da Argentina (CTA). O vídeo pega os manifestantes na Avenida Diagonal Norte, uma das ligações entre a Avenida 9 de Julho e a Praça de Maio.
As duas fotos mostram os manifestantes quando
estavam concentrados na Avenida 9 de Julho,
junto ao Obelisco