terça-feira, 31 de maio de 2011

MARCHA DA LIBERDADE: “A VONTADE DE SABER QUEM NÓS, JUNTOS, SOMOS” (Panfletos e fotos)


EM CASA, SOMOS UM. JUNTOS, SOMOS TODOS!
Um dos panfletos dos organizadores da marcha
1 - Vamos beber na fonte original. Transcrevo aqui no meu Evidentemente manifestos/panfletos do pessoal da marcha, assunto das duas últimas postagens. Este manifesto está no sítio www.marchadaliberdade.org com o título “Crescermos de verdade”, datado de 27/maio.


“A Marcha da Liberdade não é tanto um protesto quanto um experimento. Um desejo que a Rede tem de se olhar no espelho, de se descobrir.


Na manhã de terça lançamos um nome e um manifesto. Em três horas a #marchadaliberdade era o assunto mais citado no twitter.


Na manhã de quarta tínhamos um site e um convite para uma reunião no MASP. Mais de 100 pessoas apareceram.


Na manhã de quinta tínhamos dezenas articulando em rede. No fim do dia contamos a adesão de mais de 20 movimentos e organizações.


Hoje é sexta, e chegou a hora de crescermos de verdade. Temos apenas mais um dia para lotar a Paulista. Precisamos de você!


Entre conosco nas redes sociais, e espalhe a #marchadaliberdade como puder a partir das 14hs, exatas 24hs antes do início de nossa festa de sábado.


Nosso desejo é manter a #marchadaliberdade nos TTs a tarde toda. Telefone aos amigos, conte para gente na rua, no trabalho, na escola.


Convocar não apenas São Paulo, mas o Brasil todo.


Se você mora fora de SP, essa Marcha também é sua. E vocês podem fazer a diferença de casa, acompanhando a nossa transmissão ao vivo pelo Livestream a partir das 13hs, direto do vão do MASP. Vocês serão nossos braços e vozes digitais para, durante a marcha, colocar a #marchadaliberdade nos TT’s do mundo. Juntos na rua e na web, assim como tantos irmãos ao redor do mundo em 2011.


Egito, Espanha, Grécia, EUA, Portugal… Essa semana apenas, são quase 700 manifestações pelo globo. Todas espontâneas, criadas em rede, sem líderes ou bandeiras exclusivas. Vivemos um momento único na história. De tomada de consciência, um despertar coletivo, de gente sedenta pelo futuro.


Portanto, traga sua indignação, mas deixe a raiva em casa. Ofereça uma piada à rua, nunca uma ofensa. Vista-se com sua melhor idéia, traga sua melhor frase, sua melhor sacada, seus braços abertos.


Não defenda apenas suas causas, mas as dos demais. Vamos dissolver nossas demandas, nossas cobranças, nossos egos… é a única forma de descobrir o que nos une de verdade nesse movimento: a vontade de saber quem nós, juntos, somos.


A Marcha da Liberdade não é apenas um protesto, exatamente. É um experimento. Amanhã, no MASP, vamos descobrir o resultado”.




“Para todas as pessoas que não calam e que ainda acreditam na liberdade de expressão”


2 – Este foi distribuído durante a marcha. Está com formato e ilustrações que o identificam como de autoria dos organizadores do movimento.


“Para todos os movimentos sociais, por moradia, por terra e por uma vida melhor. CONTRA O RACISMO, CONTRA A HOMOFOBIA E O MACHISMO. Para todas associações de bairros, partidos, anarcos, usuários, gente diferenciada, oprimida em geral. Ligas, correntes, grupos de teatro, dança, vagabundos, grafiteiros, operários, feministas, coletivos sonoros, vítimas de enchentes, corjas de maltrapilhos e outros afins. Todas organizações, coletivos, blocos, bandos e bandas que não calam diante da CRIMINALIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS E DA POBREZA. Todos e todas que não suportam mais violência policial repressiva. Que NÃO AGUENTAM MAIS a caretice proibicionista que proíbe atos, festas e boemias; que constrói rampas anti-mendigos; QUE PATROCINA UMA POLÍCIA ASSASSINA E VIOLENTA; que tenta calar a Marcha da Maconha e não coíbe os skinheads, nazistas, de continuarem a agredir LGBTs, nordestinos, pretos e outras MAIORIAS; que reprime trabalhadores e professores, que aumenta o valor do transporte público”.


“Contra a ditadura demotucana, democratizadora da infelicidade. Vinte anos no poder, sessenta anos de cassetete e bala”.


“BASTA! Vamos para a rua DE NOVO, em prol da liberdade”.


“Colabore. Contamos com pernas e braços de todos que se movimentam e com as vozes dos que não consentem”.




“Poder econômico, o único verdadeiro poder que existe”


3 – Este panfleto foi distribuído também na marcha, mas está sem título e sem “assinatura”. Uma simples folha de papel. Parece ser iniciativa particular de alguém ou de algum grupo. Botei o título acima.


“ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO?


SIM, mas só pra quem pode pagar advogado criminalista.


LIBERDADE DE OPINIÃO?


SIM, mas só para a grande imprensa dar a sua ver$ão dos fatos.


DEMOCRACIA?


NÃO, Democracia não é “ausência de Ditadura”; significa governo-do-povo (sem intermediários).


LIBERDADE DE ESCOLHA?


NÃO, somos obrigados a votar pra podermos ser culpabilizados pelo fato de os eleitos não cumprirem suas promessas, de se revelarem corruptos.


NÃO, a não ser que você esteja disposto a arriscar seu emprego, sua vida.


O POVO É IGNORANTE?


NÃO, o povo pode ignorar muita coisa, mas aprendeu, e já há muito tempo, que votar não adianta nada.


VOTAR É DEVER CÍVICO?


NÃO, civismo não é bienal, é diuturno. Os ricos e os pobres não votam, sabem que continuarão cada vez mais ricos e mais pobres; só a classe média acha que pode limpar sua consciência apertando um botão de 2 em 2 anos.


NÃO HÁ ALTERNATIVA PARA A BARBÁRIE?


A alternativa é o movimento social – independente de partidos/organizações, esclarecido, determinado, corajoso. Só ele pode tentar deter a repressão (oficial ou de gangues fascistas) aos que lutam por justiça social”.


“A DITADURA NÃO ACABOU, POIS ELA INDEPENDE DE MILITARES – SÓ DEPENDE DO PODER ECONÔMICO, O ÚNICO VERDADEIRO PODER QUE EXISTE”.



Segue uma seleção de fotos da marcha do sábado, dia 28 (As duas primeiras são reproduzidas do sítio www.marchadaliberdade.org , as outras são minhas):



Ainda na Avenida Paulista, já começando a dobrar para a
Rua da Consolação





Deputado federal Ivan Valente, PSOL-SP
Escritor Marcelo Rubens Paiva

segunda-feira, 30 de maio de 2011

MARCHA DA LIBERDADE: CRESCE A MOBILIZAÇÃO DA JUVENTUDE PAULISTANA

O expressivo protesto no vão do MASP, na Avenida Paulista
(Foto: Jadson Oliveira)
A marcha já próxima à Praça da República, perto das 7 horas da
noite (Foto: Jadson Oliveira)
De São Paulo (SP) – Primeiro era a Marcha da Maconha, convocada para o dia 21/maio, para defender a descriminalização da droga. Foi proibida pela Justiça paulista na véspera. Os organizadores mantiveram a manifestação, mas mudaram o nome para Marcha pela Liberdade de Expressão. Foi reprimida pela Polícia Militar, com bombas de efeito moral, balas de borracha, spray de pimenta e algumas prisões. Para o sábado seguinte, dia 28, a criatividade dos jovens paulistanos pariu uma nova denominação, a Marcha da Liberdade, que foi também proibida pela Justiça, mas flexibilizada pela PM, desde que não houvesse menção ao uso da maconha. Resultado: a mobilização cresceu.


O vão do MASP (Museu de Arte de São Paulo), na Avenida Paulista, foi enchendo a partir do início da tarde. Quando o pessoal, depois de umas duas horas de concentração, marchou pela exuberante avenida paulistana e desceu pela Rua da Consolação (iam rumo à Praça da República), as estimativas dos repórteres rodeavam os 3.000, pelo menos o dobro dos que protestaram e foram reprimidos no sábado anterior, conforme comentavam satisfeitos os manifestantes. Perguntei a um repórter do Portal IG e ele me disse: “A polícia me falou em 1.000 pessoas, mas estou calculando de 3.000 a 4.000”.


O pedido diante da incrível barreira de policiais na frente do MASP:
como se diz, gato escaldado tem medo de água fria.
(Foto: Reprodução)
Milhares de pessoas, a maioria jovens, na Paulista: pelo direito de
sonhar, de ser livre, na busca infindável da utopia
(Foto: Reprodução)
A maioria, claro, era gente jovem, de aparência classe média, muitos de blusões escuros por causa do frio e grande parte ostentando ramos de flores e cartazes, uma infinidade de cartazes brandindo contra a censura, a violência, a repressão, a homofobia, o racismo, e em favor da liberdade de expressão, da paz, do direito de sonhar, da utopia. Bandeiras, literalmente falando, eram pouquíssimas: vi algumas do PSOL e do PCO, além de uma pequena faixa do PSTU.


O predomínio, portanto, foi de gente “não organizada”, para usar o jargão dos partidos e agrupações da esquerda, pelo menos se você pensa em organizações políticas mais institucionalizadas. Jovens que começam a sentir o prazer de passeatas e protestos de rua, a partir, por exemplo, de lutas pela legalização da maconha, contra a perseguição aos homossexuais, contra a matança de jovens pobres e negros nas periferias das grandes cidades, contra o aumento das passagens de ônibus e lutas dos estudantes e das feministas.


O núcleo de dirigentes da manifestação, pode-se deduzir, vem desses movimentos mais recentes. Ninguém fala em nome de entidades partidárias e/ou do movimento social e popular. A maioria dos panfletos distribuídos não tem assinatura. De políticos, vi o deputado federal Ivan Valente, do PSOL-SP. De pessoas com maior visibilidade pública, vi o escritor Marcelo Rubens Paiva, filho do deputado Rubens Paiva, assassinado pela ditadura. Eles, os dirigentes, vão se revezando, quase sempre através de pequenos megafones e serviço de som precário, e gritando palavras de ordem ou fazendo rápidos discursos, com a multidão repetindo frase por frase. Assim conduziram os manifestantes e tentam dar um rumo ao movimento.


“A Espanha é aqui”


Um deles fechou o mini-discurso com a consigna: “A Espanha é aqui”, forçando uma comparação e tentando se somar aos movimentos atuais de rebeldia que surpreenderam o mundo e se utilizam muito das redes sociais da Internet, começando pelos árabes e se espalhando pela Europa. A Espanha é hoje, para a nossa banda ocidental, a bola da vez, com várias cidades em rebuliço e um acampamento há duas semanas na Praça do Sol, em Madri.


A manifestação do sábado teve, portanto, essa aparência de espontaneidade, de coisa nova, um certo viés que os militantes das esquerdas mais tradicionais chamariam de anarquista. Era visível a tentativa de ampliar os temas em debate (falaram inclusive da luta dos metroviários, os trabalhadores do metrô) e a participação – o que deu resultado positivo – e também de politizar o movimento. Ao lado de gritos de guerra mais conhecidos, um bastante repetido foi “lutar, criar, o poder popular”.


O manifestante bota no mesmo balaio: a presidenta
Dilma Rousseff, os senadores José Sarney e Aécio
Neves e o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab
(Foto: Jadson Oliveira)
Lembrando as "letras mortas" da esquecida Constituição Cidadã do
 velho Ulisses Guimarães (Foto: Jadson Oliveira)
Um outro foi específico: na Paulista, quando identificaram nas proximidades uma repórter e um câmera da TV Globo, começaram a gritar: “Oi, Globo, vai tomar no cu”. A moça se afastou um pouco e ficou de costas, mas o rapaz aguentou firme o desabafo da multidão. O ódio contra a Rede Globo, o escandaloso monopólio dos meios privados de comunicação no Brasil e baluarte da política anti-povo, parece entranhado: na Consolação, um carro da emissora, com uma equipe de reportagem dentro, foi chutado e cuspido, episódio que resultou na detenção de dois rapazes.


A polícia, claro, foi brindada ruidosamente o tempo todo: “Polícia, a liberdade é uma delícia” e “quem não pula, é polícia”, gritando e pulando. Mas não houve agressão e violência de monta, desde que não se considere agressão a presença de tantos policiais, em torno de uns 300. Podemos registrar um ato revoltante: tomaram uma grande faixa do Movimento pelo Passe Livre (MPL), que foi estendida na sacada do Conjunto Nacional (Avenida Paulista) quando o desfile ia passando. Os policiais filmaram toda a movimentação, inclusive instalados numa área interna do prédio do MASP. No mais, fizeram grande esforço para manter uma estreita faixa de trânsito para os carros numa das pistas da Paulista ocupada pelos manifestantes e iam controlando o tráfego.


Na Praça da República, centro velho da capital paulista, já escuro, houve alguns mini-discursos e a convocação do Dia Nacional da Liberdade para o dia 18 de junho. Houve ainda um enorme telão onde foram projetadas, na parede de um dos prédios, imagens de cartazes e manifestantes, e, finalmente, uma “festa” com direito a DJ.


domingo, 29 de maio de 2011

"A ESPANHA É AQUI": MARCHA DA MACONHA VIRA MARCHA DA LIBERDADE E AMPLIA A MOBILIZAÇÃO (Dois vídeos)

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De São Paulo (SP) - O movimento da juventude paulistana trocou o nome da marcha, politizou a manifestação e colheu o resultado de uma maior mobilização. A mudança foi feita a partir da repressão policial contra a marcha da semana anterior, que pedia a descriminalização da maconha. Na de ontem, sábado, dia 28, Marcha da Liberdade, contra a censura, pela liberdade de expressão, participaram cerca de 3.000 pessoas, o dobro da outra, conforme comentavam os manifestantes. Houve a concentração, a partir das 2 horas da tarde, no vão do MASP, na Avenida Paulista. Em seguida, marcharam até a Praça da República, onde chegaram, via Rua da Consolação e Praça Ramos, por volta das 7 horas da noite.

O primeiro vídeo pega o final da concentração no vão do MASP e o segundo uma pequena parte do encerramento na Praça da República. Vou postar os dois no YouTude (blogevidentemente), quem quiser vê-los num formato melhor é só entrar lá. (Amanhã publicarei aqui texto e fotos).

quinta-feira, 26 de maio de 2011

PELO FIM À LIBERDADE DA GRANDE IMPRENSA

Por Renato Prata, 19/05/2011 (Reproduzido de Fazendo Media: a média que a mídia faz)


A nossa cínica e hipócrita mídia brasileira (mais precisamente a grande mídia), volta e meia faz um grande estardalhaço e muito barulho contra uma suposta censura que poderia vir a sofrer ou que já estaria sofrendo. Nada poderia ser mais patético, falacioso e medíocre do que esse tipo de campanha. Não há nada nem ninguém mais livre no Brasil do que os barões dos grandes meios de comunicação. É um setor que possui mais liberdade do que qualquer outro ramo empresarial e até mesmo do que qualquer cidadão brasileiro. E os exemplos são os mais numerosos e mais variados possíveis: caluniam e perseguem pessoas (físicas e jurídicas) que contrariam seus interesses políticos e econômicos, funcionam como verdadeiros partidos políticos (ganharam até o nome de PIG: Partido da Imprensa Golpista), o conteúdo de suas programações são extremamente ideológicos, parciais, pessoais enfim, fazem o que querem e o que bem entendem no uso das concessões públicas, como se tais concessões fossem uma propriedade privada ou algo vitalício.


O melhor argumento que prova o cinismo e a hipocrisia desse tipo de campanha que tenta transformar o lobo em cordeiro é extremamente simples e direto: a liberdade de imprensa não está ameaçada porque simplesmente nunca existiu e ainda não existe liberdade de imprensa no Brasil. Quando apenas meia dúzia de famílias detêm o monopólio das concessões de rádio e televisão em todo o país, isso só pode significar que somos reféns de uma Ditadura da Informação que protege, privilegia e reproduz exatamente aquilo que representa os interesses dos detentores dessas concessões ou, mais precisamente, os seus interesses como classe social. O que eles têm, portanto, não é o medo de perder a liberdade, mas medo de perder o controle e o monopólio da comunicação que, consequentemente, representa também a perda do poder de (de)formar a opinião pública (o senso comum), que tem na televisão e no rádio os seus meios quase que exclusivos para a obtenção de informações dos mais variados temas.


Chega a dar uma ânsia de vômito ver aquelas propagandas exibidas pelas emissoras de televisão que tratam dos seus próprios telejornais. Tentam vender uma imagem de imparcialidade e impessoalidade, mostrando seus jornalistas (ou seriam atores?) discutindo as notícias, “decidindo” o que vai para o ar, como se aquilo fosse realmente verdade… Só quem não possui uma mínima noção do que é um telejornal de uma grande emissora pode pensar que quem decide o seu conteúdo são os próprios jornalistas; se é que esses ainda podem ser chamados assim, pois não passam de garotos de recado com talentos mais propícios à dramaturgia do que a qualquer outra coisa. Em busca de fama, dinheiro e glamour, enveredam pelo caminho da dissimulação, da palavra vazia e acrítica, da obediência cega e da subserviência total e irrestrita, da cumplicidade em crimes dos mais variados tipos, dos ataques mais covardes e brutais contra aqueles que atrapalham os interesses de seus respectivos patrões e, por fim, praticam o sensacionalismo cretino que explora sem sensibilidade e respeito algum as mais variadas desgraças e tragédias da vida humana.


Assim, ao manipular a informação e, consequentemente, manipular o senso comum, a opinião pública, esses déspotas mercenários se passam por baluartes da democracia e da liberdade; seus crimes são encobertos e suas responsabilidades são ocultadas e desviadas contra aqueles que os acusam; se sentem-se ameaçados de punição por alguns de seus crimes, logo gritam a todos que a liberdade de expressão está ameaçada e achincalham seus acusadores; protegem e defendem da forma mais vil todos os seus aliados e comparsas, alçando alguns deles às instâncias de poder e lutando para que aqueles que já estão lá permaneçam incólumes na missão de defender seus interesses políticos, econômicos e ideológicos. Balzac, em seu romance As Ilusões Perdidas (ainda no início do século XIX), não deixou dúvidas sobre aquilo em que o jornalismo viria a se transformar. Diz o autor através de um dos seus personagens:


“O jornal, em vez de ser um sacerdócio, tornou-se um meio para os partidos; e de um meio passou a ser um comércio e, como todos os comércios, não tem fé nem lei. Todo jornal é uma loja onde se vendem ao público palavras com as cores que ele deseja. Se existisse um jornal dos corcundas, dia e noite provaria a beleza, bondade, a necessidade dos corcundas. Um jornal não é mais feito para esclarecer, mas para adular as opiniões. Assim, todos os jornais serão em um dado tempo covardes, hipócritas, infames, mentirosos, assassinos; matarão as ideias, os sistemas, os homens, e por isso mesmo florescerão. Terão a vantagem de todos os seres pensantes: o mal estará feito sem que ninguém seja o responsável. […] Napoleão justificou esse fenômeno moral ou imoral, como desejarem, através de uma frase sublime, ditada sobre os seus estudos sobre a Convenção: ‘Os crimes coletivos não comprometem ninguém.’ O jornal pode se permitir a mais atroz conduta, ninguém sairá pessoalmente maculado.”


Não creiam, portanto, quando ouvirem gritos e também sussurros de que a liberdade de imprensa está ameaçada, pois não se perde aquilo que não se tem. Pelo contrário, a imprensa que temos hoje está aí mais para garantir uma censura velada do que uma liberdade declarada. A grande mídia não deixou de ser golpista pelo simples fato de que os militares não estão mais no poder. Vivemos hoje sob a ditadura do mercado e, mais do que simples anunciantes e colaboradores, os detentores do grande capital são hoje sócios e donos dos grandes meios de comunicação, gerando uma relação mais promíscua e nefasta do que em qualquer outra época histórica. Com isso, o preço que pagamos diariamente para que esse tipo de imprensa continue a existir é o encarceramento das ideias, a morte da crítica e a destruição da memória. Para quem adora o deus mercado parece um preço justo, mas para quem ainda coloca o direito à vida acima do direito ao lucro, esse preço está saindo caro demais. Por tudo isso, não resta outra alternativa a não ser lutar e gritar pelo fim à liberdade da grande imprensa.


(*) Renato Prata Biar é historiador e pós-graduado em Filosofia no Rio de Janeiro.



terça-feira, 24 de maio de 2011

“IMPUNIDADE” NA COLÔMBIA

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De Buenos Aires (Argentina) – Acabei de assistir a dois documentários: “Bahía Portete reparación comunidades indígenas”, de F. Urrego Lozano (produção colombiana), e “Impunity” (Impunidade), de Juan José Lozano (produção Suíça/França/Colômbia). Ambos compõem a extensa programação do XIII Festival Internacional de Cinema de Direitos Humanos, que está acontecendo aqui (de 19 a 25 de maio), com ênfase na Mãe Terra. O lema: “Si la Madre Tierra nos grita... escuchémosla!”. Bonito, não?


Ambos têm como foco a extrema violência política na Colômbia, violência detonada desde 1948 quando foi assassinado o líder político muito popular na época Jorge Gaitán. Um cenário que perdura até hoje e que foi exacerbado nos oito anos do governo de Álvaro Uribe, pau mandado do império estadunidense: assassinatos de opositores, de sindicalistas, de camponeses (estes últimos sempre anunciados como “guerrilheiros, terroristas”), milhares de famílias refugiadas, expulsas de suas terras, de suas comunidades, tudo misturado com políticos, empresários e autoridades governamentais e com a atuação de grupos guerrilheiros, paramilitares e narcotraficantes.


Uma mistura infernal. Numa palavra: terrorismo de Estado em plena vigência da “democracia”, sem necessidade de golpe militar, de ditadura, como foi moda nos países da América do Sul nas décadas de 60 e 70.


“Bahía Portete” é sobre a comunidade com este nome de descendência indígena, que foi vítima de um massacre em 18/04/2004, executado por paramilitares. Perdeu suas casas e terras e o restante sobrevive na vizinha Venezuela (estado de Carabobo). Luta agora para retornar com a ajuda da Comissão Nacional de Reparação e Reconciliação (CNRR).


Faixa exibida em recente manifestação de rua em Buenos Aires
(Foto: Jadson Oliveira)
“Impunity” faz uma abordagem mais geral da violência e da impunidade, pegando o processo de “desarmamento” dos grupos paramilitares durante o governo de Uribe. O filme fala de 48.000 desaparecidos (assassinados) e de quase 1.000 corpos identificados, isto até 2008. Os cartazes mostrados durante o debate que se seguiu à exibição dos documentários (vídeo acima) falam de 7.500 presos políticos e 250.000 desaparecidos.


Efervescência cultural e política


Falo sempre aqui no Evidentemente da agitação política na charmosa capital portenha. Mas a área que chamamos comumente de cultural (cinema, teatro, música, livros/livrarias/cafés, museus, etc) parece ser também muito rica. Pena que eu não acompanhe um pouco mais esta tal área cultural (uma amiga me disse: “Isso é uma deficiência dos militantes de esquerda da década de 60”. Acho que ela tem razão).


E tome festival! Só de cinema, além deste que falo acima, houve outros dois recentemente, tudo internacional. Um de cinema em geral, uma coisa escandalosa de grande e variado (não me dignei a ver uma só “película”), e outro de “cine político”. Neste vi dois filmes, cheguei a comentar no blog sobre o principal premiado (“Balibó”/Timor Leste, em 31/03/11).


Também recentemente (até 9/maio) houve o imenso Festival Internacional do Livro, 37ª. edição, um evento realmente gigantesco, bate longe a Bienal de São Paulo. Foi visitado, durante 19 dias, por 1.250.000 pessoas, segundo os organizadores. Foi aquele que deu a enorme polêmica política devido à participação do escritor peruano Vargas Llosa. Foi aqui pertinho de minha casa, em Palermo, na sede da Sociedade Rural Argentina (SRA). Estive lá uma vez, me admirei da dimensão das instalações e do burburinho de gente. Fiquei 25 minutos tentando localizar o salão de uma das dezenas de conferências (e lançamentos), quando finalmente localizei, estava superlotado, não me deixaram entrar (eu e outros).


A "Torre de Babel" argentina (Foto: Reprodução)
Buenos Aires até foi declarada pela Unesco como “capital mundial do livro 2011”. Nesta área apareceu inclusive a mostra de uma obra curiosa, da artista plástica argentina Marta Minujín: a chamada “Torre de Babel”, uma armação circular com 30.000 livros de variadas línguas (daí o nome) de 52 países, doados por embaixadas e outras entidades. Tinha 25 metros de altura, ficou armada até domingo, dia 22, na Praça San Martín. No dia em que estive lá, havia também, juntinho na mesma praça, um festival de tango. E tome festival! Me voy! (aliás, não, continuo aí embaixo, hoje tô que tô).




Matamos (1)


No Peru a campanha eleitoral está quente entre Keiko, a filha de Fujimori, condenado por assassinatos, seqüestros e torturas, e o centro-esquerdista Ollanta Humala. Em um debate televisivo, Keiko se negou a assumir o lema dos direitos humanos. Seu porta-voz explicou a razão: “Na luta contra o Sendero Luminoso (grupo guerrilheiro derrotado durante o governo de Fujimori) os maiores excessos foram cometidos nos anos 80, nos governos de Fernando Belaúnde e Alan Garcia. Nós matamos menos do que os dois governos que nos antecederam”.


(Notinha da capa do jornal argentino Página/12, da última sexta-feira, dia 20).




Matamos (2)


Nós - o Estado brasileiro, através das Polícias Militares - também matamos um bocado. Um bocado, não, muito. Principalmente jovens pobres e negros nas periferias das grandes cidades. Se é que “essa gente” conta. Na verdade, não conta. A chamada grande imprensa – ultimamente apelidada pelos “blogueiros progressistas” de velha mídia ou PIG (Partido da Imprensa Golpista), como gosta Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada – nem se importa, às vezes dá uma notinha dizendo que “morreu numa troca de tiros ao resistir à prisão”.


Uma amiga, baiana morando em Salvador/Bahia, me contou que esteve uma noite numa delegacia de polícia para fazer a ocorrência de um carro roubado. Pra variar foi atendida mal, mas vamos ao que interessa. Lá pras tantas, chegaram uns policiais que estavam em diligência. Um deles entrou comentando: “Matamos três hoje”.




Tergiversando


1 - Filosofia do solitário:


Nada há a compartilhar. Cada qual é prisioneiro das suas próprias rotinas.


2 - Filosofia do aprendiz de cozinheiro:


Se não tivesse começado a aprender a cozinhar, ia morrer sem saber a utilidade de uma colher de pau.


3 - Filosofia do senso comum:


Não é o amor. É o sexo, estúpido!


4 - Filosofia do portunhol:


Falar o espanhol é falar o português destorcido. Hablar el portugués es hablar el español distorsionado.


5 - Filosofia do mortal:


Está apodrecendo um pouquinho mais a cada dia. É a inominada batendo à sua porta.

sábado, 21 de maio de 2011

“ENCERREI UMA ETAPA E COMECEI OUTRA”


Ezequiel: “Eu pensava que queriam revanche e vingança
 e no final não tinha nada a ver" (Foto: Reprodução)
O “neto 102” recuperado por “Abuelas” (Avós) da Praça de Maio: Ezequiel trabalhava na Força Aérea quando confirmou que era filho de desaparecidos. Depois de se opor aos exames de DNA, fala do encontro com sua família. Hoje diz que seu objetivo é “somar”.


(“Neto 102” significa que é o penúltimo bebê roubado durante a ditadura argentina a ser identificado como filho de desaparecidos. O último, no caso a última, a “neta 103”, foi identificada no mês passado, conforme nota postada neste blog no dia 14/maio).


Por Victoria Ginzberg, do jornal Página/12 – edição de 10/04/2011


Durante 10 anos resistiu a se submeter ao exame de DNA para determinar se era ou não filho de desaparecidos. Deram busca em sua casa e levaram peças de roupa, mas isso não deu resultado. Foi abordado na rua, levado ao tribunal, lhe pediram a camisa e outras peças de roupa e então sim, se descobriu que seus pais eram Maria Graciela Tauro e Jorge Daniel Rochistein, sequestrados em julho de 1977. A confirmação deste resultado não lhe deu um juiz, mas a então ministra da Defesa, Nilda Garré (hoje ministra da Segurança). É que Ezequiel Vázquez Sarmiento trabalhava na Força Aérea. É o “neto 102” recuperado por “Abuelas” (Avós) da Praça de Maio e é a primeira vez que dá uma entrevista. Na verdade, proposta por ele. “Quero agradecer”, explica: “Eu pensava que queriam revanche e vingança e no final não tinha nada a ver. Depois que a gente fala com as pessoas de lá, vê que só há conforto e afeto. Para mim, entrar em contato com as pessoas de ‘Abuelas’ foi muito importante para acabar os preconceitos”.


A particularidade mais marcante do caso de Ezequiel é que no momento da confirmação de que era filho de desaparecidos e durante boa parte do processo judicial para estabelecer sua identidade, ele trabalhava na Força Aérea. É o primeiro neto recuperado que é empregado das Forças Armadas. Seu apropriador, um oficial da Aeronáutica, está foragido desde 2003. Ezequiel usa seu sobrenome e não quer modificar esta situação, ao menos por enquanto. Ele não diz apropriador. Diz “meu pai” ou “a pessoa que considero meu pai”.


Ezequiel vive com a mulher que o criou, sua esposa e suas três filhas e incorporou à sua vida seus dois parentes biológicos mais próximos: sua avó materna e sua tia. Além disso, outras duas mulheres participaram neste processo: a ministra da Segurança (na época da Defesa) e a presidenta Cristina Kirchner.


Em setembro do ano passado, o jovem foi convocado ao gabinete de Nilda Garré. Não conhecia a ministra pessoalmente e pensou que havia feito algo errado, ainda que não soubesse o que poderia ser. Se preparou para uma repreensão: “Foi um diálogo muito ameno, ela me queria adiantar e contar o resultado do DNA, mas me confortando e respeitando minha posição. Me disse que conhecia meu caso e estivemos falando bastante, até de temas familiares. Foi a primeira pessoa com quem tive uma conversa assim”.


Logo depois veio o anúncio das “Abuelas” (Avós) da Praça de Maio. Ezequiel preferiu se manter à parte. Mas a distância durou pouco. Em seguida decidiu falar com sua família biológica: queria lhes contar o que sentia, dar explicações. Foi a Mar del Plata para conhecer sua tia e sua avó: “Desci do avião e no aeroporto me esperava minha tia, a reconheci porque era a única mulher que estava chorando”. Tempo depois elas vieram a Buenos Aires. Ezequiel lhes apresentou a mulher que chama “mãe” ou “velha”. “Quando as cumprimentou, minha mãe começou a chorar e minha tia e minha avó biológica a abraçaram, a consolaram. Isso foi muito forte para mim. Elas não tinham rancor nem raiva”.


- Você entende que é um pouco paradoxal, não?


- Por que você diz paradoxal?


- Porque sua tia e sua avó são as vítimas, juntamente com você e seus pais, claro.


- Para mim foi como dizer “apesar do passado não temos raiva de você”. Elas começaram a falar, a perguntar, e minha velha lhes contava coisas de minha infância.


- O que você disse a suas filhas?


- São pequenas. A maior tem agora seis anos. Quando em novembro fomos festejar meu aniversário em Mar del Plata, estavam minhas primas, suas filhas. Minha filha mais velha me diz “agora tenho mais primas”. Eu somente lhes disse: “Ela é a avó Nely, ela é a tia Pato”, creio que é difícil de entender. Ainda que elas o tomassem como algo natural.


- Como você tomou conhecimento de que não era filho biológico de quem pensava que eram seus pais?


- Soube em 2001. Falando com minha mãe, antes de chegar a notificação judicial. Eu tinha 24 anos, estudava Economia. Tenho toda a carreira cursada em El Salvador, mas ao final disse não, isto é uma mentira...


- Ah... e estudou Direito, que é algo sério.


- (Sorri) Bem, isso deixemos para outro momento. Ela me contou que eu não era filho biológico dela. Eu lhe disse “quero que me conte só até aqui”. Agora seguiremos na causa judicial.


- Por que não quis saber detalhes?


- Me contou que ela também não sabia de onde eu era, que com o passar do tempo poderia se saber mais. Tampouco tive necessidade de continuar indagando porque minha principal preocupação era que não acontecesse nada a ela.


- A ela.


- Sim, a ela. Na realidade aos dois, mas a ela em primeiro lugar.


Dor


María Graciela Tauro e Jorge Rochistein militavam em Montoneros (grupo de guerrilha urbana muito ativo no início da década de 70) e estudavam na Universidade Nacional do Sul. Ele, Ciências Econômicas. Ela, Bioquímica. Assim se conheceram. Se casaram em 30 de janeiro de 1976, após muito tempo de namoro, e foram sequestrados em 15 de maio de 1977 em Hurlingham (cidade da província de Buenos Aires). Graciela estava grávida. Foram levados à Delegacia 3 de Castelar (outra cidade), em seguida à Mansão Seré, centro clandestino dirigido pela Aeronáutica, e à Escola de Mecânica da Marinha (ESMA), onde Ezequiel nasceu.


Juan Carlos Vázquez Sarmiento é oficial da Força Aérea. Sua foto, com o boné de aviador e bigodes grossos, pode ser vista em algum dos avisos que o então Ministério da Justiça, Segurança e Direitos Humanos (foi desmembrado) publicou oferecendo 100 mil pesos a quem dê informações que ajudem a encontrá-lo. Está foragido desde 2003. As denúncias no processo indicam que foi membro da Regional Buenos Aires de Inteligência (RIBA) da Força Aérea. Ezequiel o defende das acusações sobre sua possível participação em uma força-tarefa.


– Como convive com o fato de que quem considera seu pai está foragido?


- Em seu momento se tomam decisões... eu não o considero responsável. Eu trabalhei na Força Aérea e conheço a responsabilidade numa situação dessa e mais ainda naquela época. Para mim é doloroso. Mas já com a visão de militar e com o boné na cabeça se sabia que não havia muita alternativa.


- Não crê que ele deveria se apresentar e enfrentar a acusação?


- Por uma questão de preservação dele, eu não tenho contato. É mais doloroso vê-lo preso do que não vê-lo.


- Ter conhecido a verdade da forma como ocorreu, foi bom para você?


- Ultimamente me coloco o fato de somar. Vejo a situação como experiência de vida. Se o assunto não tivesse ido para a Justiça suponho que tivesse querido saber antes... mas hoje, sim, hoje tenho a sorte de que tanto minha velha como minha família biológica são pessoas maravilhosas, e pela questão judicial por aí perdi 10 anos, mas é isso. Para mim é importante que tenham me procurado e a forma como fizeram sem querer me prejudicar.


- Pensava que as “Abuelas” queriam prejudicar você?


- Não. Eu nunca tive contato com elas antes. Era uma questão judicial. Mas no imaginário... a gente pensava que era “revanche e vingança”, e no final não tinha nada a ver. Depois que a gente fala com as pessoas de lá, vê que só há conforto e afeto. Para mim, entrar em contato com as pessoas de ‘Abuelas’ foi muito importante para acabar os preconceitos”.


A presidenta


Há 20 dias um grupo de “Abuelas” da Praça de Maio e netos recuperados foi visitar a presidenta, que os recebeu para felicitá-los pelo prêmio que a Unesco outorgou à instituição. Estela Carlotto (presidenta de “Abuelas”) convidou Ezequiel, que aceitou de bom grado. “A gente não conhece todos os dias um presidente”. O encontro, que talvez imaginava protocolar, o surpreendeu: “Éramos um grupo de 20 pessoas. Nos recebem no gabinete dela. Eu seria o sétimo ou oitavo na fila de cumprimentos... então Estela dá a volta e me diz ‘a cumprimentou? lhe disse quem você é?’. Me pega e lhe diz: ‘Presidenta, este é Ezequiel’ e começa a lhe contar. Ela deixa de cumprimentar todo mundo e começa a falar comigo. Me disse: ‘Queria conhecer você mas não queríamos que isso gerasse uma pressão, por isso naquele dia com Nilda (Nilda Garré) não o trouxemos aqui, para que eu pudesse falar com você, mas estava interessada em seu caso. Estou muito contente que esteja aqui’. Se lembrava como havia sido o processo. Eu lhe agradeci. Para mim foi muito importante. Estela lhe diz em um momento: ‘Ele é muito formal’… eu sou o empertigado. Quando nos sentamos à mesa voltou a falar comigo. Imagina todos os problemas que tem e se preocupava comigo, não como presidenta, mas como pessoa. Também lhe agradeci o conforto que Nilda me havia dispensado, foi uma pessoa que me confortou nos piores momentos. Não tinha obrigação. Foi algo humano e algo muito genuíno. Saí muito emocionado dessa experiência na Casa Rosada” (palácio do governo).


A verdade


– Como você sentiu quando soube da verdade?


- Eu sabia da verdade, não sabia de quem era. Sabia que minha origem era duvidosa. Mas minha irmã também era considerada apropriada e em 2005 ela foi voluntariamente fazer o DNA e deu negativo. Ela é filha biológica de quem eu considero que é minha mãe. Eu não sabia se a família que me reclamava judicialmente era realmente a família. Apesar de que esta não era minha preocupação, e sim minha velha. Fiz tudo o que podia fazer e lutei até onde podia lutar. Se não foi voluntário deixa de ser minha responsabilidade. Se me diz se hoje recomendo fazer assim... é meio difícil...


- Mas você entende que não havia outra alternativa?


- Entendia que não havia outra alternativa sob a lógica da defesa apresentada por mim.


- E está contente de ter conhecido sua família?


- Sim. Claro. A partir disso encerrei uma etapa e comecei outra. As duas coisas convergem. Para mim, são articuladas. Eu tomei a iniciativa de ir ver minha família biológica em Mar del Plata. Me receberam de braços abertos. A única coisa que disseram foi que não queriam me prejudicar de forma alguma. ‘A única coisa que queremos é encontrar você’, me disseram. Depois eu as acompanhei ao tribunal, porque minha tia e minha avó quiseram expressar isso em juízo.


– O que você sabe sobre seus pais?


– Minha avó me mostrou fotos de quando Graciela era pequena e bebê. Minhas três filhas são como fotocópias e se as coloca ao lado de uma foto dela, não se sabe quem é quem. Do lado paterno não tenho parentes próximos, há um primo que vive nos Estados Unidos e entrou em contato comigo. Se preocuparam comigo, mas é um vínculo mais distante.


- Quando você era pequeno, sabia que havia desaparecidos?


- Não. Imagina que eu tenho 33 anos. Fui bem jovem nos anos 80, 90. Aqui houve uma ruptura depois de 2003, com o ressurgimento dos direitos humanos.


- Bem, mas aconteceram coisas antes. Quando dos 20 anos do golpe, em 1996, houve uma mobilização muito importante, por exemplo.


- Os anos 90 foram despolitizados. Não existia a militância que há hoje.


- E como você começou a trabalhar na Força Aérea?


- Eu estudava Economia em El Salvador. Meu velho trabalhava na Força Aérea e comecei a trabalhar aí. A escolha da advocacia tem muito a ver com o processo. Comecei em 2004 a estudar Direito devido à questão judicial e para ter outra atividade remunerada. Agora trabalho no Ministério da Defesa.


- Como era ter o processo sobre sua identidade e trabalhar na Força Aérea?


- Nunca me criaram qualquer problema nem entraves. Respeitaram minha situação. Para mim foi um assunto que eles consideraram privado e me respeitaram e sempre me deram apoio humano, sobretudo as pessoas.


- Como foi o encontro com sua família? Quando os conheceu?


- Eu queria expor a eles minhas razões e minha maneira de sentir. ‘Abuelas’ fez o anúncio numa segunda-feira – e agradeço a forma como o fizeram, respeitaram minha postura – e na quinta-feira tomei a decisão de ir ver minha família biológica em Mar del Plata e expor minhas razões e meus sentimentos, quis dar o primeiro passo. Elas iam respeitar meus tempos, assim que se emocionaram por eu ter querido ir vê-las. Minha tia foi me receber no aeroporto e a reconheci porque era a única mulher que estava chorando.


- Você se negou a fazer o DNA e fizeram uma busca em sua casa que resultou negativo. Quer contar o que aconteceu?


- Vieram um dia às 5:45 horas da manhã. Eram dois policiais com um perito do Hospital Durand e duas testemunhas. Levaram peças de roupa que estavam em minha casa, por assim dizer...


- Bem, você não quer contar. Mas depois foram buscá-lo e o levaram ao juiz.


- Afinal se extraiu material para o DNA de minha camisa, que não foi entregue voluntariamente, em juízo.


– Que diria a outros jovens, como no caso dos Noble Herrera, que não querem fazer o exame de DNA? (Referência a Marcela e Felipe, suspeitos de terem sido bebês roubados durante a ditadura. Eles são filhos adotivos de Ernestina Herrera de Noble, dona do grupo de comunicação Clarín, e nos últimos 10 anos têm resistido à pressão judicial para não se submeterem a exames de DNA).


- Se me perguntasse antes desta nova situação... mas hoje, sinceramente, lhes diria ‘não perde nada, trata de somar e se livra da dúvida’. Não somente para eles, para qualquer um que esteja nesta situação. Afinal, não veem com má intenção, é a mesma coisa, eu falo do meu caso pessoal. Devemos tratar de somar na vida.


Tradução: Jadson Oliveira

quinta-feira, 19 de maio de 2011

GRUPO CLARÍN, ONDE A JUSTIÇA NÃO CHEGA (Dois vídeos)

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De Buenos Aires (Argentina) - de 17/05/2011 - Protesto convocado por "Abuelas" (Avós) da Praça de Maio para marcar os 10 anos de tramitação da ação judicial para comprovação da identidade de Marcela e Felipe, filhos adotivos de Ernestina Herrera de Noble, dona do Grupo Clarín, a mais importante corporação de mídia do país, está para a Argentina como a Rede Globo está para o Brasil. Se igualam inclusive na cumplicidade com as últimas ditaduras dos dois vizinhos do Cone Sul.

Pesa sobre Marcela e Felipe a suspeita de terem sido bebês roubados dos presos políticos desaparecidos pelos repressores. Os advogados de Clarín, no decorrer dos 10 anos, têm conseguido evitar ou adiar os exames de DNA para comprovação ou não da suspeita.

A manifestação, que reuniu em torno de 4 mil pessoas, foi no final da tarde de terça-feira, dia 17, na área central da capital portenha, chamada Tribunales, em frente ao prédio da Suprema Corte de Justiça. Houve discursos e show musical.

O primeiro vídeo pega a parte inicial do discurso de Estela de Carlotto, presidenta de Abuelas. E o segundo o final do discurso, com um pouco da continuação do ato. Abaixo, algumas fotos. (Quem quiser ver os vídeos em formato maior pode entrar no YouTube, blogevidentemente).
Estela de Carlotto falando durante a manifestação, seu rosto está
projetado no telão; atrás alguns dos 103 "netos", jovens na faixa
dos 30 anos que foram bebês roubados durante a ditadura e que
já tiveram suas identidades restituídas (Foto: Reprodução) 
Ernestina Herrera de Noble, dona do Grupo Clarín, entre os filhos
adotivos Felipe e Marcela (Foto: Reprodução)

As bandeiras de La Cámpora, entidade que mobiliza a juventude
kirchnerista, defronte da Suprema Corte de Justiça
(Foto: Jadson Oliveira)




Em outra área da concentração, estavam os militantes
da Juventude Sindical (Foto: Jadson Oliveira)


terça-feira, 17 de maio de 2011

CRESCE O MOVIMENTO PELA DESCRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO (Notas argentinas)

De Buenos Aires (Argentina) - A Universidade Nacional da Patagônia San Juan Bosco (província – estado - de Chubut, sul da Argentina), através de resolução de seu Conselho Superior, se pronunciou a favor da descriminalização do aborto. Já é a sétima casa de altos estudos do país que pede ao Congresso a aprovação de lei que garanta o acesso à interrupção voluntária da gravidez, em sintonia com a proposta da Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito, cuja militância se caracteriza por usar panos verdes amarrados na cabeça. Há atualmente projetos nesse sentido em debate na Câmara dos Deputados.


As militantes argentinas conseguiram também o apoio da Internacional da Educação, a federação sindical mundial que representa mais de 35 milhões de trabalhadores da educação, aqui representada pela Ctera (Confederação dos Trabalhadores da Educação da República Argentina).



Polícia na era dos Direitos Humanos


Novos tempos, novos nomes. De acordo com resolução do Ministério da Segurança, as três escolas de formação da Polícia Federal da Argentina (PFA) – Escola de Cadetes, Escola de Agentes e Suboficiais e Escola Superior de Polícia – tiveram seus nomes trocados. Deixaram de homenagear policiais ligados à violência repressiva, instrumento do terrorismo de Estado, e adotaram nomes “cuja trajetória esteve associada com a democracia e seu trabalho teve uma forte vinculação com a comunidade”, conforme explicações oficiais. As matérias dos cursos e seu conteúdo serão atualizados dentro da nova orientação.


A PFA , desde o início deste ano, deixou de usar armas de fogo quando atua nos chamados “conflitos sociais” – protesto de trabalhadores, “corte” de ruas, atos dos movimentos sociais, etc -, frente aos quais a prioridade é o diálogo.


A corporação é subordinada ao governo federal e, no que diz respeito ao policiamento das ruas de Buenos Aires, cumpre papel semelhante ao das PMs brasileiras, subordinadas aos governadores.



Justiça reconhece genocídio escondido pela história oficial


“O Estado turco cometeu o crime de genocídio contra o Povo Armênio, no período compreendido entre os anos 1915 e 1923”, no qual foram assassinados um milhão e meio de pessoas mediante um “estruturado planejamento exterminador”. A sentença, há quase um século daqueles fatos aberrantes, foi assinada bem distante de onde ocorreram: foi lida nos tribunais portenhos, pelo juiz federal Norberto Oyarbide, o primeiro magistrado no mundo que aplica para o caso armênio a jurisdição universal num processo que equiparou aos Julgamentos pela Verdade que se levaram a cabo na Argentina quando as leis de impunidade impediam julgar os crimes de lesa humanidade cometidos durante a última ditadura (1976-1983). A condenação é uma “resolução declarativa”, quer dizer que não tem efeitos penais, mas terá um importante valor para que as famílias das vítimas e sobreviventes daquela matança se apresentem em outros foros internacionais.


(Só o título é deste blog. O texto é tirado de uma matéria do jornal Página/12, assinada por Irina Hauser).




Como anda a democracia na cabeça dos jovens


Apesar dos avanços democráticos na Argentina, particularmente na política de Direitos Humanos, os jovens não parecem muito entusiasmados com o que chamamos democracia. Uma pesquisa realizada pelo Ministério da Educação, com 500 mil secundaristas da região metropolitana de Buenos Aires, dá o seguinte resultado: Pergunta: “A democracia é a melhor forma de governo para nosso país e o mundo?” Respostas: “Sim, sempre” - 40%; “Às vezes sim, às vezes não” – 30%; não – 5%; não sei – 25%. Além disso, 40% preferem que haja muitos partidos, enquanto 20% preferem “um só”.



segunda-feira, 16 de maio de 2011

VOOS DA MORTE: “IAM CAINDO COMO FORMIGUINHAS” (Notas argentinas)

De Buenos Aires (Argentina) - Na semana passada, dia 10, a Justiça mandou prender um advogado, um ex-policial e três ex-pilotos, acusados em processo que apura os chamados “voos da morte” durante a última ditadura argentina (1976-1983), nos quais presos políticos eram sedados e jogados de aviões nas águas do Atlântico e do Rio La Plata. Os ex-pilotos são envolvidos no assassinato de duas freiras francesas e mães de presos políticos fundadoras de “Madres” (Mães) da Praça de Maio, sequestradas e lançadas nos “vuelos de la muerte” em dezembro de 1977.


Um outro que está preso desde 2009 pelo mesmo motivo é o ex-oficial da Marinha Emir Sisul Hess. Trecho de relato feito à imprensa na época de sua detenção por pessoa que conviveu com ele:


- Não sentia pena daquela gente? – lhe perguntaram.


- Não, não sofriam. Levavam eles dopados e os atiravam ao rio – respondeu Hess na terceira pessoa. – Eram pessoas muito pesadas. Aqueles idiotas não sabiam onde iam parar: no Tigre, no Riachuelo ou no Rio Paraná. Iam caindo como formiguinhas.




Cardeal primaz chamado a depor


O cardeal primaz da Argentina, Jorge Bergoglio (foto), foi chamado por um Tribunal Federal a depor como testemunha em processo sobre o roubo de bebês durante a ditadura, o chamado Plano Sistemático de Apropriação de Menores. Um dos acusados neste processo é o ex-ditador Jorge Rafael Videla, já preso cumprindo duas condenações: uma de 25 anos e outra de prisão perpétua.


Em depoimento que deu neste processo, Estela de la Cuadra (filha de uma das fundadoras de “Abuelas” – Avós – da Praça de Maio e que tem sete familiares desaparecidos) relatou que seu pai, quando procurava uma filha (irmã de Estela) sequestrada e sua neta nascida em cativeiro, manteve correspondência com o religioso, que então era chefe dos jesuítas. E questionou uma declaração do cardeal de que não tomara conhecimento do roubo de bebês na época do regime militar.


Como alta autoridade da Igreja Católica, Bergoglio tem o privilégio constitucional, caso prefira, de ser ouvido em casa ou responder por escrito.



Cerco contra os cúmplices civis da ditadura


A Justiça da província (estado) de Buenos Aires começou a investigar os processos de adoção de todos os recém-nascidos supostamente abandonados na província durante a ditadura, na tentativa de encontrar casos de roubo de bebês de presos políticos desaparecidos (assassinados). O objetivo é determinar a responsabilidade dos juízes que atuaram nas adoções. A iniciativa está dentro da ofensiva da sociedade argentina no sentido de julgar e punir os cúmplices civis do regime militar.




Salário mínimo na Argentina


Informei aqui numa matéria recente que o salário mínimo na Argentina é 1.270 pesos. A informação está meio capenga. Este valor é o mínimo pago aos aposentados. O do pessoal na ativa é, na verdade, 1.840 pesos, superior, portanto, ao do Brasil (em torno de 440 dólares).


sábado, 14 de maio de 2011

“AGORA ME SINTO UMA PESSOA COMPLETA” (Gabriel Matias Cevasco)


Gabriel aos 25 anos:“A surpresa foi quando confirmei que havia muitas
 pessoas que durante 24 anos estavam me procurando e mais ainda
quando me disseram que meu pai estava vivo” (Foto: Reprodução) 
“Sabia que não era filho biológico, mas durante anos não me animei nem sequer a tocar no assunto”, recorda Gabriel, que em outubro de 2000 recuperou sua verdadeira história. Até então, sua namorada – hoje sua esposa – lhe dizia: “Mas veja se você tem irmãos ou se seus pais estão vivos”. Porém, Gabriel estava convencido de que seus pais estavam desaparecidos, na verdade lhe haviam dito que eles tinham sido mortos num enfrentamento.


“Aos 21 anos me animei, fui à CONADI (Comissão Nacional pelo Direito à Identidade) e logo depois a ‘Abuelas’ (Avós da Praça de Maio). Não podia suportar mais desconhecer minhas origens e, sobretudo, a verdade”. Gabriel pôde reencontrar seu pai: “A surpresa foi quando confirmei que havia muitas pessoas que durante 24 anos estavam me procurando e mais ainda quando me disseram que meu pai estava vivo”. Gabriel tinha três meses quando foi seqüestrado, e ia nos braços de sua mãe, Maria Delia Leiva, que continua desaparecida.


“Seria terrível para mim passar a vida desconhecendo quem era na realidade e ignorando os que tanto me amavam e estavam me procurando. Minha vida, agora, transcorre normalmente. Me sinto uma pessoa completa. Sempre me senti incompleto, até o dia em que conheci meu velho, me conheci a mim mesmo, descobri quem era, qual era meu verdadeiro nome”.

(De Buenos Aires/Argentina - Gabriel completou em outubro do ano passado 34 anos. Viveu até aos 24 anos com o nome de Ramiro Hernán Duarte. É um dos 103 “netos” e/ou “netas” já identificados, recém-nascidos roubados dos presos políticos pelos repressores da última ditadura argentina – 1976-1983. Sua mãe foi sequestrada com ele em 11 de janeiro de 1977. A matéria acima foi traduzida do sítio de Abuelas de Plaza de Mayo – www.abuelas.org.ar).




Identificada a “neta 103”


No mês passado foi identificado mais um bebê roubado durante a ditadura, chegando à “neta 103”, como dizem aqui. Quer dizer, dos cerca de 500 recém-nascidos apropriados pelos repressores, conforme estimativa de “Abuelas” (Avós) da Praça de Maio, até agora 103 foram identificados e tiveram suas identidades restituídas. No caso, trata-se de uma mulher chamada Maria, criada por uma família da cidade de Santa Fé, que passará a usar seus verdadeiros sobrenomes. Ela é filha de Cecilia Beatriz Barral (desaparecida/assassinada), que militava no Exército Revolucionário do Povo (ERP) e estava grávida quando foi sequestrada em 2 de agosto de 1976.


quinta-feira, 12 de maio de 2011

DO LUTO À LUTA: O LIVRO É UM GRITO

(Texto e fotos reproduzidos do blog Fazendo Media: a média que a mídia faz, postagem de 11/05/2011)

No dia 12 de Maio de 2006, há exatos 5 anos, a vida de muitas de nós começava a mudar radicalmente: tivemos nossos filhos tirados do nosso convívio familiar violentamente por agentes do Estado Brasileiro e por Grupos de Extermínio ligados a ele durante os terríveis Crimes de Maio. O nosso movimento, de Mães, Familiares e Amig@s de vítimas do Estado, surgiria infelizmente a partir deste trágico episódio.


Ao completar 5 anos, é óbvio que não poderíamos deixar de lembrar nossos tão queridos filhos e filhas. Eles têm estado e seguirão Presentes conosco! Ontem, Hoje e Sempre!


Por ocasião do Aniversário dos 5 Anos dos Crimes de Maio, e da união com tantas outras lutas e movimentos contra o mesmo Genocídio, nós estamos vindo aqui convidar vocês para uma série de importantes atividades. Uma semana inteira repleta de Homenagens, Protestos, Lançamento de Livros, Exibição de Vídeo, Lutas e Poesias!


Caso se interessem, vocês podem conferir a PROGRAMAÇÃO COMPLETA DESTA SEMANA DE LUTAS NO BLOG DAS MÃES:


http://www.maesdemaio.blogspot.com .


Nessa programação, faremos uma ATIVIDADE ESPECIAL NA QUINTA-FEIRA (12/05), QUANDO SE COMPLETAM EXATOS 5 ANOS. Neste dia LANÇAREMOS O LIVRO “MÃES DE MAIO – DO LUTO À LUTA”.


Na sexta-feira (13/05) nos juntaremos ao 13 de Maio de Luta Contra o Genocídio do Povo Negro.


Compartilhamos abaixo com os leitores do Passa Palavra, em primeira mão, a apresentação deste nosso livro.


Boa leitura, e aguardamos tod@s vocês nas atividades desta semana de luta!


O Livro é um Grito

Ei, Você, Leitor ou Leitora: Tudo Firme?


Seja Bem-Vindo ou Bem-Vinda a este Livro!


Você vai começar a ler a partir de agora um Livro diferente do quê se está habituado a ver por aí, a se comprar, a se ler… Isso quando temos condições e tempo para ler, não é?


Este Livro não é daqueles que late e não morde. Este livro Grita. Este Livro é Não. Nosso currículo é nosso pé, nossa mão, nossa história! Este Livro na verdade é um Grito muito Forte e Sincero, arrancado de lá do fundo da nossa alma, de cada uma de nós: do Luto à Luta!


E por que ele é um Grito de Luto? Por que ele é um Grito de Luta?


Nêgo, Nêga: seria simples explicar, se não fosse Tão Difícil fazer-se entender…


Esse Livro é uma conquista, a muitas duras penas, de um Movimento de Mães Guerreiras: as Mães de Maio da Democracia Brasileira. Uma conquista de Gente Humilde, de Pessoas Trabalhadoras, Anônimas, Guerreiras de um pequeno coletivo que têm em comum duas coisas fundamentais: 1) Nós não somos ricas, não exploramos ninguém, nem ocupamos nenhum cargo de poder; 2) Nós tivemos os nossos filhos ou filhas tirados violentamente do nosso convívio familiar por agentes do Estado Brasileiro e/ou por Grupos de Extermínio ligados a ele, os quais no auge do dito regime democrático decretaram sumariamente a pena de morte de nossos filhos por os considerarem “suspeitos”, descartáveis. Agentes que julgaram, decretaram e executaram a pena capital ali, nas quinas das esquinas. Essas mesmas Bestas que seguem caminhando impunemente pelas esquinas daqui e dali, aqui e agora.


Talvez três coisas em comum: 3) Nós também decidimos que isso não iria passar, nem ficar assim: a partir da nossa Dor, do nosso Encontro e da nossa União – iniciada por três mães da Baixada Santista -, decidimos que Lutaríamos e Lutaremos pela Memória, pela Verdade, pela Justiça e por Liberdade, não apenas de nossos tão amados Filhos e Filhas, mas por toda a Sociedade. Uma sociedade verdadeiramente sitiada, uma ditadura perpetuada que vitimou nossos filhos, cuja Memória e Inspiração são nosso alimento cotidiano para lutar por uma verdadeira e melhor Coletividade: Para Tod@s!


Seria um simples livro, se não fosse uma Batalha Difícil, uma Gritaria todos os dias, Compa Leitor ou Leitora, contar às pessoas que nosso movimento surgiu a partir dos terríveis Crimes de Maio, quando entre os dias 12 e 20 de Maio de 2006, apenas no estado de São Paulo, a polícia e grupos de extermínio ligados ao Estado assassinaram mais pessoas do que ao longo de toda terrível Ditadura Civil-Militar assassinou no Brasil inteiro, durante seus mais de 20 anos de vigência…


Sim, Companheiro: Muita gente ainda não tem a menor idéia que esses dez dias foram um pesadelo real e que, de alguma maneira, segue acontecendo cotidianamente pelas periferias, pelas comunidades pobres e bairros simples do país… A polícia extorquindo, torturando, prendendo e matando… Famílias sendo destruídas por agentes do Estado e do Dinheiro. Todos os dias… Sobretudo contra a população Pobre e Negra.


Ora, quem foi que deu grande importância – se não meia-dúzia de “loucos” e “loucas” como nós, que já vivemos o drama na pele – ao terrível dado de que entre os anos de 1998 a 2008, no Brasil, mais de 500.000 pessoas foram assassinadas – sendo grande parte delas executadas por agentes do Estado Brasileiro? Sim, Nêga: estes são dados oficiais, do “Mapa da Violência no Brasil” divulgado em 2011 pelo insuspeito Ministério da Justiça. Um país que, mesmo diante destes números terríveis de genocídio, segue aceitando como legítima a alegação de policiais assassinos que colocam a rubrica “auto de resistência” ou “resistência seguida de morte” para justificar o quê, na prática, é uma verdadeira “licença para matar” pessoas pobres, pretas e/ou anônimas. Aquelas que eles são pagos para controlar, para aterrorizar, e para descartar quando bem entenderem.


Nunca é demais repetir: apenas entre os dias 12 e 20 de Maio de 2006 foram mais de 500 pessoas assassinadas no estado de São Paulo, na maioria jovens que hoje constam como mortos ou desaparecidos – e bastaria que tivesse sido apenas um! -, dessas Tantas Histórias da onde surgiram as Mães de Maio, Guerreiras Incansáveis que Somos.


A impunidade histórica é tamanha, e a licença para matar é tão escancarada que os Capitães do Mato da atualidade acharam que poderiam matar mais de 500 jovens pobres e negros num curtíssimo espaço de tempo, especialmente nas periferias de São Paulo, em Guarulhos e na Baixada Santista, e que todo mundo iria ficar quieto e aceitar a versão oficial deles, da elite, de que todos os mortos teriam merecido morrer pois eram “suspeitos”, “bandidos”, “do PCC”. Logo o Estado, que é o Crime Organizado em Pessoa, vem taxar os nossos filhos de “suspeitos” ou “bandidos” e, além do mais, decretar sumariamente a “pena de morte”, em flagrante contradição com as suas próprias leis?!


Que moral tem este Estado e seus agentes para falar de quem quer que seja?! Ainda mais de Nós e de nossas Famílias de Trabalhadores?! O quê os seus agentes conheciam da história, das famílias e das trajetórias dos meninos e meninas mortos nas ruas a esmo, simplesmente por serem pobres e pretos, ou por estarem “na hora errada no local errado”?! Qual o critério para se taxar, julgar e se decretar a pena de morte a quem quer que seja?! Até que ponto eles acham que podem chegar tirando seus próprios “cidadãos” de otários, de imbecis – como fazem desde os tempos da colônia e da escravidão?! Será que eles acham que a população comum, o povo pobre, negro, das periferias, a maioria da sociedade, enfim, nunca vai se rebelar frente a tanta violência e mentira?!


Neste caso se enganaram!!! Os Crimes de Maio foram o limite do absurdo! Ultrapassaram todos os limites imagináveis! E muita gente começa a acordar: o maior massacre cometido na história contemporânea do Brasil!


E deste trágico limite, ao menos, felizmente, nasceu o nosso Movimento de Mães, que se encontrou com outra maravilhosa Rede Contra Violência no Rio de Janeiro – já existente antes de nós, de Mulheres e Homens Guerreiros como nós – vítimas nos morros cariocas dos mesmos agentes do Estado Brasileiro -, além de companheiros da Bahia, do Espírito Santo, de Minas, do Pará: todo mundo vivendo a mesma situação, do Luto à Luta contra o Terrorismo do Estado. Da Revolta à Consciência, à Organização!


Hoje, nós Mães de Maio apresentamos o nosso primeiro Livro, o nosso primeiro Grito em páginas impressas, sem intermediação de outras falas e outros pseudo-representantes que nunca sentiram o quê nós sentimos na pele esses anos todos – mas que sempre fazem questão de se apresentar como nossos porta-vozes. Não queremos ninguém falando pela gente: queremos aprender errando, se corrigindo, melhorando, se enfando, ouvindo, gritando, acalmando, indo de novo pra cima, refletindo, compartilhando, se fortalecendo… Com os nossos! Este Livro é o nosso Grito, nosso primeiro Livro-Grito, e até por ser nosso e por ser primeiro, fazemos questão de Tudo – dos acertos, dos erros, dos nossos parceiros, dos poetas e parceiros que convidamos, das ilustrações, do limite de espaço, e de grana, da nossa correria pra fechá-lo, da ausência de bacanas – em meio a novas chacinas na Baixada Santista, as tretas nossas de todos os dias -, da vida louca que nos obrigam a levar…


Eles que nos matam-vivas todos os dias, e fazem questão de não nos escutar. Mas nós insistimos em Gritar! E insistimos em sorrir também! Não vão tirar isso da gente!


Este Livro é um Grito, Mais Um Grito Nosso. E nós também rimos da cara deles, para o seu desespero…


E se eles se fazem de surdos e de rogados… E se muitos dos nossos insistem em não acordar, resignados… E se muitos dos nossos ainda se perdem em muitas picuinhas e competições bestas, mesquinhas, disputando holofotes e espaços… Nós depois que passamos a nos organizar e a lutar, pouco a pouco, passo a passo, somos e seremos cada vez mais gritantes, incansáveis. “Coração em chamas e os punhos cerrados!”


E o Tempo é Rei, Nêga: dessa Luta acreditamos que pode nascer Outro Dia, outro tipo de sociedade aonde falaremos, aonde escutaremos, aonde seremos realmente escutadas. Aonde pensaremos e construiremos as coisas juntas, principalmente o Amor. E poderemos assim decidir sobre as nossas Vidas, Vivas-Vidas, como os nossos Filhos e Filhas, roubados de nós pelo Estado, deveriam ter tido a Liberdade de decidir, de ir ou vir, e de Viver-Feliz. Eles seguem e seguirão conosco! Presentes! Agora e Sempre!


Não: certamente a sociedade em que vivemos e sobrevivemos – sociedade dominada pelo dinheiro, pelas armas, pela polícia e pelas hierarquias de poder – certamente ainda não estava preparada para Ouvir toda nossa Revolta. Não estava preparada para nossa Presença… Sentimos isso no cotidiano de nossas incansáveis Lutas… Surdos-Vivos… Porém, nós não desanimamos…


Por isso Gritamos, muitas vezes. Para ouvir tudo o que Desejamos Falar. Por isso buscamos palavras, entre erros e acertos. Nossas Palavras. Por isso chegamos nesse nosso primeiro Livro.


Do Luto à Luta ao Livro! À Liberdade!


Mães de Maio, Mães de sempre


Uma Boa Leitura para Vocês!


(*) Texto das Mães de Maio, reproduzido do sítio PassaPalavra.

(Comentário de Jadson: Está aí um produto genuíno da nossa democracia. É uma voz estranha, dissonante, assustadora, mas é do mundo real, uma voz que sai lá do fundo da grande maioria do povo brasileiro. Para quem não se lembra: esses assassinatos de maio de 2006, em São Paulo, foram o resultado da resposta da polícia paulista quando dos ataques às instalações da PM e outros atos violentos, como queima de ônibus, atribuídos ao Primeiro Comando da Capital - PCC).