quinta-feira, 29 de setembro de 2011

ELE ESTEVE FRENTE A FRENTE COM O CARRASCO FLEURY (Memória de Olderico Barreto)


Olderico na missa celebrada no coreto do povoado de
Buriti Cristalino (Foto: Jadson Oliveira)
Olderico no fundo da casa da família contando os momentos de aflição durante o ataque
dos truculentos homens de Fleury (Foto: Revista Noite e Dia, de Seabra-Ba)
De Salvador (Bahia) - “Isso é um bicho”, exclamou, espantado, um dos repressores quando costuravam a mão de Olderico Campos Barreto, sem anestesia, e ele não dava um gemido sequer. Um pouco antes, um grupo de agentes da ditadura do Rio de Janeiro tinha assumido o interrogatório, tachando o pessoal de São Paulo de “bunda-mole” porque não conseguiam arrancar de Olderico a informação sobre onde Lamarca estava escondido. “Vamos ver se ele não fala”, disse um e meteu a boca da pistola no ouvido de Olderico. “Aperta o dedo”, desafiou – ou foi “aperta o gatilho?”, ele se pergunta ao contar o episódio 40 anos depois -, para o espanto dos torturadores, assombrados com tamanho destemor. E um deles soltou o “elogio”: “Isso é um bicho!”


Era o dia 28 de agosto de 1971. Olderico, então com 23 anos, tinha sido ferido no ataque do grupo comandado pelo temido delegado Sérgio Paranhos Fleury - chefe de torturadores e de grupo de extermínio da polícia paulista - à casa do seu pai, o velho José Barreto, em Buriti Cristalino, povoado do município de Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina, a cerca de 600 quilômetros de Salvador. Fleury estava à procura do capitão do Exército que virou guerrilheiro, Carlos Lamarca, que estava escondido no mato, a pouca distância do povoado, em companhia do seu irmão mais velho Zequinha (José Campos Barreto), então companheiro de militância no MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro, antes eles militaram na VPR – Vanguarda Popular Revolucionária) e que se tornara também inimigo da ditadura ao liderar, em 1968, a famosa greve dos metalúrgicos de Osasco, em São Paulo.


Lamarca e Zequinha ouviram a fuzilaria no povoado, na casa do velho José Barreto, e fugiram tentando escapar do cerco. Pelo mato, a pé, fragilizados pela desnutrição, isolados dos moradores levados a vê-los como terroristas, foram mortos poucos dias depois, no dia 17 de setembro, após uma marcha heróica por aquela inóspita região do semi-árido. Já sem condições de oferecer resistência, foram metralhados por um comando do Exército, sob a chefia do então major Nilton Cerqueira, nas proximidades de Pintada, povoado do município de Ipupiara, pertinho do limite com Brotas de Macaúbas. Estes episódios estão no livro “Lamarca, o capitão da guerrilha”, de Emiliano José e Oldack Miranda, que virou filme dirigido por Sérgio Rezende, e no documentário “Do Buriti à Pintada – Lamarca e Zequinha na Bahia”, de Reizinho Pereira dos Santos.


Em Pintada, no local onde Lamarca e Zequinha foram mortos, com Edson Argolo (Edinho),
seu companheiro de prisão em Salvador (Foto: Jadson Oliveira)
Relatou repetidas vezes, com paciência de missionário, estes assombrosos acontecimentos


Olderico, agora com 63 anos, é a principal testemunha da tenebrosa violência que se abateu sobre a família do patriarca José Barreto, então com 65 anos, que sobreviveu a terríveis torturas. Veio a morrer em 1995. Durante o ataque à sua casa morreram outro dos seus filhos, Otoniel (esboçou uma temerária reação, seguida da tentativa desesperada de fuga, ao ouvir os gritos do pai sob tortura), e o militante Luiz Antônio Santa Bárbara, companheiro de Lamarca e Zequinha, que estava morando em sua casa.


Ao amanhecer do dia 28 de agosto de 1971, Olderico estava no centro do furacão. Por um momento no desigual tiroteio, se viu frente a frente com Fleury, mas teve a sorte de, ferido na mão e no rosto, tombar para dentro de um dos cômodos da casa e sair da linha de fogo. Ele conta tentando entender aqueles momentos de extrema aflição: os truculentos agentes de Fleury chutavam e pisavam na sua mão direita, ferida à bala, e até hoje deformada.


Nos atos públicos e celebrações dos últimos dias 17 e 18, realizados em Brotas de Macaúbas, Buriti e Pintada, para marcar os 40 anos do assassinato de Lamarca e Zequinha, Olderico relatou repetidas vezes às dezenas de visitantes, aos repórteres, fotógrafos e documentaristas, com paciência de missionário, estes assombrosos acontecimentos, já bem conhecidos nos contornos gerais, mas mesmo assim com lances emocionantes, especialmente quando relatados por um tal protagonista. (Depois da prisão e uma temporada em São Paulo, ele decidiu retornar à sua terra pensando em fazer alguma coisa em benefício dos seus conterrâneos. Atualmente é gerente da Cooperativa Agro-mineral Sem Fronteiras Ltda (CASEF) – Brotas se destaca na produção de cristais de quartzo - e um cidadão participante da vida social e política da região, como se pode ver no decorrer deste relato).


Guiados por suas indicações, sua memória e seu entendimento, e entretidos pela atração dos detalhes, vimos o local onde os dois patriotas tombaram, perto de Pintada – o destemido Zequinha ainda com forças para correr e gritar “viva a revolução” e o capitão guerrilheiro já, de fato, tombado, deitado no chão, as forças já quase completamente exauridas. Vimos onde os dois corpos foram quebrados para serem conduzidos pendurados em paus, como carne e ossos de animais, nos ombros dos repressores, e onde foram estendidos em forma “de valete” – cabeça de um com pés do outro – e expostos à execração pública.


A casa do pai, o velho patriarca José Barreto, em Buriti, que foi doada ao Instituto Zequinha
Barreto e está atualmente em reforma (Foto: Revista Noite e Dia, de Seabra-Ba)
Visitamos a então casa da família Barreto em Buriti – o imóvel está em reforma, foi doado ao Instituto Zequinha Barreto para virar um centro de memória. Vimos o quarto onde foi colocado, ferido, junto aos corpos do irmão Otoniel e de Santa Bárbara, Olderico fala do sangue dos três escorrendo; vimos a porta de outro quarto, já nos fundos, por onde ele caiu depois de atingido pelas balas, ficando fora da linha de fogo; o quintal de onde partia a cerrada fuzilaria; a marca de uma bala no batente de uma janela. Fala horrores dos agentes da ditadura comandados por Fleury, mas, ao mesmo tempo, menciona com reverência o Exército brasileiro, assinalando que Zequinha serviu nas Forças Armadas.


“Não é possível que esses homens não tenham direito à terra e ao trabalho”


Ele nos mostrou a rota da tentativa de fuga do irmão Otoniel e o ponto onde finalmente tombou, a uma centena de metros do quintal da casa. Reproduzo de memória o sentido de suas palavras: “Aqui, junto desta cerca de arame, ficou o corpo de Otoniel, desde cedinho quando ocorreu o ataque. Já eram umas 10 horas e as aves de rapina começaram a bicar o corpo. Zé de Virgílio (José Pereira de Oliveira, muito amigo de seu pai) viu que estavam comendo o olho de meu irmão e não aguentou ver aquilo. Cobriu o corpo com um couro de boi e foi pedir aos homens da repressão para evitar tamanha desumanidade”.


Lembra sempre da necessidade de resgatar a memória e a verdade do difícil período da ditadura, enfatizando essa coisa terrível de serem tachados de terroristas os que lutavam contra o regime militar, o terrorismo de Estado. Contou até uma passagem engraçada: uma vez ele foi convidado por um amigo para um almoço em sua casa e, ao chegar, o amigo o apresentou à esposa, anunciando se tratar do “maior terrorista do Brasil” (o amigo desconhecia o sentido pejorativo do termo, parecendo achar que “terrorista” era uma espécie de elogio).


Deu seu testemunho durante a missa celebrada em louvor aos mártires, no coreto de Buriti, convidado pelo principal celebrante, Dom Frei Luiz Cappio, bispo da Diocese de Barra. Ressaltou mais uma vez a luta do irmão Zequinha e a bela pessoa humana que era o capitão Lamarca e aproveitou para pedir, como sempre faz nas mais variadas oportunidades - dirigindo-se desta vez diretamente ao prefeito de Brotas, Litercílio Júnior, do PT, que estava presente –, melhorias para seu querido povo de Buriti Cristalino.



Discursando na praça central de Brotas de Macaúbas no dia 17 de setembro
(Foto: Iago Aquino - Revista Noite e Dia, de Seabra-Ba)
 No ato público do dia 17, manhã de sábado, na praça central de Brotas de Macaúbas, Olderico foi chamado a discursar entre as diversas autoridades e políticos que participaram dos eventos em defesa da memória e da verdade. Falou novamente da importância de se resgatar a verdadeira história, lembrou as privações de Lamarca no seu precário esconderijo no mato, a sua vontade impossível de manter contato com os camponeses, da vontade impossível de trabalhar fazendo farinha com os moradores da região, falou da seca, da fome, do rádio através do qual o capitão escutava as notícias dos lutadores brasileiros nas emissoras da China, da União Soviética e da Albânia.


E, mais uma vez, deu seu recado em favor dos conterrâneos “para os companheiros do governo que estão aqui”. Pediu a construção de estrada e outros melhoramentos para os mineiros. Bradou no seu jeito humanitário: “Não é possível que esses homens não tenham direito à terra e ao trabalho”.


“...jamais voltarão esses grupos que assassinam pessoas, que assassinam seus adversários”


Transcrevo agora o breve discurso de Olderico, também na praça principal de Brotas, na noite de 29 de julho deste ano, logo depois de assistir ao lançamento nacional do documentário “Do Buriti à Pintada”, contendo depoimentos de militantes políticos daquela época, moradores e familiares seus, incluindo o pai José Barreto (o discurso está em vídeo postado neste blog em 30/julho):


Olderico e Reizinho, autor do filme "Do Buriti à Pintada" (Foto: Revista Noite e Dia)
“Em nome da família Barreto, em nome da minha família, eu queria agradecer a Reizinho e toda a equipe do filme na pessoa de Reizinho, pelos momentos que nos propiciou e agradecer também por ter escolhido a praça de Brotas de Macaúbas para lançar o filme. Normalmente as coisas ocorrem no eixo Rio/São Paulo e a gente só fica sabendo depois. Então, queremos agradecer este privilégio e agradecer a todos que contribuíram com o filme e a todos que estão aqui. Queria dizer a vocês sobre o impacto que vi agora, me ocorreram as mais diferentes sensações... o choro, arrepio, tudo... a emoção de ver e rever pessoas como o meu pai, o resgate que foi um trabalho perfeito. Agradecemos a (Litercílio) Júnior, o prefeito, que facilitou como administrador do município todos os dados para esta comissão, esta equipe que produziu esse trabalho. Isso é democracia, e nós acreditamos nela e acreditamos que o mundo será um dia sempre melhor e jamais voltarão esses grupos que assassinam pessoas, que assassinam seus adversários. Vamos trabalhar por um mundo melhor. Obrigado”.


Como comentou um amigo que conheci na viagem a Brotas de Macaúbas, Antônio dos Santos Pinho, professor de História em Salvador, “Olderico fala com alma”.


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

BANCÁRIOS BUSCAM AMPLIAR GREVE PARA NEGOCIAR COM FORÇA (vídeo)


De Salvador (Bahia) - No primeiro dia da greve dos bancários baianos, terça-feira, dia 27, Euclides Fagundes, presidente do sindicato da categoria, faz a avaliação do movimento logo após a assembléia realizada à noite, quando foi decidida a continuidade da paralisação. Os trabalhadores pedem 12,8% de reajuste salarial, enquanto os banqueiros propõem 8%. A aposta dos sindicalistas é consolidar e ampliar a greve para ter mais força na mesa de negociação.

Seguem fotos de algumas agências bancárias no Comércio, que estavam fechadas ontem, primeiro dia do movimento (nelas, funcionava apenas o auto-atendimento). Os grevistas concentraram inicialmente seus esforços no fechamento de agências no Comércio e na Avenida Sete de Setembro, mas parte delas continuava com suas atividades. Eles pretendem ampliar sua atuação para outras áreas da cidade nos dias seguintes.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

CARTA ÀS ESQUERDAS


Boaventura de Sousa Santos
Por Boaventura de Sousa Santos (Reproduzido do blog Fazendo Media: a média que a mídia faz, de 01/09/2011)


Livre das esquerdas, o capitalismo voltou a mostrar a sua vocação anti-social. Voltou a ser urgente reconstruir as esquerdas para evitar a barbárie. Como recomeçar? Pela aceitação de algumas ideias. A defesa da democracia de alta intensidade é a grande bandeira das esquerdas.


Não ponho em causa que haja um futuro para as esquerdas, mas o seu futuro não vai ser uma continuação linear do seu passado. Definir o que têm em comum equivale a responder à pergunta: o que é a esquerda? A esquerda é um conjunto de posições políticas que partilham o ideal de que os humanos têm todos o mesmo valor, e são o valor mais alto. Esse ideal é posto em causa sempre que há relações sociais de poder desigual, isto é, de dominação. Neste caso, alguns indivíduos ou grupos satisfazem algumas das suas necessidades, transformando outros indivíduos ou grupos em meios para os seus fins. O capitalismo não é a única fonte de dominação mas é uma fonte importante.


Os diferentes entendimentos deste ideal levaram a diferentes clivagens. As principais resultaram de respostas opostas às seguintes perguntas. Poderá o capitalismo ser reformado de modo a melhorar a sorte dos dominados, ou tal só é possível para além do capitalismo? A luta social deve ser conduzida por uma classe (a classe operária) ou por diferentes classes ou grupos sociais? Deve ser conduzida dentro das instituições democráticas ou fora delas? O Estado é, ele próprio, uma relação de dominação, ou pode ser mobilizado para combater as relações de dominação?


As respostas opostas as estas perguntas estiveram na origem de violentas clivagens. Em nome da esquerda cometeram-se atrocidades contra a esquerda; mas, no seu conjunto, as esquerdas dominaram o século XX (apesar do nazismo, do fascismo e do colonialismo) e o mundo tornou-se mais livre e mais igual graças a elas. Este curto século de todas as esquerdas terminou com a queda do Muro de Berlim. Os últimos trinta anos foram, por um lado, uma gestão de ruínas e de inércias e, por outro, a emergência de novas lutas contra a dominação, com outros atores e linguagens que as esquerdas não puderam entender.


Entretanto, livre das esquerdas, o capitalismo voltou a mostrar a sua vocação anti-social. Voltou a ser urgente reconstruir as esquerdas para evitar a barbárie. Como recomeçar? Pela aceitação das seguintes ideias:


Primeiro, o mundo diversificou-se e a diversidade instalou-se no interior de cada país. A compreensão do mundo é muito mais ampla que a compreensão ocidental do mundo; não há internacionalismo sem interculturalismo.


Segundo, o capitalismo concebe a democracia como um instrumento de acumulação; se for preciso, ele a reduz à irrelevância e, se encontrar outro instrumento mais eficiente, dispensa-a (o caso da China). A defesa da democracia de alta intensidade é a grande bandeira das esquerdas.


Terceiro, o capitalismo é amoral e não entende o conceito de dignidade humana; a defesa desta é uma luta contra o capitalismo e nunca com o capitalismo (no capitalismo, mesmo as esmolas só existem como relações públicas).


Quarto, a experiência do mundo mostra que há imensas realidades não capitalistas, guiadas pela reciprocidade e pelo cooperativismo, à espera de serem valorizadas como o futuro dentro do presente.


Quinto, o século passado revelou que a relação dos humanos com a natureza é uma relação de dominação contra a qual há que lutar; o crescimento econômico não é infinito.


Sexto, a propriedade privada só é um bem social se for uma entre várias formas de propriedade e se todas forem protegidas; há bens comuns da humanidade (como a água e o ar).


Sétimo, o curto século das esquerdas foi suficiente para criar um espírito igualitário entre os humanos que sobressai em todos os inquéritos; este é um patrimônio das esquerdas que estas têm vindo a dilapidar.


Oitavo, o capitalismo precisa de outras formas de dominação para florescer, do racismo ao sexismo e à guerra e todas devem ser combatidas.


Nono, o Estado é um animal estranho, meio anjo meio monstro, mas, sem ele, muitos outros monstros andariam à solta, insaciáveis à cata de anjos indefesos. Melhor Estado, sempre; menos Estado, nunca.


Com estas ideias, vão continuar a ser várias as esquerdas, mas já não é provável que se matem umas às outras e é possível que se unam para travar a barbárie que se aproxima.


Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal). Artigo publicado originalmente na Caros Amigos.


sábado, 24 de setembro de 2011

QUE A CESTA NÃO TERMINE NUMA SEXTA! (I Cesta Cultural de Seabra)


Por Cristina Alice Cunha Ribeiro (coordenadora pedagógica do município de Seabra)


Foi num fim de tarde do dia dois de setembro deste ano, que estive na Praça Quintino Bocaiúva em Seabra-Ba, para apreciar um evento realizado pelo Projeto Velame Vivo em parceria com artistas locais, no qual deram o nome de I Cesta Cultural. A não ser no período junino, há muito não via praça e frequentadores serem agraciados por tão distintos produtos e personagens culturais do nosso município. Há inúmeras razões para se frequentar uma praça desde tomar uma cervejinha, namorar, bater papo com os amigos, como ver gente, brincar, ou mesmo curtir o ócio seja ele como for: saudável ou nocivo, quem sabe? Mas estar na praça naquele dia me fez até recordar um tempo mais tranquilo em que éramos mais ingênuos, românticos, poéticos. Digo isso porque é como se precisássemos fazer equilibrismos cotidianos em favor da boa convivência numa sociedade tão marcada pela ostentação e soberba.


Então, participar da cesta cultural me permitiu trazer à tona a minha versão mais serena e, sobretudo reaver coisas de que gosto de verdade. E dentre tantas, a arte é uma delas. Nas tranças enfeitadas da cesta surgiu a feirinha de artesanato, o palhaço contador de história, voz e violão da melhor qualidade, tinta, pincel e tela nas mãos suaves do artista, cordel, capoeira, malabarismo com fogo, poesia e teatro de rua. Imaginem tudo isso junto! Realmente posso dizer que a cesta foi trançada com cipós de diversas texturas e aromas culturais.


Educar os sentidos através da arte é alimentar a alma, deixar-se contaminar, experimentar o ócio criativo e por falar em criatividade não me canso de contemplar as obras do artista Pedro Lima. Ele, um gênio do pincel chegou à praça com sua simplicidade e deu luz a uma obra belíssima intitulada Lamparina. Ao contemplá-la pensei – Pedro pinta o simples, uma casinha lá no pé do morro do camelo e no terreiro uma grande lamparina a iluminar todo o cenário à sua volta. Mas, o simples não é fácil. Principalmente para um artista com tamanha sensibilidade. Ele pinta com o coração e isso faz a diferença. Penso que o que mais nos acorrenta é a geleira que vamos criando em redor do nosso coração. E entre me prostrar diante do banal tentando sobreviver e me aventurar naquilo que me torna mais gente, mais humana, fico com a segunda opção para assim melhor viver.


Viver cada sexta, segunda, terça..., criar, participar, trançar a cesta sem medo, sem nos paralisar frente às dificuldades cotidianas, isso é o que espero de todos nós tecelãos da Cesta Cultural de nossa encantadora Seabra.



A I Cesta Cultural foi realmente um sucesso. Tanto que a segunda já está a caminho, será na próxima sexta, dia 30. Segue uma seleção de fotos, de autoria de Smitson Oliveira:


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

PROFESSORES VÃO ÀS RUAS POR SEUS DIREITOS


A passeata foi da Praça da Bandeira até a frente da prefeitura, no centro antigo da cidade
(Foto: Smitson Oliveira)
Maristônia Rosa Oliveira, conhecida como Tânia, diretora-geral da Delegacia Sindical
da APLB-Sindicato (Foto: Smitson Oliveira)
De Seabra (Bahia) – Um dia de greve, uma passeata e um protesto diante da sede da prefeitura para pressionar o prefeito Rochinha (José Luis Maciel Rocha), do PMDB, a atender suas reivindicações. Foi na segunda-feira, dia 19, em Seabra, cidade a 460 quilômetros de Salvador, considerada o centro administrativo da Chapada Diamantina (o município tem mais de 40 mil habitantes).


Professores municipais pararam suas atividades e dezenas deles foram às ruas para exigir o cumprimento do Plano de Carreira do Magistério, aprovado no ano passado depois de 45 dias de greve da categoria. Eles pedem também o envio à Câmara dos Vereadores do Estatuto do Magistério e do Plano de Carreira para os funcionários das escolas.


Outras reivindicações são a instalação de residência estudantil na capital e a abertura da biblioteca municipal, fechada há dois anos, conforme informações de Maristônia Rosa Oliveira, mais conhecida como Tânia, diretora-geral da Delegacia Sindical da APLB-Sindicato (Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado da Bahia). Ela observou que um documento com as posições do professorado foi protocolado na prefeitura na tarde do dia 19.


Iago Aquino, presidente da Associação dos Estudantes de Seabra,
foi um dos oradores na concentração em frente da prefeitura
(Foto: Smitson Oliveira)
Os manifestantes se concentraram no início da manhã na Praça da Bandeira e desfilaram com suas bandeiras, faixas e cartazes, gritando palavras-de-ordem, ao som de canções como Caminhando, de Geraldo Vandré, até a frente da prefeitura, no centro antigo da cidade. Aí vários oradores – incluindo representantes da Associação dos Professores de Seabra e da Associação dos Estudantes de Seabra - bradaram suas exigências, queixas e denúncias contra a administração municipal. A manifestação durou até por volta do meio-dia.


Maristônia (ou Tânia) avalia que as negociações já ocorridas com representantes do prefeito não têm sido satisfatórias. Ela e seus companheiros sindicalistas trabalham para que a categoria se conscientize mais da sua importância social e engrosse mais as mobilizações. Acreditam que o movimento goze da simpatia da sociedade e pedem que a população participe das reuniões dos vereadores nas terças-feiras à noite, visando maior influência da cidadania nos assuntos do município.


Segundo a dirigente sindical, a adesão à greve do dia 19 foi total. Não houve aula em nenhuma das 61 escolas da rede pública do município (responsável pelo ensino fundamental – da educação infantil até a 8ª. série), onde existem em torno de 400 professores e quase 10 mil alunos.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

LAMARCA E ZEQUINHA: DE “TERRORISTAS” A HERÓIS DO POVO BRASILEIRO


Local em que Lamarca e Zequinha foram mortos, nas proximidades do povoado de Pintada;
pertinho daí está sendo construído o Santuário dos Mártires (Foto: Jadson Oliveira)
Olderico Barreto, irmão de Zequinha que sobreviveu aos ferimentos
 e torturas quando do ataque da repressão no povoado de Buriti
Cristalino (Foto: Jadson Oliveira)
De Salvador (Bahia) – Foram dois dias de atos públicos, celebrações e exibições de filme, dias 17 e 18 de setembro, tendo como centro principal a pequena cidade de Brotas de Macaúbas, a 600 quilômetros de Salvador, no semi-árido baiano, para marcar os 40 anos do assassinato do guerrilheiro Carlos Lamarca (capitão do Exército) e seu companheiro de militância política José Campos Barreto, o destemido Zequinha. E para seguir o processo de resgate da memória e da verdade, mostrando que, além do reconhecimento oficial, cresce a certeza na mente do povo de que os dois patriotas foram isso, patriotas, e não “terroristas” como queriam os agentes da ditadura (1964-1985), ou seja, os verdadeiros terroristas que agiam em nome do terrorismo de Estado.


Os dois mártires, para usar um termo mais do agrado da Igreja Católica, foram mortos por um comando do Exército chefiado pelo então major Nilton Cerqueira, no dia 17 de setembro de 1971, em Pintada, a 23 quilômetros da cidade de Brotas, povoado do município vizinho de Ipupiara. Quase dois meses antes, cerca de 200 repressores da ditadura – aí com a participação do delegado Sérgio Fleury, conhecido torturador e chefe de esquadrão da morte – tinham atacado os familiares de Zequinha e moradores de Buriti Cristalino, povoado de Brotas a 26 quilômetros da sede do município, em cujas proximidades estava escondido Lamarca, que fugia da repressão nas grandes cidades. Buscavam “o capitão da guerrilha”, como diz no título o livro de Emiliano José e Oldack Miranda. Por isso, os eventos do final de semana se deram também em Pintada e em Buriti.


Ato público no Santuário dos Mártires, ainda em construção, perto de Pintada e do local
 em que Lamarca e Zequinha foram mortos, para onde serão levados os restos mortais de
 lutadores pela causa popular (Foto: Iago Aquino/Revista Noite e Dia)
Dom Luís Cappio durante celebração no coreto do povoado
de Buriti Cristalino (Foto: Jadson Oliveira)
Além de Lamarca e Zequinha, outros heróis que morreram pela liberdade e pela causa popular tiveram seus nomes gritados na praça central de Brotas (Praça Dr. João Borges) e chancelados pelo brado simbólico de “presente!”. Estiveram “presentes” Otoniel Barreto, irmão de Zequinha, e Santa Bárbara (então chamado “professor Roberto”, militante, como Lamarca e Zequinha, do MR-8 – Movimento Revolucionário 8 de Outubro), mortos no ataque da repressão em Buriti Cristalino.


Seis mártires sacrificados na luta pela justiça social


Também “presente” Josael de Lima, da cidade da Barra, sede da diocese da qual fazem parte Brotas de Macaúbas e Ipupiara. O “companheiro Jota”, como é conhecido na região, era da Fundifran, Fundação de Desenvolvimento Integrado do (Rio) São Francisco, e líder da luta pela reforma agrária. Foi assassinado em 21 de maio de 1986. Sua viúva Josefa Elze de Jesus falou no palanque da praça de Brotas sobre a luta e os sonhos de justiça do marido. E esteve na missa dirigida por Dom Frei Luís Flávio Cappio (bispo da Diocese de Barra) no coreto do povoado de Buriti, onde homenageou os mártires da região, sob o tema “A força do destemor”.


Mais um estava “vivo” entre as centenas de pessoas que reverenciaram os lutadores do povo: Manoel Dias, pequeno agricultor que enfrentou as forças do latifúndio no município de Muquém do São Francisco, a 700 quilômetros de Salvador, também da Diocese de Barra. Foi assassinado em 8 de setembro de 1982, conforme relato por escrito distribuído pelo padre Bertolomeu Gorges.


Zequinha na tela durante exibição do belo documentário "Do Buriti à Pintada - Lamarca
e Zequinha na Bahia", de Reizinho Pereira dos Santos (Foto: Revista Noite e Dia)
Josefa Elze de Jesus, viúva do "companheiro Jota", lutador pela reforma agrária,
assassinado na cidade da Barra em 21/05/86 (Foto: Iago Aquino/Revista Noite e Dia) 
Estes seis heróis foram lembrados ainda em ato público no Santuário aos Mártires, que está sendo construído em Pintada, bem junto ao local onde Lamarca e Zequinha foram metralhados. E também durante as exibições do belo documentário “Do Buriti à Pintada – Lamarca e Zequinha na Bahia”, de Reizinho Pereira dos Santos. Toda esta programação (dias 17 e 18) fez parte do 3º. Fórum Direito à Memória e à Verdade e da 11ª. Celebração aos Mártires, com o patrocínio da Prefeitura de Brotas (administrada desde 2009 pelo Partido dos Trabalhadores, PT) e da Diocese de Brotas.


E houve mais um herói, este realmente presente (sem aspas), em carne e osso, na maioria dos eventos que emocionaram os moradores e visitantes da região, de Salvador e de outras cidades do país, como a paulista Osasco, onde Zequinha se destacou na famosa greve dos metalúrgicos em 1968. Trata-se de Olderico Barreto, outro irmão de Zequinha, que teve seu sangue derramado na “guerra” de Buriti (ferido, torturado e preso), mas sobreviveu e não se cansa de contar os detalhes do terrível massacre. Esteve frente à frente com o carrasco Fleury e foi tachado de “bicho” pelos repressores, espantados com sua bravura e desapego à vida e à dor (merece um relato à parte).


Autoridades e políticos exaltaram feitos dos governos petistas


Várias autoridades participaram das homenagens aos lutadores pela justiça social, pela democracia e pelo socialismo (pelo menos Lamarca, Zequinha e Santa Bárbara, no caso desta terceira bandeira). A maioria delas, ligadas ao PT, exaltou também os feitos dos governos municipal, estadual e federal.


Integrantes do palanque no ato público na praça central de Brotas de Macaúbas
(Foto: Iago Aquino/Revista Noite e Dia)
Discursaram do palanque na praça de Brotas, dentre outros, Roque Aparecido, sociólogo, participante da coordenação dos eventos e companheiro de Zequinha na greve de Osasco em 1968; Litercílio Júnior, prefeito de Brotas; Alviney Oliveira, presidente municipal do PT; Olderico Barreto; deputado Yulo Oiticica, líder do PT na Assembleia Legislativa; deputada estadual Neusa Cadore (PT); deputado federal Amauri Teixeira (PT); Jonas Paulo, presidente estadual do PT; professor Albino Rubim, secretário estadual de Cultura; e Nilmário Miranda, presidente da Fundação Perseu Abramo e ex-ministro dos Direitos Humanos.


(Este blog publicará outras postagens sobre o tema)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

PROFESSORES PARAM UM DIA E FAZEM MANIFESTAÇÃO (vídeo)

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De Seabra (Bahia) - Professores da rede municipal de Seabra, a 460 quilômetros de Salvador, pararam suas atividades hoje, dia 19, em luta por reivindicações como a aplicação do Plano de Carreira do Magistério, pelo envio à Câmara dos Vereadores do Estatuto do Magistério e por residência estudantil na capital.

Os grevistas fizeram uma passeata da Praça da Bandeira até a sede da prefeitura, no centro antigo da cidade, onde se concentraram e várias lideranças fizeram pronunciamentos. O vídeo registra parte da concentração. (Matéria mais ampla, com fotos, será postada neste blog).

LAMARCA E ZEQUINHA: CELEBRAÇÃO AOS MÁRTIRES EM BROTAS DE MACAÚBAS (vídeo)

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De Seabra (Bahia) - Parte do sermão de Dom Frei Luís Flávio Cappio, da Diocese da Barra (Bahia), da qual fazem parte os municípios de Brotas de Macaúbas e Ipupiara, no semi-árido baiano, a cerca de 600 quilômetros de Salvador. O bispo está celebrando em louvor de alguns mártires do povo brasileiro, vítimas da opressão na região, especialmente o capitão do Exército Carlos Lamarca e seu companheiro de militância política José Campos Barreto (Zequinha), ambos assassinados por um comando repressivo da ditadura brasileira em 17 de setembro de 1971.


A celebração, um dos eventos que marcaram os 40 anos da morte dos dois patriotas visando o resgate da memória e da verdade, foi no domingo, dia 18, em Buriti Cristalino, povoado do município de Brotas onde vivia a família de Zequinha e em cujas proximidades se escondeu Lamarca para fugir da repressão de que era alvo nas grandes cidades.


Note que Dom Luís faz referência a um ato público no Memorial dos Mártires e à exibição de um documentário (trata-se do filme “Do Buriti à Pintada – Lamarca e Zequinha na Bahia”), ambos eventos incluídos na programação do último final de semana, dias 17 e 18, e realizados em Pintada, povoado do município de Ipupiara onde os dois foram localizados e mortos.


(Matérias e fotos sobre a programação dos dois dias em Brotas, Buriti e Pintada serão publicadas nos próximos dias neste blog).


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

ZEQUINHA, O APAIXONADO

Por Roque Aparecido da Silva


Não são todas as pessoas que têm a fibra, a garra, a dedicação e a sensibilidade de Zequinha Barreto (foto). A luta contra a ditadura, a revolução social, a conscientização das pessoas sobre seus direitos eram as grandes paixões de Zequinha.


Outra coisa, é que não desgrudava do seu violão. Em qualquer lugar que chegava, formava um grupinho, tocava, cantava e começava a falar dos problemas sociais, da ditadura, da necessidade de se organizar para lutar por liberdade e por justiça social.


Trabalhava comigo na fábrica Cobrasma, em Osasco, São Paulo, e estudávamos à noite no CENEART (Colégio e Escola Normal Estadual Antonio Raposo Tavares). Quando chegou na Cobrasma procurando emprego, ofereceram-lhe a oportunidade de trabalhar no escritório. Zequinha, entretanto, preferiu ser "apontador de produção", ou seja, a pessoa que ia de máquina em máquina anotando a produção de cada trabalhador. Era o que ele mais queria. Assim podia estar em contato com todos os trabalhadores da sessão, conversando, despertando consciências. Na hora do almoço, cada dia sentava em uma mesa do refeitório da fábrica para conversar com pessoas diferentes. Depois de várias conversas, quando as pessoas se despertavam para a falta de liberdade, para a exploração que sofriam no trabalho, chegava a hora de conversar sobre a necessidade de se organizar. Propunha então que se integrassem nas atividades da Comissão de Fábrica, começassem a participar da luta dos trabalhadores e se filiassem ao Sindicato. Propunha também que participassem de um "Grupo de Estudo" para entenderem melhor a realidade que viviam e participarem de forma mais consciente das lutas dos trabalhadores.


Quando uma pessoa decidia se organizar e se dispunha a se integrar a um "Grupo de Estudos", Zequinha a colocava em contato com outros companheiros que cuidavam da organização e da formação das pessoas. E ele ia continuar seu trabalho de conscientização com os outros trabalhadores. Na linguagem da época, Zequinha era um grande "agitador", um despertador de consciências. Fazia isso como ninguém.


Zequinha tinha uma impressionante capacidade de liderança justamente por ser uma pessoa simples, humilde e muito comunicativa. Quando falava tinha uma enorme capacidade de mexer com o sentimento das pessoas. A fábrica Cobrasma, onde nós trabalhávamos em 1968, tinha mais de 3.000 empregados com uma longa tradição de luta. Desde 1962 existia uma "Comissão de Fábrica" que organizava as lutas dos trabalhadores na defesa de seus direitos. A maioria dos dirigentes da Comissão de Fábrica participava, desde o final dos anos 50, das lutas dos trabalhadores que culminaram com a conquista da "Comissão de Fábrica" em 1962 e dirigiam a Comissão desde então. Em julho de 1968, quando os trabalhadores iniciaram uma greve, ocupando a fábrica, Zequinha, que trabalhava na Cobrasma há pouco mais de um ano, foi a principal liderança do movimento. Quando a tropa policial se posicionou em frente ao portão da fábrica preparando-se para invadir e expulsar os trabalhadores lá de dentro, Zequinha fez um discurso dirigido aos soldados explicando que muitos deles tinham parentes ali dentro e que eles apenas estavam lutando por melhores salários e uma vida mais digna, conclamando os soldados a não obedecer às ordens do comando e não reprimir os trabalhadores. Nesse momento o comandante deu ordens enérgicas aos soldados que invadiram a fábrica espalhando o terror lá dentro. Mais uma vez, em uma atitude heróica, Zequinha ameaça incendiar um tanque de gasolina da fábrica, paralisando os soldados e, com isso, possibilitando que muitos trabalhadores saíssem da fábrica e não fossem presos. Zequinha, porém, foi preso e barbaramente torturado. Ficou 98 dias atrás das grades. Ao ser solto imediatamente se reintegrou à luta do povo brasileiro contra a ditadura, agora de armas nas mãos, juntamente com Lamarca e os demais companheiros da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).


Como filho de Brotas de Macaúbas, mesmo tendo vivido vários anos fora, sempre estava presente, particularmente em Buriti Cristalino, onde viviam seus pais e irmãos. Quando a repressão se tornou mais violenta contra aqueles que lutavam nas grandes cidades, Zequinha voltou definitivamente para Buriti Cristalino e continuou a fazer o mesmo trabalho que fazia em todos os lugares por onde passava: conscientizar as pessoas, despertando-as para a luta contra as injustiças sociais, por uma vida digna e em liberdade. Foi nessa etapa que trouxe o Prof. Roberto (Luiz Antonio Santa Bárbara) para ajudar na luta.


Tinha que preparar rápido as condições para receber o capitão Carlos Lamarca, dirigente da VPR, nesse momento bastante desestruturada, pois seus principais militantes encontravam-se presos, mortos ou exilados. Lamarca não conseguia mais viver no Rio de Janeiro ou em São Paulo, pois era procurado como inimigo público número 1 pela repressão.


Lamarca integra-se ao MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro) e chega a Buriti Cristalino ao encontro de Zequinha no dia 29 de Junho de 1971. Foi para Lamarca uma época feliz. Formou um coletivo que era dirigido por Santa Bárbara, fazia trabalho de conscientização com camponeses, escrevia documentos, e até peças de teatro que o Professor Roberto apresentava com e para o povo de Buriti.


Com a queda de vários militantes do MR-8, a morte de muitos na tortura, acabam descobrindo seu esconderijo. Invadem Buriti Cristalino, matam Otoniel Barreto e Luiz Antônio Santa Bárbara, ferem gravemente Olderico Barreto, prendem todos do povoado e começa a caçada. No dia 17 de Setembro de 1971 assassinam covardemente os dois heróis. São heróis do povo brasileiro. E seguem conosco para sempre, até o momento em que a justiça e a liberdade sejam uma constante em nosso País.


(Roque Aparecido da Silva é sociólogo e um dos líderes da greve de Osasco em 1968. Presidente do Instituto Zequinha Barreto de Brotas de Macaúbas, é da coordenação dos eventos programados para este final de semana, dias 17 e 18, em Brotas, para marcar os 40 anos do assassinato de Lamarca e Zequinha).



terça-feira, 13 de setembro de 2011

“A MULHER CASA E NÃO ESTUDA, PORQUE O ESPOSO NÃO DEIXA COM MEDO DE PEGAR CHIFRE” (Eco da Marcha das Margaridas)


Iranilde e Cleusa, duas "margaridas", defendem com entusiasmo a participação das mulheres
nas lutas políticas/sindicais (Foto: Jadson Oliveira)
(Conversa com duas “margaridas” sobre machismo e participação política das mulheres. Foi no segundo dia do evento, 17/agosto, no acampamento no Parque da Cidade, em Brasília. A Marcha das Margaridas foi organizada pela estrutura sindical da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura, Contag, e levou à capital federal mais de 70 mil mulheres de todo o país, a maioria trabalhadoras rurais, sob o lema Desenvolvimento sustentável com justiça, autonomia, igualdade e liberdade).


Iranilde – Olha, nós somos culpadas pelo machismo dos homens, porque as mulheres muitas vezes deixam de trabalhar pra ajudar a renda de seu esposo, a renda familiar, porque a mulher casa e não estuda, porque o esposo não deixa com medo de pegar chifre, então as mulheres deixam de ser libertas. Elas têm de se conscientizarem, aí está o papel da educação, hoje com certeza os profissionais da educação estão aí não só para ensinar a ler e escrever, mas também para conscientizar, ensinar a reivindicar seus direitos...


(Quem está falando é Iranilde Benício de Carvalho, 40 anos, casada, três filhos, da cidade de Araioses, município que tem pouco mais de 50 mil habitantes, no Baixo Parnaíba, Maranhão. É funcionária da prefeitura e presidente do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais. Ela estava conversando com Cleusa e eu me meti na conversa e pedi permissão para ligar o gravador).


Você conhece mulheres que sofrem essa repressão dos maridos?


Iranilde – Conheço, eu conheço dois tipos de depoimento: mulheres que depois que foram para a faculdade não aguentaram mais seus esposos e separaram. Eu conheço elas, não é porque elas queriam namorado, não é isso, elas não aguentaram mais a repressão, não aguentaram mais o egoísmo, o machismo de seus companheiros. E conheço mulheres que até hoje estão camufladas, olha a situação... não foram estudar pra não separar do marido, o marido foi e separou dela e ficou com outra. O que foi que ela ganhou? Está desempregada e sem o marido, olha a contradição.


Cleusa: "Temos uma democracia semi-aberta, porque a gente não
vive numa democracia franca" (Foto: Jadson Oliveira)
Cleusa – O machismo é arraigado em todo nosso território brasileiro. Se nós mulheres não o enfrentarmos diuturnamente ele não acaba... a mulher não tem dupla jornada, não, a mulher tem ene jornadas, ela trabalha, estuda, cuida dos filhos e, além do mais, têm muitos maridos que não compreendem essa luta da mulher, então é preciso que a própria mulher se dê o seu valor e, por isso, ela precisa estudar, participar, defender sua categoria seja na política, seja na escola, em qualquer fórum, em qualquer departamento que ela estiver, tem que estar defendendo seus direitos.


(Esta é Maria Cleusa de Jesus Silva, 57 anos, divorciada, três filhos, de Goiânia, Goiás. Ela é funcionária do Ministério da Saúde e diretora de Informação do Sindicato dos Servidores Federais da Saúde e Educação).


É importante a participação de vocês, das trabalhadoras rurais, na política partidária, no processo eleitoral?


Cleusa – Acho que é importante a participação do povo, principalmente porque temos uma democracia semi-aberta...


Democracia semi-aberta... o que é isso?


Cleusa - Democracia semi-aberta porque a gente não vive numa democracia franca, nem todas as pessoas podem exercer seus direitos, eu posso, mas muitos não podem falar o que pensam, porque são cortadas, são tolhidas de todas as formas, podem perder o emprego, por exemplo, sofrer represálias no trabalho, servidores da área federal, da área municipal, vivem trabalhando sob pressão.


Iranilde - Com certeza, a participação é muito importante, também nas eleições. Vou contar minha experiência na última eleição lá na minha cidade em Araioses, foi eleita a prefeita Luciana Trinta, foi eleita por outro partido, mas agora é do PMDB. Foi uma decepção pra nós mulheres, mas na verdade pra nós, do Partido dos Trabalhadores, não foi surpresa porque o partido dela é um partido que não tem nada a ver com os servidores públicos, é da elite, não sabe o que é pobreza, as necessidades, nós que estamos acostumadas a passar fome, uma prefeita elitizada, branca, bonita... o que é que o povo dizia? É que ela já era rica, não precisava do dinheiro do nosso município, muita gente pensando que ela estava se propondo a ser prefeita prá administrar, pra cuidar dos pobres, pra cuidar da educação, da saúde, mas no entanto o hospital que tinha foi fechado, só ficou o hospital que é dela, que tem convênio com o estado e que não tem médico, há uma propaganda lá que diz que tem oftalmologista, que tem cardiologista, só no papel, tá lá na placa, mas não funciona.


As "margaridas" no principal ato público em Brasília, na Praça dos Três Poderes,
em 17 de agosto (Foto: Jadson Oliveira)
Os milhares de manifestantes encheram o Eixo Monumental
e Esplanada dos Ministérios (Foto: Isabela Lyrio) 
Quando ela assumiu a primeira atitude dela foi colocar mais de 400 servidores públicos pra fora do serviço, alegando que as pessoas que fizeram o concurso, em 2006, quando do prefeito anterior, tinham sido aprovadas mas não classificadas. Foram chamadas pessoas que estavam na suplência, né? professores, auxiliares operacionais, agentes administrativos... a prova que havia necessidade é que o sindicato entrou com uma ação e muitos voltaram depois de três meses, quatro meses, sob liminar da Justiça.


Olha, o que acontece hoje? as pessoas falam que votaram nela porque não tinham uma opção... votaram nela porque era uma mulher rica, bonita, achavam que não tinham outra opção, que não tinha necessidade de roubar, que no Partido dos Trabalhadores as pessoas não tinham condição de se eleger, eram pessoas pobres, que quando estão no poder querem é roubar, tinham umas desculpas. No entanto, hoje tem uma decepção muito grande para os que acreditaram.


É importante participar de um movimento como a Marcha das Margaridas?


Iranilde - Com certeza. Todas as mulheres e todos os homens que vieram, de tantos lugares, de suas cidades, viemos de tão distante para, juntas com nossas colegas, para reivindicar nossos direitos, direito de uma saúde, direito de uma educação para nossos filhos mais justa e tirar esse tabu de que a mulher tem que ficar em casa, cuidar dos filhos, nós mulheres, nós aprendemos que temos capacidade não só de cuidar dos nossos filhos, de cuidar dos nossos esposos, de nossa família, como também estar à disposição de uma marcha dessa, uma marcha tão importante... é uma conquista, que nós hoje temos o direito de votar e de ser votada, e não queremos só isso, queremos ir mais além, queremos também a igualdade de poder no Executivo, no Legislativo, igualdade na política com os homens, na disputa de mandatos, foi aprovado que as mulheres têm direito a 30% dos candidatos, mas nós queremos 50%. As mulheres, nós precisamos nos conscientizar que temos de estar disputando esses mandatos, que nossas filhas mulheres não sintam que hoje estamos fugindo, que nossas filhas, na próxima década, estejam reivindicando direitos mais avançados.


Não é à toa que hoje estamos comemorando a Marcha das Margaridas, não é à toa que temos hoje o Dia Internacional da Mulher, ah! é uma data importante, mas precisamos saber o que aconteceu no Dia Internacional da Mulher, é porque os homens acham que as mulheres merecem? Não! Foram centenas de mulheres que morreram em uma fábrica na Inglaterra, reivindicando seus direitos e foram reprimidas. Justamente por isso nós, hoje, estamos aqui, agradecemos a participação dos homens, sua contribuição, eles também estão se conscientizando pra melhorar nossa vida familiar, pra quebrar o tabu que mulher tem de ficar só em casa, porque se meu esposo não tivesse essa compreensão, eu poderia estar aqui, como muitas margaridas estão, mas ter de enfrentar meu esposo quando chegar em casa.



Iranilde: "Tenho certeza de que as mulheres não vão voltar pra casa
com a mesma concepção de antes" (Foto Jadson Oliveira)
 Foi muito proveitosa, é minha primeira marcha, aprendi muito... tenho certeza de que as mulheres não vão voltar pra casa com a mesma concepção de antes, com certeza nós melhoramos nossa concepção de que, junto com a nossa presidenta Dilma, temos que correr atrás dos nossos direitos, porque se ficarmos em nossa casa chorando, trancada, ninguém vai saber o que está acontecendo, temos que dar esse grito, foi pra isso que viemos, dar esse grito de liberdade, de querer o melhor pra nossa sociedade, melhor educação e na sustentabilidade de nossos familiares e das mulheres brasileiras.


Cleusa – É minha segunda marcha, é muito importante, não é à toa que nós elegemos a presidenta Dilma, isso foi fruto de muita luta das mulheres, enfrentamos os tabus que temos no nosso dia-a-dia. É um movimento que não é só de uma margarida, na verdade são milhões de margaridas porque muitas que não estão aqui é porque não podem, é porque têm outros afazeres, mas nós, cada uma que veio representar nosso sindicato vai levar pra base esse compromisso que tivemos aqui e falar da importância da marcha, cada movimento desse é um aprendizado, pra mim a primeira foi boa e a segunda foi melhor ainda.


domingo, 11 de setembro de 2011

WALDIR PIRES: É PRECISO ACABAR OS MONOPÓLIOS DA COMUNICAÇÃO (vídeo)

video
Declarações do ex-governador baiano e ex-ministro Waldir Pires durante o Grito dos Excluídos em Salvador, no dia 7 de setembro.

sábado, 10 de setembro de 2011