segunda-feira, 31 de outubro de 2011

"LULA HOJE PENSA COM A CABEÇA DE UM CLASSE MÉDIA ALTA” (Parte 3)


Mais uma parte da entrevista do sociólogo Ricardo Antunes, da Unicamp, concedida aos jornalistas do Jornal Opção, de Goiás (fundado em 1975).  Como a entrevista é muito longa, este blog está publicando por partes. Nesta terceira parte, ele continua a falar sobre a precarização do trabalho, especialmente da praga da terceirização, e do papel de Lula - a quem entrevistou longamente ainda no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980 -, assinalando que o PT roubou a cartilha de ideias do PSDB e a executou melhor. O título acima é deste blog.

Na introdução da matéria, os redatores da publicação goiana dizem: “Depois não falem que eu não avisei. Se fosse para escolher uma, seria essa a frase para sintetizar a entrevista de uma hora e 15 minutos concedida ao Jornal Opção pelo sociólogo Ricardo Antunes, uma das maiores autoridades na discussão de questões relativas ao trabalho. Autor de dezenas de livros e centenas de artigos sobre o tema, ele publicou, em 1995, “Adeus ao Trabalho?”, obra que ultrapassou as fronteiras do Brasil e ganhou amplitude mundial, traduzida para vários idiomas. Naquele ano, ele antecipava que as lutas sociais iriam recrudescer, ao contrário do que pensavam estudiosos renomados, como o alemão Jürgen Habermas, que via a classe trabalhadora europeia como ‘pacificada’”.

Andréia Bahia — O que mais mudou com essa flexibilização do mundo do trabalho?

O neoliberalismo foi uma pragmática nefasta que se abateu sobre o mundo, a partir de 1979 na Inglaterra. Logo em seguida, na Argentina da ditadura militar, houve os primeiros embriões por aqui. Logo depois, com Margareth Thatcher [primeira-ministra britânica de 1979 a 1990], Ronald Reagan [presidente dos EUA de 1981 a 1989], Helmuth Kohl [chanceler da Alemanha de 1982 a 1998], a coisa se esparramou. Esse “esparramar” dessa onda de desregulamentação permitiu que os capitais pudessem circular livremente. O capitalismo hoje tem duas patas: a pata da financeirização — que é o saque, a expansão sem geração de riquezas, mas com valorização — e a pata da intensa exploração do trabalho. Como consequências, temos a terceirização, uma praga que avassala o mundo do trabalho. Os trabalhadores terceirizados não têm direitos, trabalham em média três horas a mais do que todos os não terceirizados e as doenças, os acidentes e as mortes são mais frequentes neles. E as empresas dizem que o terceirado gera emprego. É mentira, ele tira empregos, porque três terceirizados fazem o trabalho de seis. Uma pesquisa do nosso grupo na Unicamp aponta que a terceirização é o segundo maior flagelo que atinge a classe trabalhadora — o primeiro é o desemprego. Há depoimentos de trabalhadores há três anos sem férias, por trabalhar em empresas terceirizadas. Quando acaba um contrato, ele pega outra no dia seguinte, porque não pode parar.


Andréia Bahia — No Brasil não há características diferentes no mundo do trabalho, especialmente de 2003 para cá?

Sim, há. Lula sobe ao poder e seu primeiro mandato é um prolongamento intensificado do neoliberalismo de Fernando Henrique Cardoso. Para não dizer que estou inventando, teve reforma da Previdência, taxação dos aposentados — coisa que o PT nunca defendeu —, a liberalização dos transgênicos. Lula seguiu o receituário do neoliberalismo de tal forma que o Fundo Monetário Internacional e o próprio Obama disseram “esse é o cara!”. Em um segundo momento, no segundo mandato, por um conjunto muito complexo de elementos, há uma nuance: a crise política do mensalão, o governo ter ficado no colo da grande burguesia — que segurou o governo, não o movimento popular. Nenhuma grande burguesia é maluca de depor um governo voltado para os ricos. A única coisa que eu concordo com Lula é quando ele afirma que nunca os bancos ganharam tanto dinheiro como no governo dele. Em certo sentido, o governo Lula tem, para a burguesia, uma similitude com os governos militares, em termos de expansão econômica.


Renato Dias — O sr. se refere ao dois governos Lula como um semibonapartismo. Poderia explicar isso no nível ideológico?

Marx tem um texto seminal muito importante, chamado “18 Brumário”. Ele trata de várias dimensões do bonapartismo que são típicas da realidade francesa. Mas há um traço que se tornou universal do bonapartismo: quando a classe dominante não tem um governo que ela crie dentro de seus quadros, dentro dela, ela pode recorrer a elementos egressos de sua classe para fazer um governo melhor para a burguesia do que seus próprios. E o Lula foi excepcional nisso. Um bonapartista é o homem de conciliação. Lula é um mestre da conciliação.


Renato Dias — Inclusive estatizando os sindicatos e os movimentos sociais?

Inclusive sujeitando os sindicatos ao controle estatal — por isso estatizando, nesse sentido — e fazendo o que nem Getúlio Vargas teve coragem: as centrais sindicais, tal como existiam no Brasil, que eram completamente autônomas desde 1983, com a fundação da CUT [Central Única dos Trabalhadores]. Hoje 10% do imposto sindical vai para as centrais sindicais. Isso é uma quantidade enorme de dinheiro, que pode permitir que uma central possa existir sem ter associado, sem a cotização de seus associados. Isso o governo Vargas não fez, mas Lula fez, faltando dois anos para o término de seu mandato.


Renato Dias — Nisso CUT e Força Sindical se parecem cada vez mais?

A CUT diz que é contra o imposto sindical, mas não o devolve. Se eu sou contra o imposto, mas vivo dele, é estranho. A Força Sindical tem duas ou três ramificações. Uma é o velho peleguismo sindical. Mas ela não é só isso: lá dentro há ex-comunistas e neoliberais duros. É bom lembrar que quando a Força lançou seu programa de ação, em 1990, ele era neoliberal e defendia as privatizações, era antiestatista. Eles foram depois mudando isso, aos poucos, em função da perda de base. Mas a Força Sindical defende o imposto sindical claramente.


Renato Dias — A única central que condena o imposto é a Conlutas. Mas como ela financia suas atividades?

Sindicatos livres, associados à Conlutas, movimentos sociais ligados à Conlutas. No meu primeiro livro, “O que é o sindicalismo?” [1980, coleção Primeiros Passos, editora Brasiliense], explico que o fundamental do sindicato é depender da cotização voluntária de seus associados e é o que a Conlutas faz.

Andréia Bahia — Como o sr. avalia os programas de distribuição de renda e geração de emprega do governo Lula?

Quando Lula inicia seu segundo mandato, ele percebe que perdeu a base da classe trabalhadora assalariada. Ele chegou a ser vaiado em São Bernardo do Campo [cidade do ABC paulista, berço do PT e do sindicalismo no Brasil], quando ele disse que os metalúrgicos eram beneficiados e a prova disso era que pagavam imposto de renda. Ora, quem paga imposto de renda no Brasil é assalariado. Os ricos não pagam ou pagam menos, porque eles burlam. Outra questão para ele é que era preciso recuperar essa base social de seu governo. Lula teve uma sacada política muito importante: se perdeu a base dos assalariados organizados, foi recuperá-la com os trabalhadores miserabilizados dos rincões do País, que vivem do clientelismo. Eu tenho uma metáfora para isso: Fernando Henrique é o burguês que, depois de saquear a semana toda, sai da missa no domingo e joga uma moedinha de 1 real para o pobre, que pensa “Puxa, agora vou tomar leite!”; Lula, depois da mesma missa, dá uma nota de 10 reais. A diferença é significativa: faz com que o Bolsa Família atinja 12 milhões de famílias, enquanto o Bolsa Educação de FHC atingia 2 milhões de famílias.


Quando há a crise internacional, entre 2006 e 2007, Lula retoma uma tese que tinha nos anos 1970: o mercado interno é amplo e a classe trabalhadora quer consumir, mas não pode porque a produção é voltada para a classe média alta e para o mercado externo. O que ele fez? Reduziu o imposto do empresariado, da indústria automobilística, da construção civil, etc. O empresariado deu pulos de alegria! Por isso, Lula é o semi-Bonaparte, aquele que atende os interesses da burguesia sem ser parte dela, em uma frase quase literal de Karl Marx. Reduzindo impostos, ele ganha o apoio das classes dominantes. Por outro lado, ele aumenta o salário mínimo, que deveria ser de R$ 2,5 mil, de acordo com o Dieese. Hoje, no governo Dilma pós-Lula, o salário é de R$ 575. É vexatório, mas não posso deixar de reconhecer que, para um trabalhador miserável, esse incremento faz uma diferença grande. Ao aumentar o salário e implementar o Bolsa Família, incentiva o mercado interno e, se não dá para vender soja, etanol e minério para fora, por causa da crise externa, produz para o consumo local. Nesse período, a construção civil e a indústria incorporaram força de trabalho e, com a redução dos impostos, o trabalhador que podia comprou um fogão, uma geladeira, um carro ou até uma casa. Com isso o nível de desemprego diminuiu e o Brasil pôde crescer, saindo do estancamento de 1% de crescimento ao ano para 7%. Isso faz diferença!

Sou um crítico áspero do governo Lula, mas não posso deixar de reconhecer. FHC foi barra pesada e Lula não foi o que a gente queria, mas melhorou muito. O que escuto dos trabalhadores e do povo em geral sobre Lula é que ele não fez mais porque não conseguiu. Disse ao “Estadão” que Lula subiu uma escada alta. É o caso mais bem sucedido do “self-made man” na política brasileira. Só que, a cada degrau de sua ascensão social, um valor Lula deixou abaixo. Tive uma proximidade considerável com Lula no fim da década de 1970 e início da de 1980, cheguei a entrevistá-lo longamente para minha tese de doutorado. Naquela época, Lula lutava nas greves do ABC para que os trabalhadores não tivessem dias descontados. Hoje ele defende que trabalhador que faz greve tem de pagar por isso. Hoje ele pensa com a cabeça de um classe média alta. É por isso que, no dia 23 de dezembro, ele foi à festa dos catadores de lixo, mas passou o ano-novo com um grande burguês, no iate de um Eike Batista ou assemelhado. Isso é o conciliador.

Euler de França Belém — O sr. citou Lula ao lado de Getúlio Vargas. Com quais políticos Lula teria um parentesco? É com os populistas?

A teoria do populismo tem um erro grave, segundo a qual populistas seriam Lula, Getúlio Vargas, Adhemar de Barros, Carlos Lacerda, Leonel Brizola, Fernando Collor, Luís Carlos Prestes, Hugo Chávez, Evo Morales, etc. Uma teoria em que algum traço demagógico já enquadra tantos políticos assim juntos não é correta. Lula tem alguns traços que o aproximam de Getúlio Vargas. Primeiramente, ele é o homem da conciliação; em segundo lugar, como Getúlio, ele também não precisa de um partido. O PT sem o Lula não é nada, enquanto Lula sem o PT é o mesmo. Ele tudo impõe dentro do PT. Por fim, Lula fala com as massas como Getúlio, com uma diferença: este vem da fração agrária brasileira, é um estancieiro dos pampas; Lula é um migrante do Nordeste, veio do mundo rural e se tornou um operário da indústria. Lula é um sujeito popular, alguém que fala com o povo. As classes médias, intelectualizadas, se irritam com Lula, o odeiam, porque ele tem o jeito do trabalhador pobre — e é bom ressaltar que minha polêmica com Lula não tem nada a ver com isso. Todo mundo entende o Lula. É alguém que entra para a história do Brasil. No século 20, só haveria um símile para ele: Getúlio, que ficou de 1930 a 1945 e de 1950 a 1954. Não há nenhuma evidência de que Lula não possa voltar. Seu governo vai ser lembrado por muitas décadas. Não tocou em nenhum pilar que estrutura a miséria brasileira, mas minimizou os níveis de indigência e garantiu a boa vida dos ricos. Vai para a história, então.

sábado, 29 de outubro de 2011

AMÉRICA LATINA: “ESSE É O CONTINENTE DO LABOR” (Parte 2)

Mais uma parte da entrevista do sociólogo Ricardo Antunes, da Unicamp, concedida aos jornalistas do Jornal Opção, de Goiás (fundado em 1975). Ele é autor de dezenas de livros e considerado uma das maiores autoridades na discussão de questões relativas ao trabalho. Na semana passada esteve em Goiânia para divulgar “O Continente do Labor”, sua mais recente obra, que fala sobre o mundo do trabalho na América Latina. Como a entrevista é muito longa, este blog está publicando por partes. O título acima é deste blog.
Renato Dias — Por que o sr. considera a América Latina o “continente do labor”?

A América Latina nasceu do prolongamento de suas metrópoles europeias. Seja pela colonização portuguesa no Brasil, seja pela colonização espanhola na América de língua hispânica, nós nascemos pelo que Caio Prado [historiador brasileiro do século 20], com muita sensibilidade, chamou de colônias de exploração. E uma colônia de exploração é voltada para a produção de bens e produtos de que as metrópoles necessitem. Ao contrário da colonização dos Estados Unidos, que são colônias de povoamento, como o mesmo Caio Prado diz. Foram dissidências religiosas que fizeram com que uma parte da população emigrasse para a América do Norte. Aqui, não: nascemos no labor, para trabalhar. E o labor remete à dimensão exaustiva, intensificada, superexplorada do trabalho.
Renato Dias — O sr. tem tradição antistalinista. A imagem, na capa de seu livro, da pintura de um autor [o mexicano Diego Rivera] que nasceu no stalinismo, não é uma contradição?

O Rivera não nasceu no stalinismo. E a obra de arte é algo que sempre tem uma relativa distância da conotação política, especialmente uma obra plástica como essa. Nós sabemos que Rivera recebeu Trotski no México e cedeu sua casa e de Frida Kahlo [pintora com quem Rivera foi casado] para o exílio dele, quando todos os partidos comunistas de feição stalinista estavam perseguindo Trotski. Mas grande parte dos grandes pintores bebeu no stalinismo. Estive visitando o arquivo de Pablo Picasso em Paris e lá havia uma ode a Stálin. É bom termos claro que o stalinismo foi uma tragédia dentro da esquerda, mas muitos intelectuais tiveram seu momento de simpatia a isso, porque foi muito forte a questão da vitória soviética na 2ª Guerra Mundial. Mas Rivera vale, para mim, por sua pintura e essa obra (apontando para a capa do livro), “A vendedora de flores”, é especialmente preciosa, pela imagem de uma trabalhadora carregando um peso, um cesto, com um trabalhador a ajudando. A sensação é do fardo, mas ela carrega flores. Isso é muito bonito. Isto é América Latina: sofrimento e felicidade, espoliação e revolta, infelicidade e felicidade social, martírio e beleza. Essa é a nossa América Latina, esse é o continente do labor. É uma imagem para provocar.
Renato Dias — Há uma nova onda grevista no Brasil, de contestação às políticas públicas do Palácio do Planalto?

Não é propriamente ainda uma nova onda contra o Planalto. Por exemplo, uma das greves mais importantes, que está terminando agora, foi a dos bancários. Uma greve longa, contra, por um lado, a política dos bancos privados — que vivem da especulação e do saque generalizado — e, por outro lado, as políticas do governo. Houve um endurecimento, que se atribui ao governo Dilma, de não permitir que os bancos públicos cedam [nas negociações]. No passado havia mais facilidade de os bancários negociarem com bancos públicos do que com bancos privados. É verdade que já estamos presenciando, há um certo período, uma retomada de lutas sindicais importantes exigindo aumentos salariais e dignidade do trabalho, mas as mobilizações mais importantes que afetam o governo foram a de Jirau e as dos canteiros [revoltas de trabalhadores da construção civil, como a da usina hidrelétrica de Jirau (RO), cujo canteiro de obras foi destruído em março deste ano], por mostrar que as obras do PAC se fundam na intensa exploração do trabalho. Esse é o continente do labor. A manifestação de Jirau é uma rebelião como as que estamos observando na construção civil em diversas partes, porque esse trabalhador da construção civil é tratado de modo indigno.
Renato Dias — O caderno “Aliás”, do jornal “O Estado de S. Paulo” apresentou nesta semana um texto que mostra que neste ano houve uma redução drástica dos postos de trabalho no setor bancário. A que o sr. atribui este fenômeno?

Em meados dos anos 1980, chegamos a ter de 800 mil a 1 milhão de trabalhadores bancários. Hoje há 490 mil bancários, mas há uma massa de trabalhadores invisíveis — nos call centers, nas empresas de telemarketing, etc —, terceirizados que servem aos bancos, sem o qual estes não funcionam. Então, quando ligamos à noite para fazer uma operação bancária, não é com um bancário que estamos falando, mas, sim, com um trabalhador terceirizado que vive em condições mais aviltadas que a do bancário ainda, que não tem representação sindical e tem direitos trabalhistas restritos, alguém que pode perder seu trabalho a qualquer momento. Basta sua empresa deixar de ser terceira do banco A para ser do banco C que seu posto desaparece. Houve uma combinação complexa que afetou todos os ramos produtivos em escala global, que é redução da força de trabalho, intensificação, polivalência, multifuncionalidade, etc. Todos têm de fazer o trabalho de todos. Isso afetou todos os setores: imprensa, bancos, escolas, hospitais, indústria automobilística, entre outros. E ainda há um maquinário tecnoinformacional e digital que potencializa o trabalho. Hoje é possível fazer um jornal sem jornalista trabalhando fisicamente. Todo mundo trabalha em casa e depois é só imprimir. A feição intelectual pode ser feita utilizando a estrutura de redes.
Renato Dias — Isso é a figura do infoproletário que o sr. conceituou em seu penúltimo livro [“Infoproletários”]?

Ruy Braga e eu chamamos de infoproletários todo esse novo proletariado de serviços que trabalha com as tecnologias da informação. Vai do trabalhador da indústria de software ao do telemarketing — no qual de 70% a 80% do contingente é feminino, mais de 1 milhão no Brasil —, passando por todo o conjunto de trabalhadores cuja atividade implica trabalhar na frente de uma tela de computador ou com aparelho de telefonia, de tal modo que esteja conectado. Esse é o infoproletário, um tipo que se expande na era da informação e trabalha diretamente com equipamentos tecnológicos.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

“TUDO DEPENDE TAMBÉM DE UM RENASCIMENTO DE UM MOVIMENTO SOCIAL DE ESQUERDA NO PAÍS” (Parte 1)


Sociólogo Ricardo Antunes, da Unicamp: "O único centro político no Brasil
que faz alguma reflexão, ainda que com dificuldades, é o MST"
(Foto: Fernando Leite/Jornal Opção)
Pequena parte da entrevista do sociólogo Ricardo Antunes, da Unicamp, concedida aos jornalistas do Jornal Opção, de Goiânia (fundado em 1975). Ele é autor de dezenas de livros e considerado uma das maiores autoridades na discussão de questões relativas ao trabalho. Como a entrevista é muito longa, este blog vai reproduzi-la por partes, começando, arbitrariamente, pelo fim, pelas quatro últimas perguntas. O título acima é deste blog.


Euler de França Belém — Quem vê o sr. falando pensa que a universidade brasileira é crítica aos governos do PT. Mas, ao contrário, parece uma universidade extremamente acrítica. Como o sr. vê isso?


Falei bastante, nos últimos minutos, de uma cena mais internacional. A América Latina e a China são hoje laboratórios de um experimento do socialismo do século 21. Se eu falasse dez anos atrás que o socialismo não morreu, porque nem começou, diriam que eu era louco. Hoje está fácil. Mas a gente escreve com cuidado, porque senão isso aqui (apontando o livro) vira estoque de sebo, livro por quilo. Eu dei mostras, aqui, de que o mundo vive uma turbulência. Mas o caso brasileiro é diferente. Costumo dizer que a eleição de Lula em 2002 foi uma vitória da derrota. A população brasileira, nós, votamos no Lula acreditando em certas mudanças. Mas elas não vieram, vieram essas de que tratamos aqui. Nos anos 1980 estivemos na ponta das lutas sociais — criação do PT em 1980, criação da CUT em 1983, MST surgindo e movimento Diretas Já em 1984, Assembleia Constituinte em 1986, a entrega de uma Constituição democrática em 1988, uma quase eleição de Lula em 1989 —, agora a temperatura está mais branda, ao contrário de outros países, como a Bolívia e a Venezuela.


Euler de França Belém — Então a universidade se acomodou?


Não é bem assim. A universidade não poderia passar por esse turbilhão. Li na “The Economist” [revista inglesa sobre economia e assuntos internacionais] falarem que a USP é uma boa universidade, mas tem um problema: os professores e funcionários tem estabilidade e os currículos estão envelhecidos e politizados. Olha só o que temos de ouvir da “The Econo-mist”! Temos de engolir isso! (enfático) E o que a “The Economist” faz há 150 anos, senão ser a ideologia mais pura do pior capitalismo? Eles falam o que querem e nós não podemos responder. Mas claro que a universidade sentiu, os recursos se escassearam. E na universidade pública, os recursos que se ampliaram são atrelados a um programa como o Reune, o professor já não tem mais aquela estabilidade e tranquilidade para pesquisas. É claro que o professor precisa prestar conta de seu trabalho, mas a pesquisa docente não tem de ter o tempo do capital, não pode ter um tempo de contrato de trabalho para vender abacaxi. É diferente, a pesquisa precisa ter maturação. A universidade sentiu tudo isso. Mas, imagine, se todas as nossas universidades fossem privadas, nós não estaríamos tendo esse debate aqui, porque viria alguém, do mundo do mercado, para falar por uma hora, mas antes perguntar qual seria o cachê. A universidade pública ainda é o espaço dos coágulos da reflexão crítica, que não existe mais nos partidos. O único centro político no Brasil que faz alguma reflexão, ainda que com dificuldades, é o MST, que criou uma escola chamada Florestan Fernandes, em homenagem ao mais importante sociólogo do País. A Unicamp tem tido a que vem. É preciso garantir o espaço de reflexão crítica, não é verdade que a universidade tem de seguir o modelo norte-americano de adequação ao mercado, senão acaba tudo. Não me surpreende que a universidade pública tenha sido profundamente devassada pelo mercado, mas não toda.


Euler de França Belém — Então André Singer [jornalista, cientista político e ex-porta-voz da Presidência no governo Lula] tem razão, esse grupo que aí está pode ficar mesmo 30 anos no poder?


Não é bem assim. Claro, o grupo hoje no poder tem demonstrado competência para segurá-lo e conta com dezenas de partidos aliados, toma medidas de assistencialismo social — reconhecidas pelo povo como melhorias — e tem uma oposição à direita que reúne o que há de pior. Nesse cenário pode ficar não 30, mas 50 anos. Mas é preciso observar que há lutas sociais e, assim como nos anos 1980 estivemos na ponta dessas lutas, pode acontecer que esse quadro — greves, manifestações, contexto latino-americano e crise internacional — podem alterar significativamente o cenário brasileiro. Eu diria que isso pode durar 30 anos, mas pode ser muito mais efêmero. Tudo depende também de um renascimento de um movimento social de esquerda no País. Muita gente pode dizer que não há nenhuma chance de isso acontecer, mas se eu falasse, há meses, que haveria esse processo de lutas, esse movimento na Inglaterra, na Espanha, na Europa como um todo, eu seria chamado de louco. Se um ano atrás eu dissesse que o mundo árabe iria virar de cabeça para baixo, da mesma forma eu não seria levado a sério. Então, é isso: a temperatura está aumentando. A história é construída a cada dia e, ao contrário do que dizia Hegel — que dizia que a história tinha um fim —, Marx diz que ela continua sempre, movida por embates e lutas sociais, que não se sabe onde vão parar. Quem poderia imaginar, em 1988, que a União Soviética iria cair inteira, sem que nenhum exército a invadisse? Ninguém!


Euler de França Belém — E como o sr. vê a Rússia, hoje?


A Rússia é a fotografia do que se chamou erroneamente de “fim do socialismo”. É uma confluência magistral entre capitalismo e máfia, que, no fundo, caminha muito bem tranquilamente, até porque todas as máfias estão imbricadas com o capitalismo. Aliás, é difícil encontrar um capitalismo que não pratique, aqui e ali, algo que, digamos assim, não tenha a ver com o que sempre foi a prática da máfia. A Rússia é uma fotografia disso e a tragédia, para um intelectual de esquerda, é que parte dessa máfia foi do Partido Comunista soviético, de sua variante stalinista. A stalinização de um partido comunista é uma tragédia para a esquerda. Vejo com muito mais pujança hoje as lutas sociais na China e na Índia. Não tenho dúvidas e anote para a gente conversar daqui a dez anos: haverá o ressurgimento de lutas sociais intensas também na Rússia, porque o povo vai dizer “aquela ditadura eu não quero mais, mas também não quero esse esquema mafioso que trouxe Coca-Cola, Microsoft e me tirou o emprego”. Há mais depressão, mais suicídios. Na Alemanha Oriental, depois da festa pela queda do Muro de Berlim, aumentaram os índices de depressão e de suicídios, porque havia a beleza do consumo, mas à qual não se podia ter acesso.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

FILME SOBRE LAMARCA SERÁ EXIBIDO EM SEABRA


Reizinho posando diante do cartaz do seu documentário
(Foto: Revista Noite e Dia, de Seabra)
De Salvador (Bahia) – A população de Seabra, cidade pólo da Chapada Diamantina, a 460 quilômetros da capital baiana, vai ter a oportunidade de ver o documentário “Do Buriti à Pintada – Lamarca e Zequinha na Bahia”, de Reizinho Pereira dos Santos. Será na noite desta sexta-feira, dia 28, numa das praças do centro da cidade, dentro da programação da III Cesta Cultural, evento promovido pelo Projeto Velame Vivo, movimento social e cultural da região.


O filme, cuja edição foi feita por Antônio Olavo, mostra a tentativa de fuga do capitão do Exército que virou guerrilheiro Carlos Lamarca e do seu companheiro de militância política Zequinha (José Campos Barreto), caçados e assassinados naquela inóspita área do semi-árido baiano, nas cercanias de Brotas de Macaúbas, a uns 130 quilômetros de Seabra, por um bando de repressores da ditadura militar, sob a chefia do delegado Sérgio Fleury e do então major do Exército Nilton Cerqueira. Foram mortos em 17 de setembro de 1971.


O documentário de Reizinho fez parte da vasta programação que marcou os 40 anos do assassinato dos dois patriotas, nos dias 17 e 18 de setembro último, em Brotas. Trata-se de um valioso trabalho de resgate da memória e da verdade sobre a luta do povo brasileiro pela democracia e pela justiça social, trabalho que vem sendo feito na região pela Igreja Católica (a partir da Diocese de Barra), pela prefeitura do município, ultimamente dirigida pelo PT, e pelo Instituto Zequinha Barreto.


O assunto teve ampla cobertura deste blog. Por isso, o Projeto Velame Vivo – com a ajuda da Assessoria de Comunicação do Sindae (sindicato dos trabalhadores da área de água e esgoto/da Embasa) e do Sindicato dos Bancários da Bahia – mandou imprimir um folheto com uma das matérias postadas aqui (foto) para divulgação entre a população e nas escolas. A matéria – “Ele esteve frente a frente com o carrasco Fleury” – expõe a memória de Olderico Barreto, irmão de Zequinha, ferido durante o feroz ataque dos homens de Fleury.


Além da exibição do filme – que deve atrair a presença de convidados e visitantes de cidades vizinhas, como Brotas de Macaúbas -, consta do programa da III Cesta Cultural a apresentação de espetáculos relacionados com pintura, teatro, música, artesanato, culinária e outras mostras da criatividade da mocidade seabrense, que aproveita assim o estímulo do pessoal do Velame Vivo para se desenvolver e desabrochar.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

EMIR SADER: O “VOCABULEROLERO” DA VELHA MÍDIA


Do Blog do Emir Sader (Reproduzido do blog Vi o Mundo, de 20/10/2011)


Aqui algumas indicações sobre como ler a velha mídia. Nada do que é dito vale pelo seu valor de face. Tudo remete a um significado, cuja arte é tratar de camuflá-lo bem.


Por exemplo, quando dizem liberdade de imprensa, querem liberdade de empresa, das suas empresas, de dizerem, pelo poder da propriedade que tem, de dizer o que pensam.


A chave está em fazer passar o que pensam pelo interesse geral, pelas necessidades do país. Daí que nunca fazem o que deveriam fazer. Isto é, dizer, por exemplo: “A família Frias acha que…” Ou: “A família Civita acha que…” e assim por diante.


A arte da manipulação reside em construções em que os sujeitos (eles) ficam ocultos. Usam fórmulas como: “É mister”, “Faz-se necessário”, “É fundamental”, “É indispensável”.


Sempre cabe a pergunta: Quem, cara pálida? Eles, os donos da empresa. Sempre tentar passar a ideia de que falam em nome do país, do Brasil, da comunidade, de todos, quando falam em nome deles. A definição mais precisa de ideologia: fazer passar interesses particulares pelos interesses gerais.


Quando dizem “fazer a lição de casa”, querem dizer, fazer duro ajuste fiscal. Quando falam de “populismo”, querem dizer governo que prioriza interesses populares. Quando falam de “demagogia”, se referem a discursos que desmascaram os interesses das elites, que tratam de ocultar.


Quando falam de “liberdade de expressão”, estão falando no direito deles, famílias proprietárias das empresas monopolistas da mídia, dizerem o que bem entendem. Confundem liberdade de imprensa com liberdade de empresas – as deles.


No “vocabulerolero” indispensável para entender o que a mídia expressa de maneira cifrada, é preciso entender que quando falam de “governo responsável”, é aquele que prioriza o combate à inflação, às custas das políticas sociais. Quando falam de “clientelismo”, se referem às políticas sociais dos governos.


Quando falam de “líder carismático”, querem desqualificar os discursos dos lideres populares, que falam diretamente ao povo sobre seus interesses.


Quando falam de “terrorismo”, se referem aos que combatem ou resistem a ações norte-americanas. “Sociedades livres” são as de “livre mercado”. Democráticos são os países ocidentais que têm eleições periódicas, separação dos três poderes, variedade de siglas de partidos e “imprensa livre”, isto é, imprensa privada.


“Democrático” é o país aliado dos EUA – berço da democracia. Totalitário é o inimigo dos EUA.


Quando dizem “Basta” ou “Cansei”, querem dizer que eles não aguentam mais medidas populares e democráticas que afetam seus interesses e os seus valores.


Entre a velha mídia e a realidade se interpõe uma grossa camada de mecanismos ideológicos, com os quais tentam passar seus interesses particulares como se fossem interesses gerais. É o melhor exemplo do que Marx chamava de ideologia: valores e concepções particulares que pretendem promover-se a interesses da totalidade. Para isso se valem de categorias enganosas, que é preciso desmistificar cotidianamente, para que possamos enxergar a realidade como ela é.


Emir Sader, sociólogo e cientista, mestre em filosofia política e doutor em ciência política pela USP – Universidade de São Paulo.

domingo, 23 de outubro de 2011

ARGENTINA: OUTRO TRIUNFO DO MODELO SULAMERICANO

Por Martín Granovsky (Reproduzido de Carta Maior, de 23/10/2011)


A Argentina chega a sua sétima eleição em 28 anos de democracia em uma situação inédita. Como diz o consultor Enrique Zuleta Puceiro, “desta vez não há crise no momento das eleições”. Por isso as eleições presidenciais não colocam em jogo como sair da crise nem como a Argentina pode escapar de um abismo. “Os cidadãos não entregam um cheque em branco a seus dirigentes, mas votarão com absoluta tranquilidade e expressarão que estão elegendo Cristina Fernández de Kirchner para que ela conduza a Argentina na solução dos problemas pendentes”, explica Zuleta.


A presidenta obteve nas primárias obrigatórias de 14 de agosto 50,2% dos votos. Segundo a empresa Poliarquía, que não trabalha para o governo, poderia obter entre 52 e 56% dos votos neste domingo. A diferença em relação ao provável segundo colocado, o socialista moderado Hermes Binner, poderia chegar a 40 pontos. Se esse for o resultado final, a Argentina viverá uma experiência inédita.

Cristina encabeçará o terceiro turno do kirchnerismo à frente de uma coalizão heterogênea, mas consolidada. Néstor Kirchner assumiu em 2003 depois de ter saído do primeiro turno das eleições com 22% dos votos. Não houve segundo turno. Carlos Menem abandonou a disputa quando soube pelas pesquisas que perderia por 65%. Desde aquele momento o primeiro governo eleito pelo voto popular após a crise do neoliberalismo de 2001 construiu legitimidade mediante a renovação da Corte Suprema, a reestruturação (com uma substancial redução no pagamento realizado posteriormente) da maior dívida da história financeira do país, uma política econômica baseada no crescimento da demanda popular e uma marcada sintonia com o governo Lula e o resto dos estados da América do Sul.

Kirchner terminou seu mandato com 70% de popularidade e, em 2007, Cristina o sucedeu com 45%, o dobro de votos obtido em 2003. A construção política kirchnerista cambaleou em 2008 com a disputa em torno dos direitos de exportação com os setores do agronegócio, que resultou na perda de apoio entre os setores médios da população. Em 2009, recebeu um alerta com a derrota legislativa no Estado de Buenos Aires, que representa mais de 35% do eleitorado. Mas Cristina conseguiu que a crise do Lehman Brothers não impactasse mortalmente a Argentina. E fez isso sem recorrer a ajustes. Pelo contrário: estatizou os fundos privados de aposentadoria e criou uma bolsa universal para cada criança, de efeitos reparadores e estimuladores.

Também enviou ao Congresso e submeteu à discussão nacional até conseguir a maioria parlamentar, uma nova lei de serviços de comunicação audiovisual. O regime legal, aprovado em outubro de 2009, determina o fim dos monopólios em televisão aberta, TV a cabo e rádios. A lei não regula conteúdos como faz a nova legislação do Equador, nem tem jurisdição sobre a imprensa escrita. Cristina, além disso, conseguiu que o Congresso aprovasse seu projeto de despenalizar as calúnias e injúrias dos jornalistas contra funcionários do governo.

Se as pesquisas estiverem certas, os resultados eleitorais mostrarão um mapa político assombroso. Os votos somados de Cristina e de Binner representarão de 70 a 75% dos votantes. A direita não encontrou expressão partidária. Sua principal figura potencial, o prefeito da cidade de Buenos Aires, Mauricio Macri, decidiu preservar-se de uma derrota e não está competindo. Sonha com o fim da onda de centro-esquerda para as eleições de 2015. É uma eternidade: nesta data terão se completado 12 anos seguidos de governos baseados no modelo sulamericano de inclusão e reforma.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer



(Observação deste blog: os primeiros dados não oficiais divulgados no início da noite deste domingo, dia 23, confirmam a vitória arrasadora de Cristina Kirchner).

sábado, 22 de outubro de 2011

PODEMOS VIVER SEM CONVENÇÕES?

(Foto: Jadson Oliveira)
Por Leonardo Boff (foto), teólogo e escritor (Artigo publicado pelo jornal Brasil de Fato em junho/2006 e repetido no sítio Encalhe em maio/2011)

O filósofo Ludwig Wittgenstein ensinava que nossa comunicação não passa de um grande jogo de palavras. Não há relação direta entre palavras e coisas. Palavras são inventadas arbitrariamente. Seu sentido é fruto de uma convenção e tudo depende do uso que fazemos delas. Estabelecem-se, pois, convenções, a partir de algo arbitrário.



Há anos, numa aula de filosofia em Munique, escutei a seguinte história que faz pensar. Havia um professor que após a aposentadoria se entediava muito porque tudo lhe parecia chato e sem graça. A mesa era sempre mesa, as cadeiras, cadeiras, a cama, cama, o quadro, quadro. Por que não poderia ser diferente? Os brasileiros chamam a casa de casa, os franceses de maison, os alemães de haus e os ingleses de home. E resolveu dar outros nomes às coisas já que tudo nessa área é mesmo arbitrário.


Assim chamou a cama de quadro, a mesa de tapete, a cadeira de despertador, o jornal de cama, o espelho de cadeira, o despertador de álbum de fotografias, o armário de jornal, o tapete de armário, o quadro de mesa e o álbum de fotografias de espelho. Portanto: o homem ficava bastante tempo no quadro, às nove tocava o álbum de fotografias, se levantava e punha-se em cima do armário para não apanhar frio nos pés, depois tirava a roupa do jornal, vestia-se, olhava para a cadeira na parede, sentava-se no despertador junto ao tapete e folheava no espelho até encontrar a mesa da filha.


O homem achava tudo aquilo muito engraçado. As coisas começaram de fato a mudar. Treinava o dia inteiro para guardar as significações novas que dava às palavras. Tudo se chamava de outra maneira. Ele já não era um homem mas um pé, e o pé era uma manhã e a manhã um homem. E continuou a dar significações diferentes às palavras: tocar a campainha diz-se pôr, ter frio diz-se olhar, estar deitado diz-se tocar, estar de pé diz-se ter frio e pôr diz-se folhear.


E a coisa ficou então assim: pelo homem, o pé ficou bastante tempo tocando no quadro, às nove pôs o álbum de fotografias, o pé teve frio e folheou-se no armário para não olhar para a manhã. E o aposentado se divertia com as novas designações que atribuía às palavras. Fez tanto que acabou realmente esquecendo a linguagem comum com a qual as pessoas se comunicam entre si.


Quando conversava com os outros tinha que fazer muito esforço porque somente lhe vinham à mente os sentidos que havia dado às palavras. Ao quadro dele, as pessoas chamavam de cama, ao tapete de mesa, ao despertador de cadeira, à cama de jornal, à mesa de quadro e ao espelho de álbum de fotografias.


Ria muito quando ouvia as pessoas falarem: “hoje vou assistir o jogo de abertura da Copa mundial de futebol” ou “como faz frio hoje”. Ria porque não entendia mais nada.


Mas o triste da história é que ninguém mais o entendia e ele também não entendia mais ninguém.


Por esta razão decidiu não dizer mais nada. Retirou-se para casa, só falava consigo mesmo e se entendia.


Pergunta: dá para viver juntos e nos comunicar sem criar convenções? Até que ponto podemos inventar sentidos a nosso bel prazer?



sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O NOVO TERRORISMO


(Foto: Deta Maria)
De Salvador (Bahia) - O sistema financeiro é “a nova forma de terrorismo que disciplina as sociedades para que não pensem diferente das receitas do poder econômico global”.


Palavras da presidenta da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner (foto), em discurso de 17/outubro durante as comemorações dos 60 anos da televisão no país, conforme noticiou o jornal Página/12.


Segundo todas as pesquisas de opinião, ela será reeleita nas eleições deste domingo, dia 23, para desconforto dos principais meios de comunicação do Brasil, cujos editores/donos a tratam sempre como uma péssima presidenta.


Será que a declaração acima explica a má vontade dos monopólios da mídia com a mandatária dos argentinos?

WINDOWS OF WALL STREET

(Reproduzido do blog Pilha Pura, postado por Joana D'Arck em  21/10/2011)

O jornalista Ney Sá (foto) nos enviou esse texto para compartilharmos aqui com o seleto público do Pilha, esse blog onde rola de tudo, das piadas e provocações aos momentos de reflexão. Taí a contribuição do amigo e colega:


Agora que a crise bumerangue retorna às terras do Tio Sam, o povo estadunidense vai às ruas para protestar contra a concentração de renda, o desemprego e as desigualdades sociais. É louvável a mobilização e deve-se reconhecer essa capacidade de organização demonstrada, mas não podemos esquecer que a matriz ideológica que move os protestos bebe na mesma fonte way of life do capitalismo (e das crises) que eles exportam.

O cidadão norte-americano médio tem certa dificuldade de localizar outros países no mapa mundi. Há uma unanimidade umbilical sobre as preocupações que movem os interesses populares naquele país (e como diria Nelson Rodrigues, essa unanimidade não pode ser chamada de prodígio). Assim, ao assistirmos as concentrações de protesto em Wall Street, vale lembrar que os 99% brandidos nas faixas, cartazes e palavras de ordem não se referem ao planeta terra, mas ao USA planet.

Há que fazer uma diferenciação emocional. Com o olhar brasileiro que usamos, a tendência é achar que estão falando em nome do mundo. Não estão. Falam em nome deles próprios. Cada um na multidão representa a si próprio "all by myself". O rótulo de fracassado (loser), estigmatizado na cultura do tio Sam, não costuma ponderar o ambiente e a conjuntura, mas tão somente a capacidade individual. Daí a apologia ao "self made man". Esses valores são repetidos ad nauseam nos folhetins holiudianos. E se chegam com tanta força aqui, imagine o impacto dessa doutrinação lá...


Simbolicamente, numa dessas parcas reportagens que a grande mídia brasileira tem feito sobre os acontecimentos de Wall Street, mostraram um cartaz exibido através das janelas de uma daquelas corretoras de valores, onde se lia "We are the 1%". Resposta óbvia, com cheiro de provocação, mas profundamente verdadeira. Se a representação dos 99% está nas ruas, quem está empregado e trabalhando - especialmente em Wall Street -, é o restante 1%. Mas cito isso para dizer que em essência não há diferença entre o estadunidense que segura o cartaz de 99% e o que exibe a faixa de 1%. Trocariam de faixa sem remorso se a situação pessoal de cada um fosse oposta.


Está aí, para mim, a diferença básica entre os protestos nas ruas dos Estados Unidos e as que acontecem em nossos desunidos estados. No que pese o paradoxo da desunião embrionária nos movimentos sociais brasileiros, quando uma iniciativa cresce ao ponto de ganhar as ruas, ganha também uma simpatia generalizada. A marcha contra a corrupção, no dia 12 de outubro, é um exemplo típico. Duvido que diante da janela de qualquer dos gabinetes de Brasília, alguém – mesmo como piada -, colocasse o cartaz “nós somos os corruptos”.


Há nas bandeiras dos movimentos sociais brasileiros o DNA da solidariedade. Não por uma identificação direta com a causa, mas porque o brasileiro tem ainda na sua cultura emocional o vírus da empatia. E não creio que seja a síndrome de Estocolmo. Acho que é coisa do capitalismo tardio, talvez a “anti-lei” de Gerson, não sei. Mas sinto que o Brasil avança em solidariedade quando as causas são grandiosas, mesmo que não sejam assim tão grandes.


Não nos faltam solidariedade, nem indignação. Somos mestres em reclamação. O que falta é transformar as intenções em gestos! Isto temos que aprender com eles: ir para as ruas e deixar a cômoda posição da janela.


Ney Sá

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

IMMANUEL WALLERSTEIN: "O CAPITALISMO CHEGOU AO FIM DA LINHA"

Do site Outras Palavras, sugestão do sgeral/MST (Reproduzido do blog Vi o Mundo, postagem de 18/10/2011)

A entrevista durou pouco mais de onze minutos, mas alimentará horas de debates em todo o mundo e certamente ajudará a enxergar melhor o período tormentoso que vivemos. Aos 81 anos, o sociólogo estadunidense Immanuel Wallerstein, acredita que o capitalismo chegou ao fim da linha: já não pode mais sobreviver como sistema. Mas – e aqui começam as provocações – o que surgirá em seu lugar pode ser melhor (mais igualitário e democrático) ou pior (mais polarizado e explorador) do que temos hoje em dia.

Estamos, pensa este professor da Universidade de Yale e personagem assíduo dos Fóruns Sociais Mundiais, em meio a uma bifurcação, um momento histórico único nos últimos 500 anos. Ao contrário do que pensava Karl Marx, o sistema não sucumbirá num ato heróico. Desabará sobre suas próprias contradições. Mas atenção: diferente de certos críticos do filósofo alemão, Wallerstein não está sugerindo que as ações humanas são irrelevantes.


Ao contrário: para ele, vivemos o momento preciso em que as ações coletivas, e mesmo individuais, podem causar impactos decisivos sobre o destino comum da humanidade e do planeta. Ou seja, nossas escolhas realmente importam. “Quando o sistema está estável, é relativamente determinista. Mas, quando passa por crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante.”

É no emblemático 1968, referência e inspiração de tantas iniciativas contemporâneas, que Wallerstein situa o início da bifurcação. Lá teria se quebrado “a ilusão liberal que governava o sistema-mundo”. Abertura de um período em que o sistema hegemônico começa a declinar e o futuro abre-se a rumos muito distintos, as revoltas daquele ano seriam, na opinião do sociólogo, o fato mais potente do século passado – superiores, por exemplo, à revolução soviética de 1917 ou a 1945, quando os EUA emergiram com grande poder mundial.

As declarações foram colhidas no dia 4 de outubro pela jornalista Sophie Shevardnadze, que conduz o programa Interview na emissora de televisão russa RT. A transcrição e a tradução para o português são iniciativas do sítio Outras Palavras, 15-10-2011.


Eis a entrevista:

Há exatamente dois anos, você disse ao RT que o colapso real da economia ainda demoraria alguns anos. Esse colapso está acontecendo agora?


Não, ainda vai demorar um ano ou dois, mas está claro que essa quebra está chegando.

Quem está em maiores apuros: Os Estados Unidos, a União Europeia ou o mundo todo?


Na verdade, o mundo todo vive problemas. Os Estados Unidos e União Europeia, claramente. Mas também acredito que os chamados países emergentes, ou em desenvolvimento – Brasil, Índia, China – também enfrentarão dificuldades. Não vejo ninguém em situação tranquila.

Você está dizendo que o sistema financeiro está claramente quebrado. O que há de errado com o capitalismo contemporâneo?


Essa é uma história muito longa. Na minha visão, o capitalismo chegou ao fim da linha e já não pode sobreviver como sistema. A crise estrutural que atravessamos começou há bastante tempo. Segundo meu ponto de vista, por volta dos anos 1970 – e ainda vai durar mais uns vinte, trinta ou quarenta anos. Não é uma crise de um ano, ou de curta duração: é o grande desabamento de um sistema. Estamos num momento de transição. Na verdade, na luta política que acontece no mundo — que a maioria das pessoas se recusa a reconhecer — não está em questão se o capitalismo sobreviverá ou não, mas o que irá sucedê-lo. E é claro: podem existir dois pontos de vista extremamente diferentes sobre o que deve tomar o lugar do capitalismo.


Qual a sua visão?

Eu gostaria de um sistema relativamente mais democrático, mais relativamente igualitário e moral. Essa é uma visão, nós nunca tivemos isso na história do mundo – mas é possível. A outra visão é de um sistema desigual, polarizado e explorador. O capitalismo já é assim, mas pode advir um sistema muito pior que ele. É como vejo a luta política que vivemos. Tecnicamente, significa é uma bifurcação de um sistema.


Então, a bifurcação do sistema capitalista está diretamente ligada aos caos econômico?


Sim, as raízes da crise são, de muitas maneiras, a incapacidade de reproduzir o princípio básico do capitalismo, que é a acumulação sistemática de capital. Esse é o ponto central do capitalismo como um sistema, e funcionou perfeitamente bem por 500 anos. Foi um sistema muito bem sucedido no que se propõe a fazer. Mas se desfez, como acontece com todos os sistemas.

Esses  tremores econômicos, políticos e sociais são perigosos? Quais são os prós e contras?

Se você pergunta se os tremores são perigosos para você e para mim, então a resposta é sim, eles são extremamente perigosos para nós. Na verdade, num dos livros que escrevi, chamei-os de “inferno na terra”. É um período no qual quase tudo é relativamente imprevisível a curto prazo – e as pessoas não podem conviver com o imprevisível a curto prazo. Podemos nos ajustar ao imprevisível no longo prazo, mas não com a incerteza sobre o que vai acontecer no dia seguinte ou no ano seguinte. Você não sabe o que fazer, e é basicamente o que estamos vendo no mundo da economia hoje. É uma paralisia, pois ninguém está investindo, já que ninguém sabe se daqui a um ano ou dois vai ter esse dinheiro de volta. Quem não tem certeza de que em três anos vai receber seu dinheiro, não investe – mas não investir torna a situação ainda pior. As pessoas não sentem que têm muitas opções, e estão certas, as opções são escassas.

Então, estamos nesse processo de abalos, e não existem prós ou contras, não temos opção, a não ser estar nesse processo. Você vê uma saída?


Sim! O que acontece numa bifurcação é que, em algum momento, pendemos para um dos lados, e voltamos a uma situação relativamente estável. Quando a crise acabar, estaremos em um novo sistema, que não sabemos qual será. É uma situação muito otimista no sentido de que, na situação em que nos encontramos, o que eu e você fizermos realmente importa. Isso não acontece quando vivemos num sistema que funciona perfeitamente bem. Nesse caso, investimos uma quantidade imensa de energia e, no fim, tudo volta a ser o que era antes. Um pequeno exemplo. Estamos na Rússia. Aqui aconteceu uma coisa chamada Revolução Russa, em 1917. Foi um enorme esforço social, um número incrível de pessoas colocou muita energia nisso. Fizeram coisas incríveis, mas no final, onde está a Rússia, em relação ao lugar que ocupava em 1917? Em muitos aspectos, está de volta ao mesmo lugar, ou mudou muito pouco. A mesma coisa poderia ser dita sobre a Revolução Francesa.


O que isso diz sobre a importância das escolhas pessoais?

A situação muda quando você está em uma crise estrutural. Se, normalmente, muito esforço se traduz em pouca mudança, nessas situações raras um pequeno esforço traz um conjunto enorme de mudanças – porque o sistema, agora, está muito instável e volátil. Qualquer esforço leva a uma ou outra direção. Às vezes, digo que essa é a “historização” da velha distinção filosófica entre determinismo e livre-arbítrio. Quando o sistema está relativamente estável, é relativamente determinista, com pouco espaço para o livre-arbítrio. Mas, quando está instável, passando por uma crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante. As ações de cada um realmente importam, de uma maneira que não se viu nos últimos 500 anos. Esse é meu argumento básico.

Você sempre apontou Karl Marx como uma de suas maiores influências. Você acredita que ele ainda seja tão relevante no século 21?


Bem, Karl Marx foi um grande pensador no século 19. Ele teve todas as virtudes, com suas ideias e percepções, e todas as limitações, por ser um homem do século 19. Uma de suas grandes limitações é que ele era um economista clássico demais, e era determinista demais. Ele viu que os sistemas tinham um fim, mas achou que esse fim se dava como resultado de um processo de revolução. Eu estou sugerindo que o fim é reflexo de contradições internas. Todos somos prisioneiros de nosso tempo, disso não há dúvidas. Marx foi um prisioneiro do fato de ter sido um pensador do século 19; eu sou prisioneiro do fato de ser um pensador do século 20.

Do século 21, agora.

É, mas eu nasci em 1930, eu vivi 70 anos no século 20, eu sinto que sou um produto do século 20. Isso provavelmente se revela como limitação no meu próprio pensamento.

Quanto – e de que maneiras – esses dois séculos se diferem? Eles são realmente tão diferentes?

Eu acredito que sim. Acredito que o ponto de virada deu-se por volta de 1970. Primeiro, pela revolução mundial de 1968, que não foi um evento sem importância. Na verdade, eu o considero o evento mais significantes do século 20. Mais importante que a Revolução Russa e mais importante que os Estados Unidos terem se tornado o poder hegemônico, em 1945. Porque 1968 quebrou a ilusão liberal que governava o sistema mundial e anunciou a bifurcação que viria. Vivemos, desde então, na esteira de 1968, em todo o mundo.

Você disse que vivemos a retomada de 68 desde que a revolução aconteceu. As pessoas às vezes dizem que o mundo ficou mais valente nas últimas duas décadas. O mundo ficou mais violento?


Eu acho que as pessoas sentem um desconforto, embora ele talvez não corresponda à realidade. Não há dúvidas de que as pessoas estavam relativamente tranquilas quanto à violência em 1950 ou 1960. Hoje, elas têm medo e, em muitos sentidos, têm o direito de sentir medo.

Você acredita que, com todo o progresso tecnológico, e com o fato de gostarmos de pensar que somos mais civilizados, não haverá mais guerras? O que isso diz sobre a natureza humana?


Significa que as pessoas estão prontas para serem violentas em muitas circunstâncias. Somos mais civilizados? Eu não sei. Esse é um conceito dúbio, primeiro porque o civilizado causa mais problemas que o não civilizado; os civilizados tentam destruir os bárbaros, não são os bárbaros que tentam destruir os civilizados. Os civilizados definem os bárbaros: os outros são bárbaros; nós, os civilizados.

É isso que vemos hoje? O Ocidente tentando ensinar os bárbaros de todo o mundo?

É o que vemos há 500 anos.




terça-feira, 18 de outubro de 2011

ZIZEK: O CASAMENTO ENTRE DEMOCRACIA E CAPITALISMO ACABOU

O filósofo e escritor esloveno Slavoj Zizek (foto) visitou a acampamento do movimento Ocupar Wall Street, no parque Zuccotti, em Nova York e falou aos manifestantes. “Estamos testemunhando como o sistema está se autodestruindo. Quando criticarem o capitalismo, não se deixem chantagear pelos que vos acusam de ser contra a democracia. O casamento entre a democracia e o capitalismo acabou". Leia a íntegra do pronunciamento de Zizek:


“Durante o crash financeiro de 2008, foi destruída mais propriedade privada, ganha com dificuldades, do que se todos nós aqui estivéssemos a destruí-la dia e noite durante semanas. Dizem que somos sonhadores, mas os verdadeiros sonhadores são aqueles que pensam que as coisas podem continuar indefinidamente da mesma forma.

Não somos sonhadores. Somos o despertar de um sonho que está se transformando num pesadelo. Não estamos destruindo coisa alguma. Estamos apenas testemunhando como o sistema está se autodestruindo.

Todos conhecemos a cena clássica do desenho animado: o coiote chega à beira do precipício, e continua a andar, ignorando o fato de que não há nada por baixo dele. Somente quando olha para baixo e toma consciência de que não há nada, cai. É isto que estamos fazendo aqui.

Estamos a dizer aos rapazes de Wall Street: “hey, olhem para baixo!”

Em abril de 2011, o governo chinês proibiu, na TV, nos filmes e em romances, todas as histórias que falassem em realidade alternativa ou viagens no tempo. É um bom sinal para a China. Significa que as pessoas ainda sonham com alternativas, e por isso é preciso proibir este sonho. Aqui, não pensamos em proibições. Porque o sistema dominante tem oprimido até a nossa capacidade de sonhar.

Vejam os filmes a que assistimos o tempo todo. É fácil imaginar o fim do mundo, um asteróide destruir toda a vida e assim por diante. Mas não se pode imaginar o fim do capitalismo. O que estamos, então, a fazer aqui?

Deixem-me contar uma piada maravilhosa dos velhos tempos comunistas. Um fulano da Alemanha Oriental foi mandado para trabalhar na Sibéria. Ele sabia que o seu correio seria lido pelos censores, por isso disse aos amigos: “Vamos estabelecer um código. Se receberem uma carta minha escrita em tinta azul, será verdade o que estiver escrito; se estiver escrita em tinta vermelha, será falso”. Passado um mês, os amigos recebem uma primeira carta toda escrita em tinta azul. Dizia: “Tudo é maravilhoso aqui, as lojas estão cheias de boa comida, os cinemas exibem bons filmes do ocidente, os apartamentos são grandes e luxuosos, a única coisa que não se consegue comprar é tinta vermelha.”

É assim que vivemos – temos todas as liberdades que queremos, mas falta-nos a tinta vermelha, a linguagem para articular a nossa ausência de liberdade. A forma como nos ensinam a falar sobre a guerra, a liberdade, o terrorismo e assim por diante, falsifica a liberdade. E é isso que estamos a fazer aqui: dando tinta vermelha a todos nós.

Existe um perigo. Não nos apaixonemos por nós mesmos. É bom estar aqui, mas lembrem-se, os carnavais são baratos. O que importa é o dia seguinte, quando voltamos à vida normal. Haverá então novas oportunidades? Não quero que se lembrem destes dias assim: “Meu deus, como éramos jovens e foi lindo”.

Lembrem-se que a nossa mensagem principal é: temos de pensar em alternativas. A regra quebrou-se. Não vivemos no melhor mundo possível, mas há um longo caminho pela frente – estamos confrontados com questões realmente difíceis. Sabemos o que não queremos. Mas o que queremos? Que organização social pode substituir o capitalismo? Que tipo de novos líderes queremos?

Lembrem-se, o problema não é a corrupção ou a ganância, o problema é o sistema. Tenham cuidado, não só com os inimigos, mas também com os falsos amigos que já estão trabalhando para diluir este processo, do mesmo modo que quando se toma café sem cafeína, cerveja sem álcool, sorvete sem gordura.

Vão tentar transformar isso num protesto moral sem coração, um processo descafeinado. Mas o motivo de estarmos aqui é que já estamos fartos de um mundo onde se reciclam latas de coca-cola ou se toma um cappuccino italiano no Starbucks, para depois dar 1% às crianças que passam fome e fazer-nos sentir bem com isso. Depois de fazer outsourcing ao trabalho e à tortura, depois de as agências matrimoniais fazerem outsourcing da nossa vida amorosa, permitimos que até o nosso envolvimento político seja alvo de outsourcing. Queremos ele de volta.

Não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que entrou em colapso em 1990. Lembrem-se que hoje os comunistas são os capitalistas mais eficientes e implacáveis. Na China de hoje, temos um capitalismo que é ainda mais dinâmico do que o vosso capitalismo americano. Mas ele não precisa de democracia. O que significa que, quando criticarem o capitalismo, não se deixem chantagear pelos que vos acusam de ser contra a democracia. O casamento entre a democracia e o capitalismo acabou.

A mudança é possível. O que é que consideramos possível hoje? Basta seguir os meios de comunicação. Por um lado, na tecnologia e na sexualidade tudo parece ser possível. É possível viajar para a lua, tornar-se imortal através da biogenética. Pode-se ter sexo com animais ou qualquer outra coisa. Mas olhem para os terrenos da sociedade e da economia. Nestes, quase tudo é considerado impossível. Querem aumentar um pouco os impostos aos ricos? Eles dizem que é impossível. Perdemos competitividade. Querem mais dinheiro para a saúde? Eles dizem que é impossível, isso significaria um Estado totalitário. Algo tem de estar errado num mundo onde vos prometem ser imortais, mas em que não se pode gastar um pouco mais com cuidados de saúde.

Talvez devêssemos definir as nossas prioridades nesta questão. Não queremos um padrão de vida mais alto – queremos um melhor padrão de vida. O único sentido em que somos comunistas é que nos preocupamos com os bens comuns. Os bens comuns da natureza, os bens comuns do que é privatizado pela propriedade intelectual, os bens comuns da biogenética. Por isto e só por isto devemos lutar.

O comunismo falhou totalmente, mas o problema dos bens comuns permanece. Eles dizem-nos que não somos americanos, mas temos de lembrar uma coisa aos fundamentalistas conservadores, que afirmam que eles é que são realmente americanos. O que é o cristianismo? É o Espírito Santo. O que é o Espírito Santo? É uma comunidade igualitária de crentes que estão ligados pelo amor um pelo outro, e que só têm a sua própria liberdade e responsabilidade para este amor. Neste sentido, o Espírito Santo está aqui, agora, e lá em Wall Street estão os pagãos que adoram ídolos blasfemos.

Por isso, do que precisamos é de paciência. A única coisa que eu temo é que algum dia vamos todos voltar para casa, e vamos voltar a encontrar-nos uma vez por ano, para beber cerveja e recordar nostalgicamente como foi bom o tempo que passamos aqui. Prometam que não vai ser assim. Sabem que muitas vezes as pessoas desejam uma coisa, mas realmente não a querem. Não tenham medo de realmente querer o que desejam. Muito obrigado”.

Reproduzido de Carta Maior, de 11/10/2011. Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net .

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

“INDIGNADOS” BAIANOS VÃO ÀS RUAS NO 15-O E INICIAM ACAMPAMENTO


Passeata pela metade da pista da Avenida Sete de Setembro rumo à Praça Municipal
(Todas as fotos: Jadson Oliveira)
Concentração na Praça da Piedade (no detalhe, protesto contra a Rede Glogo)
De Salvador (Bahia) - Também Salvador, a quase sempre ensolarada capital dos baianos, já está inserida no circuito internacional dos “indignados”, os novos “guerrilheiros” modernos que querem mudar o mundo dominado pela ditadura das corporações financeiras e que se deleitam em manejar, ao invés de fuzis, a rebeldia e as novíssimas tecnologias da informática. Começaram a surgir nas rebeliões árabes, passaram a brilhar na Europa, com especial eloqüência na Porta do Sol, em Madrid, Espanha, ocuparam Wall Street, Nova Iorque, coração do capitalismo, e se espalharam pelo mundo como uma praga.


E chegaram ao Brasil, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre... e à Bahia, por que não? Foram poucos, mais ou menos uma centena, os que se manifestaram no sábado, 15 de outubro, o chamado 15-O, dia fadado a se tornar o “dia internacional dos indignados”, de acordo com a ousada convocação dos insurgentes espanhóis. Mas eles não se importam com o pequeno número, parecem crer fielmente na força da “presença” on line, confiam nos contatos através do Twitter e do Facebook e na necessidade urgente de mudar um mundo cheio de injustiças sociais, desigualdade, opressão e violência. São uma pequena parte dos milhares de jovens que protestaram em centenas de cidades de dezenas de países de todos os continentes.

Assembleia na Piedade para discutir a exibição ou não de bandeiras de partidos
Nos cartazes a variedade de protestos e reivindicações
Começaram a se juntar por volta das 10 horas da manhã do sábado na Praça da Piedade, área do centro antigo da cidade. Pintaram cartazes com variadíssimos protestos e reivindicações: 10% do PIB para educação, “educação do campo é direito e não esmola”,” lugar de político ladrão é na cadeia”, logotipo da TV Globo: “Alienação a gente vê por aqui”, “você aí parado também é explorado”, “transforme sua indignação em ação”, “que os ricos paguem pela crise”, etc, etc.


Apesar da fama de “apartidários”, “suprapartidários” – na verdade, um novo tipo de anarquismo -, parte dos “indignados” baianos que foram à Praça da Piedade era “organizada”, ou seja, fazia parte de partidos políticos e entidades do movimento social. Claro que teve gente sem partido, livre-atirador, como teve gente de novos grupamentos, a exemplo do Partido Pirata e do grupo Anonymous, com características bem anarquistas, mas teve também gente do PSTU, do PSOL, da Associação Nacional de Estudantes – Livre (Anel), de diretórios estudantis, do Sinasefe (sindicato dos servidores e professores do antigo Cefet, atual IFBA – Instituto Federal da Bahia, de ensino superior e técnico), do ANDES (sindicato de professores do ensino superior) e apareceu ainda, de passagem pelo local, uma dirigente do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), Norma de Castro Batista, que aproveitou e sapecou um vibrante e aplaudido discurso.


Mas não foi harmoniosa a convivência de “organizados” e “não-organizados”. Uma parte – creio que a maioria – não gostou de que alguns partidários do PSTU exibissem a bandeira do partido (somente gente do PSTU tinha levado bandeira). Que qualquer um exibisse nos cartazes suas mensagens, seus protestos, tudo bem. Que qualquer um exibisse o nome de seu partido na camiseta, tudo bem. Mas levantar a bandeira com sua sigla partidária, não, era contra o espírito do movimento. Depois dos pronunciamentos na praça e antes da passeata pela Avenida Sete de Setembro rumo à Praça Municipal, a divergência rendeu muita discussão. Resultado: durante o debate em assembleia, antes de alguma decisão, as pessoas afinadas com o PSTU e a Anel se retiraram e desistiram de participar da passeata.


Concentração nas escadarias do Palácio Rio Branco, Praça Municipal
E então uns 70 a 80 manifestantes, com muita animação e muitas palavras-de-ordem – algumas bem irreverentes, como “que país é esse? é a porra do Brasil” -, desfilaram pela Avenida Sete, a principal via do centro de Salvador, ocupando apenas a metade da pista. Alguns poucos policiais se encarregaram de ajudar para que o trânsito fluísse sem problemas.


Na Praça Municipal, nas escadarias do Palácio Rio Branco (na praça estão ainda o Elevador Lacerda, cartão postal da cidade, a Câmara dos Vereadores e o Palácio Thomé de Souza, onde fica o gabinete do prefeito), os “indignados" avaliaram o movimento, se “ligaram” ao vivo nas redes sociais da Internet e decidiram iniciar o acampamento numa área de Ondina, bairro de classe média da orla marítima (área principal do bairro, nas proximidades da praça conhecida popularmente como “praça das gordinhas”).



Ocupa Salvador – resumo das atividades


(Matéria dos próprios acampados reproduzida de www.ocupasalvador.wordpress.com , postagem de 17/10/2011)


Desde o 15-O os acampados ocupam a praça de Ondina. No início, o grupo enfrentou dificuldades estruturais – como falta de acesso à internet – o que dificultou a difusão online em tempo real das atividades, porém não impediu as discussões livres que aconteceram no sábado e também no domingo. Já temos acesso à internet, iniciamos integração com comerciantes da praça que apoiaram o movimento (a revistaria Ponto Cultural ofereceu ponto de energia!), e nesta tarde de segunda-feira os acampados buscarão contato com representantes do Bairro de Ondina e vizinhanças, para apresentação do grupo e oferecer informações mais precisas sobre a ocupação da praça.


Assembleia no início da noite de ontem, domingo 16 (Foto: Reprodução)

No sábado e nas primeiras horas de domingo, as atividades e propostas se deram em torno da efetivação e estruturação do acampamento. Durante o processo, passantes ofereceram apoio como alimento e água, enfatizando a necessidade urgente de mobilizações articuladas. Ontem a noite (domingo), foram discutidas as primeiras propostas de ações estratégicas de mobilização e alcance popular, entre as quais (as datas serão definidas e a agenda do movimento será publicada aqui diariamente):


- Aula pública: professores convidados falarão sobre o contexto global de mobilizações na Europa e EUA, associando-o com às realidades brasileiras. A aula será aberta e convidará especialmente alunos e professores de escolas públicas de bairros de Salvador.


- Exibição de vídeos: vídeos que abordam temáticas ligadas às demandas e problemas sociais e/ou que ofereçam possibilidades de discussão e debate no acampamento serão exibidos publicamente, em evento aberto a toda a população.


Diversas outras ações e ideias estão sendo discutidas e hoje, segunda 17, contamos com a presença de todos para participarem e inclusive sugerirem articulações criativas para intervenções artísticas, eventos culturais independentes, debates, e voz e violão animados pelos acampados mais talentosos! Traga sua alegria, mas sem abrir mão de sua indignação!


O acampamento mantém uma dinâmica colaborativa e conta com a colaboração de todos neste movimento que visa iniciar novos processos de transformação social através de ampla ação conjunta livre e popular.


Logo publicaremos uma lista de necessidades com itens e serviços que serão úteis no acampamento e lançaremos a campanha “Acampe conosco por um dia”, indicando o que é necessário trazer e esclarecendo questões como segurança, estrutura do local e atividades.


Também estamos elaborando uma seção para responder as perguntas mais frequentes. Até aqui, o acampamento tem conseguido resolver suas demandas estruturais e a Polícia Militar (que tem sido bastante respeitadora) será notificada hoje para maior garantia de segurança na ocupação da nova praça de Ondina.


Aliás, há um motivo muito forte para se esta a praça escolhida para a ocupação – você sabe qual é? Pesquise sobre a praça de Ondina e favorecimento de setor privado (dica: camarotes) a partir de espaços públicos!


Acompanhem o blogue – traremos mais informações sobre a questão da praça e sobre as atividades da ocupação.


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