terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

“DAS TRANSNACIONAIS AO ESTADO E DO ESTADO À SOCIEDADE PRODUTIVA”


Linera: "A velha estrutura dominante pode tolerar perder o governo, porém, antes de
 perder o poder vai travar uma batalha muito dura. É a batalha pelo poder econômico,
pelo poder político e pelo poder cultural" (Foto: Reprodução do Página/12)
Álvaro García Linera, matemático, professor de Sociologia e vice-presidente da Bolívia

Por Mario Toer e Federico Montero (Entrevista reproduzida do jornal argentino Página/12, edição de 16/01/2012)


“Consenso com os teus e com os que não são os teus, ação direta”, afirma García Linera para descrever a estratégia do governo de Evo Morales. As contradições entre povos indígenas e o desafio de construir formas comunitárias da economia.


– Como se chega ao momento que hoje vive a Bolívia?


– Nosso processo revolucionário boliviano tem atravessado vários momentos que convém repassar. Perto do ano 2000, quando o projeto neoliberal parecia invencível, começa a se visibilizar o mal-estar, e se buscavam alternativas ante as relações de dominação. Então se vislumbra a crise, a sociedade começa a imaginar outra possibilidade de vida, outra possibilidade de organização política. O segundo momento é quando este mal-estar coletivo, esta debilidade da dominação das elites, do seu discurso e sua organização da vida, dá passagem ao surgimento de um projeto de poder alternativo. É quando a gente diz: “Temos que recuperar os recursos naturais, fazer a assembleia constituinte e construir um novo sistema de governo”. Isso se dá entre 2003 e 2006. Logo vem um terceiro período, em que este projeto de poder se torna governo, através do presidente Evo Morales, e onde as formas organizativas da sociedade, que haviam mostrado sua capacidade frente à repressão, mostram sua capacidade eleitoral e começam a implementar uma série de transformações do Estado, das relações de poder. Mas, claro, a velha estrutura dominante pode tolerar perder o governo, porém, antes de perder o poder vai travar uma batalha muito dura. É a batalha pelo poder econômico, pelo poder político e pelo poder cultural, que vai de 2007 a 2009: a agenda constituinte segue adiante, mas os riscos de quebra da unidade estatal se fazem visíveis. Tenta-se um golpe de Estado, tenta-se criar uma dualidade conservadora do poder, contrapor o Oriente (região também chamada Meia-Lua, capitaneada pelo departamento – estado – de Santa Cruz) ao governo do presidente Evo, criam-se grupos armados para dividir o país. E o governo do presidente Evo vai derrotando cada uma dessas confrontações políticas. E a cada momento este bloco nacional popular, de núcleo indígena, vai enfrentando as tarefas, por momentos debilitando-se, fraturando-se; depois volta a se recompor, para dar o passo seguinte.


– Na Argentina também se teve que “recompor”. Como encararam aqui esses problemas?


– Aqui tem havido um jogo que podemos considerar desde a perspectiva marxista: as vitórias políticas puderam ser consolidadas e viabilizadas por vitórias econômicas, muito mais silenciosas e menos espetaculares, porém mais sustentáveis. Quando nós entramos, 40% do PIB estava em mãos de duas empresas de dois países estrangeiros. Ao cabo de três anos passamos de um Estado mendigo a um Estado relativamente fortalecido, com capacidade de controle e manejo do excedente econômico, o que vai permitir ao governo consolidar alianças, ampliar os benefícios sociais, expandir a distribuição da riqueza. Este tipo de transformações foi a base material das vitórias que vamos conseguindo contra a direita golpista e separatista. Hoje podemos dizer que o bloco social popular indígena formado pelo governo transformou em parte a natureza do Estado na Bolívia.


- Em que sentido pode-se dizer que se modificou a natureza do Estado?


– Hoje, as classes sociais que dirigem o Estado são muito diferentes das financeiras, mineradoras, dos banqueiros. É um bloco de poder de origem camponesa, popular, plebeia, com alianças com setores médios. Os setores que ocupam instâncias decisórias – os ministérios, as empresas públicas –, mudaram sua condição de classe e sua condição étnica e cultural de maneira radical. Na estrutura econômica, já não é a inversão estrangeira que dinamiza e sim o Estado em primeiro lugar. E no âmbito ideológico e cultural desaparecem do cenário as ideias neoliberais, que eram o centro do debate. Antes o que dizia a confederação dos empresários era quase como ouvir o Espírito Santo, uma missão do BID ou do Banco Mundial era recebida como a chegada dos apóstolos à Bolívia... agora passam a uma página perdida do jornal. Estamos mais atentos ao que aconteceu com a confederação dos camponeses, o que aconteceu com os cocaleiros, o que aconteceu com a Cidob (Confederação dos Povos Indígenas da Bolívia)... Este é o novo cenário político. E o imaginário em torno do qual partidos, dirigentes, universitários e acadêmicos organizamos a vida, é outro, é um tripé: plurinacionalidade, autonomia e economia plural, que organiza o imaginário coletivo da sociedade. Da esquerda à direita, discutem e se movem neste tripé: esse é o debate. Blocos de classe, formas organizativas da decisão político-institucional e ideário coletivo da sociedade; nesse sentido há um novo Estado. Mas um novo Estado não anula as lutas, nem as contradições: simplesmente as desloca. Essas contradições da sociedade agora atravessam também o Estado. Porisso entramos numa nova etapa que denominamos de tensões no interior da sociedade e do Estado.
Linera: "Hoje, as classes sociais que dirigem o Estado são muito diferentes das financeiras,
mineradoras, dos banqueiros. É um bloco de poder de origem camponesa, popular, plebeia,
com alianças com setores médios" (Demais fotos: Reprodução da Internet)
- Seriam as “contradições no seio do povo”...


– Sim, exatamente. Eu optei por chamá-las “tensões criativas” porque não são projetos alternativos; no momento em que as contradições deem lugar a um novo projeto de Estado e sociedade, serão antagônicas, porém não é o caso. Dou alguns exemplos: ninguém põe em dúvida que o Estado deve ser o principal gerador e controlador do excedente econômico do país. A discussão é como usá-lo. Uns dizem: “Temos que entrar rapidamente na etapa da industrialização”. Outros dizem: “Sim, mas utilizemos boa parte do excedente para distribuição salarial”. Só que no nosso país não se discute tanto nos jornais como nos tempos leninistas e sim nas marchas, mobilizações, na greve que faço para afirmar a posição de um setor, de uma região. É uma linguagem mais popular, que transcorre na rua e não tanto no literário... Também começou a surgir outro tipo de tensões internas. O processo da economia plural tem que satisfazer necessidades básicas das pessoas, mas tem também que preservar o futuro da vida e da natureza. Nós, que somos defensores da Mãe Terra, temos que cavalgar nessa contradição, hoje visível, mas que há quatro anos não o era, sem cair na crença de que os que vivemos na Amazônia temos que cuidar da floresta para o mundo inteiro. Essa é uma armadilha imperial que as ONGs nos querem armar, porque no norte continuam depredando todas as florestas. Porém há um fundo justo: tens que satisfazer necessidades básicas e materiais sem destruir o núcleo da natureza. Outra contradição interna se dá entre o interesse geral e o particular, com os movimentos sociais que têm criado com sua ação coletiva a base deste projeto geral de sociedade. Mas em certos momentos se encolhem e começam a concentrar-se em seus interesses locais e particulares. Quando a Cidob reclamava que os 17 milhões de hectares expropiados foram somente para os indígenas das terras baixas, ou quando a COB (Central Obreira Boliviana) nos pedia que as reservas internacionais, que são de todos, fossem utilizadas para os salários da saúde e da educação, que são de poucos. Este ato de voltar-se ao particular é temporário, logo depois a sociedade cria e impulsiona novamente interesses comuns. Então estas são tensões criativas internas do próprio bloco de poder, que não põem em discussão o núcleo de plurinacionalidade, economia plural e autonomia. Porém o futuro continua sendo incerto, e será uma obra de criação coletiva, de debate, de dúvida e de avanço coletivo. Ninguém tem definido o horizonte, nem o comunismo está nos esperando na esquina. Estamos entendendo que assim se fazem as revoluções, assim complexas. Ninguém está acima da história. A história é a ação viva das pessoas.


- Neste contexto, como se inscreve a convocação da cúpula plurinacional que realizou o governo?


– Foi imaginada como uma ampla convocação da sociedade civil. Obtivemos 64% dos votos, há uma Constituição, um programa de governo e um sentido comum consolidado. Queremos discutir o que se modifica, onde se acelera, como se aprofunda. Se trata disso. Aqui convocamos a sociedade civil em seu conjunto, a que está próxima, a que está distante, até empresários, todos, para ver como aprofundamos esses três pilares ordenadores da sociedade, da economia e do Estado.


- Quais são os desafios pendentes na atualidade?


– Há dois espaços sociais particulares que requerem ainda uma longa luta e transformação. No econômico demos um primeiro passo. Partimos de um poder econômico atrelado ao estrangeiro e através das nacionalizações, a presença do Estado na economia, se logrou romper muitas relações de dependência, de intermediação com os mercados internacionais, de lucro, empoderando o produtor em muitos lugares. Mas falta o segundo passo: quando os produtores associados de soja, milho ou trigo tenham seu silo e possam exportar ou processar. Temos experiências; em Oruro, por exemplo, um empresário têxtil foi mal, fechou e veio o Estado, deu crédito aos trabalhadores, se associaram e puseram a fábrica em marcha. Como fazemos para que isso se expanda a outras áreas da economia? O poder econômico da sociedade produtiva, esse é nosso sonho, nosso objetivo seguinte. Das transnacionais ao Estado e do Estado à sociedade produtiva. Porém é difícil. Posso contar experiências de como o Estado construiu empresas que não puderam ser administradas pelos que as haviam pedido, e tiveram que voltar ao Estado. Porque não havia capacidade de gestão, nem disciplina interna. Por mais que o Estado tenha boa vontade, depende da experiência da sociedade. A Bolívia tem uma experiência sedimentada em controle de terra comunal em termos de propriedade, mas não há uma base comunal em termos de produção direta, que é familiar e individual. Como se passa a uma produção mais coletiva e a uma administração mais comunitária? Aí temos uma grande tarefa, de construção de formas comunitárias de economia, poder econômico-social. O outro espaço de luta pendente é no âmbito cultural. Há um sentido comum social, essa é uma vitória, mas o controle material dos meios de comunicação continua sendo privado e muito fincado nas antigas elites políticas. As principais cadeias de televisão aqui na Bolívia estão nas mãos dos que há cinco anos atrás estavam no Parlamento e no governo. Estão na política midiática, com muita incidência, com discurso ultraconservador, histérico. Vejam os noticiários e vão pensar que estão no Iraque! Quando há conflitos intensos, este histerismo parece ser a ordem do mundo; mas quando não há tantos conflitos, fica aí, como uma telenovela mais. Aí há duas batalhas a se travar.
Linera: "Ninguém tem definido o horizonte, nem o comunismo está nos esperando na esquina.
Estamos entendendo que assim se fazem as revoluções, assim complexas. Ninguém está
acima da história. A história é a ação viva das pessoas"

- Como se origina o conflito com os povos indígenas do Oriente?


– Desde que se formou o MAS (Movimento ao Socialismo, partido do governo), o núcleo organizativo do indígena e do popular foi o aymara-quechua, duas nações que representam 58% ou 60% da população na Bolívia. Os indígenas das terras baixas da Amazônia representam 2% ou 3% da população e compõem numerosas nações em sua diversidade identitária. Sempre houve um esforço, não sem complicações, das regiões indígenas majoritárias para articular com os povos indígenas do Oriente amazônico. Na Assembleia Constituinte se deu um debate muito intenso entre a lógica mais reivindicatória e autonomista dos indígenas das terras baixas, e a lógica mais de condução do Estado, dos das terras altas. Nas terras altas tem desaparecido a fazenda, não há a força do velho senhor dono da vida, dos sonhos das pessoas. No Oriente, mesmo com uma revolução silenciosa em certas zonas, como em Beni, Pando (dois estados do Oriente), as hierarquias ainda são muito fortes e aí o que o governo tem feito é impulsionar a presença do Estado, para acelerar a ruptura com essas hierarquias tradicionais. Custa, porque é a terceira parte do território da Bolívia. E aí nossos indígenas líderes das terras baixas jogam de maneira diferente: às vezes em aliança franca, direta, com indígenas das terras altas, outras vezes com os próprios patrões...


- É lá que aparece a resistência à construção da rodovia no Tipnis (Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Sécure)?


– Antes do problema do Tipnis já se havia dado a fissura, em Santa Cruz e no Beni. É algo que não se conhece muito. No início de 2011, em Santa Cruz, os povos indígenas das terras baixas decidem aliar-se com os partidos conservadores, os verdes, para tomar o controle da Assembleia Legislativa estadual e isolar o MAS. Essas alianças estiveram baseadas na incorporação de dirigentes na Secretaria de Assuntos Indígenas do governo (departamental, estadual), algo a que sempre nos opusemos. Aí se quebra a Cidob. O episódio do Tipnis se produz na continuação desta ruptura. Ocorreu algo similar no Beni, mas lá, como as relações sociais são mais duras, mais agressivas, funcionou um esquema de subornos. Alguns dirigentes filmaram os subornos aos deputados indígenas para que rompessem com o MAS... Todo um escândalo judicial, com sentenças ainda pendentes. Aí se deteve esta estratégia de quebrar a aliança entre indígenas e o MAS. Em Santa Cruz se conseguiu, no Beni não se conseguiu.


- E como pensam encarar a política para reconstruir alianças com os que se distanciaram?


– Não é algo resolvido. Nossa intenção é voltar a restabelecê-las. Ainda que a proposta de aliar-se com os verdes não resulte no melhor, os companheiros seguem se movendo no ideário da plurinacionalidade. Sustentam que não foram suficientemente incorporados ao esquema.


– Há quem afirme que no governo, o presidente Evo e particularmente o senhor têm um estilo intransigente, “jacobino”...


- No geral, há dois modos de entrar no governo: para enriquecer a si próprio ou para que seja uma ferramenta a serviço do benefício do país. As elites utilizam o governo para potenciar-se como classe e melhorar sua situação familiar, coletiva. Quando um revolucionário, ou um professor universitário com outro tipo de ideias, faz parte do governo, para que o faz? Tem que ser em função de um ideário. Esta é uma primeira divisão. Porém também se pode estar no governo em função de ideais, ainda que contendo-os por temor aos efeitos que possam ter em outros. Um pouco Carlos Mesa é o exemplo, um homem honesto quando foi presidente. Mas além disso tem que tomar decisões. E as decisões têm seus efeitos, não há nada inocente no mundo do governo e do Estado. Pessoalmente, assim assumi as coisas: para mudar o que está mal temos que afetar os outros. Senão, seria hipocrisia. Como um governo pode nacionalizar sem afetar as companhias estrangeiras? Não te darão um abraço, nem te convidarão a suas reuniões...
Linera: "O controle material dos meios de comunicação continua sendo privado e muito fincado nas antigas
elites políticas. As principais cadeias de televisão aqui na Bolívia estão nas mãos dos que há cinco anos
atrás estavam no Parlamento e no governo"

– Por isso insistem no consenso com o que já existia, com o status quo...


- Como se vai fazer consenso com eles? Impossível. Se faz consenso com os teus. E isso fizemos. Quando dizemos “vamos nacionalizar”, alguns companheiros disseram “expropie sem indenizar”. Nós defendemos: “Senhores, este governo vai nacionalizar indenizando”. E ganhamos a discussão. Consenso com os teus e com os que não são os teus, ação direta. E assim temos procedido com diferentes medidas. Há outros momentos em que o espaço de legitimação estatal te permite tomar a mesma medida, mas aplacando as resistências, o comunicas da melhor forma possível. Mas no fundo sabes que o vai fazer. E não há maneira de subornar. Como vão subornar uma pessoa de ideais? Isso é talvez o que observam alguns companheiros: antes se negociava a decisão em função do dinheiro, fidelidades, compromissos. É o caso do incremento do preço da gasolina. Acreditávamos e continuamos acreditando que beneficiava a Bolívia, havíamos consultado antes, o sabia a COB, o sabiam os do transporte. Tomamos a decisão e vimos o rechaço, nos equivocamos e retrocedemos, claro. Mas se tomou a decisão porque era necessário para a Bolívia, não para beneficiar uma empresa vendedora de gasolina. O presidente Evo e eu entramos no governo com essa convicção. Logo tens que buscar que quem foi afetado não se afaste tanto, ver como o recuperas ou o neutralizas. E não podes duvidar. Se tu duvidas em função de Estado e mostras debilidade, tudo se vem para cima. O Estado tem suas formas, exige uma representação do próprio poder, por muito amplo que sejas na discussão, na reflexão e na consulta. É parte da própria retórica, da própria catequese do Estado. Não deveria ser assim, mas vai funcionar assim um bom tempo, porque assim vem funcionando também faz um bom tempo. Se não o fazes assim, se desgasta o princípio da autoridade, por muito coletivamente que o hajas construído.


Por que Álvaro García Linera?


O acadêmico e o militante

Álvaro García Linera é vice-presidente do Estado Plurinacional da Bolívia. Formado como licenciado em Matemáticas na UNAM (Universidade Nacional Autônoma do México), é professor, como gosta de se definir, da Universidade Maior de San Andrés (Bolívia), onde é e tem sido docente de Sociologia, Ciência Política e Comunicação. Com uma vasta trajetória como militante político, esteve na cadeia durante cinco anos. Sua prática sempre esteve entrelaçada com o compromisso social, a indagação no próprio terreno dos conflitos sociais e a tomada de partido. Entre os numerosos reconhecimentos que tem recebido, a Universidade de Buenos Aires (UBA) lhe concedeu, em 2010, o título de Doutor Honoris Causa. Seu trabalho acadêmico e político tem tido como espinha dorsal a preocupação com as condições de opressão e exclusão no seu país, através de uma síntese entre o pensamento marxista e o indianismo que questiona a submissão colonial das grandes maiorias indígenas. O mesmo compromisso que hoje o leva a acompanhar desde a vice-presidência o processo de mudança na Bolívia, nas mãos de Evo Morales.


A entrevista que se publica aqui é uma síntese de uma conversação de duas horas que García Linera teve recentemente com Mario Toer e Federico Montero, docentes e investigadores da UBA, em La Paz. A versão completa da mesma será publicada num livro próximo a ser editado, que reúne conversações com destacados protagonistas da cena política latino-americana.


Tradução: Jadson Oliveira



domingo, 26 de fevereiro de 2012

EM CUBA AINDA NÃO HÁ CONSENSO SOBRE O MODELO DE SOCIALISMO QUE SE BUSCA, DIZ ESTUDIOSO


Raúl Castro defende ascensão a cargo público sem
pertencer ao PCC (Foto: Reprodução da Internet)
Julio César Guanche garante que o debate na ilha apenas acaba de começar


China, Venezuela ou Coreia do Norte são mostras de que não há receita única do conceito, assinala


Por Gerardo Arreola – correspondente do jornal mexicano La Jornada, edição de 21/02/2012


Havana, 20 de fevereiro - Em Cuba não há ainda consenso sobre o modelo de socialismo que se busca, e o debate apenas acaba de começar, garantiu hoje o ensaísta e acadêmico Julio César Guanche.


“Para só mencionar alguns, os casos da China, Venezuela ou Coreia do Norte recordam que não existe uma receita única deste conceito”, ilustrou o estudioso, escritor e advogado, agora assessor do Festival Internacional do Novo Cine Latino-americano.


Num artigo no sítio da revista Temas de Ciências Sociais (www.temas.cult.cu), Guanche observou que o modelo político era também parte do debate da reforma econômica, no sexto congresso do Partido Comunista de Cuba (PCC), em abril de 2011. “A formulação de um novo projeto de país supõe aprender a processar os desacordos, sem penalizar diferenças expressadas em virtude de um direito fundamental”, assinalou.


Guanche é autor de En el borde de todo (Ocean Sur, 2007), uma compilação de opiniões de intelectuais depois do discurso de 2005 em que Fidel Castro fez um chamamento pela renovação do sistema.


Em seu artigo escreveu: “Surgiu um pensamento crítico – das esquerdas – do modelo vigente e de algumas das novas políticas, oposto à dissidência, que discute problemas de representatividade a respeito da expressão da própria diversidade revolucionária. Por outra parte, apareceu uma nova oposição que se considera a si mesma como democrática liberal, com visibilidade internacional e apoio de governos e outras fontes estrangeiras que se opõem ao processo político cubano. Enfim, Cuba se move. A rota e o destino do movimento são o que sua sociedade tem em discussão”.


Guanche citou entre os temas de controvérsia “a diversidade existente na Nação, a amplitude do registro de demandas sociais, a democratização das práticas partidárias e estatais, a urgência de mecanismos de governo mais eficazes, responsáveis e transparentes, a necessidade de regularizar a proteção dos direitos da cidadania e, em resumo, a demanda pela ‘atualização’ do modelo político”. Ainda que não se reflita na imprensa nem no discurso oficial, “é impossível passar ao largo do movimento reformista da política e do alcance real das mudanças experimentadas”.


O autor mostrou estes pontos chaves da situação cubana: ao perder o monopólio na economia, o Estado o perde também na política; Raúl Castro defende a possibilidade de se ascender a cargos públicos sem pertencer ao PCC; a sociedade pede uma reforma migratória que elimine travas para entrar e sair do país; se critica a “falsa unanimidade”, mas “se continua defendendo uma doutrina de Estado que determina a existência duma vontade política única”.


Se combate a corrupção, “mas também seria revolucionário outorgar o controle sobre o processo produtivo aos trabalhadores”; há uma diferença de direitos entre os membros do PCC e a população, o que cria “uma tensão conceitual e política não resolvida desde 1976”.


Uma forma de “impedir a reprodução da burocracia como classe política”, sugeriu Guanche, seria impor limites de tempo ao exercício de todos os cargos oficiais, não apenas os de maior nível; a eleição para os cargos estatais com funções públicas; autonomia de poderes e canais para reclamação judicial contra o mal desempenho da gestão ou a violação de direitos.


Nomeado vice-presidente


O jornal oficial Granma informou hoje que foi designado vice-presidente do Conselho de Ministros o titular da Economia, o engenheiro mecânico militar Adel Yzquierdo.


O exercício simultâneo desses cargos tem sido habitual, mas a designação de Yzquierdo implica que Marino Murillo, que já ocupa uma vice-presidência, deixará de supervisionar o trabalho diário da área para dedicar-se por completo à aplicação da reforma econômica, sua tarefa desde o congresso do PCC.


A designação coincidiu com uma viagem de Murillo à China. Yzquierdo, de 66 anos, assume a autoridade completa sobre o setor num período em que o governo reforça seus controles, em parte devido a uma intensa campanha contra a corrupção oficial.


Murillo, de 51 anos, preside uma comissão com plenas atribuições para executar a reforma que, pelo contrário, busca descentralizar funções e aliviar a carga do Estado para impulsionar um setor privado.


Yzquierdo estudou na União Soviética, fez carreira castrense, foi executivo do complexo militar empresarial e chegou à chefia do planejamento econômica das Forças Armadas. Em 2009 foi designado vice-ministro primeiro da Economia e Planejamento e em 2011 ficou como titular.


Murillo passou em 2009 do Ministério do Comércio Interior ao da Economia, sendo designado vice-presidente e mais tarde ingressou no Conselho de Estado (executivo com atribuições legislativas). Dirigiu a elaboração do plano econômico 2011-2015 e os documentos da reforma. No congresso do PCC, ambos ingressaram no Comitê Central e no Politburo.


Tradução: Jadson Oliveira

sábado, 25 de fevereiro de 2012

“ME SENTI UMA PRESA NO TURISMO PREDATÓRIO DE CANCÚN-MÉXICO”


Por Fabiano Viana Oliveira (foto), publicitário e professor


Ao adquirir um pacote turístico num lugar tão caro e badalado quanto Cancún, no México, a última coisa que você vai se preocupar é se será bem tratado e bem vindo, pois você está viajando para um lugar que foi inventado (a cidade tem apenas 41 anos) para recepcionar turistas (especialmente estadunidenses, mas que com a crise eram minoria comparados aos brasileiros – os novos ricos do mundo do consumo turístico).


Realmente fomos bem recebidos, todos são muito simpáticos e solícitos, chegando até ao limite da subserviência. Porém algo errado se passava nos “subterrâneos” desse paraíso. O primeiro sinal de atividade predatória aconteceu já no desembarque do aeroporto de Cancún. No local indicado como sendo de informações turísticas, os balcões eram tomados por representantes de vendas dos hotéis... Coisa curiosa, já que se supõe que informações turísticas sejam atividades oferecidas pelo poder público... Mas que nada: perdemos 15 minutos ouvindo educadamente uma “vendedora” falar que os pacotes dela e do hotel dela eram melhores e mais baratos que os nossos e que se nós deixássemos 40 dólares de depósito naquele momento, eles providenciariam tudo, inclusive a mudança de hotel... E nós só queríamos saber onde eram os translados que nos aguardariam assim que chagássemos.


Ao chegar no hotel, fomos abordados por alguém do hotel, uma senhora simpática, que achei que estava se oferecendo para nos mostrar as instalações do hotel... Triste engano, sentamos e ouvimos educadamente por 15 minutos mais uma tentativa de nos vendar pacotes de passeios, supostamente mais baratos que os da operadora brasileira com quem já tínhamos nos comprometido.

Oferecer algo mais barato, depreciando o serviço dos outros, já é algo a se desconfiar como tática de comércio, mas o pior estava por vir: a mulher disse que tinha um presente para nós e para receber tínhamos que dar um depósito de 5 dólares... Quem será que ensina essas pessoas a conquistar clientes?... Um presente!? Cinco dólares? Veja, não estou reclamando do preço, mas do fato de chamarem de presente algo pelo qual eles estão cobrando com o depósito. Pior ficou quando a mulher começou a dizer que tinha filhos para criar e precisava vender aqueles pacotes... Bom, se você faz turismo em lugar pobre, deve esperar algum nível de mendicância, mas naquele lugar rodeado de luxo e ainda por alguém do próprio hotel... Foi demais! Fomos embora e não mais usamos o lobby do hotel para entrar ou sair, pois esses “predadores” ficavam lá à espreita o tempo todo.


Quem dera essa atividade predatória fosse apenas no aeroporto e no hotel. Qualquer caminhada que nós déssemos em qualquer direção tinha algum quiosque de venda de pacotes turísticos e, diferente do que se possa imaginar, eles abordam você e não é preciso chegar perto do quiosque. O turista se sente literalmente uma presa: “brasileiro?” “pacotes mais baratos” “de São Paulo? Rio de Janeiro? Bahia?” Não importa quantos “No, gracias!” você diga, eles ficam atrás de você.


Outra coisa curiosa, eles aceitam dólares americanos como moeda corrente, mas sempre dão o troco em pesos mexicanos, cujo câmbio é por volta de 1 para 13. Assim o troco sempre favorece o estabelecimento. É incrível. Nas lojas populares, os vendedores não colocam preços nas mercadorias, dão o preço pela sua cara e aí veem a sua reação, aí podem ir baixando. E o mais curioso e constrangedor: em qualquer lugar, inclusive nos ônibus de turismo, tem uma caixa ou cesto dizendo: “aceitamos propinas!”... Para não confundir: propina é gorjeta em espanhol. Todos querem gorjetas o tempo todo, inclusive nos lugares em que você já pagou o open bar. Quer dizer, se você não estiver sempre com dinheiro (de preferência dólares) para dar de gorjeta, você passa por mal educado ou mal agradecido... “Mas eu já não paguei pelo serviço???”


Bom, a explicação que nos foi dada para essa atitude predatória por parte da população local, descendentes dos orgulhosos Maia, que preveem uma grande transformação no mundo (quem sabe o seu fim) para o próximo dia 21/12/12, é que o salário mínimo no México é de apenas US$200,00 (duzentos dólares americanos). Assim a população precisa se submeter a esse regime predatório para garantir renda extra. Isso pode até explicar, mas não sei se justifica, pois até comercialmente a sensação não é das melhores para o turista que lá está, sendo uma presa constante desses “ataques”.


A conclusão que se pode chegar é que, independentemente do local turístico ser tão bem preparado estruturalmente para receber o turista de alto padrão, se a população local não usufrui da riqueza gerada no lugar, sendo apenas massa de trabalho pobre e subserviente, então o local será sempre pobre.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

OS “DESAPARECIDOS” DO IMPÉRIO


(Foto: AFP/Reprodução do Página/12) 
Por Atilio A. Borón – cientista político argentino (Reproduzido do jornal argentino Página/12, edição de 14/01/2012)


Um artigo recente assinado por John Tirman, diretor do Centro de Estudos Internacionais do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, sigla em inglês) e publicado no The Washington Post, alude a um aspecto pouco estudado das políticas de agressão do imperialismo: a indiferença da Casa Branca e da opinião pública em relação às vítimas das guerras desencadeadas pelos Estados Unidos. Como acadêmico “bem-pensante” ele se abstém de utilizar a categoria “imperialismo” como chave interpretativa da política exterior do seu país, mas sua análise revela claramente a necessidade de se apelar a esse conceito e à teoria que lhe dá sentido. Tirman expressa a preocupação que lhe suscita a incoerência em que incorreu Barack Obama – não esqueçamos, um Prêmio Nobel da Paz – quando em seu discurso pronunciado no Fort Bragg (14 de dezembro de 2011), para render homenagem aos soldados mortos no Iraque (uns 4.500, aproximadamente), não disse uma só palavra sobre as vítimas civis e militares iraquianas que morreram por causa da agressão norte-americana. O objetivo exclusivo dessa guerra, como a que ameaça iniciar contra o Irã, foi apoderar-se do petróleo iraquiano e estabelecer um controle territorial direto sobre essa estratégica zona no momento em que o abastecimento do produto deve ser feito confiando na eficácia dissuasiva das armas em lugar do que no século 18 se chamava “o doce comércio”.


Tirman recorda que as principais guerras que os Estados Unidos desencadearam desde o fim da Segunda Guerra Mundial – Coreia, Vietnam, Camboja, Laos, Iraque e Afeganistão – produziram, segundo suas próprias palavras, uma “colossal carnificina”. Uma estimativa que este autor qualifica como muito conservadora chega a um saldo pavoroso de pelo menos seis milhões de mortes causadas pela cruzada lançada por Washington para levar a liberdade e a democracia a esses infortunados países. Se se contassem operações militares de menor escala – como as invasões a Granada e Panamá, ou a intervenção apenas dissimulada da Casa Branca nas guerras civis da Nicarágua, El Salvador e Guatemala – a cifra se elevaria consideravelmente. Não obstante, e apesar das dimensões desta tragédia (às quais haveria que agregar os milhões de foragidos devido aos combates e à devastação sofrida pelos países agredidos), nem o governo nem a sociedade norte-americana têm demonstrado a menor curiosidade, preocupação, nem digamos compaixão!, para inteirar-se do ocorrido e fazer algo a respeito. Esses milhões de vítimas foram simplesmente apagados do registro oficial do governo e, pior ainda, da memória do povo norte-americano, mantido despudoradamente na ignorância ou submetido à deliberada tergiversação da informação. Como lugubremente reiterava o criminoso ditador argentino Jorge R. Videla, também para Barack Obama essas vítimas das guerras estadunidenses “não existem”, “desapareceram”, “não estão”.


Se o holocausto perpetrado por Adolf Hitler ao exterminar seis milhões de judeus fez com que seu regime fosse caracterizado como uma aberrante monstruosidade ou como uma estremecedora encarnação do mal, então que categoria teórica haveria de se usar para caracterizar os sucessivos governos dos Estados Unidos que semearam mortes em uma escala pelo menos igual, senão maior? Lamentavelmente nosso autor não se formula essa pergunta porque qualquer resposta poria em questão o crucial artigo de fé do credo norte-americano que assegura que os Estados Unidos são uma democracia. Mais ainda: que são a encarnação mais perfeita da “democracia” neste mundo. Observa com consternação, em troca, o desinteresse público pelo custo humano das guerras estadunidenses; indiferença reforçada pelo premeditado ocultamento que se faz daqueles mortos na volumosa produção de filmes, romances e documentários que têm por tema central a guerra; pelo silêncio da “imprensa independente” acerca desses massacres – recordar que, logo depois do Vietnam, a censura nas frentes de batalha é total e que não se pode mostrar vítimas civis e tampouco soldados norte-americanos feridos ou mortos; e porque as inúmeras pesquisas que diariamente se realizam nos Estados Unidos jamais perguntam sobre o tema.


Este pesado manto de silêncio se explica, segundo Tirman, pela persistência do que o historiador Richard Slotkin denominara o “mito da fronteira”, uma das constelações de sentido mais arraigada da cultura norte-americana, segundo a qual uma violência nobre e desinteressada – ou interessada só em produzir o bem – pode ser exercida sem culpa ou dores de consciência sobre os que se confrontam com o “destino manifesto” que Deus reservou para os norte-americanos e que, com piedosa gratidão, as notas de dólar recordam em cada uma de suas denominações. Somente “raças inferiores” ou “povos bárbaros” rechaçam os avanços da “civilização”. A violenta pilhagem sofrida pelos povos originários das Américas, tanto no Norte como no Sul, foi justificada por esse racista mito da fronteira e adocicada com infames mentiras. Na Argentina, a mentira foi denominar como “conquista do deserto” a ocupação territorial a sangue e fogo da terra, que não era precisamente um deserto, dos povos originários. No Chile, batizou-se como “a pacificação da Araucanía” a nada pacífica e sangrenta dominação do povo mapuche. No norte, o objeto da pilhagem e da conquista não foram as populações indígenas e sim uma fantasmagórica categoria, apenas um ponto cardeal: o Oeste. Em todos os casos, como anotara o historiador Osvaldo Bayer, a “barbárie” dos derrotados residia no seu... desconhecimento da propriedade privada!


Em suma: esta constelação de crenças – racista e classista até a medula – presidiu a fenomenal pilhagem de que foram vítimas os povos originários e liberou os pios cristãos que perpetraram o massacre de qualquer sentimento de culpa. Essa ideologia reaparece em nossos dias, claro que de forma transfigurada, para justificar o aniquilamento dos selvagens contemporâneos. Segue “oprimindo o cérebro dos vivos” e fomentando a indiferença popular ante os crimes do imperialismo. Com a incalculável contribuição da “indústria cultural” hoje a condição humana é negada aos palestinos, iraquianos, afegãos, árabes, afro-descendentes e aos povos que constituem 80% da população mundial.


Tirman conclui sua análise dizendo que esta indiferença ante os “danos colaterais” e os milhões de vítimas das aventuras militares do império afunda a credibilidade de Washington quando pretende erigir-se no campeão dos direitos humanos. Mas não é só a credibilidade de Washington que está em jogo. Mais grave ainda é o fato de que a apatia e o entorpecimento moral que invisibilizam a questão das vítimas garante a impunidade dos que perpetram crimes de lesa humanidade contra populações civis indefesas.


Não por casualidade os Estados Unidos têm guerreado incessantemente nos últimos 60 anos. Os preparativos para novas guerras estão à vista: começam com a satanização de líderes desafetos, apresentados ante a opinião pública como figuras despóticas, quase monstruosas; segue com intensas campanhas publicitárias de estigmatização de governos e povos desobedientes; em seguida vêm as condenações por supostas violações dos direitos humanos ou pela cumplicidade daqueles líderes e governos com o terrorismo internacional ou o narcotráfico, até que finalmente a CIA ou algum esquadrão especial das Forças Armadas se encarrega de fabricar um incidente que permita justificar perante a opinião pública mundial a intervenção dos Estados Unidos e seus compinchas para pôr fim a tanto mal. Nos tempos recentes isso se fez no Iraque e depois na Líbia. Na atualidade há dois países que atraem a maliciosa atenção do império: Irã e Venezuela, por pura casualidade donos de imensas reservas de petróleo.


Isto não significa que a funesta história do Iraque e da Líbia vá necessariamente se repetir, entre outras coisas porque, como observara Noam Chomsky, os Estados Unidos só atacam países débeis, quase indefesos, e isolados internacionalmente. Afortunadamente, nem Irã nem Venezuela se encontram nessa situação. De todo modo terão que estar alertas.


Tradução: Jadson Oliveira


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

OBEDECER, PRODUZIR E CONSUMIR: A ESSÊNCIA DA VIDA DO ESCRAVO MODERNO (blog também é cinema)

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=B7hSxm67izU

De Salvador (Bahia) – Assistiu ao filme? Pois então, estamos no reino do anarquismo, uma proposta política que teve seu apogeu no Brasil no sindicalismo do início do século 20. E ultimamente vem reaparecendo assim ou assado no rastro do movimento dos jovens “indignados”, cujos símbolos maiores são a chamada Primavera Árabe e os protestos na Porta do Sol, em Madri (Espanha), e do Occupy Wall Street, em Nova Iorque.


É isto aí. “Obedecer, produzir e consumir”, mesmo porque “desobedecer, aventurar, mudar é muito arriscado” e “é o medo que nos fez escravos e que nos mantém nesta condição”. E vai daí que nos ensinaram que a violência revolucionária, uma onda que já esteve em alta nos anos 60 e 70 do século passado, está errada. Violência não, é coisa de terrorista, quer dizer, quando usada pelos oprimidos, porque o sistema e os governos a usam a granel, mas, claro, neste caso é para defender o charmoso eufemismo do Estado Democrático de Direito (assim, tudo com a inicial maiúscula).


Quem viu as belas imagens e ouviu a bela trilha sonora do documentário acima sabe que estou pegando carona no filme. Vi no Vi o Mundo, o que você não vê na mídia, blog de Luiz Carlos Azenha. O pessoal lá chamou de “Manifesto dos Anarquistas” e utilizou o título “Quando as palavras nos condenam à impotência”. O título original é “Da servidão moderna” (52 minutos), de Jean-François Brient e Victor León Fuentes, tudo com cheiro da visão europeia.


As palavras – reforçadas pelas imagens e pelas músicas - são como chibatas no lombo de quem foi adestrado para apanhar resignadamente: “A servidão moderna é uma escravidão voluntária aceita por essa multidão de escravos que se arrastam pela face da terra”. “Eles mesmos compram as mercadorias que lhes escravizam cada vez mais”. “Eles mesmos correm atrás de um trabalho cada vez mais alienante que lhes é dado generosamente se estão suficientemente domados”. A rebelião, que seria “a única reação legítima dos explorados”, nem pensar.


“Sonhar com outro mundo se tornou um crime criticado unanimemente pelos meios de comunicação e pelos poderes”.


A insegurança é a tônica dominante da ordem. As cidades modernas são cenários de prisões, jaulas, estão em toda parte muros, grades, barreiras e fronteiras. Os servos pagam para morar em “cavernas”: “Cada parcela deste mundo é propriedade de um Estado ou de um particular”. “O mundo se torna cada dia mais sujo e barulhento, como uma usina”.


A cultura mercantil, a felicidade medida pelo acúmulo de mercadorias, o consumismo: “As coisas que se possuem acabam por possuir-nos”. E a alimentação? “O escravo moderno é obrigado a engolir rápido o que a indústria agroquímica produz”. E enquanto o crescimento econômico não pode parar (“é preciso produzir, produzir e reproduzir mais ainda”), a miséria e a fome campeiam por todos os lados.


As grandes corporações multinacionais que mais poluem se apresentam na mídia como campeãs da defesa do meio ambiente e continuam a poluir inclusive nossos espíritos.


O trabalho é como uma tortura e o lazer, com as férias programadas, uma outra: escravo em tempo integral. Para as doenças, o estresse, está aí a medicina mercantil: trata os efeitos e não as causas, tudo é mercadoria, incluindo nosso corpo. O misticismo em favor da propriedade privada, o deus dinheiro, um pedaço de papel: “É em nome desse novo deus que ele estuda, que ele trabalha, que ele luta e se vende”. “Sonhar com outro mundo se tornou um crime criticado unanimemente pelos meios de comunicação e pelos poderes”. O certo é sonhar com a fortuna semanal das loterias.


“O poder não é para ser conquistado, ele tem que ser destruído”.


E tome entretenimento, aqui, acolá e na TV, se divertir, não pensar: “Os escravos modernos confundem essas imagens com cultura e, às vezes, com arte”. Em seguida, a suprema ilusão dos que imaginam que decidem votando em eleições na viciada e decadente democracia representativa, democracia parlamentar. E o uso das palavras como meio de dominação através da chamada grande imprensa.


Ao cabo, o fecho triunfal dos anarquistas: “O poder não é para ser conquistado, ele tem que ser destruído”. Criticam então o sistema mercantil totalitário, experiências fracassadas do liberalismo (de olho nos modelos europeus, onde poderíamos lembrar as experiências “socialistas”) e o totalitarismo de matriz soviética, propondo: “Unir todas as forças revolucionárias”.


“Trata-se de inventar novas formas de organização e de luta”. E pregam: autogestão nas empresas; democracia direta (participativa) na escala comunal; e nova organização anti-hierárquica.


E o filme termina com bonitas imagens de destruição (uma bateria de telas de TV explodindo lindamente), protestos de rua e choques com policiais.


(Sugestão de debate: na minha modesta opinião, o anarquismo, muito atraente no terreno da denúncia, começa a claudicar quando entra no terreno da organização e da estratégia: Como fazer? Onde queremos chegar?)


Clique aqui, se quiser ler todo o texto do vídeo, ilustrado com fotos.



Filosofando


Não é o sistema democrático, estúpido! É o sistema capitalista.

CARNAVAL DE SALVADOR 2012: MUDANÇA DO GARCIA EM FOTOS

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

CARNAVAL DE SALVADOR 2012: POUCO CHARME NA MUDANÇA DO GARCIA (vídeo)


De Salvador (Bahia) - Hoje, dia 20, segunda-feira do Carnaval de Salvador, foi dia da tradicional Mudança do Garcia. Porém, sem jegues, sem carroças e com críticas genéricas e pouco originais, a “Mudança” não é mais a mesma. Mesmo assim, as críticas aos diversos temas da política local e nacional, os movimentos sociais e partidos políticos de esquerda estavam lá. Muitos nostálgicos diziam: os que faziam as críticas hoje estão no poder, numa referência a partidos como PT e PCdoB.


O vídeo mostra a cabeça do desfile já na Avenida Araújo Pinho, na boca pra entrar no Campo Grande, área do centro da cidade, depois de fazer todo o percurso a partir do fim de linha do bairro do Garcia. (Em seguida, uma seleção de fotos será postada neste blog. Fotos de jornalistas/"pilheiros" vão para o blog Pilha Pura – www.pilhapuradejoaninha.blogspot.com ).

domingo, 19 de fevereiro de 2012

VIDELA: “NOSSO PIOR MOMENTO CHEGOU COM OS KIRCHNER”


Por Francisco Luque – De Buenos Aires (Matéria reproduzida de Carta Maior, postagem de hoje, dia 19. Veja a visão do chefe da última ditadura argentina e o apoio dos empresários e da Igreja Católica).


Buenos Aires - Em uma longa entrevista para a revista espanhola Cambio 16, o chefe da última ditadura argentina, Jorge Rafael Videla, reivindicou (defendeu) a chegada dos militares ao poder em 1976 como um ato de salvação de um país com “vazio de poder, paralisado institucionalmente e sob risco de anarquia”. Ele enfatizou o apoio prestado e a excelente relação dos militares com a Igreja Católica, assim como a colaboração dos empresários que perguntavam desesperados: “vão dar o golpe ou não”. Além disso, criticou a reabertura dos julgamentos de militares por crimes de direitos humanos, chamou o casal Kirchner de “revanchista” por impulsionar esses processos e se considerou vítima de uma vingança. “Nosso pior momento chegou com os Kirchner”.


Videla vive desde outubro de 2008 em uma cela da prisão de Campo de Maio, um antigo cárcere militar, agora sob o comando do Ministério da Justiça. Neste lugar estão acusados e condenados pela prática de crimes contra a humanidade. Antes dessa data, o ex-ditador estava cumprindo suas penas em dependências militares ou em sua casa. No entanto, uma ação movida pelas Abuelas (avós) de Plaza de Mayo, por causa do plano sistemático de roubo de bebês, fez com que perdesse o benefício da prisão domiciliar.

O ex-militar foi julgado e condenado em 1983 à prisão perpétua e perda da patente militar por numerosos crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura. No dia 22 de dezembro de 2010 foi condenado à prisão perpétua em cela comum pelos fuzilamentos na unidade penitenciária de San Martín, Córdoba, ocorridos entre março e outubro de 1976.


Na entrevista, Videla interpreta e contextualiza o que, na sua avaliação, foram os fatos que possibilitaram o golpe militar de 1976. Enfatiza a crise institucional que a Argentina vivia na década dos anos 70 e acusa de “subversivos” os jovens peronistas mais radicalizados. “Esses jovens estavam armados e iam continuar pela via violenta seu objetivo de fazer a revolução”.

Para Videla, os primeiros passos que tentaram “impor ordem” à crise institucional no início dos anos 70 se deram com a criação da Triple A – Aliança Anticomunista Argentina -, dirigida por um homem de confiança de Perón, o então ministro de Bem-Estar Social, José López Rega, que organiza e se dedica a executar as ordens dadas pelo velho general e que “nem sempre se ativeram à legalidade”.


Morto Perón, assumiu sua esposa, a vice-presidente Isabel Martínez de Perón, e a situação do país piorou: “Havia um vazio de poder, paralisia institucional e risco de anarquia”. Frente a esse estado de coisas, a cidadania, dirigentes políticos e sociais pediram a intervenção das Forças Armadas”.


Para Videla, a decisão tomada pelas Forças Armadas e o terrorismo de Estado resultante do golpe não se deram sem apoio de lideranças políticas civis. Pelo contrário, disse, contou com o apoio de, por exemplo, radicais (partidários do partido político ainda hoje existente União Cívica Radical – UCR) e peronistas no poder. O então presidente provisório, após a saída de Isabel Perón, Ítalo Argentino Luder, pediu aos militares um plano para “enfrentar as ações terroristas”, aprovou as propostas mais duras e assinou o decreto para “aniquilar” essas forças. “O poder político deu aos militares licença para matar”, assinalou.

“Os decretos de Luder nos deram todo o poder e competência para desenvolver nosso trabalho, excedendo inclusive o que havíamos pedido; Luder, na prática, nos deu licença para matar, e digo isso claramente. A realidade é que os decretos de outubro de 1975 nos deram essa licença para matar e quase não seria necessário dar o golpe de Estado. O golpe foi dado por outras razões, que expliquei antes, como o desgoverno e a anarquia”.


Sobre a relação com o mundo civil, o ditador assegurou que, enquanto foi presidente, teve uma boa relação com o empresariado e a Igreja Católica. “Os empresários colaboraram e cooperaram conosco. Nosso ministro de Economia de então, Alfredo Martínez de Hoz, era um homem conhecido da comunidade de empresários da Argentina, e havia um bom entendimento e contato”, definiu. Quanto à Igreja Católica, disse que teve uma relação “excelente, muito cordial, sincera e aberta”.


A respeito de sua situação criminal, Videla sustentou que ele e outros repressores estão presos por causa do “revanchismo” e do “espírito de vingança dos Kirchner”: Alfonsín (Raúl Alfonsín, primeiro presidente eleito após a queda da ditadura) respeitou os indultos à sua maneira; Menem (Carlos) também, do seu modo, cumpriu com os indultos. E chegamos ao casal Kirchner, que fez todo esse assunto retroceder à década de setenta e vem cobrar o que não puderam cobrar naquela década”.

“Fazem isso com um espírito de absoluta revanche e, esta é uma opinião pessoal, com o agravante de que podendo fazê-lo não o fizeram em seu momento. Estes senhores eram burocratas que distribuíam panfletos e não mataram nem uma mosca na época. E isso lhes dá vergonha, claro, razão pela qual quiseram exagerar a acusação para fazer um papel de valentes em um filme do qual não participaram”.

Segundo Videla, a situação que a Argentina vive hoje é “muito parecida com a dos anos 70”. “Hoje a República desapareceu. As instituições estão mortas, paralisadas, numa situação muito pior que na época de Maria Estela Martínez de Perón”.

Tradução: Katarina Peixoto

sábado, 18 de fevereiro de 2012

OS NOVOS CÃES DE GUARDA


Um livro devastador: retrata como são produzidas as informações e as interpretações a favor do poder e da riqueza. “Reverência diante do poder, prudência diante do dinheiro…”


Por Emir Sader (reproduzido de Fazendo Media: a média que a mídia faz, de 15/02/2012)


“Por que os jornalistas não deveriam responder por suas palavras, dado que eles exercem um poder sobre o mundo social e sobre o próprio mundo do poder?” Assim o atual diretor do Le Monde Diplomatique francês, Sege Halimi, abre o seu livro “Os novos cães de guarda”. O livro retoma, no seu titulo, o livro de Paul Nizan, “Os cães de guarda”, publicado originalmente em 1932, e tornado famoso pela sua reedição em 1960, quando Sartre prefacia um outro livro de Nizan, Aden Arabie, relançando sua obra.


Nizan dizia que os intelectuais não devem ser os taquígrafos da ordem, mas aqueles que saibam a necessidade de superá-la, isto é, de subvertê-la. “O homem jamais produziu nada que testemunhasse a seu favor, senão com atos de cólera: seu sonho mais singular é sua principal grandeza, reverter o irreversível.” Recusar “esconder os mistérios da época, o vazio espiritual dos homens, a divisão fundamental de sua consciência, e esta separação cada dia mais angustiante entre seus poderes e o limite real de sua realização”.


Halimi escreveu “Os novos cães de guarda” (Jorge Zahar, no Brasil), na coleção de combate dirigida por Pierre Bourdieu, para atualizar o fenômeno, que tornou-se um fenômeno essencialmente midiático nos nossos dias. A mercantilização neoliberal arrasou o campo midiático: “A informação tornou-se um produto como outro qualquer, comprável e destinado a ser vendido…”


Halimi faz um livro devastador, porque simplesmente retrata como são produzidas as informações e as interpretações a favor do poder e da riqueza. “Reverência diante do poder, prudência diante do dinheiro…”- resume ele, que revela as tramas de cumplicidade e de promiscuidade entre a velha mídia e os poderes econômicos e políticos. E, também, como esses empregados das empresas de comunicação se promovem a si mesmos, alegremente, numa farsa de fabricação de opinião publica – expressão de Chomsky – de forma oligárquica e elitista.


Quem ousa romper com o consenso dominante é desqualificado como “populista”, “demagogo” pelos “cardeais do pensamento único”, que nos venderam suas mercadorias como a única via possível de “governos responsáveis”, afirmações pelas quais não respondem hoje, quando essas certezas revelam suas misérias e os sofrimentos que causam para os povos cujos governos ainda se guiam por esses dogmas.


“Mídias cada vez mais concentradas, jornalistas cada vez mais dóceis, uma informação cada vez mais medíocre”, conclui Halimi. Perguntado pela razão de que a velha mídia não se reforma, não se renova, o ex-ministro da educação da França, Claude Alegre, político de direita, respondeu com franqueza: “Eu vou lhes dar uma resposta estritamente marxista, eu que nunca fui marxista: porque eles não têm interesse… Porque os beneficiários dessa situação não têm o menor interesse em mudá-la.”


O livro de Halimi foi transformado em documentário e é o filme mais interessante para se ver em Paris atualmente, com o mesmo título do livro: “Os novos cães de guarda”. Dirigido por Gilles Balbastre e Yannick Kergoat, com a participação do próprio Halimi no roteiro, o filme poderia ser transposto mecanicamente para o Brasil, a Argentina, a Venezuela, o México, qualquer país latino-americano, apenas mudando os nomes dos jornalistas, dos donos das empresas midiáticas e dos supostos especialistas entrevistados, representantes da riqueza e do poder nas nossas sociedades.


Entre outras informações sonegadas pela velha mídia, cada vez que alguém é entrevistado ou chamado para alguma reunião na velha mídia, aparecem os créditos da pessoa: seu cargo nas empresas privadas, sua participação em outras, as ações que dispõe, etc. Para que se saiba quem está falando, sem disfarçá-lo na qualidade de “especialista”, grande economista, etc, etc.


Mais informações sobre o filme podem ser obtidas em www.lesnouveauxchiensdegarde.com .


(*) Artigo publicado originalmente no Blog do Emir, na Carta Maior.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

GREVE DA PM: EM MEIO À “SELVAGERIA”, QUEREMOS A VOLTA DA “BARBÁRIE” JÁ TRADICIONAL


Greve aprovada em assembleia, dia 31, no Ginásio de Esportes dos bancários
(Foto: Reprodução da Internet)
Imagem do fim da greve: grupo posa após assembleia que acabou a
paralisação, dia 11 (Foto: Jadson Oliveira)
Análise da greve da Polícia Militar baiana, ocorrida de 31/janeiro a 11/fevereiro, datada de 7/fevereiro, portanto, durante a vigência da paralisação. É de autoria da Oposição Operária, articulação de esquerda que edita a revista semestral “Germinal”. O título original é “Nota da Oposição Operária sobre as greves das PMs”. Este blog adotou o título acima, manteve a maioria dos intertítulos e introduziu os destaques em negrito.


Há algo de novo no front???


Existem determinados momentos na história nos quais ações e movimentos específicos de determinados sujeitos reais e concretos conseguem carrear uma grande quantidade de contradições internas de maneira a expor elementos de uma composição social que, no cotidiano, passam muito distante da possibilidade de compreensão da maioria dos indivíduos.


No geral, esses momentos são percebidos como explosões do real, como a constituição de situações-limites nas quais aquilo que permanecia contido em determinados espaços institucionais, aplacado por componentes ideológicos e suportado em função da própria lógica do ordenamento da sociedade, ganha os contornos de um paradoxo irreconciliável. Quando esses momentos são levados ao paroxismo, promovendo fissuras na estrutura de poder e fazendo emergir novos projetos de sociabilidade, podemos estar diante da caracterização leninista do que seria uma situação revolucionária. Talvez tenhamos sinais de processos históricos com essas características no que ocorre hoje no Egito, talvez na Síria, na Grécia, Espanha e em diversos outros rincões do planeta... Talvez.


Distante de uma mobilização de tamanha envergadura, a sociedade brasileira tem vivido momentos que evidenciam o êxito do projeto de cooptação de parte significativa dos movimentos sociais e da prevalência da atuação sindical subordinada aos interesses corporativos, eleitoreiros e, não raro, a um carreirismo deslavado que leva antigos próceres das mobilizações sociais a defenderem com todo vigor as estruturas do Estado e a governabilidade do seu projeto político pessoal a serviço da manutenção da “lei e da ordem” e daquilo que eles mesmos pomposamente chamam de “Estado democrático de direito”. É mesmo curioso ver a manifestação de muitos que ainda têm a coragem de se dizerem “comunistas” (sic) defenderem fervorosamente as estruturas de poder que mantêm a sociedade burguesa sob a justificativa de que esse é o governo do seu partido ou do partido aliado aos seus interesses.


Assim é que nos parece bastante emblemática a eclosão dos movimentos grevistas entre policiais militares aqui no país. Deixando de lado a greve dos bombeiros militares do Rio de Janeiro no ano passado, na PM já houve greves nos estados do Maranhão, no Ceará e agora na Bahia. Há ainda a perspectiva de greve em Pernambuco, no Rio de Janeiro e no Paraná, dando conta de que existe uma mobilização que já ganha contornos nacionais, com bandeiras públicas que vão desde a que estabelece um piso salarial (a tal PEC 300) até a de uma desmilitarização das polícias.


Tropa do Exército e da Força Nacional de Segurança Pública no cerco ao
prédio da Assembleia, ocupado durante nove dias por PMs grevistas
(Foto: Reginaldo Ipê, da Tribuna da Bahia)
Homens do Exército no cerco à Assembleia (Foto: Reginaldo Ipê)
Embora as greves anteriores tenham características bem instigantes, a que ocorre agora na Bahia assume contornos mais expressivos e com um grau de repercussão bem mais amplo. Com uma semana da greve, os policiais militares do Estado da Bahia conseguiram explicitar várias nuanças da concertação social capitaneada pelo Partido dos Trabalhadores e seus satélites em torno de um projeto político-eleitoral de governabilidade que procura manter sob a sua batuta os mais diversos movimentos organizados.


É forçoso reconhecer que para quem se coloca na perspectiva de construir um novo modelo de sociedade que ponha abaixo o padrão de acumulação do capital, uma greve que ocorre no seio do principal instrumento político de repressão, necessariamente traz consigo uma série de desafios. Para aqueles que seguem à risca tradicional cartilha do estruturalismo, bastaria dizer que os policiais compõem o aparelho de repressão do Estado e portanto jamais será possível vê-los como integrantes da classe trabalhadora. Logo, são, tão somente, a personificação da repressão burguesa e agem como uma espécie de autômatos, ou melhor, como avatares em defesa da propriedade e das relações de poder dos capitalistas.


Para outros oportunistas de escopo um pouco diferente, mas não menos daninhos, trata-se de aproveitar a onda e desgastar até onde for possível o projeto político eleitoral do governo, em busca de auferir dividendos eleitorais que lhes possibilitem galgar a condição dos atuais gerenciadores do Estado.


É exatamente por isso que essas greves, mesmo quando ocorrem em momentos de notório refluxo dos movimentos que questionam diretamente as relações de poder, possibilitam a exposição de variados elementos que integram a totalidade dessa nossa formação social.


Polícia e policial: história e subjetividades


Óbvio é reconhecer o papel da força policial enquanto instrumento de manutenção da “lei e da ordem” que, por sua vez, são a expressão política da hegemonia e da dominação de classes. O recente episódio da desocupação da comunidade do Pinheirinho é um grande exemplo do que isso representa. (Clique em Revista Germinal para ler sobre Pinheirinho). 

Soldado do Exército domina um grevista
em choques durante o cerco (Foto:
Reprodução da Internet) 
Grevista mostra coxa ferida por bala de borracha
atirada pelas tropas federais em choques durante
o cerco à Assembleia (Foto: Jadson Oliveira)
Entretanto, temos também que considerar que a manutenção das condições de opressão nesse tipo de sociedade passa pela necessidade de institucionalizar as desigualdades de classe, tornando as atividades repressivas uma expressão institucional dessa relação de poder. A contradição está em que: quem domina não pode fazer isso per si, daí tem que recrutar a personificação do aparato repressivo exatamente dentre aqueles que são o alvo potencial dos mecanismos de repressão. Assim, a denúncia das características particulares dessa condição opressão, não pode, por conta disso, negligenciar quem são os verdadeiros responsáveis pela imposição das condições opressivas.


Subjetivar a condição de classe daquele que é recrutado para fazer valer a dominação burguesa torna-se então uma necessidade e ao fazermos isso precisamos também notar as potencialidades dessa contradição. É fundamental que estejamos atentos para sempre denunciar a prática repressiva que se manifesta em nosso cotidiano, também por meio de relações étnico/raciais, de gênero, geração, orientação sexual, etc, mas, para além de uma emotividade irracional e baseada no senso comum ou naquilo que é só aparente num fenômeno bem mais complexo, é importante perceber que o exercício dessa prática, via de regra, escamoteia parte significativa dos elementos que sustentam essa repressão. Vemos bem claro o policial que joga bombas de gás, o que espanca, e o que mata, mas não vemos tão facilmente assim o que está por detrás da sua condição de existência.


Queremos dizer com isso que da mesma forma que a condição de vendedor da força de trabalho não revela toda a potencialidade analítica da atuação do policial, também a sua condição de agente das forças de repressão não é capaz de sintetizar a sua subjetividade histórica. É preciso problematizar esses elementos, afinal, é muito mais provável que, num futuro não muito distante tenhamos que contar com algumas deserções a fim de levarmos adiante um processo de transformação revolucionária da sociedade.


Mote para exposição do verdadeiro teatro do absurdo

Em meio às consequências da greve dos policiais, tornou-se comum o clamor pela volta da “normalidade” e pelo restabelecimento da rotina nas ruas das cidades. O que impressiona é que os dados apresentados como referências para essa rotina evidenciam a barbárie social já instalada em meio a um cotidiano sem nenhum sentido.


Os números oficiais divulgados até dia 06 de fevereiro dão conta de 92 homicídios ocorridos só na Região Metropolitana de Salvador desde o início da greve. Sem sombra de dúvidas um número escabroso que torna justificável o clima de tensão, pânico e terror verificado nesses dias. Mas, sem desconsiderar a densidade da ocasião, o que mais espanta é que o “estado de normalidade” pretendido pelos que preconizam o fim da “anomia” atual aponta para os 171 homicídios ocorridos em todo o mês de fevereiro no ano passado. Poderia até ser um mote para exposição do nosso verdadeiro teatro do absurdo.


Grevistas manifestam-se de armas em
punho (Foto: Reprodução da Internet)
PM mascarado nas manifestações dos grevistas durante o cerco
(Foto: Jadson Oliveira)
Isso para não falar do que representa a “normalidade” cotidiana da atuação policial nas periferias e comunidades populares para fazer valer as relações de poder instituídas, por meio das quais trabalhadores, mulheres, negros, homossexuais, velhos e crianças percebem a sua condição de inserção social.


As ações de greve


Mais um dos paradoxos produzidos pelo movimento grevista diz respeito à reação de muitos indivíduos quanto ao caráter de algumas das ações que vêm sendo tomadas pelos policiais, muitas delas capitalizadas a partir da inserção dos tradicionais veículos de comunicação que, com o apoio do governo, procuram criminalizar os grevistas.


A primeira delas foi quanto ao uso das armas de fogo durante a greve. Nesse caso é interessante notar que o Brasil talvez seja um dos países mais condescendentes com o porte e a utilização de armas por policiais. É comum vermos soldados portando pistolas, fuzis e metralhadoras transitando ao nosso redor com a justificativa de que é preciso acompanhar o aparelhamento dos criminosos. Poucos são os que se questionam quanto ao número de cidadãos, bandidos ou não, assassinados nos chamados “autos de resistência”, mas agora, como expressão de uma hipocrisia redentora, é imperioso questionar a chamada “greve armada”.


Outro momento significativo dessa caracterização é o da tomada dos ônibus utilizados para interromper o tráfego. Mais uma vez o objetivo é inverter a posição de algoz. Não se questiona o fato do Estado expedir mandados de prisão contra as lideranças do movimento, bloquear contas bancárias e implantar espiões inclusive virtuais, mas, é inadmissível que eles queiram bloquear o trânsito usando as armas de que dispõem.


Por último, disseminou-se a versão de que os policiais acampados no prédio da Assembleia Legislativa seriam “covardes” na medida em que estariam se utilizando de mulheres e crianças como escudo. Mais uma vez os papéis são trocados de maneira deliberada. Ao invés de questionar a atuação das forças que promoveram o cerco ao prédio, haja vista que sabidamente lá já estavam acampadas as mulheres e crianças, a irresponsabilidade foi atribuída aos grevistas. Note-se ainda que entre os policiais militares é comum a participação de familiares em entidades de classe, na medida em que a participação dos próprios é, no mais das vezes, vista de maneira deletéria pela instituição. Além do que, quem participa de movimentos desse tipo sabe que é muito recorrente a participação da família em acampamentos e ocupações de prédios públicos.


A greve e seus limites políticos


Nós da Oposição Operária já de muito vimos denunciando a imposição de limites às greves organizadas e dirigidas pelo movimento sindical. Temos buscado caracterizar o que representa a forma sindicato enquanto uma expressão oficial e institucionalizada do Estado em meio às mobilizações dos trabalhadores, que ao invés de potencializar a sua disposição de luta procura conter os ímpetos e domesticar os enfrentamentos de classe, levando-os sempre a trilhar pelo caminho “da lei e da ordem”.


Grevistas entram em forma para cantar o Hino Nacional em apoio aos colegas
acampados na Assembleia Legislativa (Foto: Jadson Oliveira)
Pastores evangélicos fazem orações em favor dos PMs em greve na área
em torno do Legislativo, no Centro Administrativo (Foto:Jadson Oliveira)
Embora as greves dos policiais militares não contem com os sindicatos em seus calcanhares nada nos leva a crer que o movimento possa superar os limites de uma luta corporativista que coloque em discussão, por exemplo, qual o papel, a que e a quem serve uma força repressiva como a polícia militar. Menos ainda aparecem na pauta do movimento propostas históricas como as de dissolução das polícias e de formação de milícias populares. Parece que ainda estamos um tanto distantes desse tipo de organização comunal.


É claro que por si só, a greve já constitui um grande manancial de aprendizagem acerca de como a sociedade se organiza, quais são as suas prioridades e quem são as suas personas, mas, nem por isso a nossa análise nos autoriza a esperar mais do que escaramuças localizadas e uma disputa acirrada entre o governo e as oposições quanto aos possíveis resultados eleitorais dessa contenda.


Por fim, percebendo todas as potencialidades que têm as contradições em curso, manifestamos o nosso repúdio a qualquer tentativa de imputar quaisquer retaliações aos grevistas, bem como nos colocamos solidários às suas reivindicações por melhores salários.


(Este artigo me foi enviado pelo companheiro Goiano (José Donizette), velho militante da esquerda, ex-dirigente sindical dos bancários e atualmente da coordenação do Projeto Velame Vivo (PVV), movimento social/cultural de Seabra/Chapada Diamantina, interior da Bahia).