sábado, 31 de março de 2012

NO RIO, JOVENS GRITAM "ASSASSINO" NA CARA DE MILITARES DA DITADURA (vídeo)


Clique aqui para ler, no blog Vi o Mundo, artigo de Hildegard Angel: Nossos quixotinhos destemidos e desaforados diante do Clube Militar.



AMÉRICA LATINA É FONTE DE INSPIRAÇÃO PARA ESQUERDA FRANCESA


Jean-Luc Mélenchon: "Na mesma Frente temos partidários do não crescimento,
partidários do crescimento e comunistas" (Foto: Reprodução)
Por Eduardo Febbro, de Carta Maior, postagem de 30/03/2012 (Parte da entrevista de Jean-Luc Mélenchon, o candidato a presidente da França, pela Frente de Esquerda, que já é chamado o “homem milagre” devido ao surpreendente crescimento de sua campanha. Chegou a 14% nas pesquisas eleitorais e fez um comício com 120 mil pessoas. Vai sendo empurrado para o terceiro lugar, atrás do presidente Nicolas Sarkozy e do candidato do Partido Socialista François Hollande).
 

(...)


Carta Maior - Qual é a fórmula para unir correntes distintas e, amiúde, antagônicas, dentro de um mesmo movimento? Você uniu o que estava disperso e teve êxito nessa estratégia.


Jean-Luc Mélenchon - Tudo nosso é novo, o Partido de Esquerda é novo, fazemos quatro anos no próximo mês de novembro. A Frente de Esquerda também é nova. Nós acabamos de sair das catacumbas, somos uma corrente que esteve a ponto de desaparecer da paisagem política. Na realidade, os modelos que tomamos como inspiração são os da América Latina, eu me inspirei no que aconteceu lá. Por exemplo, a Frente de Esquerda é uma fórmula política que liga partidos muito diferentes. Agora temos até ecologistas oriundos das tendências mais radicais. Na mesma Frente temos partidários do não crescimento, partidários do crescimento e comunistas.


Todos chegaram a uma intersecção. Este caso, o modelo que se pode evocar é o da Frente Ampla uruguaio. Para mim foi uma fonte de inspiração, há muitos anos. A revolução cidadã é um projeto federativo, porque inclui a ideia do poder cidadão. Essa palavra permitiu a convergência de tradições revolucionárias muito distintas. Pois bem, esta ideia eu a tomei do Equador. A maneira de enfrentar o sistema dos meios de comunicação eu a tomei de Néstor e Cristina Kirchner. Aqui, na França, atribuíram esse estilo ao meu mau humor, a minhas dificuldades, mas na realidade, não é assim: eles me manipulam e eu os manipulo. Agora os trato a pão seco, assim como o fizeram o ex-presidente Néstor Kirchner e a presidenta Cristina Kirchner. Em suma, inspiro-me muito na tradição revolucionária da América Latina. Nossa consigna é: que se vayan todos! Esta consigna eu a tirei da crise argentina de 2001.

(...)


CM – Estamos numa época de crise global e profunda. Seu discurso de ruptura tem encontrado forte eco no eleitorado. Que tipo de socialismo ou de agenda de esquerda se pode formular dentro e movimentos de sensibilidades similares, mas confrontadas com o enfrentamento da crise a mudar o sistema?

J-L Mélenchon – Na época da crise argentina, houve uma discussão com uns camaradas que tinham ocupado um hotel em Buenos Aires. Tivemos uma discussão sobre o tipo de socialismo que era necessário plasmar através das críticas que se podiam fazer ao modelo venezuelano ou cubano. O camarada que estava conosco disse: “Olhem, vocês, os europeus, são muito interessantes na hora de fazer polêmica, mas estão em crise. A última vez que houve uma crise desencadearam uma Guerra Mundial e a Shoah para sair da crise. Que vão fazer agora?”. Ficamos mudos. Aquele camarada tinha posto o dedo na ferida: a crise do capitalismo de nossa época conjuga crise econômica e crise ecológica e provoca deflagrações que vão muito além de esquemas teóricos, são deflagrações que ameaçam a própria humanidade. É preciso que nossa esquerda se cure da mania das querelas teológicas, das discussões aterradoras sem fim. É preciso ter uma prática racional. Quando se apresenta uma dificuldade, trata-se de desconstruí-la, de desconstruir seu conteúdo e voltar a construí-lo, com os elementos que funcionam. É impossível separar prática de trabalho teórico. Tenho uma intuição, um tipo de certeza histórica e política: a classe trabalhadora está cheia de ideias, de conhecimento, de especialistas. É uma fonte fabulosa! A dialética do intercâmbio nos permite avançar.


(...)


CM – Nesse contexto, seu projeto da revolução cidadã se distancia dos princípios da social democracia, já que, por exemplo, põe-se contra a crença no crescimento econômico como fórmula do progresso.

J-L Mélenchon – No projeto da revolução cidadã há com efeito uma ruptura teórica de fundo com a social democracia. Nós não dizemos que vamos repartir o fruto do crescimento. A social democracia está organicamente ligada ao produtivismo, porque declara que o progresso social só existe dentro do produtivismo. Não. Nós pensamos o contrário. Acreditamos que o progresso econômico só é possível se há progresso humano e progresso social. Para nós, o progresso humano e social é a condição do desenvolvimento econômico. Estamos em duas visões diametralmente opostas. Temos de recuperar a audácia dos pioneiros, daquelas pessoas que diziam “este mundo é belo, é novo”. Temos de conhecer, descobrir, proteger e impedir o saque dos recursos. A Terra é de uma grande beleza, nem tudo está perdido.


Tradução: Katarina Peixoto (Clique aqui para ler toda a entrevista)

sexta-feira, 30 de março de 2012

RIO: JOVENS MELAM ATO EM DEFESA DE 64


Manifestantes em frente ao Clube Militar, no Centro do Rio
(Foto: Fábio Motta/AE)
Saiu no Globo: Comemoração de militares termina em pancadaria no Centro do Rio (Reprodução do blog Conversa Afiada, postagem de 29/03/2012)


O que era para ser uma simples comemoração pela passagem dos 48 anos do golpe que culminou em 21 anos de ditadura no Brasil, organizada por militares da reserva, nesta quinta-feira, no Centro do Rio, foi marcada por uma grande confusão. Cerca de 350 pessoas, entre eles representantes do PT, PCB, PCdoB, Psol, PDT e outros movimentos sociais de esquerda, bloquearam a entrada principal do Clube Militar, na esquina das avenidas Rio Branco e Almirante Barroso, e tumultuaram a chegada dos convidados para o evento. O tempo todo gritavam palavras de ordem, chamando os militares de torturadores, assassinos e covardes. Cada militar que chegava ao local era cercado, xingado e só conseguia entrar no prédio sob escolta da PM.


Um dos militares revidou ao xingamento, pegou o celular de um manifestante, que reagiu. Houve empurra-empurra e o estudante de Ciências Sociais Antônio Canha, de 20 anos, acabou sendo atingido por um tiro de descarga elétrica de uma pistola Taser. Os manifestantes também derramaram um balde de tinta vermelha nas escadarias do Clube Militar, representando o sangue derramado durante a ditadura, e atingiram um segurança do local com ovos.


Nas ruas próximas, vários cartazes com frases como “Ditadura não é revolução”, “Onde estão nossos mortos e desaparecidos do Araguaia?”, além de fotografias de desaparecidos durante os anos de chumbo. Parentes de desaparecidos compareceram ao protesto, como Maria Cristina Capistrano, filha do David Capistrano, jornalista e ex-ativista do PCB.


- Em 1974, ele foi levado para o DOPS no Rio de Janeiro e depois para a casa da morte, em Petrópolis. Desde então nunca mais tivemos notícias dele. Devido a casos como este do meu pai, acho importante este tipo de mobilização.


O policiamento do local foi feito pela tropa de choque da PM, que cercou a entrada do Clube. Uma pessoa foi presa após se desentender com um militar. A confusão começou com xingamentos e acabou em socos e pontapés e com o manifestante sendo levado pela PM num camburão, o que provocou mais revolta dos manifestantes. No momento em que o jovem foi colocado no camburão, várias pessoas tentaram impedir que ele fosse levado, cercando o veículo. A PM, então, usou de spray de pimenta para dispersar a aglomeração. Os manifestantes fecharam a Avenida Rio Branco por dez minutos e só liberaram o trânsito após os policiais usarem bombas de efeito moral, cujos estilhaços feriram na barriga a manifestante Miriam Caetano, de 33 anos.


Os militares, que ficaram o tempo todo acuados dentro do prédio, foram saindo aos poucos pela porta dos fundos do local.

(Em solidariedade ao Levante Popular da Juventude e apoio à iniciativa dos jovens, começou a circular abaixo-assinado Pela garantia da liberdade de manifestação da nossa juventude. Para ler e assinar, clique aqui).

(OEA abre investigação sobre a morte de Vladimir Herzog - Executado por agentes do DOI/CODI de SP, o Brasil não investigou, não processou nem puniu responsáveis. Para ler, clique aqui). 



quinta-feira, 29 de março de 2012

NEODESENVOLVIMENTISMO, ESQUERDOFAGIA E ESQUERDA MARROM (vídeo)


De Salvador (Bahia)Transcrição, conforme vídeo acima, da parte final da palestra do professor Fernando Larrea, antropólogo equatoriano, mestre em Ciências Sociais, estudioso dos movimentos sociais da América Latina, durante seminário no último sábado, dia 24, na Faculdade de Arquitetura da Ufba, em Salvador. O debate foi organizado pela Oposição Operária, articulação de esquerda que edita a revista Germinal.


“Esses governos (considerados progressistas da América Latina) assumem fortemente uma retórica anti-neoliberal e, por outro lado, sugerem novo tipo de relações com os movimentos sociais. Isso situa um panorama diferente na América Latina. Com a retórica anti-neoliberal e a retomada do papel do Estado, que é a principal característica desses governos em relação ao período anterior, temos, então, a retomada do papel do Estado, principalmente como ator econômico fundamental (...) esses governos promovem um projeto neodesenvolvimentista muito forte, muito claro, como é o que acontece no Brasil, o que de outra forma está favorecendo uma nova inserção, uma dinâmica de inserção da região na economia global.


Esse projeto neodesenvolvimentista teria como elementos caracterizadores, por um lado, o desenvolvimento de projetos de mega-empreendimentos, grandes projetos de barragens, grandes projetos de infraestrutura, estradas, a história, por exemplo, da transposição do Rio São Francisco, com investimentos públicos e privados, a expansão da hegemonia do agronegócio como forma predominante da evolução capitalista no campo e o extrativismo dos recursos naturais com a participação das corporações multinacionais (...)


Esses governos, com um discurso anti-neoliberal, muitas vezes de esquerda, estão contribuindo fortemente para o processo de construção de hegemonia das classes dominantes nos países e o aprofundamento do desenvolvimento capitalista. É sintomático, nos últimos anos, os lucros das classes capitalistas... os setores capitalistas na Bolívia, no Equador, no Brasil, na Argentina, estão todos contentes, estão felizes porque, na verdade, não há grandes conflitos sociais, como foi no processo dos anos 90, são governos que têm um respaldo popular enorme, os quais, por um lado, enfrentam as demandas sociais com programas de luta contra a pobreza e, por outro lado, temos um processo de refluxo das lutas contestatórias.


São governos que, ao mesmo tempo, retomando um termo de um antropólogo mexicano (fala de indofagia(?), referência às questões indígenas que supostamente não podem ser atendidas devido à expansão do capitalismo e apropriação dos territórios indígenas, que têm suas reivindicações devoradas)... aqui poderíamos falar de que nesses governos estaria parecendo um processo em que eles cooptam totalmente o espaço da esquerda, não permitem a existência de outras expressões de esquerda que questionem essas dinâmicas existentes e, em alguns casos, até reprimem essas dinâmicas e devoram, ao se apropriar da esquerda... o Estado de esquerda devora essas outras expressões, então poderíamos falar de uma espécie de esquerdofagia, de governos esquerdofágicos.


Neste sentido, acho que é o que está acontecendo no caso equatoriano, um caso muito interessante. Com uma retórica muito fortemente, para fora, de esquerda, o governo está impulsionando um projeto de direita, um projeto político que elimina qualquer possibilidade de organização independente e autônoma dos movimentos sociais (...)


Por outro lado, essa expansão capitalista tem um processo de resistência, no qual elementos culturais e identitários se articulam com as lutas classistas. Esse processo está sendo vivenciado agora no Peru, no Equador, na Bolívia e no caso da Argentina e do Chile... estaria estabelecendo uma espécie de fratura, que começa a ser denominada como uma esquerda marrom... marrom pela tonalidade cinza das minas... inserida no projeto extrativista desses governos neodesenvolvimentistas... e uma esquerda vermelha, que começa a articular um discurso crítico, onde é fundamental a incorporação de elementos ecológicos, étnicos e das lutas das mulheres”.


(Transcrevo o áudio avaliando que a palavra escrita fixa melhor o entendimento. Embora acreditando que o sentido geral da exposição está preservado, alerto que, em alguns pontos, há algumas adaptações. Além disso, há sempre o risco de alguma expressão ou palavra mal captada, ainda mais levando em conta o sotaque equatoriano do expositor).


(Logo abaixo há um vídeo com pequena entrevista do professor Fernando Larrea. Este blog publicará ainda texto e fotos da cobertura do seminário da Oposição Operária).


quarta-feira, 28 de março de 2012

GOVERNOS PROGRESSISTAS NA AMÉRICA LATINA: É SÓ RETÓRICA? (vídeo)



De Salvador (Bahia) - Entrevista do professor Fernando Larrea, antropólogo equatoriano, mestre em Ciências Sociais, com experiência em temas relacionados aos movimentos indígenas e camponeses do Equador e da América Latina.


A conversa foi logo após seminário promovido pela Oposição Operária, articulação de militantes da esquerda que edita a revista Germinal, no sábado, dia 24, na Faculdade de Arquitetura da Ufba, em Salvador.


O artigo a que me refiro na primeira pergunta é uma entrevista do sociólogo belga François Houtart, publicada no jornal Brasil de Fato (parte reproduzida aqui no Evidentemente, em 14/02/2012, com o título “América Latina é o único continente do mundo onde temos tido alguns avanços” – quem quiser ler ou reler, clique aqui).


Houtart divide os países latino-americanos em três grupos: o Brasil está entre os de modelo que “não transforma profundamente a sociedade”, enquanto a Venezuela “é um país que avança para um novo modelo, onde as mudanças são mais aprofundadas”.


No vídeo, Larrea discute o assunto, falando sobre o neodesenvolvimentismo de governos considerados progressistas na América do Sul e também sobre a falta de mobilização do povo brasileiro.


“Há países em que as classes dominantes estão muito contentes”


Alguns trechos da entrevista: ele faz referência a “alguns elementos comuns” em governos latino-americanos e identifica aí o neodesenvolvimentismo, “que se expressa muito fortemente com os mega-empreendimentos (o Brasil faz parte disso), com a mineração, a dinâmica extrativista (...) Esse neodesenvolvimentismo tem, talvez, algumas diferenças, como no caso da Venezuela, do governo de Hugo Chávez (...)


“Eu desconfio um pouco quando se trata de estabelecer as diferenças de governos mais para a esquerda que estariam promovendo mudanças estruturais e outros adotando políticas mais assistencialistas ou emergenciais, como no caso do Brasil, como uma diferença substantiva”.


“Porque, na verdade, governos considerados mais à esquerda, muitas vezes usam uma retórica mais à esquerda, mas, na prática, estão desenvolvendo uma política muito favorável a algumas classes dominantes específicas nos diversos países e favorável à direita”.


“Se você olha, por exemplo, como estão os lucros dos bancos (...) em países como Equador, Bolívia, Brasil, Argentina, as classes dominantes estão muito contentes, porque esses governos estão favorecendo seus lucros e, ao mesmo tempo, evitando processos de mobilização e luta social, via políticas assistencialistas”.


Em seguida, ele comenta os casos específicos da Bolívia, do Equador e da Argentina, defendendo a necessidade de se verificar o processo concreto de cada país.


Na segunda questão, o estudioso equatoriano, que está no Brasil há três anos, confessa ter ficado surpreso com as dificuldades de mobilização popular no país, concluindo que “o protagonismo do PT na política brasileira, com o discurso progressista de esquerda, termina desmobilizando as lutas dos trabalhadores”.

(Este blog fará outras postagens a partir do seminário da Oposição Operária/revista Germinal) 

LUIS NASSIF: O PROCURADOR GERAL, O SENADOR E O BICHEIRO


Por Luis Nassif, no seu blog (reproduzido de Vi o Mundo, de 27/03/2012)


A revelação das ligações do senador Demóstenes Torres (foto) com o bicheiro Carlinhos Cachoeira lança uma sombra de suspeita sobre o procurador geral Roberto Gurgel.

Demóstenes foi elemento central na recondução de Gurgel ao cargo de Procurador Geral, desempenhando papel bastante conhecido em assembléias de acionistas.


Nessas assembléias há um estratagema corporativo que consiste em canalizar as insatisfações dos minoritários para um deles. O sujeito esbraveja, fala alto e torna-se o líder da resistência contra os controladores.

Depois, à medida em que a AGE avança, ele cede rapidamente aos argumentos dos controladores, esvaziando a reação dos demais. Demóstenes desempenhou esse papel no processo de recondução de Gurgel ao cargo de Procurador Geral.

Primeiro esbravejou, exigindo de Gurgel a abertura de processo contra Antonio Palocci, ameaçando não votar a favor da sua recondução ao cargo. Depois, recuou, disse que, infelizmente, as alegações de Gurgel – de que não havia nenhum elemento que comprovasse origem ilícita dos recursos de Palocci – eram corretas e só lhe restava acatar a lei.


Independentemente do mérito dos argumentos de Gurgel, os movimentos iniciais de Demóstenes lhe conferiram o papel de líder dos minoritários; e seu convencimento final matou toda a reação contra a indicação do Procurador Geral.

Poderia ser apenas um caso de um Senador procurador reconhecendo o mérito da alegação de outro, não fosse a circunstância de que Gurgel há dois anos estava sentado em cima de um inquérito que denunciava as ligações espúrias de Demóstenes com Cachoeira.


Demóstenes só chegou a essa posição de destaque no Senado, a ponto de ser figura chave na aprovação do Procurador Geral, graças à cobertura que recebia da revista Veja - que, por sua vez, se associou ao bicheiro Carlinhos Cachoeira em diversas denúncias. E foi graças a essa posição de destaque que Demóstenes tornou-se suspeito da mais grave armação contra as instituições desde o Plano Cohen: a farsa do grampo sem áudio.

É importante entender que essa promiscuidade mídia-político-criminoso – que não é generalizada na velha mídia, mas específica da revista Veja – não é apenas um caso de exorbitância jornalística: é algo que ameaça a própria normalidade institucional do país, abrindo espaço inédito para que o crime organizado ascenda aos mais altos escalões da República, constrangendo autoridades diversas. No caso Daniel Dantas, a revista fuzilou reputação de Ministro do STJ que havia confirmado uma liminar contra o banqueiro.


Até agora, apenas alguns blogs, isoladamente, têm atuado como contrapeso a esse poder avassalador de um jornalismo sem limites. Mas somos vítimas de uma judicialização da discussão – com torrentes de ações desabando sobre nós. Em nome de uma visão equivocada sobre os limites da liberdade de imprensa, o Judiciário é condescendente. Quando age, sempre é com enorme atraso, devido aos problemas processuais conhecidos. Os demais veículos se calam ante os abusos da Veja.


Gurgel terá que provar, daqui para diante, sua independência – e não propriamente em relação ao Executivo. E os poderes públicos – especialmente o Judiciário – terão que acordar para a realidade de que, hoje em dia, são reféns da escandalização praticada pelo mau jornalismo. E que a melhor maneira de defender a liberdade de imprensa é expurgar as práticas criminosas que se escondem debaixo do seu manto.

terça-feira, 27 de março de 2012

GRUPO REALIZA PROTESTOS CONTRA TORTURADORES EM VÁRIAS CIDADES


Protesto realizado em frente à casa do ex-chefe do SNI em Porto Alegre
(Fotos: Leandro Silva)
Por Fábio Nassif (texto e fotos reproduzidos de Carta Maior, postagem de 26/03/2012)


São Paulo - Às vésperas da data que marca os 48 anos do golpe militar no Brasil, um grupo de jovens iniciou nesta segunda-feira (26) uma série de ações que buscam dar visibilidade à impunidade de torturadores e acusados de outros crimes durante a ditadura ainda vivos. O Levante Popular da Juventude realizou "escrachos" em algumas capitais do país, como forma de denunciar os acusados desses crimes na frente de suas casas ou empresas.


O pano de fundo das manifestações é o início dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, que ainda não foi instaurada pela presidenta Dilma Roussef (PT). Além de recentes pronunciamentos do Clube Militar contrários à comissão, os militares ensaiam realizar diversas “comemorações”, o que acirra mais o embate.

Na capital paulista, cerca de 150 jovens, que apoiam a Comissão e pedem julgamento dos torturadores, se concentraram na frente da empresa de segurança Dacala, na avenida Vereador José Diniz. O dono é o delegado aposentado David dos Santos de Araújo, acusado pelo Ministério Público Federal de participar de torturas e assassinatos.


O “Capitão Lisboa”, como era conhecido, é acusado de ser um dos torturadores do Doi-Codi. O panfleto distribuído no ato afirma que David também é conhecido pelos estupros de filhos de pessoas que assassinou durante a ditadura civil-militar. E estampa as logomarcas da Anhanguera Educacional, Banco Safra, Banco Itaú, Jac Motors e Ford, empresas que são clientes de sua empresa de segurança.


Os 70 jovens participantes do ato em Porto Alegre foram à frente da residência do coronel Carlos Alberto Ponzi, na rua Casemiro de Abreu, 619. O ex-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) em Porto Alegre é acusado pela justiça italiana pelo desaparecimento do militante Lorenzo Ismael Viñas, capturado ao tentar atravessar a ponte que liga Uruguaiana à Paso de Los Libres (Argentina), em 26 de junho de 1980, durante a Operação Condor. O crime foi cometido depois da assinatura da Lei de Anistia, feita em 1979.


Em Belo Horizonte o grupo denunciou Ariovaldo da Hora e Silva, em sua residência na rua Biagio Polizzi, 240. Ele é acusado de torturar Afonso Celso Lana Leite, Cecílio Emigdio Saturnino, Jaime de Almeida, Nilo Sérgio Menezes Macedo e outros, quando era investigador da Polícia Federal. Segundo o livro Brasil Nunca Mais, Ariovaldo também é responsável pela morte de João Lucas Alves.

Adriano Bessa, acusado de ser um delator e prestador de serviços durante o período militar, foi o alvo dos 80 manifestantes em Belém do Pará. O Levante Popular da Juventude também realizou escrachos na Bahia e no Ceará.

“Comemorações”


Os militares, aposentados ou não, realizarão uma série de atividades que remetem ao golpe de estado. O Círculo Militar de Campinas realizará um lançamento do livro “Médici – a verdadeira história”, com a presença do filho do ex-presidente ditador Emílio Garrastazu Médici. A atividade é organizada em parceria com o Grupo Inconfidentes, uma organização saudosista de militares.


Em São Paulo, o Círculo Militar organizará uma festa no dia 31, chamada “Viagem no túnel do tempo”. O Clube Militar do Rio de Janeiro organiza o evento “1964 – A Verdade”, no dia 29.


Organizações de esquerda pretendem organizar ações de contraponto a essas. Uma delas é o bem humorado Cordão da Mentira, que se concentrará no dia 1° de abril, às 11h30, no Cemitério da Consolação. “Povoemos os porões do imaginário, com tudo aquilo que a ditadura encarcerou na sua cultura! Levemos pra lá o samba dos cordões, as imagens censuradas, as bocas amordaçadas. Fantasiemos as ruas com seus símbolos de opressão! Enganemos a todos com as farsas de nossa história!”, diz o manifesto que convoca o batuque.


segunda-feira, 26 de março de 2012

MILITÂNCIA ARGENTINA MIRA OS CÚMPLICES CIVIS DA DITADURA


As ruas e praças do centro de Buenos Aires se enchem de militantes em cada
24/março, Dia da Memória pela Verdade e a Justiça (26 de julho é o dia da morte
de Eva Perón, em 1952) (As fotos são de Jadson Oliveira, de 24/março/2011)
De Salvador (Bahia) - No último sábado, dia 24/março, foi feriado na Argentina, Dia da Memória pela Verdade e a Justiça. A data assinala o 36º. aniversário do golpe militar que deu partida à sangrenta ditadura, a última ditadura, como dizem os argentinos – 1976-1983 -, que deixou a marca assombrosa de 30.000 desaparecidos/assassinados.


Do alto do inquestionável êxito da política de direitos humanos (especialmente se se compara com a situação do Brasil, às voltas com as dificuldades da tímida Comissão Nacional da Verdade), com o número de condenados já se aproximando de 300 e mais de 800 repressores arrolados atualmente em processos, a militância argentina mira na punição dos cúmplices civis do regime militar: grandes empresários, inclusive do ramo das comunicações, e integrantes do Poder Judiciário.


É um dos itens que compõem o receituário de entidades do movimento popular alinhadas com o peronismo-kirchnerismo (Néstor e Cristina Kirchner), que não se cansam de reclamar a necessidade de “aprofundar o modelo”, ou seja, avançar rumo a políticas cada vez mais comprometidas com os interesses populares e uma efetiva democracia participativa.

Uma das pistas da larguíssima Avenida 9 de Julho, no centro da capital portenha
A Praça de Maio, coração político da Argentina, tomada por manifestantes
Exemplar dessa linha de atuação é a convocação para a manifestação do 24/março deste ano, feita pelo Movimento Evita (de Eva Perón), uma das mais aguerridas agrupações de massa do espectro político mencionado acima (aqui o Movimento Evita seria classificado como “de esquerda”, lá é considerado “de centro-esquerda”). A ênfase já está no título: “Marcha do 24 de março: os grupos econômicos também foram a ditadura”.


O texto refere-se à “ditadura cívico-militar” e cita líderes empresariais, como “alguns dos responsáveis civis pelo terrorismo de Estado”. O primeiro da lista é Martínez de Hoz, o todo-poderoso ministro da Economia da ditadura, um tipo que lembra o poderoso Delfim Neto da ditadura brasileira. Segue citando a Sociedade Rural, onde estão entrincheirados os pesos pesados do agronegócio, e “também grupos econômico com nome e sobrenome foram cúmplices da repressão contra as organizações do nosso povo, do desmantelamento do Estado e do saque da nossa Pátria”.


E continua: “Foram os que colonizaram o Ministério da Economia e setores essenciais do gabinete ministerial nacional e de muitos governos provinciais (estaduais): Mercedez Benz, Grupo Ledesma, Ford, Loma Negra, Techint, Papel Prensa e Clarín (maior monopólio privado de comunicação, uma espécie de Organizações Globo) e Acindar são alguns dos casos emblemáticos de cumplicidade dos Grupos Econômicos na repressão e tortura dos militantes populares”.


E vem a conclamação de praxe no texto convocatório: “Porque temos Memória, porque queremos Verdade e Justiça, Nem Esquecimento Nem Perdão. Temos que seguir avançando no julgamento dos responsáveis materiais e intelectuais pelo terrorismo de Estado”.


(O portal Carta Maior publicou várias matérias sobre o 24/março deste ano. Faço aqui link para uma delas: “Ditadura, democracia e sociedade civil”).


(Eu estava em Buenos Aires no 24/março do ano passado e escrevi algumas matérias para este meu blog. Faço aqui link para uma delas: “Civis que foram cúmplices da ditadura estão na mira dos argentinos”).




MEIOS DE COMUNICAÇÃO


(Notinha da capa do jornal argentino Página/12, edição de 23/03/2012)


“O ataque dos meios de comunicação aos governos que pensam primeiro no povo e não nos interesses dos poderosos de sempre não é casual, está articulado a nível internacional com os meios de comunicação monopólicos que representam o poder econômico. Temos que alertar a população que leia bem, mas não acredite em tudo que lê nos veículos de imprensa, que têm o costume de difamar e não dizer a verdade. Vejo que por trás sempre está o poder do dinheiro. O que lhes preocupa é isso: o bolso”.


(Da presidenta de Abuelas de Plaza de Mayo – Avós da Praça de Maio -, Estela de Carlotto (foto), à agência equatoriana de notícias Andes. “Abuelas” é a organização mais atuante hoje na Argentina em defesa dos direitos humanos, pela punição aos crimes da ditadura. Tem grande reconhecimento internacional, juntamente com Madres de Praza de Mayo – Mães da Praça de Maio).

domingo, 25 de março de 2012

JÚNIOR (Astram/Salvador): “O FIM DA GREVE DEPENDE DA PREFEITURA” (vídeo)



De Salvador (Bahia) – Entrevista com Adenilton Júnior, presidente da Associação dos Servidores em Transporte e Trânsito do Município (Astram), entidade que representa o pessoal da Transalvador, que atua no trânsito da capital baiana. A categoria está participando da greve dos servidores da prefeitura por um Plano de Cargos e Vencimentos (PCV), liderada pelo Sindicato dos Servidores (Sindseps).

RODRIGUES (salva-vida/Salvador): “A LUTA HOJE É PELO PLANO DE CARGOS” (vídeo)



De Salvador (Bahia) - Entrevista com Marcus Rodrigues, presidente da Associação Baiana de Salvamento Aquático (Abasa), entidade que representa os salva-vidas que atuam nas praias de Salvador. Parte dos salva-vidas está participando da greve dos servidores da prefeitura por um Plano de Cargos e Vencimentos (PCV), liderada pelo Sindicato dos Servidores (Sindseps).

DOMINGO EM SALVADOR: SERVIDORES FAZEM PASSEATA NA ORLA (vídeo)



De Salvador (Bahia) - Hoje, domingo, manhã de sol na orla da capital baiana, houve passeata dos servidores da prefeitura, em greve desde o dia 20 por um Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) e outras reivindicações.


Um grupo em torno de 200 grevistas, liderado pelos dirigentes do Sindseps (Sindicato dos Servidores da Prefeitura de Salvador), saiu da sede do Salvamar (órgão municipal a que estão ligados os salva-vidas que atuam nas praias), na altura da Rua Pinto de Aguiar, e caminhou vagarosamente até o Mirante de Jaguaribe, base do Salvamar atualmente desativada. Parte dos salva-vidas está participando da greve.


Foi cerca de uma hora de manifestação contra a política do prefeito João Henrique, tempo em que o trânsito ficou interrompido. Houve muita reclamação de motoristas e passageiros que tiveram que marchar, também vagarosamente, atrás dos manifestantes, os quais a todo momento repetiam através do serviço de som: “Servidor na rua, prefeito a culpa é sua”.


Amanhã, segunda, haverá nova rodada de negociações em torno do PCV. Os servidores foram convocados pelo sindicato para se concentrarem pela manhã nas imediações da Secretaria de Planejamento (perto do estacionamento São Raimundo), onde estão se reunindo os representantes dos grevistas e da prefeitura. Haverá assembleia para se decidir, diante do resultado da negociação, se a paralisação continua ou não.

sexta-feira, 23 de março de 2012

SALVADOR: GRITO CONTRA A PRIVATIZAÇÃO DA ÁGUA (vídeo)




De Salvador (Bahia) - Nesta quinta-feira, dia 22, Dia Mundial da Água, os baianos foram às ruas de Salvador dizer não à privatização da água e do saneamento. Foi o XII Grito da Água, organizado pelo Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente da Bahia (Sindae), com apoio de outras entidades do movimento social.


O vídeo (SÓ É VÁLIDO O SEGUNDO) mostra momentos da chegada da passeata à Praça Castro Alves, no centro da cidade, fechando com uma entrevista com Luiz Roberto Moraes, professor de Saneamento da Universidade Federal da Bahia. (Logo abaixo, uma seleção de fotos e um artigo reproduzido do blog Vi o Mundo).

IMAGENS DO XII GRITO DA ÁGUA

MOVIMENTOS SOCIAIS CONTRA PRIVATIZAÇÃO DE ÁGUA E SANEAMENTO


Da FNU e Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental, via site da CUT (Reproduzido do blog Vi o Mundo, de 21/03/2012)


O dia 22 de março, Dia Mundial da Água, coloca para a sociedade brasileira a necessidade de se refletir sobre os desafios relacionados à água. E neste dia, a CUT, a FNU/CUT (Federação Nacional dos Urbanitários) e diversas entidades do movimento social, como MST e MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), vão realizar atos políticos e mobilizações de rua para reafirmar a água como bem público e um direito humano.


O Brasil, apesar de concentrar cerca de 12% das reservas de água doce do planeta, convive com uma distribuição desigual. A maior quantidade de água está na região Norte do País, onde o número de habitantes é significativamente menor que na região Sudeste, onde a concentração populacional e muito maior.


A Região Metropolitana de São Paulo, onde vivem mais de 19 milhões de pessoas, enfrenta o que vem se convencionando chamar de estresse hídrico, obrigando a se buscar alternativas de abastecimento cada vez mais distantes, a custos elevados, para atender a demanda em médio prazo.


As águas dos principais rios estão comprometidas em razão da grande quantidade de esgotos depositados sem tratamento. Essa situação se repete em outros grandes centros urbanos brasileiros.


O País avançou nos últimos anos em relação à legislação e ao financiamento para o saneamento, porém, há muito a ser feito para garantir a universalização do acesso à água e ao saneamento em quantidade e qualidade adequadas para todos os brasileiros e brasileiras independente da sua capacidade de pagamento.


Somam-se a esses desafios o enfrentamento às investidas do setor privado para aumentar o controle da prestação dos serviços de água e saneamento no Brasil, que, aliás, vem ocorrendo também em outras partes do mundo.


Por outro lado, em diferentes partes do mundo, observa-se a resistência a essas investidas privatizantes. A cidade de Paris remunicipalizou os serviços de água e os italianos derrotaram, em recente referendo, a proposta de privatização de seu sistema de abastecimento e distribuição. Já Portugal se mobiliza para barrar a privatização através de um amplo movimento popular conduzido pelo movimento “Água é de Todos”.


No Brasil, a Federação Nacional dos Urbanitários (FNU) e a Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental (FNSA), com apoio e participação de várias entidades da sociedade civil, lançaram, em novembro de 2011, uma campanha nacional contra as Parcerias Público Privadas – PPPs. A campanha é intitulada “Água Para o Brasil” e reúne um grande leque de entidades dos movimentos sociais, que neste 22 de março estarão nas ruas de todo o País, reafirmando a bandeira da água como bem público.


Lembramos, com destaque, o fato de a Organização das Nações Unidas (ONU) ter aprovado em 2010 resolução que garante a Água e o Saneamento como direito humano fundamentais. Nesse caso, mesmo antes dos países garantirem em suas Constituições esse direito, os movimentos sociais internacionais estão iniciando outra batalha contra a intenção de países da União Europeia que objetivam alterar essa resolução que significou grande avanço na luta contra a privatização da água e do saneamento.


Mas ataques contra essa conquista foram demonstrados também no Fórum Mundial da Água ocorrido em Marselha, França, entre os dias 14 e 17 de março, pois a declaração final do encontro constituiu um retrocesso em relação à resolução da ONU. Esse evento, organizado pelas grandes multinacionais da água e pelo Banco Mundial, tem como principal objetivo ampliar a apropriação dos recursos hídricos do planeta, das mais variadas formas.


Por sua vez, o Fórum Mundial Alternativo da Água, também ocorrido em Marselha no mesmo período, reafirmou a necessidade de recuperar a água como fonte de vida e não de lucro e reforçou a importância das conquistas alcançadas nos últimos anos. Esse Fórum Alternativo foi organizado por movimentos sociais do mundo inteiro.


Por tudo isso, conclamamos a todos (as) a se envolver nas atividades e ações que tenham por objetivo a defesa do acesso à água e ao saneamento; a não privatização; a preservação dos mananciais; o consumo responsável da água e a gestão eficiente dos operadores de saneamento, sobretudo com a relação ao alto índice de perdas de água na operação dos serviços.

quinta-feira, 22 de março de 2012

A MÍDIA CONTRA A JUVENTUDE MILITANTE NA ARGENTINA


(Foto: Reprodução de Carta Maior)
Por Francisco Luque (Reproduzido de Carta Maior, de 20/03/2012)


Buenos Aires - “Eu digo a todos os jovens que não se preocupem com as coisas que dizem esses meios de comunicação, eles são centros de emissão de poder que justificaram a ditadura e a repressão; os jovens são o mais maravilhoso deste movimento popular”, afirmou, enfática, a presidenta Cristina Fernández de Kirchner em defesa da militância juvenil que hoje, pela mão do kirchnerismo e depois de décadas de inércia e apatia, regressou à política.

Durante a última semana, os meios hegemônicos da Argentina - Clarín e La Nación (jornais equivalentes aos brasileiros Folha de S.Paulo, Estadão e O Globo) - dedicaram pujantes artigos de opinião contra a irrupção dos jovens na política e a colocação de muitos deles em lugares próximos ao poder. O alvo preferido destes ataques foi a La Cámpora (La Agrupación Héctor J. Cámpora, nome do dirigente político que foi presidente do país durante poucos meses do ano de 1973, muito ligado a Perón, representava uma corrente do peronismo considerada revolucionária), a agrupação da juventude kirchnerista, liderada pelo filho da presidenta, Máximo Kirchner, e um dos principais expoentes da renovação política.

O artigo do Clarín enfatiza a existência de um “gene montonero” que estaria “fatalmente” inscrito no DNA da La Cámpora, como herdeiros daquele movimento dos anos 70. O outro, publicado no La Nación, inscrevia o jovem vice-ministro da Economia, Axel Kicilloff, em uma tradição “judia, marxista e psicanalítica”.

“Kicillof é um acadêmico marxista. Ao doutorar-se defendeu que lorde Keynes era um pensador radical tergiversado pela análise burguesa. Para ele, Stiglitz ou Krugman são quase tão ortodoxos como Mankiw ou Barro. Nos últimos tempos Kicillof se concentrou mais em Marx. Está aprendendo alemão para lê-lo em sua versão original. Filho de um psicanalista, bisneto de um legendário rabino vindo de Odessa, a genealogia de Kicillof parece ser uma sucessão de dogmas. Em seu caso, sustenta que as ciências econômicas, tal como se ensina nas universidades argentinas - ou em 90% do sistema acadêmico internacional -, é a fachada técnica de um aparato de dominação. É a razão pela qual propõe a reforma de todos os planos de estudo”, afirma o artigo titulado “Axel Kicillof, o marxista que substituiu Boudou”, do jornalista Carlos Pagni. “É um artigo muito nazista”, contestou a presidenta.

Jovens de La Cámpora nas ruas de Buenos Aires (fotos de Jadson Oliveira
produzidas de dezembro/2010 a maio/2011)
Bandeiras de La Cámpora na frente do prédio de tribunal de Buenos Aires
durante anúncio de condenação de repressores da ditadura
A resposta não se fez esperar. O jovem economista afirmou, no programa 678 da Televisão Pública, que a farra das classes dominantes está terminando. “Há uma mudança de época e diante disso eu noto muito desespero. Poderiam dizer quinhentas coisas sobre a matéria que me alude, mas fico com o título. “Quem autoriza esse senhor colocar ‘o marxista Kicillof’? É um adjetivo que foi posto aí para agitar seus próprios fantasmas”.

A volta dos jovens à política é um fenômeno interessante. Nascidos no fulgor das barricadas durante a crise institucional de 2001, os jovens argentinos reestruturaram o conceito de militância. Desde diversas agrupações - universitárias, organismos de direitos humanos (como netos de detidos desaparecidos) e partidos tradicionais - os jovens foram aglutinando-se em um movimento social de massas que teve enorme visibilidade nos últimos anos.

Foram vistos apoiando o governo durante o conflito com o campo em 2008 (momento onde nasce a “militância digital”, com os “blogueros K”), que embora tenha terminado em derrota legislativa foi a “declaração de identidade com o kirchnerismo”, até o apoio presencial e emotivo à presidenta durante o funeral de Néstor Kirchner. Depois, na discussão da “Ley de Medios” e na individualização dos meios hegemônicos, mais que a oposição política, como o inimigo a vencer no confronto pelo “relato”, a estatização dos Fundos de Pensão, a criação do Abono Universal por Filho (semelhante ao programa Bolsa Família no Brasil) e até a utilização das reservas do Banco Central para o pagamento da dívida acabaram por formar um mito.


A história terminou aglutinando os jovens, entre outros a La Cámpora, nos momentos mais transcendentais que viveu o kirchnerismo, e foi Néstor Kirchner quem começou a reestruturar e construir esta aliança estratégica. É uma “ponte entre gerações”, dizia.

O certo é que o ataque de certa imprensa à militância jovem é uma intriga. Estes meios, representantes dos setores mais conservadores da sociedade, temem as caras novas ou esperam o pior, enquanto a realidade indica que os jovens ganham dia a dia mais espaço frente os velhos quadros políticos.


"Querem converter a La Cámpora em uns monstros", afirmou Kicillof, enquanto rejeitava as acusações que os meios de comunicação fazem sobre a agrupação, sobre ganharem seus espaços sem demasiados méritos. "Desde o secundário que não parei de militar. Em 2001 [na crise social de dezembro de 2001] estávamos do lado dos mortos". A presidenta enfrentou as acusações com dados: “Eles têm 29 dos 21.332 cargos dirigentes que temos em todo o país. Vão ter que trabalhar um pouco mais para serem tão poderosos”.


“A mobilização requer politização, mas a politização não pode existir sem uma representação conflituosa do mundo, que inclua campos opostos com os quais as pessoas possam se identificar, permitindo dessa forma que as paixões se mobilizem politicamente dentro do espectro do processo democrático”, afirma a cientista política Chantal Mouffe no trabalho “Em torno do político”. Mouffe explica que a atual ênfase no consenso gera sociedades cada vez mais desinteressadas na política, se um ou outro são mais ou menos o mesmo.


Então, o fenômeno juvenil militante na Argentina seria uma anomalia. Assim, enquanto em boa parte do mundo as juventudes desencantadas se manifestam ocupando praças por fora dos espaços políticos, esta militância juvenil o faz por dentro, pertencendo, inclusive, à estrutura do Estado.

Tradução: Libório Junior (Três observações entre parênteses são deste blog)

terça-feira, 20 de março de 2012

SALVADOR: GREVISTAS DA PREFEITURA FAZEM PROTESTO NO IGUATEMI (vídeo)



De Salvador (Bahia) - Começou com muita confusão a manifestação feita hoje (terça, dia 20) pela manhã pelos servidores municipais de Salvador, em greve de 72 horas – de hoje até quinta, dia 22 – por melhorias salariais. Foi em frente ao Shopping Iguatemi, atualmente a área de trânsito mais intenso da capital baiana.


Os homens da Polícia Militar, comandados pelo major Ramalho Neto, tentaram impedir o fechamento total das pistas, mas tiveram que ceder diante da insistência dos manifestantes, liderados pelos dirigentes do Sindicato dos Servidores (Sindseps): Helivaldo Alcântara, conhecido por Alemão (aparece no vídeo de camiseta preta), e Everaldo Braga (camisa de listas amarelas e brancas).


Apesar da confusão, não houve violência. Só trânsito engarrafado e muito protesto e desabado dos servidores contra a política salarial do prefeito João Henrique. A passeata percorreu uma pequena distância: começou na sinaleira em frente à Igreja Universal, na Avenida ACM, virou logo no primeiro cruzamento e retornou para a frente do Iguatemi. Durou apenas cerca de uma hora. Foi encerrada com uma oração católica (o Pai Nosso) e o Hino Nacional.


Amanhã (quarta, dia 21), pela manhã, está prevista nova manifestação, desta vez no centro da cidade: do Campo Grande à Praça Municipal (sobre as reivindicações, ver matéria postada neste blog no último dia 15).




OPOSIÇÃO OPERÁRIA FAZ SEMINÁRIO EM SALVADOR


A Oposição Operária, articulação de militantes de esquerda que edita a revista Germinal, vai fazer um seminário sobre “Movimentos sociais na contemporaneidade”. Será no próximo sábado, dia 24, a partir das 9 horas, no auditório 1 da Faculdade de Arquitetura da UFBA (Rua Caetano Moura, l07, Federação).


O objetivo, conforme convite, “é discutir a diversidade de movimentos que acontecem no mundo e a necessidade de compreender as suas demandas e as suas perspectivas quanto ao projeto de transformação, focalizando principalmente os movimentos da América Latina”.


Terá como expositor Fernando Larrea, antropólogo equatoriano, mestre em Ciências Sociais, com larga experiência em temas relacionados aos movimentos indígenas e camponeses do Equador e da América Latina.




GUARDANAPOS PELA IDENTIDADE


Bares e restaurantes da província (estado) de Córdoba (Argentina) terão guardanapos com o logotipo de Abuelas de Plaza de Mayo (Avós da Praça de Maio), onde está impressa a frase “Se tens dúvidas sobre tua identidade, aproxima-te das Abuelas (Avós)”, com o endereço e o correio eletrônico da filial cordobense da entidade de direitos humanos. A campanha “Guardanapos pela identidade” procura chegar dessa maneira aos jovens que eram crianças quando foram apropriadas durante o terrorismo de Estado.


(Notinha da capa do jornal argentino Página/12, edição de 16/03/2012).


Observações:


1 - A estimativa é que o número de bebês roubados dos pais desaparecidos/assassinados durante a última ditadura na Argentina – 1976-1983 – seja de 400 a 500. Até agora foram identificados pouco mais de 100.


2 - "Abuelas de Plaza de Mayo" é atualmente a entidade mais conhecida na luta pela punição dos torturadores na Argentina. Já "Madres (mães) de Plaza de Mayo" deixou esta luta específica e passou a se dedicar a outras atividades políticas, sociais e culturais.

segunda-feira, 19 de março de 2012

SALVADOR: SERVIDORES MUNICIPAIS DECRETAM GREVE DE 72 HORAS (vídeo)



De Salvador (Bahia) - Em assembleia na tarde de hoje, dia 19, na Praça Municipal (onde ficam o palácio de despacho do prefeito João Henrique e a Câmara dos Vereadores), os servidores da prefeitura decidiram iniciar amanhã uma greve de 72 horas, reivindicando reajuste salarial e Plano de Cargos e Vencimentos (PCV). (O vídeo mostra o momento da aprovação da proposta de greve).


Os dirigentes do Sindicato dos Servidores (Sindseps) vinham negociando com representantes da prefeitura, mas entenderam que as negociações não andavam por falta de empenho dos gestores municipais. Na manhã de hoje, por exemplo, haveria nova rodada de discussão, mas foi cancelada pelos negociadores do prefeito alegando que não tinham ainda em mãos uma projeção dos efeitos da aplicação do PCV, conforme informou o presidente do Sindseps, Jeiel Soares.


Durante a assembleia foram programadas três manifestações: amanhã pela manhã no Iguatemi; na quarta-feira, uma passeata do Campo Grande à Praça Municipal; e a terceira, na quinta-feira à tarde, nas proximidades da Secretaria do Planejamento (Seplag), (perto do estacionamento de São Raimundo), onde haverá assembleia para decidir a continuidade ou não da paralisação.


Os dirigentes do sindicato acreditam que os grevistas têm condições de parar amanhã as atividades em vários órgãos da prefeitura, como a Secretaria da Saúde, Transalvador (cuida do trânsito), Guarda Municipal, Centro de Zoonoses, Vigilância Sanitária, Usina de Asfalto e a Seplag.


(Sobre as reivindicações, ver matéria postada neste blog no último dia 15).

domingo, 18 de março de 2012

PAULO HENRIQUE AMORIM: “O QUE SE JULGA AQUI É A LIBERDADE DE EXPRESSÃO”


Trechos da defesa oral feita na Justiça por Paulo Henrique Amorim (PHA - foto), da TV Record, no processo em que Heraldo Pereira, da TV Globo, o acusava de incitação ao racismo por tê-lo chamado “negro de alma branca”. Os trechos foram retirados da postagem de 15/03/2012 do site Conversa Afiada, mantido por PHA, sob o título “Gilmar, Heraldo e a Globo. Como PHA se defendeu”. O título acima é deste blog.


“(...) DEFENDO, POR EXEMPLO, AS COTAS PARA NEGROS NAS UNIVERSIDADES -
POLÍTICA QUE O SUPOSTO RÉU DEFENDE DESDE QUE, CORRESPONDENTE DA GLOBO NOS ESTADOS UNIDOS, PODE ACOMPANHAR SEUS EFEITOS BENÉFICOS PARA NEGROS QUE NASCEM NA ADVERSIDADE.

NUNCA EM 51 ANOS DE ATIVIDADE PÚBLICA , À VISTA DE TODOS, EM REDE NACIONAL, DISSERAM, INSINUARAM OU SUSPEITARAM QUE EU FOSSE RACISTA.

OU QUE, COMO ACUSA O AUTOR, INCITASSE O RACISMO.

ESSE MESMO SITE NA INTERNET, AGORA ACUSADO DE SER UM INSTRUMENTO DO RACISMO, UMA ESPÉCIE DE MEIN KAMPF DA BLOGOSFERA, ESSE MESMO CONVERSA AFIADA DIVULGOU DEZENAS DE TEXTOS CONTRA O RACISMO E O PRECONCEITO.


E A FAVOR DA COTAS.

ISSO ESTÁ FARTAMENTE DOCUMENTADO NOS AUTOS.

NÃO HÁ UMA FRASE, UM ATO, UMA PALAVRA, UM GESTO, EM 51 ANOS NA VITRINE DA IMPRENSA, QUE POSSA OU QUE J A M A I S TENHA SIDO ASSOCIADO A RACISMO.


(...)


NEGRO DE ALMA BRANCA É O NEGRO QUE NÃO OLHA PARA TRÁS – PARA A CHAGA DA ESCRAVIDÃO, OU, COMO DIRIA JOAQUIM NABUCO:


“NÃO BASTA ACABAR COM A ESCRAVIDÃO. É PRECISO DESTRUIR SUA OBRA.”


É A OBRA QUE ESTÁ ABERTA AINDA HOJE, COMO COMPROVAM AS ESTATÍSTICAS DO IBGE, DOS CÁRCERES BRASILEIROS, DAS CRACOLÂNDIAS.


NEGRO DE ALMA BRANCA PODE SER AQUELE QUE NÃO ASSUME A SUA PRÓPRIA CONDIÇÃO DE NEGRO PARA COMBATER O RACISMO E O PRECONCEITO CONTRA O NEGRO.

CONTRA ELE, CONTRA A MÃE, O PAI, OS IRMÃOS.

É O NEGRO QUE OLHA PARA OUTRO LADO.

QUE FINGE QUE NÃO VÊ.

ACHA QUE NÃO É COM ELE.

NEGRO DE ALMA BRANCA DE PRESTÍGIO, UMA CELEBRIDADE, É O NEGRO QUE NÃO SE VALE DA POPULARIDADE E DO PRESTÍGIO PARA DEFENDER O NEGRO PRESO À CORRENTE DA ADVERSIDADE.

NEGRO DE ALMA BRANCA PODE SER TAMBÉM AQUELE QUE SE PRESTA A COONESTAR AS POSIÇÕES, AS TESES DE QUEM É CONTRA OS DIREITOS CIVIS DOS NEGROS OU DOS QUE COMBATEM AS POLÍTICAS QUE PODEM DAR INDEPENDÊNCIA ECONÔMICA E RECONHECIMENTO SOCIAL AOS NEGROS.

SÃO AQUELES QUE DEFENDEM PSEUDO POLÍTICAS ANTROPOLÓGICAS QUE CONGELAM A DESIGUALDADE E A DISCRIMINAÇÃO.

NESSE PAÍS DE MAIORIA NEGRA MORREM MAIS NEGROS QUE BRANCOS NA MESMA FUNÇÃO.


HÁ MENOS NEGROS NAS FACULDADES.


QUANTOS NEGROS HÁ NA MAGISTRATURA ?


A CARA DA MISÉRIA, A CARA DA POBREZA NO BRASIL, É NEGRA.

ESSA É UMA QUESTÃO CENTRAL DA DEMOCRACIA BRASILEIRA – E O LOCAL PARA DISCUTÍ-LA NÃO É NESTA SALA, COM ESTE TIPO DE AÇÃO, QUE NÃO PASSA DE UMA PERIPÉCIA, UMA MANIFESTAÇÃO DE PODER.

DE PODER PARA TENTAR MANIPULAR O SISTEMA JUDICIÁRIO EM BENEFÍCIO DO AUTOR, FUNCIONÁRIO DA MAIS PODEROSA EMISSORA DE TEVÊ DA AMERICA LATINA, ONDE OCUPA CARGO DE PRESTÍGIO E DESTAQUE.


NA MINHA MODESTA OPINIÃO, TODO NEGRO DEVERIA DEFENDER O NEGRO.

ESPECIALMENTE SE FOR FAMOSO, TIVER PRESTÍGIO.


ESPECIALMENTE SE DISPÕE DO PÚLPITO DA REDE GLOBO.


ESTIVE NESSE PÚLPITO GLOBAL, TOTAL, POR DEZ ANOS E SEI O QUANTO ELE VALE.


VALE MUITO, PARA, EM ATIVIDADES PÚBLICAS, ATIVIDADES QUE DERIVAM DO FATO DE SER UM PROFISSIONAL DA GLOBO, PODER DEFENDER CAUSAS NOBRES.


POR EXEMPLO, COMBATER O RACISMO E A DISCRIMINAÇÃO – COMO FEZ ESTE SUPOSTO RÉU EM ATIVIDADES PÚBLICAS NOS ESTADOS UNIDOS E NO BRASIL.

É O PÚLPITO QUE DÁ DIMENSÃO AO TRABALHO ARTÍSTICO E POLÍTICO – NÃO PARTIDÁRIO – DE MILTON NASCIMENTO, LECY BRANDÃO, LÁZARO RAMOS E, SOBRETUDO, DE MARTINHO DA VILA, UM DIVULGADOR INCANSÁVEL DA CULTURA AFRICANA E SEU ENRAIZAMENTO NA CULTURA BRASILEIRA.


(...)


SÓ A GLOBO TEM O DIREITO DE TER OPINIÃO NESTE PAÍS ?


O DIREITO DE ESTABELECER QUEM DEVE E QUEM NAO DEVE ENTRAR NAS UNIVERSIDADES ?


QUEM É RACISTA OU NÃO ?


QUEM PODE TRABALHAR COM O PEDRO BIAL, SENDO NEGRO ?


MINO CARTA DÁ A IMPRESSÃO DE QUE EXISTE UM TESTE DE HIGIENE IDEOLÓGICA NA GLOBO.

SIM.

PORQUE NÃO HÁ NOTÍCIA DE UM NEGRO QUE TRABALHE NO JORNALISMO DA GLOBO QUE TENHA DEFENDIDO PUBLICAMENTE AS COTAS RACIAIS PARA A UNIVERSIDADE.

NÃO SÃO MUITOS OS NEGROS, ALI NAQUELA VITRINE PODEROSA.

E OS POUCOS NÃO DEFENDEM AS COTAS – POR QUE SERÁ ?

ESTA NÃO É UMA AÇÃO PENAL !


O QUE SE JULGA AQUI É A LIBERDADE DE EXPRESSÃO.


E NAO A SIMPLES LIBERDADE DE IMPRENSA DO ROBERTO MARINHO, SEUS HERDEIROS E ALI KAMEL.


A LIBERDADE DE PENSAR E SE EXPRIMIR DIFERENTE DA GLOBO.


DE NAO SE SUBMETER A UM PROCESSO DE HIGIENIZAÇÃO IDEOLÓGICA.


(...)


O VERDADEIRO AUTOR, NA MINHA INVIOLÁVEL E SOLITÁRIA INTERPRETAÇÃO, É GILMAR MENDES, TESTEMUNHA DO AUTOR, NA AÇÃO PENAL.

QUE SE ABALOU DO OLÍMPICO TRIBUNAL PARA VIR AQUI COMO SE FOSSE TRATAR DE UMA ROTINEIRA QUERELA TRABALHISTA.


NAO !

GILMAR MENDES QUER SE VINGAR DE MIM ATRAVÉS DE TRÊS PROCESSOS NA JUSTIÇA.


NO CRIME, JÁ FOI SUMARIAMENTE DERROTADO, PORQUE O MINISTERIO PÚBLICO NAO VIU POR QUE ME PROCESSAR.

FALTAM DOIS PROCESSOS NO CÍVEL, ONDE A JUSTIÇA, CERTAMENTE, PREVALECERÁ.

E TEM ESTE AQUI, DE QUE TRATAMOS, EM QUE ELE É O VERDADEIRAO AUTOR E O ESPÍRITO SANTO DE ORELHA DESTA AÇÃO.

FAZ ISSO ATRAVÉS DO CONSPÍCUO AUTOR, PRO FORMA.


FAÇO ESSA DENÚNCIA SERENAMENTE.

E A FAREI EM TODAS AS INSTÂNCIAS NECESSÁRIAS.


AQUI, ME DEBATO COM GILMAR MENDES.


UM NOTÓRIO ADVERSÁRIO DA LIBERADE DE EXPRESSÃO – TANTAS AS AÇÕES INÓCUAS QUE MOVE NA JUSTIÇA PARA CALAR JORNALISTAS INDEPENDENTES.


COMO TENTOU FAZER COM MINO CARTA E LEANDRO FORTES, TAMBÉM DA CARTA CAPITAL


E PERDEU.

QUAL O PROBLEMA DE GILMAR MENDES COM ESTE SUPOSTO RÉU ?


PORQUE NO SITE CONVERSA AFIADA FAÇO QUESTÃO DE RELEMBRAR QUE ELE DEU EM 48 HORAS DOIS HCS (HABEAS CORPUS) QUE O MEIO JURÍDICO CHAMA DE HCS CANGURU, PARA BENEFICIAR UM PASSADOR DE BOLA APANHADO NO ATO DE PASSAR BOLA, O BANQUEIRO DANIEL DANTAS.


PORQUE O SITE CONVERSA AFIADA CONSIDERA QUE GILMAR MENDES NÃO TEM CONDIÇÕES MORAIS NEM INTELECTUAIS PARA SE SENTAR NUMA CADEIRA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.

UM MINISTRO QUE MANTÉM COM O ADVOGADO SERGIO BERMUDES AS RELAÇÕES PROMÍSCUAS QUE ELE MANTÉM, COM O USUFRUTO DE APARTAMENTO NO CENTRAL PARK, EM NOVA YORK, E UMA LIMOUSINE MERCEDES BENZ – ESSE HOMEM, NA MINHA MODESTA OPINIÃO, NÃO PODE SER UM ÁRBITRO DE QUESTÕES QUE DIGAM RESPEITO À CONSTITUIÇÃO.


QUERO ENCERRAR MINHAS PALAVRAS COM UM TESTEMUNHO PESSOAL.


NUM RECENTE DOMINGO, O PROGRAMA EM QUE TRABALHO, DOMINGO ESPETACULAR, EXIBIU REPORTAGEM MINHA NUM ABRIGO, NO RIO, DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES VICIADOS EM CRACK.


CRIANÇAS TALVEZ DESTRUÍDAS DE FORMA IRRECUPERÁVEL.


SEUS CIRCUITOS CEREBRAIS JÁ FORAM DANIFICADOS DE TAL FORMA, QUE NÃO CONSEGUEM MAIS ARTICULAR COM NITIDEZ AS PALAVRAS QUE SAEM DA BOCA.


HAVIA, ALI, 23 CRIANÇAS.


TODAS ERAM NEGRAS”.


(Quem quiser ler na íntegra é só clicar aqui)


sábado, 17 de março de 2012

CAMPANHA EM FAVOR DO “NUM”!!!

Por Marcos Bagno (foto) - Transcrito de sua coluna Falar Brasileiro, na revista Caros Amigos, edição 179, de fevereiro de 2012

Eu queria muito saber quem foi a pessoa alucinada que tirou do bolso do colete a regra estapafúrdia de que não se deve escrever “num”, “numa”, “nuns”, “numas”. Essa é mais uma daquelas prescrições sem sentido que infelizmente grassam no nosso ambiente escolar, nas salas de revisão das editoras, jornais, revistas etc. As contrações “num”, “numa”, “nuns”, “numas” existem no português há mais de 800 anos e sempre foram empregadas com toda a naturalidade pelos falantes e escritores da língua ao longo desse tempo todo. Agora, de repente, e só no Brasil, para todo lado é um tal de “em um”, “em uma” etc. Até nos textos que escrevo para uma revista de educação, quando saem publicados, aparecem sem meus “num” e “numa”, para minha ira profunda. Será que foi o mesmo paspalho que proibiu a expressão “risco de vida” dizendo que só pode ser “risco de morte”? Não, nem ele chegaria a tamanha estupidez...

Existe na nossa tradição escolar um vício pedagógico que infelizmente impera até hoje. É a mania de dizer aos alunos que evitem determinadas formas linguísticas e prefiram outras, porque aquelas são “coloquiais”, representam “interferências da fala na escrita” e outras bobagens do gênero. Um clássico dessa mania é mandar que os alunos eliminem os “que” de seus textos e substituam todos por “o qual”. O resultado disso fervilha, por exemplo, na internet: “a casa o qual moro”, “a empresa o qual trabalhei”, “as cidades o qual passei” e outros primores. A prescrição se limita a mandar substituir, mas sem nenhuma justificativa sólida, sem nenhuma explicação adequada de como e por quê usar esse pronome relativo.

Parece que nem mesmo esses docentes se dão conta de que “o qual” varia em gênero e em número e de que, muitas vezes, deve vir precedido de uma preposição, de modo que “as cidades pelas quais passei” é o que se esperaria de um texto bem escrito. Mas esse nem é o problema maior: o problema maior é achar que se escreve bem simplesmente pelo uso mecânico e irrefletido de certas palavras no lugar de outras. Isso também acontece com o uso de “mas”, que mandam substituir por “porém, contudo, entretanto, no entanto, todavia”, como se isso fosse possível sem alterar a coerência e a coesão do texto. Outra mania recente é a de usar o verbo “possuir” como uma espécie de substituto chique para o bom e velho “ter” ou, pior, como uma espécie de coringa para ocupar lugares que outros verbos mais precisos deveriam ocupar. Resultado: “o senhor possui filhos?”; “esse carro possui três anos de garantia”; “as mulheres possuem salários inferiores aos dos homens” e outros valha-me-deus desse tipo. Também se vê a torto e a direito o uso de “o mesmo” onde um simples “ele” daria conta do recado ou, então, pronome nenhum. E somos obrigados todos os dias a topar com a inexorável plaquinha que nos adverte: “Antes de entrar no elevador verifique se o mesmo encontra-se parado no andar”. Um clássico do juridiquês, que prima pela hipercorreção, isto é, o rebuscamento tão rebuscado que acaba incorrendo no erro puro e simples.

Por isso de agora em diante, meus caros e eventuais leitores, conclamo todos e cada um a lutar em favor da restauração do “num”, do “numa” etc. Vamos parar de encher os textos de supostas formas elegantes ao lado de verdadeiras catástrofes textuais, frases desconexas, pensamento truncado, vocabulário pífio e outras misérias da nossa educação ruim.

Contra a exclusão social

“MARCOS BAGNO (escritor, tradutor, linguista e professor da Universidade de Brasília) vem se tornando conhecido por sua luta contra a discriminação social por meio da linguagem. Para ele, o preconceito linguístico precisa ser reconhecido, denunciado e combatido, porque é uma das formas mais sutis e perversas de exclusão social. Por causa desta militância, MARCOS BAGNO vem recebendo amplo apoio de todos aqueles que desejam construir uma sociedade verdadeiramente democrática, governada pelo respeito às diferenças e pelo acesso aos bens culturais de prestígio”. (de www.marcosbagno.com.br )

Outra campanha em favor de “do”, “da”, etc
Conheci nosso linguista aí através da Caros Amigos, pra mim foi um grande achado. Há uns tempos atrás escrevi um e-mail pra ele:
Tenho ojeriza ao uso de "de o" e "de a", no lugar de "do" e "da", coisa que se tornou moda nos últimos tempos nos nossos jornais e revistas (a Carta Capital, por exemplo, uma revista que sempre leio, adota esta coisa). Fica parecendo o espanhol, embora eles tenham o "del".
Acho esta coisa um absurdo, não sei se estou errado. Bem que você poderia dar uma comentada”.
Ele me respondeu: “Sobre o "de o", "de a", também acho a maior babaquice do mundo. Na gramática do Bechara, ele dá uma bela explicação sobre o fenômeno da contração, homologando o uso de "do" e "da". Isso só comprova que os puristas querem ser mais realistas do que o rei”.

(...) língua errada do povo/língua certa do povo (...)
"A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada"
(Versos do poema Evocação do Recife, de Manuel Bandeira)
Quem quiser conhecer mais o nosso linguista é só clicar aqui.