domingo, 30 de junho de 2013

INTELIGÊNCIA DA PM NA BAHIA INFILTRA AGENTES NOS MOVIMENTOS, REVELA CAPITÃO

Foto: Lena Azevedo
Foto: Lena Azevedo


Redação Consciência.Net | 30 jun 2013

Identificação de lideranças, monitoramento de “suspeitos” e tentativa de influenciar passeatas estão entre ações, de acordo com oficial da PM que pediu sigilo de identidade. Lena Azevedo, da Agência Pública.

Policiais militares da Bahia se infiltraram nas redes sociais depois das manifestações nacionais nas últimas semanas, e estão participando clandestinamente de reuniões dos grupos que organizaram as passeatas na Bahia, na semana passada, filmando e fotografando pessoas identificadas como “lideranças”.

A revelação foi feita em entrevista por um capitão da PM baiana há duas semanas na Academia da Polícia Militar, onde acontecem os cursos de formação para policiais civis e militares para a Copa de 2014. Embora afirme considerar esse tipo de operação “normal”, o oficial pediu para que seu nome não fosse revelado pela reportagem por temer punições do comando da corporação. As informações foram confirmadas e detalhadas nessa quarta-feira (26), dessa vez em entrevista realizada por telefone.

Segundo o capitão, o acompanhamento dos movimentos pela Coordenadoria de Missões Especiais (CME), a central de inteligência da PM, na Bahia, começou a ser realizado antes mesmo do primeiro protesto em Salvador, dia 17 de junho. A essa altura, as manifestações já eclodiam pelo país, e a inteligência da PM passou a vigiar a troca de informações pelo Twitter e, principalmente, pelo Facebook. Agentes criaram perfis falsos e se inseriram em comunidades com objetivo de obter informações sobre os eventos marcados, os locais das reuniões preparatórias, o trajeto das passeatas e para identificar os possíveis líderes.

Para ler mais:

O JUIZ QUE ENFRENTOU A TROPA DE CHOQUE EM FORTALEZA (vídeo)


Esse é macho, sim senhor! Sílvio Mota na manifestação em Fortaleza dia 27/06/2013

Reproduzido do GBlog Gustavo Barreto

"Depoimento de SILVIO MOTA, juiz federal aposentado, ex-militante da ALN, exilado, anistiado, atualmente coordenador do Comitê Verdade Memória e Justiça do Ceará. A foto é do momento narrado abaixo, quando Mota enfrentou o Choque do governador Cid Gomes. (A imagem é da Agência Reuters, mas agora é copyleft!).

"Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor!" Era isso que eu ia cantando quando avancei contra a PM do Sr. Cid Gomes. Por que avancei?

Em primeiro lugar, porque a polícia não se manteve nas barreiras e avançou para acabar com a manifestação. Uma manifestação pacífica, de cara limpa, em que tremulavam bandeiras dos movimentos sociais e até de partidos políticos.

Não é verdade que os manifestantes provocaram o enfrentamento.

A PM do Ceará mentiu, e a Rede Globo também.

A maior manipulação da Globo foi a de não seguir a linha do tempo, e apresentar imagens do final do conflito sem nada dizer das horas de bombardeio que sofremos.

Tenho 68 anos e limitações de locomoção, e estava sentado quando eu e minha esposa, também com 68 anos, fomos atingidos por artefatos de gás lacrimogêneo.

Estávamos longe da barreira, com vários trabalhadores, professores universitários, profissionais da saúde, e até militantes das Pastorais da Igreja Católica.

Minha esposa foi levada por jovens manifestantes para longe, a fim de ser tratada dos efeitos do gás. Eu fiquei, inclusive porque peso mais de 100 quilos. Estava aplicando uma esponjinha molhada de vinagre para poder respirar, mas vi uma jovem tão apavorada que passei minha esponja para ela.

Levantei-me indignado e avancei contra os escudos da barreira, de cara limpa, com a camisa contra a PEC 37. Os PMs ficaram confusos, mas logo avançou um oficial superprotegido por escudos e asseclas que mal podia falar.

Foi logo dizendo que eu não podia fazer aquilo, mas respondi que estava no meu direito de manifestar-me sem armas. Ele alegou que eu podia ser atingido por pedras, mas nenhuma foi arremessada contra mim. As poucas que havia no chão eram pequenas, e nenhum risco causavam a seus escudos e coletes. Disse-lhe que dispensava sua proteção, pois quem tinha me agredido era ele, e não pedras.

Ele voltou para sua linha de escudos.

Os jornalistas presentes logo me perguntaram se eu era promotor, e lhes disse que era juiz aposentado e meu nome. Até defendi o plebiscito proposto pela Presidenta Dilma.

O garboso oficial com seus escudos laterais saiu da linha de novo e disse que iria prender-me.

Disse-lhe que não podia fazer isso porque eu era um magistrado vitalício e não estava cometendo nenhum crime. Exibi-lhe minha carteira funcional, e ele disse que não ia me prender, mas que ia prender a um senhor militante do MST que tinha avançado para meu lado para proteger-me e estava usando a camisa do movimento. Disse-lhe então que iria com ele, e na confusão o camponês correu e o garboso oficial não teve coragem de abandonar a linha para persegui-lo.

Dei-lhe as costas e voltei para a meninada, que já estava mais calma, mas então ele teve coragem de mandar disparar pelos menos cinco artefatos de gás nas minhas costas. Os meninos apagaram quatro deles em baldes de água, e um quinto me atingiu no meio das costas. Caiu no chão e chutei para o lado. É bom saber: nunca dê as costas para uma hiena.

Depois de voltar para a manifestação encontrei minha mulher, ficamos ainda algum tempo aguentando gás lançado contra nós sem motivo, em trajetórias de longo alcance e ainda deu tempo para sair com nosso carro e almoçarmos em um restaurante (o que tinha que fazer com urgência, pois já eram duas da tarde e sou diabético).

Só então tivemos notícias dos confrontos mostrados nas imagens da Globo, por celular.

Sílvio Mota
Magistrado Federal"

AOS QUE VIRÃO DEPOIS DE NÓS - Bertolt Brecht

Bertolt Brecht (Foto: Internet)
Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
quando aqui a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo
da revolta
e me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
que me foi concedido sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
e não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.
Vocês, que vão emergir das ondas
em que nós perecemos, pensem,
quando falarem das nossas fraquezas,
nos tempos sombrios
de que vocês tiveram a sorte de escapar.
Nós existíamos através da luta de classes,
mudando mais seguidamente de países que de
sapatos, desesperados!
quando só havia injustiça e não protesto.
Ainda assim sabemos:
o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
que queríamos preparar o caminho para a
amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão.

(Enviado pelo companheiro Otto Filgueiras)

sábado, 29 de junho de 2013

QUA-QUA-QUA-QUA-QUÁ! CONTA OUTRA, PELÉ!





Por Mário Magalhães, no seu blog, de 27/06/2013

E o pessoal ainda reclama do Pelé.

Ingratos!

Quem conseguiria arrancar tantas gargalhadas como ele?

A última do nosso craque (dos campos): não disputou a Copa de 74 porque se opunha à ditadura.

Evidentemente, o motivo não teria sido, como sempre se soube, com fartura de testemunhos, a recusa da cartolagem em lhe pagar o que ele julgava justo para ir ao Mundial da Alemanha. Atitude legítima, diga-se.

Então, Pelé não conversou por telefone com o ditador Emilio Garrastazu Médici em 1970, em seguida ao tri, numa bajulação constrangedora.

Nem afirmou a um jornal uruguaio que não existia tortura no Brasil.

Agora, inventa que o Parreira era do Exército.

Pelé, o herói da resistência! Ainda acaba anistiado…

Vou pedir o nariz de palhaço a essa senhora fotografada pelo Marcelo de Jesus. Porque o Pelé deve achar mesmo que somos todos palhaços, quando quem faz graça é ele.

A entrevista do ex-jogador e ex-ministro ao UOL pode ser assistida aqui.

JÁ NÃO SE FAZ 'PASSEATA DE DIREITA' COMO ANTIGAMENTE



Por Mário Magalhães, no seu blog, de 25/06/2013 (enviada pelo companheiro Otto Filgueiras, baiano morando em São Paulo)

(Para seguir o blog no Twitter: @mariomagalhaes_ )

Como não havia tanta gente assim, lá pelo meio da passeata de ontem deu para trocar mais um dedo de prosa com Maicon Freitas, 31 anos, o combativo líder da manifestação carioca.

“Você sabe o que foi o CCC?”, perguntei.

“Não tenho a menor ideia”, ele respondeu, e eu acreditei.

“Comando de Caça aos Comunistas”, esclareci, evocando o grupo paramilitar de extrema direita de certa fama nos anos 1960.

Técnico de segurança do trabalho, Maicon capitaneia a UCC, União Contra a Corrupção – Brasil. A organização recém-nascida se autoproclama “neutra, nem de direita nem de esquerda”. Veta estandartes de partidos políticos nos protestos. “Eles querem queimar nossas bandeiras”, reclama Maicon, sem informar quando algum ataque dessa natureza teria ocorrido.

Indagado sobre a acusação de fascistas, assestada nas redes sociais contra grupos similares ao seu, ele retrucou: “Esse discurso não é válido agora, hoje só vai criar inimizade e intriga”. Maicon advoga “redução da carga tributária” e rejeita a contratação de médicos cubanos para socorrer miseráveis nos rincões onde os colegas brasileiros não se dispõem a atender: “A gente não precisa de médicos importados”.

Fustiga o Movimento Passe Livre, de esquerda: “A gente ficou triste porque eles disseram que não iriam chamar mais manifestações, porque a tarifa tinha baixado”. Nem precisava, porém Maicon confirmou, com o rosto pintado com listras verdes e amarelas: “Diria que, sim, sou oposição à presidente”.

‘Fora, Dilma’

Ao seu redor, os manifestantes exibiam a faixa “Fora, Dilma; fora, Cabral; é tudo igual” e o cartaz “Cadê a nossa dignidade, Dilma?”. Outro fazia referência à série “Game of Thrones”: “Dilma, winter is coming” (“Dilma, o inverno está chegando”).

Logo a multidão gritaria com fervor: “Ô, Dilma, vai se foder, o brasileiro não precisa de você!”. E “Ei, Dilma, vai tomar no cu!”. Àquela hora, ignoravam-se as propostas que a presidente lançava em Brasília.

Antes, às 17h15, Maicon Freitas anunciara, colado à igreja da Candelária: “Estamos esperando a massa chegar”. Pretendia percorrer o trajeto até a prefeitura, na Cidade Nova. Como a massa chegou num contingente modesto, fecharam a avenida Rio Branco, rumo à Cinelândia.

A Polícia Militar avaliou-a em 2.000 pessoas. A UCC, em 5.000 a 10 mil. Calculei-a, no momento de maior concentração, no máximo em 4.000. Antes da semana passada, seria expressivo. Comparando com os mais de 100 mil da segunda-feira retrasada e os estimados 300 mil da quinta, configurou um retrocesso.

O principal motivo foi o boicote promovido nas redes sociais. A convocação para o protesto na Candelária partiu de uma comunidade do Facebook denominada Nova Era Brasileira, que assim se resume: “Não somos um partido, não somos uma religião, somos movidos por ideia e reivindicação. Somos brasileiros! Vamos pra rua!”. “Nova Era Brasileira de cu é rola… Se liga, galera”, reagiu um tuiteiro. No Facebook, os organizadores foram denunciados como “fascistas” e “de direita”. Moveu-se uma campanha pelo forfait na passeata.

Não encontrei um só representante da Nova Era Brasileira, possivelmente ausente por receio de confronto. Quem coordenou o ato foi a União Contra a Corrupção. Eis uma novidade em relação a uma semana antes: ontem havia comando, com discursos e ordens.
Alguns jovens de comportamento temerário saíram do Facebook e arriscaram uma manifestação-contra-a-manifestação. Identificado como Lauro, estudante de filosofia na Universidade de Brasília, um deles berrava: “Fascista, cabo eleitoral do Bolsonaro!”. Quem não conseguisse ouvi-lo, poderia ler o cartaz que ele carregava: “A verdade é dura: a classe média apoiou a ditadura – Nacionalismo = Fascismo”, menção a direitistas que em São Paulo se qualificam como “nacionalistas”. Até a esquina em que acompanhei Lauro, ninguém lhe dera pelota ou um cascudo.

Outros quatro universitários, mais sóbrios ou menos ousados, empunharam cartazes. Um dos garotos se opunha ao veto a símbolos de partidos políticos: “Apartidarismo por mais democracia ≠ Antipartidarismo fascista”.

‘Lula mensaleiro’

Houve mais um obstáculo notório para a mobilização: a falta de uma reivindicação unitária como a revogação do aumento das passagens dos transportes públicos _sete dias antes, eu pagara R$ 3,50 no metrô; ontem, com o recuo do governador Sergio Cabral, desembolsei R$ 3,20.

No dia 17 de junho, o pessoal conclamava: “Vem, vem, vem pra rua vem, contra o aumento!”.  Ontem, “Vem, vem, vem pra rua, vem…”, e concluía aí. A comoção com a PEC 37, que retira poderes investigatórios do Ministério Público, é ilusão difundida por quem não frequenta o asfalto. A bronca existe, mas não comove grandes torcidas.

Com os partidos de esquerda, sindicatos, entidades estudantis, movimentos sociais e a imensa geração do Facebook distantes, o “protesto da direita” teria menos constrangimentos para desfraldar sua agenda, mas não houve muitas semelhanças com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, de março de 1964.  Nem a faixa golpista das vivandeiras, flagrada noutro dia, “Intervenção militar já”. O mote comum com meio século atrás foi o combate à corrupção.

“Pula, sai do chão, quem não quer corrupção!”, bradaram. Bem como: “Ordem e Progresso, faxina no Congresso!”; “1, 2, 3, 4, 5, mil, ou para a roubalheira ou paramos o Brasil”; “Puta que pariu, vamos fazer uma limpeza no Brasil!”. Um protético desfilou fantasiado de Batman, de acordo com ele “um símbolo contra a corrupção”.

Gritos e cartazes apontavam para correligionários petistas da presidente: “Lula mensaleiro, kd o meu dinheiro?”; “Cadeia aos mensaleiros”. E para aliados da estirpe de Renan Calheiros, José Sarney e Edison Lobão. Tudo ao ritmo do mantra “Sem partido! Sem partido!”.

Se a União Contra a Corrupção é uma sigla de direita, como aparenta, já não se fazem passeatas de direita como no passado. Porque atacar Edison Lobão seria um sacrilégio para reacionários de escol. Mais do que um parceiro da ditadura instaurada em 1964, o ministro do governo da ex-guerrilheira Dilma Rousseff foi muito próximo do aparato repressivo mais sangrento.

De direita ou não, a manifestação não teria como barrar bandeiras de caráter social, típicas da tradição da esquerda. Elas não faltaram: “Diga não à privatização dos hospitais públicos”; “Não nos machuque, nós não temos hospitais”; “Brasil, vamo’acordar, o professor vale mais que o Neymar”.

Também não é de direita se esgoelar por “Revolução! Revolução!”, que no contexto pode ser qualquer coisa. Nem tratar o regime de 1964 a 85 como um mal: “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura!”. Ou erguer o abre-alas “Não ao voto obrigatório”. E espalhar diatribes contra o pastor Feliciano. No fim do cortejo, um homem acenava com um pôster da capa da revista “Carta Capital”: “Parem de subestimar o povo – Ninguém controla a rua”. Ainda que os organizadores preferissem outras publicações, eles não tinham controle sobre quem atendeu ao apelo para protestar.

‘Nas trevas da confusão’

Na antevéspera do golpe de Estado contra o governo constitucional do presidente João Goulart, a marcha de direita em São Paulo arrastou centenas de milhares de opositores. Passeatas como a de ontem não derrubam nem síndico de prédio, embora possam enfraquecer candidatos, como Dilma, nas eleições do ano que vem. Antes, liam-se inscrições tipo “Comunismo, não; democracia, sim”. Agora, só as viúvas mais chorosas da Guerra Fria alertam contra o “perigo vermelho”.

Assim como se disseminou uma compreensível alergia às atuais agremiações políticas, arengas fascistoides clássicas teriam dificuldade para se criar. Em artigo recém-publicado no site da minúscula Frente Integralista Brasileira, um dirigente do grupo direitista escreve: “Os protestos evoluíram do oportunismo, das utopias irracionais marxistas e das infantis reclamações por passes livres para a adesão em massa de milhões de pessoas indignadas com o governo em todo o Brasil”.

A “reclamação infantil” desencadeou manifestações de envergadura histórica. Os neointegralistas e sua pregação do ódio seriam capazes de estimular quantos gatos pingados a tomarem as ruas?

Na década de 1930, os nazifascistas tupiniquins distribuíam um panfleto propagandeando seu líder: “Nas trevas da confusão, a luz de uma esperança. Para presidente da República, Plínio Salgado”.
Hoje, todos os principais candidatos ao Planalto em 2014, mais ou menos chamuscados pelas mobilizações em curso, foram opositores da ditadura inaugurada com a queda de Jango.

Na Cinelândia, li em um serviço noticioso da internet a informação de que os líderes do movimento haviam tentado impor (sem sucesso) aos manifestantes uma saudação neonazista, com os braços estendidos, e a palavra de ordem “dias de luta, dias de glória”.

Não vi. Talvez não tenham sido os líderes, que eu observei quase todo o tempo _não percebi skinheads neonazis por lá. E “Dias de luta, dias de glória” é título e verso de uma música da banda Charlie Brown Jr.

De fato, já não se faz “passeata de direita” como antigamente.

P.S.: dispensando verbetes enciclopédicos sobre “esquerda” e “direita”, assinalo: quem diz que esses conceitos não fazem mais sentido já fez sua escolha, tão legítima quanto a outra _é de direita.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

BAIANOS VOLTAM A PROTESTAR NAS RUAS NA QUINTA, DIA 27




Manifestantes chegando à Praça Castro Alves: entre os gritos de guerra há sempre "O povo não é bobo - abaixo a Rede Globo" (Foto: Jadson Oliveira)
De Salvador (Bahia) – O número de manifestantes diminuiu bastante, como, aliás, em todo o Brasil, mas os baianos voltaram às ruas na quinta-feira, dia 27, desta vez marchando do Campo Grande à Praça Municipal (onde está o palácio de despacho do prefeito ACM Neto, do DEM), no centro da capital baiana. Creio que chegaram a cerca de cinco mil pessoas (um capitão da PM me disse que a estimativa inicial da corporação dava conta de três mil).


(Durante a semana me lembro de ter visto na TV notícias de manifestações também no interior do estado, como nas cidades de Vitória da Conquista, Feira de Santana e Juazeiro, bem como em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador).


A marcha foi pacífica, relativamente tranqüila. O momento de tensão foi na Praça Castro Alves, onde os homens da Polícia Militar tentaram barrar o pessoal. Durante o percurso oficiais da PM vinham tentando convencer os que pareciam coordenar a marcha a encerrá-la na Castro Alves: é uma praça simbólica do povo, acreditamos que a manifestação terá atingido sua finalidade, além disso a Praça Municipal está ainda tomada por equipamentos usados para os festejos juninos (um grande “barracão”), diziam.


Mas parte dos jovens se mostrou irredutível, embora alguns argumentassem que seria mais prudente voltar da Castro Alves. Bem, forçaram, insistiram e ganharam a parada: os PMs cederam e os manifestantes entraram pela Rua Chile e foram até diante do palácio do prefeito e da Câmara de Vereadores, ambos os prédios cercados por tropas da PM. 
Isso por volta das 4 da tarde, mais ou menos uma hora de marcha. À noite, na TV, vi o prefeito declarar que foi ele quem autorizou o avanço da marcha até a Praça Municipal.


(Já se tornou habitual em Salvador as passeatas serem paradas na Castro Alves, pelo que se sabe há um decreto municipal com tal determinação. Mas a verdade é que umas passam e outras não, depende, portanto, do número de manifestantes e do poder de pressão e determinação).


Homens da tropa de choque, que são os que fazem o trabalho realmente violento – bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e balas de borracha são seus “argumentos” prediletos – estavam estacionados um pouquinho à frente, já chegando à Praça da Sé. Mas pelo menos nesta quinta, ali, não foram chamados a entrar em ação.


Entraram em ação pouco depois, início da noite, não ali, mas nas imediações da Estação da Lapa, quando os “vândalos” (como chama a nossa grande imprensa) apareceram. Grupos de jovens forçaram motoristas de ônibus a deixar embarcar passageiros sem pagar, fazendo vigorar, na marra – numa  escala diminuta, claro – o passe livre, reivindicação máxima do movimento, assumida no próprio nome de batismo.


(Já é uma marca das manifestações em todo o país: primeiro a marcha “pacífica”, depois os “vândalos” e sem seguida a tropa de choque da PM; não necessariamente nesta ordem: na maioria das vezes, primeiro vem a tropa de choque, depois os “vândalos”. Só que ninguém chama os primeiros 
de “vândalos”).


Voltando ao final da marcha na Praça Municipal. Não apareceu comissão de manifestantes para se reunir com o prefeito. O pessoal do Movimento Passe Livre (MPL) diz que não tem líderes. Foi protocolado um documento para o prefeito com as reivindicações do movimento (veja todas elas em postagem abaixo).


Na TV vi o secretário de Transportes da prefeitura, José Carlos Aleluia, dizer que é impossível essa coisa de passe livre, pois o orçamento do município não comporta tal medida. Vi também o prefeito dizer que vai ativar o Conselho Municipal de Transportes e ordenar a transparência dos cálculos que levam à definição do valor da tarifa de ônibus, dois pontos constantes das 21 reivindicações do MPL. Além disso, o prefeito alardeia em anúncio na TV que logo que assumiu a prefeitura decidiu não autorizar reajuste da tarifa.


As reivindicações e protestos, no entanto, vão bem além do setor de transportes e mobilidade urbana. Pela seleção de fotos com cartazes e faixas desta quinta, dia 27, postada logo abaixo, dá pra sentir o universo das insatisfações nas mentes e corações de grande parte da população.

BAIANOS VOLTAM A PROTESTAR NAS RUAS NA QUINTA, DIA 27 (fotos)

Os manifestantes se aproximam da Praça da Piedade, vindos do Campo Grande, em direção à Praça Municipal (Fotos: Jadson Oliveira)
Cartaz afinado com a proposta de plebiscito da presidenta Dilma
Um tenente-coronel da PM tenta convencer o pessoal a encerrar a marcha na Praça Castro Alves, mas não consegue
Apoio do alto de edifícios ao longo da Avenida Sete
Chegando à Praça Castro Alves
Momento de tensão: uma barreira policial tenta parar a marcha na Praça Castro Alves, mas termina cedendo passagem
Um cartaz francamente anti-PT: pede prisão dos "mensaleiros"
Os manifestantes não cederam aos argumentos da PM e chegaram afinal à Praça Municipal, diante do palácio do prefeito

AS 21 REIVINDICAÇÕES DO MOVIMENTO PASSE LIVRE SALVADOR




A última nada tem a ver com transportes: é a volta do nome do aeroporto para “2 de Julho”


Conforme divulgado pelo sítio da web g1.globo.com


1. Passe livre nos ônibus para todos os estudantes, inclusive estudantes de curso pré-vestibular;


2. Ampliação e renovação da frota, com a introdução de veículos de piso baixo, visando garantir a maior acessibilidade a pessoas com dificuldades ou necessidades especiais;


3. Ônibus 24 (vinte e quatro) horas em atividade;


4. Criação do Bilhete Único, benefício tarifário permitindo a realização de 04 (quatro) viagens dentro do prazo de 03 (três) horas, como já existe em São Paulo e outras capitais brasileiras;


5. Ampliação do programa “Domingo é Meia” para os feriados e inclusão dos usuários do Salvador Card no programa, eliminando-se a restrição do pagamento em dinheiro;


6. Extinção do pagamento de taxa para recadastramento no Salvador Card;


7. Construção de novas estações de ônibus e imediata reforma e integração de todas as estações já existentes, com garantia de acessibilidade a pessoas com dificuldades ou necessidades especiais;


8. Construção de mais faixas exclusivas para ônibus;


9. Abertura da caixa preta da SETPS, com a revisão dos custos e contratos pelos órgãos competentes, promovendo com transparência o debate público sobre as regras dos contratos de concessão e sobre o cálculo do preço da tarifa;


10. Ativação e ampliação do metrô, com estabelecimento de calendário para o cumprimentos destas solicitações;


11. Investigação, pelo Ministério Público, dos gastos com a construção do metrô, iniciada há 13 anos;


12. Integração dos transportes rodoviário, ferroviário e aquaviário;


13. Execução do projeto “Cidade Bicicleta” – que prometeu ampliar a malha cicloviária da região metropolitana para 217 Km;


14. Extinção da tarifa para os trens do subúrbio de Salvador, garantindo passe livre a todos os seus usuários;


15. Ampliação e reforma das calçadas, com garantia de acessibilidade a pessoas com dificuldades ou necessidades especiais;


16. Melhorias no sistema de transporte intermunicipal aquaviário do estado da Bahia, além da instituição do pagamento de meia passagem por estudantes;


17. Retomada do caráter deliberativo do Conselho da Cidade;


18. Reativação do Conselho Municipal de Transporte;


19. Integração da Região Metropolitana;


20. Estatização dos sistemas de transporte público;


21. Por fim, solicitamos a alteração do nome do Aeroporto Internacional de Salvador, hoje “Deputado Luís Eduardo Magalhães”, para o seu antigo nome: “2 de julho”, data magna dos baianos.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

VÂNDALOS SÃO ELES: "PROTESTO NÃO É PRA SER PACÍFICO"


Por Julio Daio Borges - artigo distribuído pela Oposição Operária (grupo político que edita a revista "Germinal"), datado de 19/06/2013; foi enviado a este blog pelo companheiro Goiano (José Donizette)

Se dependesse das autoridades, protesto seria sempre ordeiro. Uma turminha bem comportada, carregando cartazes bem-feitinhos, dando voltas sem fim em algum lugar que não atrapalhe o trânsito ― num Sambódromo, ou quem sabe em um autódromo. Para participar, seria preciso se inscrever, apresentar RG, CPF, serviço militar quitado, Imposto de Renda, atestado de bom comportamento, e não ter antecedentes criminais. Vamos ser bem claros: protesto pacífico não serve pra muita coisa. A polícia não bate. A imprensa não dá espaço. Os governantes não dão bola. Protesto não é pra ser pacífico. Protesto é pra incomodar. Protesto é para questionar a ordem. Nada questiona tão bem quanto um soco, um incêndio, uma pedrada na vidraça.

Em protestos como vêm acontecendo no Brasil, uma minoria bem ínfima é que está quebrando, e agora saqueando. É essa minoria que ocupa muito espaço na cobertura televisiva. Por uma ótima razão: rende boa TV. Televisão é imagem, e imagem de gente brigando, correndo, botando fogo e enfrentando a polícia é mais emocionante que imagem de gente caminhando calmamente (por isso é que tem tanto seriado policial, e nenhum sobre gente que gosta de caminhar). E essa minoria aumenta muito o poder de fogo do conjunto dos manifestantes ― queiram os pacifistas do movimento ou não.

Vamos separar, por um minuto, as depredações dos saques. Vimos grupos, e não tão ínfimos assim, que se dedicaram a apedrejar, pichar, quebrar as frentes da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, o Palácio dos Bandeirantes e a prefeitura em São Paulo, e outros prédios públicos. São alvos absolutamente legítimos. A massa dos manifestantes, e praticamente todo mundo que acompanha o movimento, identifica governadores, prefeitos e a classe política como parte do problema, não da solução. São, nesse sentido, o inimigo. Estão sempre protegidos pela polícia, porque sabem que são alvos, e que merecem ser alvos. No limite, o governo sai matando de um lado, e os revoltosos saem matando do outro ― vide Síria.

Vamos seguir o mesmo raciocínio. Vimos outros alvos ontem, não-públicos. Quebraram agências de bancos. Os bancos são amigos ou inimigos da população? Quebraram McDonald's. De que lado você colocaria a rede de fast-food? Não deixaram Caco Barcellos trabalhar, botaram fogo em uma carro da reportagem da TV Record. De que lado você põe a mídia, a seu lado ou contra você? A decisão é de cada um, e de cada um que está nos protestos. Uns são muito radicais, outros muito moderados. Quem decidir ir pro pau, vai sabendo que pode levar porrada e talvez, ir para a cadeia.

Nos últimos dias, ficou mais complicado decidir a quem você se opõe. Agora toda a imprensa está simpática (se bem que cobrindo muitíssimo mal, em geral), a PM está bem contida, os políticos aplaudem, tá todo mundo vendo "beleza" nos protestos, como disse o governador do Rio. Da boca pra fora, claro ― ninguém se mexeu um milímetro para atender as reivindicações dos manifestantes, pelo menos nas grandes cidades (lembrar que o artigo é datado de 19/junho). Mas o bloco do "a favor" está crescendo, inchando até. Virou obrigação aplaudir. Todos os famosos apoiam, e se os famosos apoiam deve ser boa coisa, né?

Mas todo esse a favor para quando começa o pau. Todos aplaudem os protestos, e todos são unânimes em satanizar os baderneiros, os infiltrados, os vândalos. E mais ainda os que roubam. Saquear lojas atravessa uma fronteira muito importante. Na linha acima, é fácil entender porque alguns manifestantes muito radicalizados veem esses grandes magazines como templos do consumo, símbolos do capitalismo, e portanto alvos válidos. Mas na hora que você sai correndo com uma TV, um celular ou um microondas, que vai levar pra sua casa e usufruir, passa a ser visto como um ladrão comum.

Em um contexto de desobediência civil, é estratégia sólida dar um chega-pra-lá nas regras cotidianas do consumo, e dar uma banana para a lei. Na época da ditadura militar, guerrilheiros roubavam bancos e ricaços e, com o dinheiro, financiavam ações contra o regime. Não era roubo, era "expropriação", diziam. A presidente da república, Dilma Rousseff, colaborou em ações do gênero. Vi um senador na televisão dizendo que manifestações violentas são incompatíveis com o regime democrático. Os militares também garantiam que vivíamos em uma democracia nos anos 70. Democracia não é o que senador diz, é o que o povo sente.

(...)O Brasil não vive um cenário de transformação radical. Mas nosso País é muito violento, o tempo todo, e particularmente com os mais pobres. Violência do crime, e violência do Estado, que nos leva o dinheiro e nos dá tão pouco em troca. Não se trata de defender quem depreda e saqueia. Se trata de ter consciência de que nossa paz é diariamente quebrada, que muitas empresas depredam o País cotidianamente, e que o poder público não nos protege. Donde que é ser muito ingênuo achar que todo protesto vai ser sempre pacífico e polido. É fácil pra classe média alta boazinha, que vive em condomínio, paga seguro saúde e escola, põe insulfilm no carro e depende muito menos do Estado, cobrar que todo mundo se comporte...

É preciso, também, descobrir outras maneiras de protestar. Não podemos ficar entre o quebra-quebra e esses passeios sem fim pela cidade, gritando palavras de ordem e "violência não". Desobediência civil ― e criativa ― é um dos melhores caminhos. Ainda mais se beneficiar diretamente a população que hoje não está nas ruas.

(...)Olha, eu sou o cara mais pacífico do mundo. Mas vamos botar a mão na consciência. O País atravessa uma turbulência que não tem precedentes na campanha pelo impeachment de Collor, ou pelas Diretas. É outro Brasil, outro mundo, são outros descontentamentos e anseios, são outros governantes e manifestantes. Quem protesta não enxerga hoje na tal sociedade civil quem o represente. Nem partidos, nem instituições. Os políticos que marcharam pelas diretas, e contra Collor, hoje estão no poder, e são amiguinhos dos herdeiros da ditadura, e do próprio Collor. É de se estranhar que tenha gente que quer quebrar tudo?