segunda-feira, 15 de julho de 2013

A PRECARIEDADE DA SAÚDE PÚBLICA NO BRASIL



A tortura imposta aos pobres em busca de atendimento médico é um dos temas recorrentes nas manifestações de rua (Foto: da Internet)

"Temos que entender que essa lógica de mercado que nos parece maldita não é intencionalmente perversa, ela faz parte da estrutura do sistema capitalista. Esse valor de mercado é o âmago desse sistema, todos os demais são subordinados e podem conviver mais ou menos pacificamente com ele sem contestá-lo e são abandonados quando em antagonismo com os mesmos".

"Uma conversa com os meus botões", diz o autor do texto, o médico Antonio Ozzetti Neto, datado de julho de 2013 (O artigo foi enviado pelo companheiro Goiano - José Donizette)

Qualquer pessoa de bom senso reconhece que a saúde pública no Brasil está precária. As famosas “vozes das ruas” acabaram de dizer isso.


A precariedade precisa ser entendida em diversos níveis, para não se ter uma visão superficial do problema.

Antes, uma questão que considero importante, diante de tantas críticas que se tem feito e das críticas que virei a fazer. A saúde pública já esteve melhor em algum momento da história do Brasil?

A saúde pública no Brasil deu um salto a partir da formulação da Constituição de 1988, com a criação do SUS, mas tem ainda um longo caminho pela frente para chegar a ser satisfatória.

Ela sofreu as dores do parto e é normal que sofra as dores do crescimento, porque desde sua gestação ela se opôs à lógica capitalista de subordinação aos interesses do lucro, à privatização da assistência médica.

Porém os descaminhos da burocracia, as incorreções na trajetória política, o jogo de interesses particulares, a incompetência administrativa e técnica, tornaram essas dores insuportáveis.

O povo na rua forçou a abertura da “caixa de Pandora” da saúde pública, mil excrescências vieram à luz do dia. Entre os expectadores cada um aponta a maldade que mais lhe interessa, com o objetivo de denegrir os demais e se eximir da sua própria responsabilidade. Antes de descrever esses males é importante lembrar que da mesma forma que na lenda grega, sobra ainda, no fundo, a esperança.

O Governo aponta a falta de médicos, que realmente existe, para esconder suas próprias incompetências e descasos tais como a insuficiência e o desvio de recursos, que impactam diretamente na precariedade das instalações físicas de postos de unidades básicas de saúde, ambulatórios e hospitais. Na insuficiência de aparelhamento dessas unidades. Na falta de atenção na manutenção dos aparelhos existentes, ou por falta de agilidade no conserto ou sucateamento dos mesmos. Na constante falta de material de uso. No dimensionamento de funcionários incompatível com a demanda da clientela. Na insuficiência de serviços de apoio de nível secundário, com número irrisório de especialistas e de leitos hospitalares.

A classe médica e seus órgãos de representação, acuados com a proposta de importação de profissionais, apontam todas essas precariedades, citadas no parágrafo anterior, para esconder as suas preocupações corporativistas. Esconder sua política de reserva de mercado. Tradicionalmente a classe médica sempre levantou a bandeira, paralela, da qualidade do atendimento, quando lutou por melhorias salariais e invariavelmente esqueceu essas bandeiras quando conseguiu seus objetivos pecuniários. Na verdade essa preocupação sempre foi uma forma de dourar a pílula. Novamente as associações da classe médica tentam “dourar” sua luta pela reserva de mercado com bandeiras que levantam dúvidas sobre a capacidade de médicos estrangeiros (cubanos, diga-se a verdade). 

As populações de regiões remotas do Brasil e da periferia, que sofrem com a falta de médicos e com a precariedade dos serviços de saúde, nunca chegaram a despertar tanta preocupação dessas entidades de classe como agora, quando seu nicho de mercado se vê ameaçado. Até entendo que alguns colegas, médicos, tenham realmente essas preocupações, mas estão com a visão prejudicada pelo brilho da pílula corporativista.

A população SUS dependente, no seu desespero, aponta para todo o lado, sem conseguir entender, claramente, as razões do mau atendimento de suas necessidades. Reclama com razão, mas nem sempre da forma correta, como fez agora. Desta vez foi às ruas para cobrar dos poderes públicos uma solução para os seus problemas. A população maltratada, quase sempre reage de forma agressiva diante do agente público que está mais próximo e visível, o recepcionista, o pessoal de enfermagem, o médico, o dentista ou outros profissionais da saúde. Extravasa o seu sofrimento, na forma que mais vivencia na sociedade, a forma da violência. Vive a violência da moradia precária. Vive a violência do transporte precário. Vive a violência da exclusão do mercado de consumo. Vive a violência da exclusão da educação de qualidade. Vive a violência do preconceito. Vive a violência da convivência com a drogadição/alcoolismo dentro de casa. Vive a violência da polícia e da criminalidade. Mas vive também muitas vezes a violência do descompromisso de funcionários, que vêm no usuário dos serviços de saúde um incômodo, um oponente, às vezes um inimigo. Vive muitas vezes a violência da humilhação, da prepotência e da arrogância de um grande número de médicos que se formaram para cuidar de ricos e que por uma “circunstância do azar” foram obrigados a fazer bico na saúde pública para complementar a sua renda. Médicos que passariam no REVALIDA mas que não têm compromisso com a qualidade de sua consulta, que não se incomodam em fazer uma consulta rápida e superficial, que não têm compromisso com o horário. Médicos que apesar desse comportamento pretendem agir como guardiões da qualidade do atendimento médico, condoendo-se, falsamente, com os usuários pela precária atenção a eles pelo governo e com o risco que correriam nas mãos de médicos estrangeiros “mal preparados”, apesar do desprezo que votam a esses “pobres coitados” que, na opinião corrente, são insolentes, mal educados e violentos por natureza.

A oposição neoliberal e conservadora aplaude esse conflito entre usuários e profissionais da saúde e aponta a incompetência da gestão pública e a corrupção, como a causa dos maus serviços prestados. Manipulam a desgraça para atingir seus objetivos nas eleições de 2014. Os neoliberais prometem uma falsa eficiência nos serviços médicos e na educação, transformando-os em mercadorias e subordinando-os à MALDITA LÓGICA DE MERCADO. Nesse mercado o valor da remuneração é estabelecido pela procura/oferta da mão de obra, não pelo valor humanístico de suas intervenções. 

Quanto vale os ensinamentos que nossos professores ajudam a colocar na cabeça de nossos filhos? ...Um salário mínimo? ...Dois? ...Três? ...Dá para quantificar? Oferecemos aos nossos mestres uma remuneração condizente com uma vida tranquila, sem esgotamento de horas sem fim de trabalho? Uma remuneração condizente com o valor de quem faz o futuro de nossos filhos e da nação? O mesmo se pode questionar quanto ao valor da vida e da saúde e da remuneração dos profissionais dessa área.

Temos que entender que essa lógica de mercado que nos parece maldita não é intencionalmente perversa, ela faz parte da estrutura do sistema capitalista. Esse valor de mercado é o âmago desse sistema, todos os demais são subordinados e podem conviver mais ou menos pacificamente com ele sem contestá-lo e são abandonados quando em antagonismo com os mesmos. A corrupção faz parte dessa lógica, mas é assunto para outra conversa com meus botões.

2 comentários:

Anônimo disse...

parabéns seu texto traduz perfeitamente uma realidade no Brasil!!!!!

Kamille Coelho Miranda disse...

Texto lindíssimo! Parabéns! Interessante também a influência que essa lógica política neoliberal exerce no discurso dos usuários de serviços de saúde pública, como por exemplo a primazia do privado em detrimento ao público. Muita das vezes na instituição hospitalar, a qual atuei, observei a falta de credibilidade que a população tem no Estado para o atendimento das suas necessidades, acompanhantes de pacientes internados em hospital público de referência em Belém solicitavam a transferência de seus parentes para hospitais privados, sem saber que o mesmo médico que atendia no público era o mesmo do privado. Acredito que essa precarização nos serviços de saúde seja necessária a lógica da lucratividade, pois, a partir dela pode se ter a expansão dos planos e seguros de saúde.