quinta-feira, 31 de julho de 2014

BOLÍVIA: OS FUNDOS ABUTRES SÃO UM PERIGO

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Sacha Llorenti (Foto: Carta Maior)

Embaixador passou pela Argentina depois de ser convidado para um seminário sobre as Malvinas organizado pelo ex-ministro da Educação Daniel Filmus.

"Há pouco tempo, Barack Obama, em um discurso em Weast Point (uma academia militar) não muito repercutido, disse que existe uma nação indispensável: os Estados Unidos. O resto somos, portanto, dispensáveis?"

Por Martín Granovsky - Página/12 - reproduzido pelo portal Carta Maior, de 30/07/2014

Buenos Aires - Ele passou pela Argentina depois de ser convidado para um seminário sobre as Malvinas organizado pelo ex-ministro da Educação Daniel Filmus, secretário encarregado da área especial na Chancelaria. Sacha Llorenti, dirigente de confiança de Evo Morales e embaixador da Bolívia nas Nações Unidas, havia dialogado com este jornal antes da cúpula do Grupo dos 77 mais a China, realizada na Bolívia, e voltou a conversar após a cúpula.

O documento emitido pelo G-77 é um detalhado texto de 242 pontos. Ele pode ser acessado neste link: http://bit.ly/1ouDIW5.

“Buscamos a construção de um mundo multipolar, disse Llorenti, que na Bolívia era um dos articuladores dos movimentos sociais. “E essa construção significa, é claro, a possibilidade de uma transformação global. Não falo apenas de intercâmbio comercial. Falo também do sistema financeiro internacional e da mudança da estrutura das próprias Nações Unidas. Seria a consolidação de um novo paradigma de desenvolvimento”.

Como seria esse novo paradigma?

Esta é uma tarefa pendente. Não tanto em termos econômicos, mas no modo como o mundo e o sistema financeiro estão organizados. Minha perspectiva como presidente do G-77 é global. Esse bloco, o maior da ONU, discute a fundo, e às suas discussões se soma a China, o que implica uma série de coincidências em termos de posicionamento diante do cenário das Nações Unidas. Permite contar com uma posição muito importante em questões de contrapeso. Peço desculpas se não avanço nesta resposta, pois minha condição de presidente do G-77 me impede de expressar algumas opiniões.


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ARGENTINA: OS ABUTRES, ISOLADOS DO MUNDO

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Cristina Kirchner (Foto: Carta Maior)

Não deixa de chamar atenção que a Argentina obtenha apoio de parte de alguns símbolos desses setores, como o editorialista estrela do Financial Times.

Por David Cufré - Página/12 - reproduzido do portal Carta Maior, de 29/07/2014

O papel da Argentina no Consenso de Washington desde o início dos anos 90 lhe rendeu conhecimento internacional. A vontade política expressada pelo menemismo para levar adiante uma política de organização social baseada nos critérios do mercado acumulou elogios dos centros de poder globais.

Simbolicamente, os Estados Unidos até suprimiram o requisito de tramitar visto aos cidadãos argentinos para entrada em seu território. Cada assembleia do Fundo Monetário Internacional era propícia para colocar a Argentina como exemplo de país sério, ordenado, capaz de deixar para trás suas contradições e se atirar em um sistema econômico moderno.

Neoliberalismo em seu estado puro: redução do Estado à sua expressão mínima, livre fluxo de entrada e saída para os capitais especulativos, primazia da valorização financeira sobre a produção, abertura comercial, privatizações – hidrocarbonetos, energia elétrica, telecomunicações, transporte, serviços básicos, indústrias-chave como a siderurgia, a naval e a aeronáutica, espectro radioelétrico e até confecção de passaportes – entrega ao setor financeiro a administração das aposentadorias e desregulamentação trabalhista. Todas essas políticas tiveram sua tradução institucional em leis, decretos e resoluções.

Também houve acordos internacional que tornaram ainda mais profunda a marca do caminho traçado. Atualmente, alerta-se em toda sua dimensão o que significou ceder à solução legal de controvérsias com títulos da dívida nos tribunais dos Estados Unidos. E antes, já haviam sido comprovados os efeitos de aceitar o Ciadi, o tribunal do Banco Mundial para dirimir eventuais conflitos com as privatizadas. Os Tratados Bilaterais de Investimento que floresceram na América Latina acabaram por empacotar a soberania jurídica e outorgá-la aos países mais poderosos.


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CARLOS LESSA: IMPOSSÍVEL PENSAR O FUTURO SEM DISCUTIR A GEOPOLÍTICA MUNDIAL

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Carlos Lessa (Foto: Carta Maior)

Para o economista Carlos Lessa, diante da crise internacional, o Brasil está tendo dificuldades imensas de manter se movendo como estava se movendo. 

Fundos-abutre na Argentina: "É algo absolutamente espantoso, porque se 93% aceitaram a proposta argentina e estão recebendo segundo essa proposta, como 7% podem derrubar tudo?"

"Nós estamos órfãos de um projeto nacional. Agora, é evidente que qualquer projeto nacional começa por projetar o Brasil do futuro, o Brasil utópico, o Brasil que nós sonhamos".

Por Patricia Fachin, do IHU On-Line (Instituto Humanitas Unisinos) - reproduzido do portal Carta Maior, de 31/07/2014

“A verdade é que se houvesse uma redução significativa do valor da dívida das famílias, das empresas e dos Estados nacionais, haveria naturalmente, sem grande trauma, uma mudança no perfil de retração da riqueza do mundo.” A declaração é do economista Carlos Lessa à IHU On-Line, ao comentar as razões de ainda haver tantas desigualdades sociais no mundo. Segundo ele, “o que a história está mostrando é que os comandos desse sistema financeiro assumiram o comando da economia mundial, porque é muito difícil mexer no valor dessa dívida”.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone, o ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) menciona a dívida da Argentina como um exemplo que diz “respeito à saúde do mundo como um todo; [...] ela é uma espécie de preliminar das dificuldades que estão à frente”. E alfineta: “Se 93% aceitaram a proposta argentina e estão recebendo segundo essa proposta, como 7% podem derrubar tudo?”.

Lessa também comenta a criação do banco do Brics como uma possibilidade de “restabelecer liquidações compensatórias de dinheiro entre as moedas dos países do Brics”. Entretanto, enfatiza, “se ele fizer isso, já está introduzindo uma dimensão importante no jogo financeiro mundial. E minha pergunta é: Vão fazer ou não vão fazer? É a sério ou não é a sério? Porque isso já é uma tentativa de reduzir o peso do dólar e eu não vejo como os americanos concordam com isso tranquilamente”. E cutuca: “A presidenta Dilma foi à última reunião de Davos dizer que o Brasil está inteiramente consciente e subordinado à ideia do Consenso de Washington, mas aí esse sistema de compensações monetárias entre as moedas do Brics não é o que Washington quer; por outro lado, o silêncio brasileiro com respeito à questão argentina — o nosso comportamento está sendo muito encabulado e retraído — é o que Washington quer. Então, eu não sei e a pessoa (Dilma) para mim também não sabe, apesar de estar perdendo o campeonato”.

Segundo ele, apesar de a população ter melhorado o padrão de vida nos governos Lula e Dilma, especialmente no que se refere à distribuição da renda, “o governo do PT não usou esse ‘oxigênio’ que o Brasil teve para dar sustentabilidade no longo prazo à melhoria”. Na avaliação dele, “para frente, o Brasil vai se confrontar com um problema muito sério: um pedaço enorme do patrimônio das empresas brasileiras, das empresas que estão no Brasil, dos bancos brasileiros e das famílias ricas está apoiado na dívida das famílias pobres que se endividaram para comprar automóvel, geladeira e mobiliário. Então, terá uma queda de braço para frente no país”.

Defensor de um projeto nacional, Carlos Lessa é categórico quanto ao assunto: “Nós estamos órfãos de um projeto nacional. Agora, é evidente que qualquer projeto nacional começa por projetar o Brasil do futuro. (...) Nós fomos achando que é possível tocar o futuro sem discutir o futuro, então é complicado”. E conclui: “Pelo menos três dos grandes países periféricos do mundo têm projetos nacionais claros, enquanto o Brasil não tem nenhum. Nós nem sequer discutimos a geopolítica mundial; nós não temos posicionamento nenhum”.

Confira a entrevista na Carta Maior:

JULIO GAMBINA: EMERGENTES OU INDEPENDENTES? (DO NÃO À ALCA AOS BRICS)



Chávez, Kirchner e Lula: os principais protagonistas do histórico NÃO à ALCA (Foto: Internet)
Os países emergentes, os BRICS, anunciam novos bancos e fundos de contingência, à imagem e semelhança dos hegemônicos (...) O objetivo se orienta à promoção da emergência, quando o que se necessita é outro rumo para a independência.

Por Julio C. Gambina (*) – Artigo traduzido do jornal argentino Página/12, edição de 21/07/2014

Os tempos mudam rapidamente. Nos anos 80 e 90, a norma foi o ajuste e a reestruturação regressiva da ordem capitalista em nossa região com privatizações, desregulações, orientação privilegiada para a mercantilização, a iniciativa privada e o livre movimento de capitais internacionais, com o fenômeno do endividamento.

Com o novo século vieram tempos de mudança política, sustentadas numa enorme resistência popular. Desde os não à ALCA, à dívida e à militarização, aos sim a um programa de soberania popular e integração alternativa na primeira década do século 21, que em alguns casos incluía o horizonte anticapitalista e pelo socialismo. Nos remetemos a novembro de 2005 quando se consolida o rechaço ao tratado de livre comércio promovido pelos Estados Unidos nas agendas de debates de presidentes das Américas e começava o caminho de descrédito final da OEA. Foram as bases para a formação da Unasul, em 2008, e da Celac, em fevereiro de 2010.

Por esses anos se modificaram as constituições do Equador (2008) e Bolívia (2009) com importantes inovações em seus capítulos sobre a ordem econômica. Vale mencionar para esses tempos históricos e de forma simultânea, em 2007 estourava a crise das hipotecas nos Estados Unidos, e como parte do fenômeno, em 2008 se desmontavam grandes bancos de investimento e outras empresas de seguros associadas ao sistema financeiro. Assim se generalizou uma crise mundial do capitalismo com recessão em 2009, sem solução ainda e que motiva a busca de rentabilidade de capitais demandando recursos naturais e força de trabalho barata, situação que define os países emergentes.

Sob essa situação de crise mundial se deram as condições para a busca duma Nova Arquitetura Financeira (NAF). Iniciativa que se desenvolveu em dois sentidos. Por um lado, tentando modificar a partir de dentro o sistema surgido em 1944, o que resultou impossível, com os Estados Unidos e seus sócios da tríade formada com a Europa e o Japão, indispostos a reduzir sua hegemonia. Por outro, promovendo uma série de iniciativas na região, como o Banco do Sul, um fundo comum de investimentos e de uso de reservas internacionais, a utilização de moedas locais para o intercâmbio e inclusive a potencialidade de convergência econômica, tudo num marco de integração não subordinada e articulação produtiva da América do Sul.

Por isso, em dezembro de 2007, sete presidentes da região sul-americana subscreviam o acordo pelo Banco do Sul e anunciavam que em três meses estaria funcionando. Junto à entidade financeira regional se apontava para um Fundo de investimentos, constituído pelas importantes e crescentes reservas internacionais. O imaginário popular animava estas propostas com expectativas para consolidar fontes de financiamento para um modelo produtivo e de desenvolvimento alternativo, que permita limitar a dependência de investimentos externos ou dos empréstimos tradicionais do mercado financeiro mundial para promover o programa de soberania alimentar, energética ou financeira.

Esse programa supunha o estímulo à agricultura familiar e comunitária contra a dominação das transnacionais da alimentação e da biotecnologia, o direito à energia em harmonia e defesa dos bens comuns para uma industrialização não dependente; com promoção de investigações de ciência e técnica associando saberes específicos profissionais surgidos da universidade pública com saberes populares. Se tratava duma proposta na contramão do monocultivo e dos transgênicos, da megamineração a céu aberto e do regime de montagem industrial com dependência da entrada de insumos e maquinário, condição de potencialização da dependência de ingresso de capitais forâneos, o que define o caráter de emergentes para os países receptores de capital de risco ou de empréstimo.

Aquela imagem tem o limite da ordem capitalista e por isso, a realidade desses anúncios de nova institucionalidade financeira não se materializou. Ainda são parte das expectativas esperançadas duma mudança econômica que consolide as mudanças políticos e avance na perspectiva de outras relações econômicas e sociais. Enquanto isso, os países emergentes, os BRICS, anunciam novos bancos e fundos de contingência, à imagem e semelhança dos hegemônicos, muito discutidos por seu papel na consolidação da desigualdade e da transnacionalização. O objetivo se orienta à promoção da emergência, quando o que se necessita é outro rumo para a independência.

* Doutor em Ciências Sociais da Faculdade de Ciências Sociais da UBA (Universidade de Buenos Aires). Presidente da Fisyp (Fundação de Investigações Sociais e Políticas).

Tradução: Jadson Oliveira

quarta-feira, 30 de julho de 2014

ATILIO BORON: A BARBÁRIE INFINITA (OU MAIS UM CAPÍTULO DO GENOCÍDIO PALESTINO)



Pai carrega uma das 10 crianças mortas por um míssil, na segunda-feira, dia 28, em Gaza, enquanto brincavam num campo de refugiados (Foto: EFE/Página/12)
John Quincy Adams, sexto presidente dos EUA, disse que “os Estados Unidos não têm amizades permanentes, mas sim interesses permanentes”, uma frase repetida até o cansaço por outro criminoso de guerra, Henry Kissinger. Seria bom que as autoridades israelenses, que dão por garantido um apoio indefinido de Washington a suas políticas, meditassem sobre este assunto.

Por Atilio A. Boron, cientista político argentino – traduzido do jornal Página/12, edição de ontem, dia 29

O que está acontecendo em Gaza? O governo de Israel, um estado que submete a um injusto, cruel e desumano bloqueio um diminuto território palestino às margens do Mediterrâneo, decidiu aplicar um castigo exemplar pelo assassinato de três jovens colonos judeus supostamente perpetrado pelo Hamas. Sem provas minimamente convincentes e em meio a uma suspeita operação policial, Jerusalém acusou essa organização do ocorrido com o propósito – como o reconhecera dias atrás um apologista de Israel dentro dos Estados Unidos, Zbigniew Brzezinski – de “agitar a opinião pública em Israel para que justifique seu ataque a Gaza”. E isso foi o que ocorreu: crianças, anciãos, mulheres e homens caem sob o fogo de sua metralha. Para Netanyahu e seu bando em Gaza todos são terroristas, mais além de suas aparências. Um dos chefes da ditadura genocida na Argentina, Ibérico Saint Jean, disse que “primeiro vamos matar todos os subversivos, depois seus colaboradores; depois os indiferentes e por último os tímidos”. O governo israelense inverteu essa sequência e começou pela população civil, gente cujo único crime era viver em Gaza, e cometeu um delito ao aplicar uma penalidade coletiva para um crime perpetrado por alguns indivíduos.

Depois deste brutal e instrutivo escarmento invadiram Gaza para aniquilar os terroristas e seus colaboradores. Israel sabe que o rudimentar e escasso armamento do Hamas apenas podia lhe causar danos de alguma significação. Suas ameaças de destruir o Estado de Israel são bravatas que não correspondem nem remotamente ao seu poder efetivo de fogo. Porém são muito úteis na guerra psicológica: servem para aterrorizar a população israelense e assim obter seu consentimento para o genocídio e a ocupação dos territórios palestinos. E também para que os Estados Unidos e os países europeus aportem todo tipo de armamentos e amparem politicamente o regime. Justamente nestes dias Israel solicitou a Washington a entrega de 225 milhões de dólares adicionais para financiar a produção de componentes de seu escudo antimísseis, conhecido como “Cúpula de Ferro”. O secretário de Defesa dos EUA remeteu uma mensagem ao Senado e à Câmara dos Representantes urgindo a rápida aprovação da petição israelense. Se for aprovada a ajuda dos EUA para estes propósitos ascenderia, só em 2014, a 500 milhões de dólares. A ajuda militar, de qualquer fonte, que recebe o Hamas é zero. A desproporção de forças é tão flagrante que falar duma “guerra” é uma burla macabra. Disse Marco Aurélio Garcia, assessor especial da presidenta Dilma Rousseff: “O que estamos vendo no Oriente Médio, pelo amor de Deus, é um genocídio, é um massacre”.
(Foto: Página/12)
E é assim porque Gaza não tem exército, não se lhe permitiu que o tenha. Israel tem um dos melhores do mundo, apetrechado com a mais sofisticada tecnologia bélica que lhe proporcionam Washington e as velhas potências coloniais europeias. Gaza tampouco tem uma aviação para vigiar seu espaço aéreo ou uma frota que guarde seu mar e suas praias. Os drones e helicópteros israelenses sobrevoam Gaza sem temor e disparam seus mísseis sem se preocuparem pelo fogo inimigo, porque não há fogo inimigo. As novas tecnologias bélicas lhe permitiram “aperfeiçoar” o que Hitler fez em Guernica. Em sua fúria assassina bombardearam casas, escolas, hospitais, recintos da ONU. Seus poderosos aliados (cúmplices de seus crimes) avalizam qualquer atrocidade. Já o fizeram antes, e não apenas com Israel, e o farão quantas vezes seja necessário. Sua má consciência joga a favor deste plano genocida: calaram vergonhosamente durante a Shoá perpetrada por Hitler diante da vista e paciência de todo o mundo, do papa Pio XII até Franklin D. Roosevelt e Winston Churchill. Calaram também diante do genocídio que metódica e periodicamente se está consumando em Gaza, porque matar palestinos a salvo (sem correr qualquer risco) é isso: um genocídio.

O Estatuto de Roma da Corte Penal Internacional estabeleceu em 1998 que “se entenderá por ‘genocídio’ qualquer dos atos mencionados a seguir, perpetrados com a intenção de destruir total ou parcialmente um grupo nacional, étnico, racial ou religioso como tal: a) matança de membros do grupo; b) lesão grave à integridade física ou mental dos membros do grupo; c) submissão intencional do grupo a condições de existência que levam a provocar sua destruição física, total ou parcial”. O governo israelense incorre nos três componentes da definição. O problema para o Estado de Israel, ao menos em sua atual conformação, é que raramente o genocídio tem sido um caminho para a vitória. Hitler assassinou seis milhões de judeus nos fornos crematórios e terminou esmagado por seus inimigos. Por que pensar que este genocídio terá um resultado diferente? É talvez por isso que na entrevista já mencionada Brzezinski afirmou que com suas políticas Netanyahu “está isolando Israel e pondo em perigo seu futuro a longo prazo”.

Afortunadamente, dentro de Israel há setores que reprovam com duríssimos termos a conduta seguida em Gaza: um grupo denominado “Judeus contra o genocídio”, o Partido Comunista de Israel junto com a Frente Democrática pela Paz e a (Hadash) condenaram os crimes perpetrados em Gaza e defendem, ademais, a legitimidade da resistência de qualquer território ocupado. Mas há outros que pregam a aniquilação dos palestinos, como Ayelet Shaked, a deputada que instou as forças de ocupação a matar as mães palestinas porque engendram serpentes terroristas. E a partir do governo israelense se trabalha para fomentar a desumanização do “outro” árabe. Os grandes meios de comunicação e as escolas ensinam as crianças israelenses a odiar seus indesejáveis vizinhos, degradados à condição duma raça desprezível. Para envolvê-las no esforço bélico são convidadas a escrever mensagens de morte nos mísseis que lançam suas forças armadas. Outras crianças serão os que cairão mortos por esses projéteis amorosamente dedicados por seus contrapartes israelenses.
(Foto: Página/12)
Este comportamento é um insulto à grande tradição humanista do povo judeu, que começa com os profetas bíblicos, segue com Moisés, Abraão, Jesus Cristo e passa por Avicena, Maimónides, Baruch Spinoza, Sigmund Freud, Albert Einstein, Martin Buber até chegar a Erich Fromm, Claude Lévi-Strauss, Hannah Arendt e Noam Chomsky. Ou com extraordinários judeus que enriqueceram o acervo cultural da Argentina como León Rozitchner, Juan Gelman, Alberto Szpunberg e Daniel Barenboim, entre tantos outros que seria muito extenso nomear aqui. A traição aos grandes ideais que o judaísmo aportou à humanidade não será gratuita. Com sua criminosa covardia, com seus delitos de lesa humanidade, com suas práticas próprias do “terrorismo de Estado”, com a violação da legalidade internacional (desacatando a resolução Nº 242, de novembro de 1967, do Conselho de Segurança da ONU, que por unanimidade exige que Israel se retire dos territórios ocupados durante a Guerra dos Seis Dias de 1967), as autoridades israelenses estão infringindo um duríssimo golpe à sustentabilidade a longo prazo do estado de Israel. Seu isolamento na Assembleia Geral da ONU é patético, exemplificado por seu sistemático e solitário acompanhamento aos Estados Unidos nas votações sobre o bloqueio imposto a Cuba.

Inclusive seus mais incondicionais amigos, como Mario Vargas Llosa, não economizam críticas: depois de visitar Gaza em 2005 disse no jornal espanhol El País: “Ninguém me contou, não sou vítima de nenhum preconceito contra Israel, um país que sempre defendi... vi com meus próprios olhos. E me senti enojado e revoltado pela miséria atroz, indescritível, em que definham, sem trabalho, sem futuro, sem espaço vital, nos becos estreitos e imundos dos campos de refugiados ou nessas cidades abarrotadas de gente e cobertas pelo lixo, onde passeiam os ratos à vista e tolerância dos transeuntes, essas famílias palestinas condenadas a somente vegetar, a esperar que a morte venha por fim a essa existência sem esperança, de absoluta desumanidade, que é a sua. São esses pobres infelizes, crianças e velhos e jovens, privados já de tudo o que faz humana a vida, condenados a uma agonia tão injusta e tão larval como a dos judeus nos guetos da Europa nazista, os que agora estão sendo massacrados pelos caças e tanques de Israel, sem que isso sirva para aproximar um milímetro a ansiada paz”.

Parece pouco provável que o infernal aparato bélico israelense possa fazer uma trégua e refletir sobre o significado desta traição aos ideais do humanismo judeu. Um racismo doentio se apoderou dos círculos dominantes na sociedade israelense que a inibe de reagir ante as monstruosidades perpetradas contra os palestinos em Gaza ou ante a construção de um ignominioso muro na Cisjordânia, ou ante a perpetuação e aprofundamento das políticas de usurpação e saque colonial. Os horrores padecidos sob o nazismo pareceriam ser suficientes para justificar o que é claramente injustificável e imperdoável. Será assim? Porém, em caso afirmativo, a questão é: por quanto tempo? Pergunta pertinente se se recorda o dictum de John Quincy Adams, sexto presidente dos EUA, quando disse que “os Estados Unidos não têm amizades permanentes, mas sim interesses permanentes”, uma frase repetida até o cansaço por outro criminoso de guerra, Henry Kissinger. Seria bom que as autoridades israelenses, que dão por garantido um apoio indefinido de Washington a suas políticas, meditassem sobre este assunto.

Tradução: Jadson Oliveira

NA VOLTA AO MERCOSUL, PARAGUAI SE ISOLA AO NÃO APOIAR REPÚDIO À OFENSIVA ISRAELENSE



Países do Mercosul ressaltaram a importância de investigações dos crimes cometidos no conflito do Oriente Médio (Agência EFE/Opera Mundi)
É a primeira vez que o presidente Horacio Cartes participa de uma reunião do bloco desde que o país foi suspenso após o golpe contra Lugo, em 2012

Por Luciana Taddeo, de Caracas – reproduzido do Opera Mundi, de 29/07/2014

Argentina, Brasil, Uruguai e Venezuela condenaram o uso desproporcional da força pelo Exército de Israel contra a Faixa de Gaza e ressaltaram a importância das investigações para identificar responsáveis por violações do Direito Internacional Humanitário. A declaração especial, emitida após a 46ª Cúpula do Mercosul (Mercado Comum do Sul) desta terça (29/07), em Caracas, não conta, no entanto, com a assinatura do Paraguai, que participa pela primeira vez de uma cúpula do bloco após ter sido suspenso do grupo em junho de 2012.

Os quatro países “condenaram de maneira enérgica o uso desproporcional da força por parte do Exército israelense na Faixa de Gaza, que afeta majoritariamente civis, incluindo crianças e mulheres”, além de condenar “qualquer tipo de ações violentas contra populações civis em Israel”. O fim imediato do bloqueio contra a população de Gaza para o livre trânsito, ingresso de alimentos, medicamentos e ajuda humanitária também foi instada.

Os chefes de Estado fizeram um chamado ao diálogo como única saída do conflito e reiteraram seu apoio à “solução de dois Estados vivendo em paz e segurança dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas”. Na declaração, ainda pedem respeito ao direito internacional e aos direitos humanos, ressaltando a “importância e urgência da investigação de todas as violações do Direito Internacional Humanitário, a fim de estabelecer os fatos e circunstâncias de tais violações e dos crimes cometidos e identificar os responsáveis”.
Mujica, Dilma e Maduro: na 46ª Cúpula do Mercosul, sul-americanos, com exceção do Paraguai, condenaram ofensiva israelense contra Gaza (Agência EFE/Opera Mundi)
O presidente do Paraguai, Horacio Cartes, no entanto, não mencionou o conflito em seu discurso, mas agradeceu efusivamente o apoio do Mercosul. Após a suspensão pelo impeachmet express contra o ex-presidente Fernando Lugo, o país voltou hoje a participar de uma cúpula presidencial do bloco.

A participação de Cartes representou a reincorporação “plena” do Paraguai ao Mercosul. “O Paraguai volta a esta cúpula com o claro propósito de fortalecer o processo de integração regional”, disse, complementando que isso foi demonstrado com a aprovação por seu país da inclusão da Venezuela ao bloco. A presidência pro-tempore do Mercosul foi assumida, nesta terça, pela Argentina, após mais de um ano comandada pela Venezuela.

Diferentes "tonalidades" sobre o assunto

Tanto a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, como o venezuelano Nicolás Maduro e a presidente Dilma Rousseff manifestaram preocupação pela situação na Faixa de Gaza durante suas intervenções na plenária aberta da Cúpula. Maduro, anfitrião e primeiro a falar, deu a entender que o assunto era encarado de diferentes formas pelos chefes de Estado, ao dizer que seriam escutadas nas intervenções “as diferentes tonalidades que há sobre o tema”.

Segundo ele, no entanto, estas “estão cruzadas por um sentimento profundamente humano de solidariedade com o povo palestino, a exigência de cessar-fogo, que se retomem os caminhos das conversas de paz e respeito do direito palestino a viver, a existir”, expressou. “É um tema que mantém sensibilizada a opinião pública de todos os nossos países e trocamos critérios, opiniões, percepções, visões, como sempre na diversidade dos debates do Mercosul e dos nossos espaços do Sul”.
Cúpula do Mercosul em Caracas (Foto: AVN/Agência Venezuelana de Notícias)
Cristina fez um dos discursos mais enfáticos contra o que qualificou como o “drama da Faixa de Gaza”. “Eu agradeço a solidariedade e vou falar em último termo da Argentina”, disse, sobre a crise de seu país com os “fundos abutres”, complementando que acharia egoísta não abordar antes o assunto palestino. “Está em jogo é a vida de todo um povo”, disse. Segundo ela, a primeira questão é solicitar um cessar-fogo imediato e que apesar dos “matizes” que os presidentes presentes poderiam ter, o reconhecimento do Estado da Palestina foi uma postura histórica de seu país.

"Cifras falam por si só"

A presidente argentina reforçou que Israel tem o direito de viver em paz, mas “dentro de suas fronteiras estabelecidas em 1967”. E disse que se o pedido é por um cessar-fogo, “todos estamos admitindo que estamos numa guerra”. “Mas isso não basta, porque ter uma postura como se estivéssemos balanceando ou analisando duas situações similares, não seria, pelo menos da parte de quem fala, nem sincero, nem honesto”, disse.

Cristina disse que perguntou a seu chanceler, Héctor Timerman, qual é a quantidade de mortos de um lado e do outro. E que este afirmou que é de 1.230, mais de mil mortos são palestinos, quando cerca de 30 soldados e três civis israelenses morreram. “As cifras falam por si só, e não significa fazer um inventário, mas significa medir exatamente o drama que se está vivendo em população civil”, disse.

Dilma, por sua vez, disse que “não podemos aceitar impassíveis a escalada de violência entre Israel e Palestina”. Com o país envolvido em uma polêmica com Israel, que chamou o Brasil de “anão diplomático” por ter condenado o uso desproporcional da força, a presidente afirmou que desde o princípio, o Brasil condenou o lançamento de foguetes e morteiros contra Israel e reconheceu seu direito de se defender.

“No entanto, é necessário ressaltar nossa mais veemente condenação ao uso desproporcional da força por Israel na Faixa de Gaza, do qual resultou elevado número de vítimas civis, incluindo mulheres e crianças.O governo brasileiro reitera seu chamado a um cessar-fogo imediato, abrangente e permanente entre as partes”, expressou.