domingo, 31 de agosto de 2014

J. F. RIVAS: O LEGADO ECONÔMICO DE CHÁVEZ: A DÉCADA DA ESPERANÇA, 10 LIÇÕES DO NOSSO CAMINHAR



(Foto: Nodal)
A luta pela independência integral passa por enfrentar e superar o colonialismo cultural.

Por J. F. Rivas, no portal Nodal – Notícias da América Latina e Caribe, de 19/08/2014  

A compreensão das mudanças estruturais na economia mundial, seu impacto na nossa região e as contradições no seio dos processos emergentes de integração, são aspectos fundamentais para vislumbrar as possíveis rotas da integração e o desenvolvimento. No entanto, é necessário complementar esta visão integral com um balanço da experiência acumulada nestes últimos anos pela corrente progressista e anti-neoliberal.

Nos últimos anos do século passado, o neoliberalismo predominava como paradigma. Nos discursos dos candidatos presidenciais, dos presidentes e em nossas universidades, a hegemonia do pensamento neoclássico do desenvolvimento era esmagadora.

Quando muitos pensavam que tudo estava perdido, surgiram governos que se propuseram uma estratégia na contra-corrente do neoliberalismo; os movimentos populares experimentaram um auge que se fez notar na região. Governos populares, nacionalistas e movimentos sociais anti-sistêmicos proporcionaram alento para construção de outra realidade.

Há elementos comuns nos quais podemos resumir as lições destas experiências. Ao tomar como referência principal o caso venezuelano, podemos distinguir algumas lições:

Lição 1: Recuperação do controle soberano do recurso natural.

A primeira coisa que se distingue da experiência venezuelana é uma política de recuperação do controle soberano do recurso natural, neste caso o petróleo. A geração e a distribuição da renda estavam comandadas por setores dominantes de origem nacional e estrangeira. Se inicia uma série de reformas que logram a recuperação do sistema fiscal por parte do Estado. A estratégia neoliberal de abertura petroleira havia reduzido ao mínimo o aporte de impostos do setor e havia estabelecido um plano de inversões que aprofundava a dependência e a desnacionalização.

A sabotagem petroleira, no ano de 2002, permite a tomada do controle da PDVSA (estatal do petróleo) a favor dos interesses nacionais e populares. Através disso, se aprofunda a política petroleira internacional que permitiu fortalecer o poder de negociação dos produtores mundiais de petróleo agrupados na OPEP. O controle soberano do recurso natural e a confrontação pela renda que gera, é uma das dinâmicas fundamentais do processo de mudança.

Lição 2: Reorientar o destino da renda para os setores populares, os projetos de infraestrutura e os projetos sócio-produtivos.

A denominada “distribuição popular da renda” foi o principal esforço dos primeiros 14 anos do presente governo. Isto permitiu uma melhora substancial dos indicadores sociais. Uma parte majoritária da população que historicamente havia tido a pior parte da distribuição de renda, se converteu em objeto e sujeito principal das políticas sócio-econômicas. Igualmente, se faz um grande esforço de investimento na infraestrutura social, produtiva e de transporte.

Lição 3: Promover um modelo democrático-participativo, onde a participação ativa das pessoas se converte no objetivo e no meio da proposta de desenvolvimento.

No caso venezuelano se herda a institucionalidade da IV República, baseada na democracia representativa e no sequestro do poder político num pacto de elites (empresários, burocracia sindical, partidos pró-capitalistas, Igreja e militares) que se conhece como o Pacto de Punto Fijo.

Lição 4: Orientar a estratégia econômica para o fortalecimento dos mercados internos.

Este constitui um dos principais desafios das propostas transformadoras na região. Se trata da assunção de diversas políticas econômicas heterodoxas e anti-neoliberais que se orientam a fortalecer a matriz produtiva e, ao mesmo tempo, alavancar a capacidade de compra dos setores populares. Destacam-se políticas que tentam proteger e relançar os setores produtivos com uma visão em que se combinam o fortalecimento da economia nacional e a integração regional; os esforços para reorganizar os mecanismos de distribuição de bens-salários, para quebrar a rede oligopólica que controla a reprodução da força de trabalho.

Estas orientações contra-corrente têm diferente intensidade e são minoritárias na região. Além de estarem ameaçadas pelo poder do capital financeiro e das tendências que se consolidam com a reorganização da divisão internacional do trabalho, como por exemplo a crescente reprimarização e desindustrialização.

Lição 5: Promover e apoiar experiências produtivas diversas e heterogêneas, numa busca permanente dum sistema sócio-produtivo.

No caso venezuelano, encontramos uma diversidade de experiências que vão desde a produção agroecológica, as experiências do movimento cooperativo, as fábricas recuperadas e socializadas, as empresas de produção social, até o complexo industrial de Guayana projetado originalmente para o desenvolvimento dependente e exógeno, baseado na extração primária exportadora. Dando por assentada a exploração petroleira como herança histórica de nosso modo de articulação, desde o primeiro terço do século 20, com o sistema capitalista mundial.

Lição 6: Promover o processo de integração regional sob critérios diferentes da integração tradicional.

Com a derrota da ALCA, surgiu a ALBA e se promoveu a União como conceito superior da Integração. Um conjunto de iniciativas forma uma rede de experiências, entre as quais encontramos Petrocaribe, a UNASUL, a CELAC, o Banco do Sul, que não só eram inexistentes em princípios deste século, como soavam quiméricas.

Lição 7: Enfrentar o poder midiático do capital nacional e transnacional.

Para avançar na transformação política e econômica, se tem pela frente resistindo o imenso poder dos meios de comunicação privados, que sequestraram e privatizaram a ideia de democracia, para converter-se num exército colonizador que exerce uma guerra de quarta geração contra os governos que estão a favor dos interesses populares

Lição 8: A defesa e valorização da diversidade cultural. A defesa da história.

Contra a linguagem dominante/dominadora envolvida no termo “desenvolvimento”; contra a carga etnocêntrica e modernizadora com que nasceu o conceito de desenvolvimento; contra a velha e a nova colonização que conseguiu o controle de nossas mentes, surgem opções que partem da herança cultural dos povos originários, como a proposta do Bem Viver/Viver Bem, e outras propostas vinculadas com uma continuidade da corrente histórico-social, herdada das lutas de resistência indígena e da gesta independentista de Bolívar e outros heróis da primeira independência, tal como se representa no socialismo venezuelano, bolivariano e chavista.

Lição 9: A existência e ação dos movimentos sociais.

Estes cada vez mais têm uma influência determinante nas “altas decisões” que afetam o povo.

Lição 10: Não há receita única e geral do “caminho a seguir”.

Cada experiência assume a construção de suas alternativas sobre a base de sua particularidade estrutural, histórica, política e cultural. A convicção de seguir caminhos traçados por nossas próprias mãos, além de constituir um ato de identidade, nos compromete a buscar propostas que se afastem dos “modelos a seguir” impostos pelo poder do capital financeiro e das instituições internacionais financeiras e de “desenvolvimento”. Não ser nem decalque nem cópia dos olhares etnocêntricos dos dominadores.

As saídas devem ser a “criação heróica” de acordo com Mariátegui, o “inventamos ou erramos” de Simón Rodríguez. Os assessores externos continuarão sendo forâneos porque sua cosmovisão, seus desejos e seus interesses são alheios aos desejos dos nossos povos e à necessária superação do capitalismo. Ante a crise do pensamento econômico dominante (e dominador), urge resgatar o legado do pensamento crítico latino-americano.

A luta pela independência integral passa por enfrentar e superar o colonialismo cultural.

A busca de referências conceituais e teóricas é uma tarefa permanente: não podemos falar dum modelo, e o que interessa é que esta experiência não pode ser  enclausurada no laboratório dum investigador nem nas classificações inflexíveis dos experts econômicos. É uma tarefa pendente fazer um balanço e sistematizar estas lições.

No caso venezuelano há algumas peculiaridades próprias de sua estrutura econômica, sua história política e do fato especial de que o presidente Chávez declarou o caráter socialista do processo político em 2006. Dentro deste contexto, ressalta a unidade Força Armada-Povo-Governo.

No tocante à particularidade relacionada com sua estrutura econômica, a formação econômico-social venezuelana se refere a economias capitalistas periféricas e dependentes, que contam com a captura duma renda internacional, neste caso particular, proveniente da principal atividade produtiva que a conecta com a economia mundial: a produção e a exportação de petróleo.

A presença do petróleo, no presente modo de articulação histórico com a economia mundial, cria um problema estrutural de maior envergadura. Somente para ilustrar, o que representa o petróleo na economia venezuelana, sendo apenas 13% do PIB, aporta 97% das exportações petroleiras e 50% dos impostos. A acumulação de capital na Venezuela se baseou na exploração capitalista, vale dizer, na apropriação privada de mais valia, mas além disso conta com uma renda internacional, capturada cada vez que se exporta o petróleo.

Isso significa que a captura e privatização da renda petroleira, por parte dos grupos capitalistas dominantes, se converte no centro principal do conflito de poder e em grandes condicionamentos na estrutura produtiva. O interesse do Capital representado no poder das empresas transnacionais entra em confrontação com o interesse nacional e popular de desenvolvimento independente.

No caso da Venezuela, apesar de haver sido nacionalizada a indústria petroleira nos anos 70, momento em que surgiu a PDVSA, 20 anos mais tarde, na década em que reinou o neoliberalismo, a estrutura gerencial dessa época definiu a PDVSA como uma “corporação global” com objetivos próprios. Esta perspectiva corporativa justificava uma estratégia nacional desnacionalizante e uma política internacional subordinada aos interesses do capital transnacional.

À escala nacional, apoiava uma política de abertura ao investimento estrangeiro, chamada nesse momento a “abertura petroleira”, que de fato entregava a empresa nacionalizada aos interesses transnacionais. No que diz respeito à política petroleira internacional, a gerência antinacional da PDVSA favorecia a estratégia dos países desenvolvidos, consistente em debilitar a capacidade dos produtores para intervir na fixação dos preços petroleiros.

A experiência histórica recente da Venezuela reafirma a convicção de que a mudança estrutural não pode evitar a confrontação sócio-política entre governos que optaram por ser leais ao povo e os representantes dos poderes de fato nacionais e internacionais. Isto explica por que, em 2002, a alta gerência da PDVSA, controlada pelos interesses do capital transnacional, se uniu ao processo de sabotagem econômica e política do governo de Chávez. Ao final, a contra-ofensiva chavista fez possível que se tomasse o controle nacional da empresa petroleira.

Tradução: Jadson Oliveira

PLEBISCITO POPULAR: CONSOLIDAR A LUTA PELA CONSTITUINTE DO SISTEMA POLÍTICO

(Foto: Brasil de Fato)
De 1 a 7 de setembro o povo brasileiro será consultado através de um plebiscito popular sobre a necessidade dessa constituinte exclusiva e soberana do sistema político
28/08/2014
Editorial da edição 600 do jornal Brasil de Fato 

Nesse momento, apesar do bloqueio da mídia conservadora, diversos movimentos populares, partidos e entidades da sociedade brasileira estão engajados num grande mutirão para mudar o atual sistema político.

A contradição que impulsiona esta mobilização é o abismo que existe entre os interesses do povo brasileiro e as instituições da republica. Esta contradição é potencializada pela forma arcaica e elitista de se fazer a política institucional no Brasil. O financiamento privado das campanhas eleitorais aprofunda a descrença do povo na política e dissolve a delimitação entre os interesses públicos e privados. Ou seja, transforma nossa jovem democracia num balcão de negócios.

A privatização das eleições é somente a ponta do iceberg. Nos últimos 12 anos a classe trabalhadora brasileira conquistou melhorias no campo das políticas públicas, na recomposição do salário mínimo e na geração de mais de 20 milhões de empregos. 

Entretanto, as manifestações de junho do ano passado demonstraram a disposição do povo brasileiro de aprofundar as mudanças. E aprofundar as mudanças passa por pautar reformas estruturais na sociedade brasileira. Certamente a composição conservadora do Congresso Nacional é um obstáculo para a retomada das reformas de base que nos possibilitariam avançar nas conquistas.

Aprofundar a cidadania política e social passa pela democratização do Estado brasileiro. Como bem lembrou o então deputado federal constituinte Florestan Fernandes, na década de 1980 a sociedade civil democratizou-se com a entrada na cena do movimento operário, estudantil, setores militantes da igreja, movimento campesino, dentre outros. Ressalta Florestan que a sociedade civil democratizou-se, mas o Estado brasileiro não correspondeu ao movimento de oxigenação política encampado pelos movimentos sociais que encurralou a ditadura militar.

Herdamos da ditadura militar um Estado inserido numa democracia restrita que não viabilizou mecanismos de participação popular e que sempre dificultou as conquistas sociais demandadas pela população brasileira. Um Estado privatizado pelas elites. O ponto de partida para revertermos esta situação é viabilizarmos uma ampla e democrática reforma política que viabilize mecanismos de participação popular, que acabe com o financiamento privado das eleições, que viabilize o debate de projeto político programático no seio da sociedade, dentre outras medidas fundamentais.

Já está comprovado que o Congresso Nacional não tem condições políticas de viabilizar a reforma política que está engavetada há mais de 15 anos. Isto porque os parlamentares empresários, ruralista e demais conservadores jamais mudarão as regras do jogo que lhes beneficiam. Somente uma Constituinte Exclusiva do Sistema Político pode viabilizar a reforma política. A protelação de mudanças estruturais no sistema político provocará uma profunda crise política no Brasil.

De 1 a 7 de setembro o povo brasileiro será consultado através de um plebiscito popular sobre a necessidade dessa constituinte exclusiva e soberana do sistema político. Trata-se de um exercício fantástico de trabalho de base e pedagogia de massas. Mas não somente isto. Trata-se de uma bandeira política com capacidade de unificar as forças populares e de criar as condições para que as reformas estruturais sejam recolocadas na agenda da sociedade brasileira. A defesa da bandeira política da constituinte combinada com a luta de massas é o primeiro passo para a refundação das instituições da República.

É preciso completar a redemocratização. Nesse momento temos novas forças sociais com potencial de levar à frente esta tarefa. Cabe às forças populares criar as condições para a convergência da virtude e da oportunidade que movimentam a História.

PT ENFRENTA DILEMA DE SER OU NÃO SER DE ESQUERDA

30/8/2014 13:29
Por Rodrigo Vianna - de São Paulo

Esta será a segunda vez que Marina e Dilma se encontram, nas urnas
Esta será a segunda vez que Marina e Dilma se encontram, nas urnas (Foto: Correio do Brasil)

Ou o PT aprofunda seu discurso de esquerda e chega ao segundo turno contra Marina e a elite financeira do país, em uma situação de alto risco, ou busca alianças à direita e trilha, de forma inexorável, os rumos que legendas socialistas históricas, como o PS francês e do SPD alemão, adversários das conquistas sociais. Em seu artigo, publicado no blog O Escrivinhador, o jornalista Rodrigo Vianna avalia os caminhos abertos pelas manifestações de Junho do ano passado até o possível segundo turno entre a presidenta Dilma Rousseff e sua concorrente, Marina Silva (PSB/Rede Sustentabilidade).

Leia, adiante, o artigo de Rodrigo Vianna.

Os dilemas do PT: esquerda, vou ver?

Nunca acreditei que essa eleição seria decidida num turno único. O grau de insatisfação e a onda anti-petista no Brasil deixavam claro que – mesmo com Aécio e Eduardo no páreo, dois candidatos que tinham dificuldade evidente para representar a “mudança” – Dilma teria que enfrentar um turno final para conseguir o segundo mandato.

Aécio (com apoios fortes em Minas, São Paulo, Bahia e Paraná) deveria bater em 25% até o começo de outubro. Eduardo talvez chegasse a 15%. Dilma, com cerca de 37% ou 40%, teria que enfrentar os tucanos no segundo turno.

O PT se preparou pra isso. Para esse cenário. Era a velha estratégia de fazer pouca política, acreditando que mais uma vez bastaria dizer: “o governo deles é o de FHC, com desemprego e quebradeira; o nosso é o governo do povão e da inclusão social”. Agora, a campanha de Dilma parece desorientada para lidar com a nova realidade pós 13 de agosto (dia do acidente que matou Eduardo Campos), que não é propriamente nova.

Por uma questão operacional e jurídica, Marina não conseguiu legalizar a Rede ano passado. Por isso, e só por isso, o difuso mal-estar de junho de 2013 seguia ausente da campanha de 2014. Por isso, e só por isso, o número de brancos/nulos e de “não votos” era tão grande. A queda do avião mudou tudo. Marina virou a cara de junho na eleição.

A força de Marina (com o perdão do péssimo trocadilho, nesse agosto fatídico) não caiu do céu. Ok, Marina é candidata da Neca Setúbal. Ok, esse papo de “nova política” é falso, além de perigoso e despolitizante. Mas acontece que o eleitorado que vai com a Marina não é a velha classe média anti-petista e tucana. É mais que isso. É a turma dos “celulares na mão”: Luiz Carlos Azenha foi quem melhor traduziu essa nova conjuntura aberta com junho de 2013.

Parte do PT (setor que parece ser majoritário) torce para que os tucanos desconstruam Marina – na base de escândalos e pauladas midiáticas. Mais uma vez, sem política de verdade. Ou então, para que a elite – apavorada com a inconsistência marineira – apoie Dilma num segundo turno. Isso significaria aceitar que Dilma poderia enfrentar Marina como opção pela direita. Seria desastroso para o PT, para os movimentos sociais e sindicatos.

Outra parte do PT e da militância de esquerda não se ilude com essa ideia, e imagina que a melhor (talvez a única) forma de enfrentar Marina é aprofundar um programa de esquerda. Dilma terá que caracterizar Marina como a candidata do grande capital, dos banqueiros. Ela, Dilma, terá que assumir as bandeiras da classe trabalhadora: fim do fator previdenciário, redução da jornada de trabalho, mais direitos sociais, combate ao rentismo.

A mim, parece que a primeira das escolhas é – além de tudo – uma ilusão. Acreditar que Dilma pode virar a opção “confiável” da direita seria desconhecer o ódio que leva empresários, banqueiros e donos da mídia a preferirem “qualquer coisa menos o PT” (como se ouve nas ruas dos bairros nobres de São Paulo, Rio e Brasília).

Mais do que isso: quem acompanha os bastidores da eleição diz que jamais os candidatos petistas enfrentaram tamanha seca de recursos. Empresários decidiram que o PT já cumpriu seu papel, e gostariam de virar essa página. A direção petista pode apostar na saída pela direita. E, numa conjuntura especialíssima, pode até colher uma vitória eleitoral com isso. Mas essa escolha, mesmo que traga vitória eleitoral (pouco provável), seria acompanhada de uma tripla e estrondosa derrota: política, ideológica e simbólica. Se o PT escolher esse caminho, selará seu destino ao lado do PS francês e do SPD alemão…

A outra alternativa é virar alguns graus à esquerda. Essa segunda alternativa pode levar a uma vitória apertada, num clima de grande confrontação política e ideológica no segundo turno. Ou pode levar a uma derrota eleitoral (com Marina ganhando apoiada pelos liberais e tucanos), mas que prepare o PT e o bloco de esquerda para uma reorganização: mais próximo dos movimentos sociais e dos sindicatos, esse bloco político pode ser decisivo no enfrentamento de uma agenda liberal que (com Marina ou com Aécio) será imposta ao Brasil.

Trata-se, portanto, de uma eleição decisiva para os rumos do Brasil, da América Latina e também para o futuro do PT como força (ainda) capaz de comandar um processo de reformas e democratização.

Rodrigo Vianna é jornalista, autor do blog O Escrivinhador.

sábado, 30 de agosto de 2014

O RISCO “MARINA” PODE EMPURRAR O PT PARA A ESQUERDA?



(Foto:Internet)
Valter Pomar: “É preciso tomar medidas imediatas no sentido da democratização da comunicação e dar destaque a isto no programa de governo 2015-2018”.

Uma guinada à esquerda é o que defende o dirigente petista Valter Pomar no artigo “As hienas exultam”, datado de hoje, dia 30, publicado no site 247. O autor sempre teve posições políticas mais à esquerda e minoritárias dentro do partido. Transcrevo abaixo a parte final do artigo. Quem preferir lê-lo na íntegra e desde o começo, vale a pena, aqui está o link.

“Frente à possibilidade de segundo turno e frente à possibilidade de um segundo turno contra Marina, a solução é mais programa, mais disputa política, mais polarização, mais mobilização de nossa base social.

Um pequeno exemplo disto: a presidenta Dilma foi a única que, no debate realizado na TV Bandeirantes dia 26 de agosto, fez referência ao cenário internacional, à crise e aos Brics. Este é um bom caminho: politizar, ou seja, mostrar os grandes conflitos do nosso tempo e apontar por onde passa a defesa dos interesses da classe trabalhadora.

É preciso falar do passado e do presente, mas colocá-los em função do futuro. Deixar claro que mudanças vamos fazer, no segundo mandato. Falar do passado contra Aécio é muito importante, falar do passado contra Marina é arma secundária.

A ênfase no futuro, embora tenha sido oficialmente aceita, ainda não se traduziu adequadamente nas diretrizes programáticas, nos materiais de campanha, nem mesmo nos principais pronunciamentos da presidenta Dilma Rousseff.

Por isto, insistimos:

*no papel positivo e indispensável dos movimentos e das lutas sociais, para nossas vitórias eleitorais e principalmente para o êxito dos nossos governos;

*é preciso encampar urgente e efetivamente a “pauta da classe trabalhadora”, tal como apresentada pela CUT, inclusive o fim do fator previdenciário e a jornada de 40 horas;

*coerente com o que pensa e reafirmou no debate realizado na TV Bandeirantes dia 26 de agosto, a presidenta Dilma Rousseff deve convidar a população a votar no Plebiscito Popular. Aliás, a este respeito, é incrível que Dilma tenha sido a única a corajosamente defender o plebiscito como um dos instrumentos para a reforma;

*é preciso tomar medidas imediatas no sentido da democratização da comunicação e dar destaque a isto no programa de governo 2015-2018. Falar de "regulação econômica" não basta, nem impede os ataques da direita;

*é preciso abandonar o discurso equivocado que insiste em chamar de "classe média" os setores da classe trabalhadora que, graças às nossas políticas, ampliaram sua capacidade de consumo;

*é preciso enfatizar a defesa das reformas estruturais. Temas como a reforma política e e tributária devem ser ainda mais destacados.

Por fim: não devemos cair na esparrela de tentar carimbar a Marina como uma "incógnita" ou como "inexperiente".

Ela não é incógnita. Ela é, hoje, uma forte alternativa para o grande capital, especialmente financeiro.

Ela não é inexperiente. Ela se preparou habilmente para ser instrumento da direita neste momento, contra o PT. Aliás, seu giro à direita não começou em 2010, começou quando era senadora e ministra.

Por decorrência, devemos recusar o raciocínio extremamente perigoso dos que acreditam que o grande capital vai recusar a "imprevisibilidade" de Marina.

Quem acredita nesta fantasia, vai acabar caindo na armadilha de tentar derrotar Marina com argumentos de "direita". Entre outros, o de que nós seríamos mais "confiáveis", capazes por exemplo de fazer um ajuste fiscal em 2015 e coisas do gênero.

Adotar esta linha seria o caminho certo para uma tripla derrota: eleitoral, política e ideológica. 

O caminho para nossa vitória, contra Aécio & Marina, é outro: mobilização, militância, política, programa de esquerda, apontando para um segundo mandato superior, ou seja, que amplie a democracia, o bem-estar, a soberania, a integração e o desenvolvimento, em benefício da ampla maioria da população brasileira, que é trabalhadora.

Agindo assim, derrotaremos mais uma vez o "espírito animal" das hienas”.

OLÍVIO DUTRA: PT SE ACOMODOU EM TER PODER E CARGO



Ex-governador, Dutra disputa uma eleição após oito anos (Foto: Emilio Pedroso/UPPRS)
Candidato ao Senado pelo RS pede união de partidos de esquerda e diz que irá lutar por reformas profundas. Leia a entrevista com o ex-governador:

“Há necessidade de um bom debate sobre a reforma política, que eu não tenho ilusão que será do Congresso. Espero que o povo possa dar uma boa renovada, mesmo assim acho que não podemos nos iludir que seja uma reforma de lá para cá. Tem que ser uma de baixo para cima”.

Por Piero Locatelli — de Porto Alegre, no sítio web da revista Carta Capital, de 29/08/2014 (recomendada pelo velho companheiro Geraldo Guedes, advogado em Brumado-Bahia)

O ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra (PT) disputa uma nova eleição após oito anos. Uma das vozes mais críticas dentro do PT, Olívio tem como principais rivais o ex-apresentador da RBS Lasier Martins (PDT) e Pedro Simon (PMDB), que entrou na disputa após Beto Albuquerque (PSB) tornar-se vice de Marina Silva na disputa à Presidência.

As principais plataformas de Olívio na disputa são a reforma fiscal, agrária, urbana e política, nenhuma delas concretizada pelo governo do seu partido nos últimos doze anos. Olívio disse que deve fazer o debate interno no PT e que não busca “conforto” em seu mandato. Segundo ele, o PT se acomodou, e agora deve buscar a união com partidos de esquerda.

Nesta semana, CartaCapital publicou entrevista com os candidatos ao governo do Sul Ana Amélia e Tarso Genro, além do candidato ao Senado Lasier Martins.

Leia abaixo trechos da entrevista com o candidato:

CartaCapital: Sua última eleição foi em 2006, quando foi derrotado pela Yeda Crusius (PSDB) na disputa ao governo estadual. O que o senhor fez neste período?

Olívio Dutra: Nunca parei de militar por um projeto coletivo. É um projeto do PT no que ele tem fundante, como um partido que não nasceu de cima para baixo, dos gabinetes. Tenho um compromisso com esse partido socialista e democrático, que não tem uma direção que impõe políticas. Nada é definitivo, por isso sempre estou militando, aprendendo e transmitindo as experiências que tive. Foi isto que fiz neste período, ocupado pela militância.

CC: O senhor acha que a militância vai além da disputa de cargos, então por que voltar à institucionalidade? Por que o senhor se tornou candidato?

OD: Porque a institucionalidade também é um espaço de disputa de projetos. Tinha um companheiro, o Adão Preto, filho de pequenos agricultores sem terra que foi eleito deputado estadual e umas três vezes federal. Ele nunca abdicou da sua relação com os movimentos sociais, especialmente os sem terras e os pequenos agricultores. Ele sempre é um exemplo para mim da ponte entre a institucionalidade e a não institucionalidade. A não institucionalidade é um espaço aberto onde o povo se organiza e não tem que submeter ou ser cooptado para dentro da máquina do Estado. No entanto, os movimentos sociais disputam espaço maior para seus projetos na institucionalidade.

Ele sempre dizia “um pé na luta e outro no parlamento”. Lá dentro, o espaço para nós, para os movimentos sociais, é um espaço minado pelos que compõe maioria na institucionalidade, onde predomina o poder econômico. No Senado, eu aceitei essa condição, não postulei, não reivindiquei, não queria ser. E agora eu sou de corpo inteiro, de corpo e alma nessa campanha.

(...)

CC: Uma particularidade da eleição no Rio Grande do Sul é que dois candidatos são ex-comentaristas da RBS. Ao que o senhor atribuiu esse fato no Estado?

OD: Acho que temos um problema sério no país para a consolidação da democracia, essa questão é a falta de um marco regulatório das empresas de mídia. Não estamos falando da liberdade de imprensa e expressão, mas de como se montam grupos que monopolizam regionalmente a produção da notícia. A Constituição tem de funcionar. E ela não é favorável a essa formação de monopólios que existem nesse país. Mas não é só aqui. O Congresso está cheio de gente originária dessa mina que é a grande mídia. Chegamos a ter presidentes da República donos de repetidoras da Globo. Vai ver em outros locais, está cheio de gente umbilicalmente ligado a essa visão monopolista da produção da notícia, onde a notícia é um produto que eles embalam de acordo com seu interesse. E o pior é que eles disfarçam a sua visão ideológica partidária, são eles que municiam a centro direita contra qualquer processo que consolide a democracia para ela ser efetivamente vivida pela população e não uma democracia embutida segundo o interesse dos mais poderosos.

Para ler mais na Carta Capital: