segunda-feira, 31 de agosto de 2015

ARGENTINA: ‘ABUELAS DE LA PLAZA DE MAYO’ IDENTIFICA MAIS UM DOS NETOS ROUBADOS PELA DITADURA

“Bem vinda a neta 117 e por muitos netos mais”, expressou Estela de Carlotto (Foto: Página/12)
Trata-se de uma neta – número 117, dentre os cerca de 500 bebês nascidos de pais presos políticos, roubados pelos repressores e criados por pais adotivos, com a verdadeira identidade escondida.
Estela de Carlotto anunciou a restituição da identidade da filha de Walter Domínguez e Gladys Castro, sequestrados em Mendoza em 1977 quando ela estava no sexto mês de gravidez. Acompanhada pelas duas avós (‘abuelas’) da neta recuperada número 117, a presidenta de ‘Abuelas de la Plaza de Mayo’ relatou que a jovem "sabia que não era filha biológica" do casal que a criou e que "aceitou imediatamente" o convite para realizar o exame de DNA.
Do jornal argentino Página/12, edição digital de hoje, dia 31 (em espanhol, com traduções pontuais)
"Bienvenida nieta 117 y por muchos nietos más", expresó Carlotto en una rueda de prensa (numa entrevista coletiva de imprensa) en la sede de Abuelas en la que destacó que "el derecho a la identidad se recupera una vez más con la ayuda de un Estado empeñado en promover derechos".
Participaron de la conferencia de prensa el secretario general de la Presidencia, Eduardo "Wado" de Pedro; el secretario de Derechos Humanos, Martín Fresneda; la candidata a diputada nacional Victoria Montenegro; el diputado Horacio Pietragalla; y las dos abuelas (e as duas avós) de la nieta restituida.
"Hoy (Hoje) nos acompañan las dos abuelas (as duas avós), María Assof de Domínguez y Angelina Catterino, y el tío paterno Osiris Rodolfo Domínguez, que viajaron desde Guaymallén, Mendoza, para compartir (para compartilhar) la felicidad de este encuentro", contó Carlotto al leer el comunicado oficial.
Una de las abuelas de la nueva nieta recuperada es María Assof de Domínguez, titular de Madres de Plaza de Mayo en Mendoza y una incansable luchadora de los derechos humanos en la provincia.
Carlotto relató que en 1994 el Movimiento Ecuménico por los Derechos Humanos de Mendoza envió a Abuelas una denuncia anónima sobre una joven nacida en marzo de 1978 "que apareció en el hogar de una pareja mayor (na casa dum casal de idosos), de un día para otro". "La joven, a pesar de haber sido inscripta como hija propia, sabía que no era hija biológica de quienes la criaron, pero nunca pensó en acercarse a Abuelas", contó la titular del organismo.
"La dificultad para reconstruir las huellas que el terrorismo de Estado borró impiadosamente, hicieron que el hallazgo de la hija de Gladys y Walter se demorara 21 años más (A dificuldade para reconstruir os sinais que o terrorismo de Estado apagou impiedosamente, fizeram com que o achado da filha de Gladys e Walter demorasse 21 anos mais)", continuó y narró que a mediados de 2009 la denuncia llegó, junto a información compartida (compartilhada) por las Abuelas con el Estado, a manos de la Comisión Nacional por el Derecho a la Identidad (CONADI).
El equipo (A equipe) de aproximación a posibles hijos de desaparecidos creado en 2014 dentro de la CONADI, se contactó con la mujer "para contarle que la CONADI contaba con información que arrojaba posibilidades de que podría tratarse de hija de desaparecidos y la invitaron a realizarse el estudio de ADN (e a convidaram a fazer o exame de DNA)". La joven "accedió inmediatamente" a realizarse el estudio, que se concretó el 16 de julio.
"El jueves último (Na última quinta-feira), 27 de agosto, el Banco Nacional de Datos Genéticos informó a la CONADI que la joven es hija de Walter y Gladys. Desde nuestra Asociación se le comunicó la noticia a las dos abuelas (às duas avós), mientras (enquanto) que la CONADI informó a la nueva nieta que con beneplácito recibió la noticia", relató Carlotto
"El derecho a la identidad se recupera una vez más en este país, con la colaboración de un Estado empeñado en promover derechos y de gran parte de la sociedad que no quiere volver a sufrir los atropellos de dictaduras terroristas", manifestó y concluyó que "sólo resta que el abrazo esperado 37 años por las familias Domínguez y Castro se materialice en estos días".

Tradução (parcial): Jadson Oliveira

THEÓFILO RODRIGUES: NETFLIX E O NOVO DESAFIO DA REGULAÇÃO DA MÍDIA

O Netflix opera no país sem nenhum tipo de regulação (Foto: Correio do Brasil)
Se há um lugar onde o conceito de revolução permanente pode ser aplicado plenamente é o do desenvolvimento da tecnologia da informação.

Por Theófilo Rodrigues – do Rio de Janeiro – reproduzido do jornal digital Correio do Brasil, de 30/08/2015

Mal a sociedade brasileira teve tempo de comemorar a aprovação do Marco Civil da Internet em 2014 – legislação pioneira em todo mundo e elogiada até pela ONU – um novo desafio se impôs: a regulação do mercado Over-The-Top (OTT) e seus vídeos sob demanda (on demand).
Para quem não está acostumado com a gramática digital, o mercado OTT é aquele que oferece a entrega de conteúdo audiovisual pela internet como Whatsapp, Skype, Youtube e Netflix entre tantos outros.
Os maiores interessados em pressionar por alguma regulação nesse setor são as empresas de telecomunicações. Essas empresas já perceberam que com a expansão da banda larga de qualidade não demorará muito para seus clientes migrarem de vez para essa nova forma de comunicação.
O argumento central das telefônicas é o de que essa concorrência com Whatsapp e Skype reduzirá a quantidade dos empregos existentes no setor no Brasil. O debate é certamente relevante, contudo, é certo também que as operadoras de telefonia precisarão se adequar a essa nova realidade.
A questão regulatória que urge não é exatamente essa, mas sim a que diz respeito ao conteúdo dos serviços sob demanda. Serviços como o Netflix oferecem conteúdos que não passam por nenhum tipo de controle do Estado brasileiro.
Por óbvio, não se trata de falarmos em controle do conteúdo por parte do Estado como se fosse censura. A questão é outra.
Basta lembrarmos o controle já existente nos dias de hoje sobre o conteúdo das TVs por Assinatura. Formulada e estimulada pela ANCINE – sob forte protagonismo de seu presidente Manoel Rangel – a Lei 12.485 de 2011 passou a obrigar todos os canais das TVs por Assinatura a terem uma cota de conteúdos nacionais em sua grade semanal. Com isso a ANCINE conseguiu estimular toda uma rede de produção independente do audiovisual brasileiro, além de propagandear nossa própria cultura que antes não encontrava seu espaço. Há cinco anos atrás era dificílimo encontrar um filme brasileiro na televisão por assinatura. Graças à Lei 12.485 hoje podemos assistir a qualquer momento algum canal que esteja passando um filme nacional.
Agora é chegada a hora da ANCINE propor e estimular o debate sobre uma nova legislação. Dessa vez impondo a cota nacional em determinados serviços de audiovisual on demand do mercado OTT. Em outras palavras, obrigar o Netflix, por exemplo, a ter uma determinada quantidade de filmes ou seriados brasileiros em sua programação.
Uma legislação desse tipo não seria nenhuma jabuticaba. Pelo contrário, já existe em países da Europa como Espanha e França. Agora é a vez do Brasil também mostrar que seu braço regulatório é soberano e não mera marionete do mercado.
Claro, as críticas certamente virão. A última edição da revista Veja já deu alguns sinais dos ataques que virão. De acordo com Veja “o ranço nacionalista da Agência Nacional de Cinema volta-se para os serviços on demand”. Ainda segundo Veja, esse ranço nacionalista “não deixa de ser uma prova de coerência ideológica” por Manoel Rangel ser filiado ao PCdoB.
O bom combate vai começar. Assim como já ocorreu com a Lei 12.485 a sociedade civil brasileira e o Congresso novamente saberão reconhecer a importância da soberania nacional sobre os meios de comunicação. Para o desgosto de alguns poucos liberais que gostariam de morar em Miami.

Theófilo Rodrigues é cientista político.

EMIR SADER: OS MISSIVISTAS MESSIÂNICOS

(Foto: do Blog do Emir)
O Equador e a Bolívia - os países que mais avançaram na região no processo de superação do neoliberalismo - são vitimas desse tipo de pronunciamento.

Por Emir Sader – reproduzido do Blog do Emir, no portal Carta Maior, de 30/08/2015


Intelectuais de esquerda que não pertencem a partidos políticos de esquerda, têm muita dificuldade para se localizar na luta política. Desde onde falam? Que horizonte representam? O da teoria pura? O da ortodoxia abstrata?

No entanto, por várias razões, eles existem em grande quantidade e muitas vezes produzem análises muito úteis para os processos políticos reais. Só que falham quando suas análises têm que se medir politicamente com a realidade, porque a política supõe partido, inserção nos processos concretos.

Analisando os chamados “marxistas ocidentais”, Perry Anderson constatava que sua sobrevivência como intelectuais desvinculados de partidos de esquerda, supunha se encerrar temas específicos, relativamente autônomos em relação à realidade concreta – entre os quais questões estéticas, metodológicas. Abandonavam as análises econômicas, políticas, sociais das correlações de força, das linhas concretas dos partidos.

Este é o dilema dos intelectuais não engajados na prática política concreta. Terminam desenvolvendo visões descritivas da realidade, que captam aspectos dessa realidade, mas sem poder articulá-los com o que, para o marxismo, é um elemento essencial – a prática concreta. O conceito de práxis é um desafio para os intelectuais livre atiradores, que pretendem discorrer sobre a realidade de forma desvinculada das acumulações de força, das estratégias e táticas, das alianças e da constituição de blocos de forças para organizar um novo poder.

De um tempo pra cá, a partir do enfraquecimento dos partidos de esquerda em escala mundial e do surgimento de ONGs, vários intelectuais consagraram formas de expressão de livre atiradores. Uma delas é mandar cartas – individuais ou coletivas – a dirigentes políticos do campo popular, fazendo suas críticas a aspectos das práticas desses governos.

Mas de que ponto de vista se pronunciam esses intelectuais? Denunciam situações concretas, pretendem defender movimentos sociais, sem nenhum compromisso com os processos concretos dos países sobre os quais se pronunciam.

Recentemente o Equador e a Bolívia – os países que mais avançaram na região no processo de superação do neoliberalismo – são vitimas desse tipo de pronunciamento, quase sempre protagonizado pelas mesmas pessoas, intelectuais europeus e latino-americanos. Acusam a esses governos de posturas repressivas, supostamente desconhecedoras das necessidades do meio ambiente, dos interesses indígenas, etc.

Nesses países, pessoas que fizeram parte dos processos políticos dirigidos por Evo Morales e por Rafael Correa, romperam com esses governos e foram rapidamente se radicalizando, pela denúncia da “traição” desses dirigentes. Não se constituíram como corrente mais à esquerda desses governos mas, num estranho movimento, passaram a centralizar sua luta na derrubada desses governos, aliando-se com a direita tradicional para tentar atingir esses objetivos. Nos dois países – Equador e Bolívia – o processo é muito similar, mas ocorre também na Venezuela, no Brasil, na Argentina, no Uruguai. Em todos eles terminam tomando aos governos e a seus lideres como seus inimigos fundamentais, favorecendo assim alianças com as forças da direita.

Quando há eleições, em nenhum desses países – nem na Bolívia, no Equador, na Argentina ou no Brasil – essas pessoas encontram qualquer tipo de apoio popular. Quando se candidatam, têm votações irrisórias. Fazem um bafafá via internet, juntando nomes. Mas revelam não ter nenhum apoio popular.

Porque não se situam em relação à realidade do ponto de vista da sua prática, na perspectiva de projetos concretos de transformação da realidade. Se resumem a ser intelectuais críticos da realidade. Pretendem encarnar uma visão teórica acima da realidade, mas não passam de pretensos intelectuais messiânicos, sem nenhuma capacidade de influência da realidade e auto marginalizados dos processos concretos de construção de modelos de superação do neoliberalismo na América Latina.

Por isso não contribuem a nenhum tipo de construção de alternativa política, porque costumam caracterizar a cada um dos processos concretos como “traidores” dos ideais puros que eles pretendem representar. Um movimento abstrato, intelectual, sem nenhum vínculo com a esquerda latino-americana realmente existente.

PAULO NOGUEIRA: POR QUE A GLOBO ESTÁ ATACANDO LULA COM TANTA FÚRIA

Vale tudo contra Lula (Foto: do DCM)
Lula, em seus anos no Planalto, nada fez para enfrentar a concentração de mídia da Globo, algo que é um câncer para a sociedade pelo potencial de manipulação da opinião pública. E agora paga o preço por isso. Como Lula, caso volte à presidência em 2018, tratará a Globo?
Por Paulo Nogueira, no blog DCM – Diário do Centro do Mundo, de 31/08/2015
Valentemente, assim que os donos determinaram, os jornalistas da Globo pararam de falar no impeachment de Dilma.
Um deles, Erick Bretas, tratou até de trocar a foto de perfil de seu Facebook. Ele tinha colocado a inscrição “gave over” (fim de jogo), por ocasião de uma manifestação anti-Dilma, para a qual conclamara seus seguidores.
Trocou-a, com a nova orientação patronal, por uma bandeira do Brasil.
Agora, com a mesma valentia com que recuaram instantaneamente, os editores, colunistas e comentaristas da Globo avançam, novamente sob ordens patronais, contra Lula.
Todas as mídias da Globo vêm sendo usadas para investir contra Lula, por conta, naturalmente, de 2018.
Tevê, jornal, rádio, internet – são os Marinhos e seus porta-vozes contra Lula.
A novidade aí parece ser a substituição da Veja pela Época na repercussão dos sábados à noite do Jornal Nacional.
Nem para isso mais a Veja serve. Nem para servir de alavanca para o Jornal Nacional. É uma agonia miserável e solitária a da revista dos Civitas.
Lula, em seus anos no Planalto, nada fez para enfrentar a concentração de mídia da Globo, algo que é um câncer para a sociedade pelo potencial de manipulação da opinião pública.
E agora paga o preço por isso.
Verdade que, acertadamente, ele decidiu não ficar “parado”. Pássaro parado, disse Lula, é mais fácil de ser abatido.
E então Lula decidiu reagir.
Pelo site do Instituto Lula, ele tem rebatido as agressões dos Marinhos, minuciosamente.
E tem anunciado processos quando se sente injustiçado – um passo fundamental para colocar alguma pressão nos caluniadores e, também, nos juízes complacentes.
Há um tributo involuntário no movimento anti-Lula da Globo. É um reconhecimento, oblíquo que seja, de sua força.
É assim que o quadro deve ser entendido.
Quem pode ser o anti-Lula em 2018? Aécio, Alckmin e Serra, os nomes do PSDB, seriam provavelmente destruídos ainda no primeiro turno.
Imagine Lula debatendo com cada um deles.
Fora do PSDB, é um deserto ainda maior. De Marina a Bolsonaro, os potenciais adversários de Lula equivalem ao Vasco da Gama no Brasileirão.
Neste sentido, o boneco de Lula, o Lulão, surge mais como desespero da oposição do que como um gesto criativo dos analfabetos políticos de movimentos como o Brasil Livre de Kim Kataguiri.
A Globo vem dando um destaque de superstar ao Lulão, como parte de sua operação de guerra.
E Lula tem respondido como jamais fez. No desmentido da capa da edição do final de semana da Época, ele citou um aporte milionário de 361 milhões de reais do BNDES na Globo, em 2001, no governo FHC.
Ali se revelou outra face dos sistemáticos assaltos da Globo ao dinheiro público: o caminho do BNDES. Não são apenas os 500 milhões de reais em média, ao ano, de propaganda federal. São também outros canais, como o BNDES.
Não é exagero dizer que a Globo, como a conhecemos (não como o jornaleco de província a que se resumiu por décadas) é fruto do dinheiro público.
Como Lula, caso volte à presidência em 2018, tratará a Globo?
É essa pergunta que atormenta os Marinhos, já suficientemente atordoados com o florescimento da internet em oposição à decadência da tevê.

E é isso que explica a heroica valentia patronal dos jornalistas da Globo.

RURALISTAS ATACAM E MATAM LÍDER GUARANI-KAIOWÁ NO MATO GROSSO DO SUL

(Foto: do site do CIMI)
Os criminosos dispararam de maneira franca e para matar. Aterrorizaram famílias inteiras em nome da continuidade do esbulho de seu território originário e ancestral.

Do site do Conselho Indigenista Missionário – CIMI (com informação do CIMI), de 29/08/2015

Após uma semana de preparativos, ruralistas atacaram famílias indígenas Guarani e Kaiowá, do tekohá Nhanderu Marangatu, e assassinaram uma de suas lideranças, na tarde deste sábado, 29 de agosto, em Antônio João, no Mato Grosso do Sul.

Nhanderu Marangatu é sabidamente uma terra indígena tradicional Guarani e Kaiowá. Foi reconhecida e homologada pelo Governo Federal em meados de 2005. No entanto, a suspensão dos efeitos da homologação, seguido por uma ordem de despejo proveniente do Poder Judiciário, destinou quase mil pessoas ao peso impagável de mais de uma década de beira de estrada, mortes e a obrigatoriedade de suportar condições sub-humanas de vida. Estas centenas de pessoas passaram a viver, desde então, em menos de 150 dos 9.500 hectares homologados. Cansados de sofrer, os indígenas decidiram retomar sua área originária há exatamente uma semana.

Para entender mais leia aqui:


No início desta manhã, uma professora de Nhanderu Marangatu tentava, de todas as formas, meios de sair de sua terra para buscar o rumo de Brasília, na esperança de garantir a paz e a segurança de sua comunidade. Porém, a professora foi impedida em seu direito de ir e vir e de exercer livremente sua cidadania por conta do bloqueio das estradas e pelas ameaças de morte, ambas ações realizadas pelos fazendeiros e sindicatos rurais que promoveram cerco sobre os indígenas por mais de três dias. Desesperada, a professora, que conhece de perto a brutalidade dos fazendeiros da região desde que seu próprio pai foi por eles assassinado, relatava que se podia “sentir no ar o clima de morte”.

Enquanto isso, da mesma forma que nos ataques realizados contra famílias Guarani e Kaiowá da Terra Indígena de Kurusu Ambá, município de Coronel Sapucaia, MS, ocorrido há exatos dois meses atrás (http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&action=read&id=8182), ruralistas e políticos se reuniram dentro de um sindicato rural, desta vez o de Antonio João, abandonaram a Justiça, os fóruns do Estado e a legalidade, armaram-se, vestiram coletes a prova de balas e decidiram atacar deliberadamente e criminosamente as famílias indígenas de Nhanderu Marangatu. A ordem de ataque foi proferida, segundo notícias locais, pela presidente do sindicato, Roseli Maria Ruiz (http://www.douradosnews.com.br/noticias/cidades/revoltada-presidente-de-sindicato-deixa-reuniao-e-diz-que-vai-retomar-terra-invadida).

Enquanto o agrobanditismo se organizava e preparava o ataque, que levaria a morte de mais um Guarani e Kaiowá, destacamentos da Força Nacional, que possuíam determinação para atuar no caso e deveriam estar no local, encontravam-se a mais de uma hora da região, na cidade de Ponta Porã, há 70 km, mesmo com a possibilidade latente e iminente do ataque de fazendeiros. Duas horas antes da investida ruralista, funcionários da Funai e o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara de Deputados, Paulo Pimenta, buscaram sem êxito, junto ao Ministério da Justiça, o deslocamento da Força Nacional para as imediações de Nhanderu Marangatu. A Força Nacional somente começou a se movimentar após o anúncio de que o ataque ruralista havia começado.

Bem mais próximos dos fazendeiros, o que não é de se estranhar, estiveram destacamentos do D.O.F (Departamento de Operação de Fronteira). Apesar de não ter participado propriamente da ação, não impediu o armamento, nem o deslocamento dos fazendeiros armados, com intenções bem determinadas. O DOF deveria ter dado ordem de prisão à milícia rural. No entanto, em sua conivência e prevaricação, simplesmente assistiu ao ataque das forças paramilitares dos ruralistas sul mato-grossenses.


Sem nenhum impeditivo ou barreira, mais de 40 veículos invadiram as terras indígenas retomadas. Segundo líderes indígenas, dentre os fazendeiros estavam deputados e vereadores. Os criminosos dispararam de maneira franca e para matar. Aterrorizaram famílias inteiras em nome da continuidade do esbulho de seu território originário e ancestral. Depois de muitos disparos conseguiram por fim manchar de sangue novamente o solo sagrado de Nhanderu Marangatu. Já na presença da Força Nacional dentro do território indígena, Simião Vilhalva, irmão de uma liderança tradicional, tombou como Marçal e Hamilton Lopes, defendendo seu território, na esperança de um futuro menos dramático para seu povo.

OS INOMINÁVEIS – POR FRANCIEL CRUZ

3ª Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro (Foto: Alex Hercog)
As narrativas nas grandes mídias, cotidianamente, arrancam a pele, o nome dos desvalidos, matando-os mesmo depois de já mortos, pelo escondimento, pela deliberada sonegação deste seu direito básico.
Por Franciel Cruz – reproduzido do portal Sul21, de 27/08/2015
Filho do cirurgião Ivo Pitanguy está internado em estado grave após acidente com morte no Rio”.

Esta manchete da Globo News da última sexta-feira, dia 21, causou uma barulhenta reclamação nas (mal) ditas redes sociais. Muito justo. Era mesmo preciso bradar contra a torpeza do título formulado pela TV, até porque o fato principal era o seguinte: Ivo Nascimento, o filho do cirurgião, dirigia bêbado e acabava de cometer um assassinato. E a emissora dos Marinhos quase que tentava transformar o criminoso em vítima.

Porém, para não ficarmos só nas superfícies das manchetes, ouçamos a matéria na íntegra, lida por um Sidney Rezende sisudo, quase compungido.

“É grave o estado de saúde de um dos filhos do cirurgião plástico Ivo Pitanguy. Ele se envolveu nesta madrugada em um acidente de carro em que um homem morreu, na zona sul do Rio de Janeiro. Ivo Nascimento Campos Pitanguy perdeu a direção do carro no bairro da Gávea e atropelou um operário das obras do metrô que não resistiu e morreu. O filho do cirurgião plástico está internado em um hospital da zona sul da cidade. A polícia afirmou que ele foi preso em flagrante por homicídio culposo e embriaguez ao volante. Ivo Nascimento também tem mais de 240 pontos na carteira de motorista”.

Tudo na matéria é vileza. Desde a escolha do uso do verbo “envolver” para designar o acidente até mesmo o final do texto quando a emissora parece fazer uma concessão informativa falando sobre os tais 240 pontos na carteira. Mas isso é algo bem menos incriminador do que destacar que o assassino possuía 70 multas só nos últimos 5 anos.

Porém, no texto televisivo, há algo muito mais infame. Ali, o morto é tratado apenas como um “homem” ou “operário das obras do Metrô”. Pena que a indignação com a reportagem não tenha se centrado também nesta questão. Deveria. Afinal, tão grave quanto a vil e vã tergiversação sobre o assassinato é a ocultação do cadáver, é a macabra tentativa de tornar a vítima invisível. Ele, José Ferreira dos Santos, de 44 anos, não teve direito nem a seu próprio nome, bem intrínseco assegurado até mesmo pelos códigos civis da vida.

É óbvio que o respeito ao nome não pode apenas ficar restrito ao mundo do juridiquês, às recomendações das leis. Esta é uma questão ancestral. Mais do que uma mera identificação pessoal, é uma referência de identidade. É também nossa pele. A propósito, quando sofria chacotas do teólogo Johann Gottfried von Herder em relação ao tema, Goethe respondeu da seguinte forma.

O nome de um homem não é como uma capa que lhe está sobre os ombros, pendente, e que pode ser tirada ou arrancada a bel prazer, mas uma peça de vestuário perfeitamente adaptada ou, como a pele, que cresceu junto com ele; ela não pode ser arrancada sem causar dor também ao homem“.

Eis a sacanagem fundamental. As narrativas nas grandes mídias, cotidianamente, arrancam a pele, o nome dos desvalidos, matando-os mesmo depois de já mortos, pelo escondimento, pela deliberada sonegação deste seu direito básico.

Exemplo, há à mancheia. No ano passado, a auxiliar de serviços gerais Cláudia Silva Ferreira transformou-se apenas na “mulher arrastada”. Mas há casos piores. A Cláudia, ao menos, a mídia ainda “concedeu” a identificação com um trabalho, uma função. Já os que foram assassinados no Carandiru entraram para a história somente como um número: 111. Para que se importar se lá existiam um Jovemar, um Grimário, um Jesuíno ou mesmo alguns Josés e Joões?

Nesta seara, aliás, o abismo parece nunca ter fim. Existem casos ainda piores. Basta recordar que os massacrados no Morro do Alemão não tiveram, na cobertura jornalística da época, direito nem mesmo a um número exato. Na ocasião, em 2007, o Globo dizia que foram 19; o Estadão, 13; o Portal do Uol informava que morreram 18, enquanto o Terra chegou a garantir que eram 20. A tragédia brasileira não respeita nem a matemática, que, no tempo de minha mudernagem, ainda era uma ciência exata.

Por falar em inexatidões, existem momentos em que os papéis se invertem. Se um pobre for visto com uma ou duas trouxinhas de maconha tem exposto não só seu nome como toda a sua árvore genealógica. Já os do andar de cima, quando flagrados traficando, perdem seus nomes e são tratados iguais aos desvalidos nos noticiários, pelo menos neste aspecto da ocultação.

Eis três rápidos exemplos de matérias de empresas ligadas à Globo sobre a sonegação dos nomes dos afortunados, para nos centrarmos apenas na construção da narrativa deste império midiático dos Marinhos.

Polícia Federal prende homem com 22kg de cocaína em prédio de luxo”. Prendeu um homem, não um traficante.


Jovens que amarraram menor infrator são detidos por tráfico”. Eles são jovens, não traficantes.


Universitários são presos com lsd, ecstasy e maconha”. Estudantes foram detidos, não traficantes.


Nem nos títulos nem no corpo de nenhuma destas matérias é citada um nome sequer. Há o respeito à privacidade. Quem terá coragem de nomeá-los?

Talvez esta nomeação dos criminosos da classe alta continue fora da pauta dos grandes meios de comunicação, que são especialistas em c(des) construir brutais invisibilidades. Porém, enquanto eles assim procedem, há segmentos que buscam uma reparação para os que habitam o andar de baixo.

Nesta última segunda-feira, dia 24, por exemplo, no centro de Salvador, que sangra e resiste, ocorreu a 3ª Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro. Lá, a todo instante, os milhares de manifestantes gritavam nas ruas e no carro de som os nomes e os sobrenomes dos mortos pelos aparelhos estatais e que são assassinados novamente pelas narrativas midiáticas. De forma brava, firme e altiva, eles mostraram que os desvalidos não são e não devem ser inomináveis. Todos os que sofrem, morrem e vivem estavam ali, presentes, com seus nomes e suas histórias.


Franciel Cruz é um burrocrata quase feliz e torcedor do Vitória, assim como Marighella.

domingo, 30 de agosto de 2015

CELAC PEDE QUE OS EUA NEGOCIEM COM CUBA A DEVOLUÇÃO DE GUANTÂNAMO

(Foto: Nodal)
O governo socialista cubano exige, entre outras coisas, a devolução da base de Guantânamo, sob controle dos Estados Unidos desde 1903, como condição para que ambos os países possam normalizar plenamente suas relações.
Do jornal El Carabobeño (editado no estado venezuelano de Carabobo) – reproduzido do portal Nodal – Notícias da América Latina e Caribe, de 29/08/2015 (em espanhol)
El bloque de países latinoamericanos de la Celac (Comunidad de Estados Latinoamericanos y Caribeños)  pidió que Estados Unidos acceda a negociar con Cuba la devolución de la base naval de Guantánamo en el marco de su acercamiento bilateral.
La Celac considera que la devolución del territorio “debe ser un elemento relevante de ese proceso (de acercamiento)”, señaló el bloque en un comunicado.
El texto, difundido por la cancillería cubana, pide asimismo un “diálogo bilateral” entre Washington y La Habana “apegado al derecho internacional”.
La Celac subrayó que actúa “a la luz del proceso hacia la normalización de relaciones” entre Cuba y Estados Unidos, al que calificó como “un elemento que contribuye a la estabilidad de la América Latina y el Caribe”.
El foro regional, constituido oficialmente en diciembre de 2011 por iniciativa de la Venezuela de Hugo Chávez, reúne a todos los países del continente americano con excepción de Estados Unidos y Canadá.
El bloque está planteado como alternativa a otros mecanismos regionales como la Organización de Estados Americanos (OEA), a la que varios países latinoamericanos con gobiernos de izquierda acusan de ser un “instrumento de dominación” de Washington.
Cuba y Estados Unidos retomaron sus relaciones diplomáticas el pasado 20 de julio tras más de 54 años de ruptura. Ambos países iniciaron un histórico acercamiento a finales de 2014, después de décadas de hostilidades ideológicas.
Los gobiernos de Washington y La Habana cuentan en tanto con embajadas en ambas capitales, aunque han indicado en varias ocasiones que siguen manteniendo profundas diferencias.

El gobierno socialista cubano exige entre otras cosas la devolución de la base de Guantánamo, bajo control de Estados Unidos desde 1903, como condición para que ambos países puedan normalizar plenamente sus relaciones.

BRASIL: RÁDIOS COMUNITÁRIAS COBRAM MENOS BUROCRACIA E MAIS APOIO

(Foto: André Accarini/CUT Nacional)
Congresso da Abraço debate desburocratização e sustentabilidade de emissoras

Por André Accarini, de Brasília – reproduzido do site da CUT (cut.org.br), de 25/08/2015 

Em um momento do país em que a mídia promove de forma irresponsável um quadro de caos econômico e social, representantes de rádios comunitárias de diversas regiões brasileiras se reuniram em Brasília para discutir estratégias que visam fortalecer a comunicação democrática e a atuação dessas emissoras como contraponto à manipulação da informação. Mas os caminhos não são fáceis. 
A Abraço (Associação Brasileira de Rádios Comunitárias) realizou seu 8° Congresso nos dias 21, 22 e 23 de agosto. Os percalços que as emissoras enfrentam para apresentar um modelo de comunicação mais plural e democrático foram a linha principal dos debates no evento.
Coordenador da associação até o Congresso, José Sóter defendeu a necessidade de alterar as regras urgentemente, entre elas, as que tratam da publicidade. Por lei, as emissoras não podem veicular espaço publicitário de forma mais detalhada. "A propaganda da padaria não pode falar que o pão é gostoso, nem seu preço", exemplifica. O único formato permitido é o chamado apoio cultural, pelo qual só se divulga o nome do estabelecimento.

Criminalização

Outro ponto destacado foi a descriminalização do setor, que enfrenta regras impostas pela Lei 9612, de 1998, responsável por regulamentar a radiodifusão comunitária no país e dificultar a tramitação dos documentos.
Para a Secretária Nacional de Comunicação da CUT, Rosane Bertotti, é fundamental a prioridade para as rádios comunitárias nas políticas públicas de comunicação, eliminando a burocracia e as restrições impostas atualmente. “O fim da criminalização é fundamental para garantir a anistia aos milhares de comunicadores perseguidos e condenados pelo exercício da liberdade de expressão e do direito à comunicação”, definiu.
Como resposta à pressão da Abraço, o coordenador-geral de Radiodifusão Comunitária do Ministério das Comunicações, Samir Nobre, apresentou novas regras, que valerão a partir do Plano Nacional de Outorgas, a ser lançado em breve. Segundo ele, as mudanças representam o início de uma nova relação entre as emissoras e o governo e diminuirão a quantidade de documentos necessários para outorgas.
Conforme já destacado na abertura do Congresso, o controle de veículos de comunicação por políticos e religiosos não está somente no circuito comercial. Ocorre também nas comunitárias. Samir relatou casos em que as autorizações de emissoras não foram renovadas por serem controladas por políticos ou pastores de igrejas, situação que foge dos princípios básicos de radiodifusão comunitária, apontou.
Para José Sóter, as propostas apresentadas representam um avanço, mas não suficientes ainda para desenvolver o setor de forma justa. Um primeiro passo, segundo ele, seria as comunitárias assumirem a manutenção da estrutura da Abraço para que a entidade reforce sua voz. A associação oferece apoio, inclusive jurídico, para que as rádios entrem no ar sem receber nada por isso.
Segundo o dirigente, o financiamento é ponto crítico. “Com cinco mil rádios no ar graças à atuação da Abraço, é hora das emissoras assumirem o protagonismo da entidade. Mas para isso a captação de recursos deve avançar. Seja por meio do espaço publicitário, seja por meio de recursos públicos. Se tem recurso para salvar banco de quebradeira, nós queremos benefícios também”.
Outro ponto que Sóter questiona é a exigência da representatividade. Para que a autorização seja concedida, é necessário que a associação apresente uma lista de assinaturas, a chamada lista de apoio. José Sóter explica que o correto é verificar o quadro de associados da entidade que pleiteia a autorização. “Fica fácil para igrejas, por exemplo, passarem uma lista em seus cultos ou qualquer um ir até um local público e colher assinaturas, aleatoriamente”, explica.

Diálogo

Para que as questões que envolvem o relacionamento entre poder público e comunitárias avancem, um dos caminhos é a "participação social", defendeu o secretário nacional de participação social da Presidência da República, Renato Simões. “Rádios comunitárias são parte da política de participação social e o governo tem como prioridade a participação por intermédio de meios digitais. O Congresso da Abraço é o espaço para uma reflexão sobre novos passos a serem dados no futuro, com a atuação das comunitárias”, afirmou.

O que vai ao ar  

O encontro tratou ainda da produção do conteúdo. A ideia defendida pelos participantes foi a criação de uma rede a partir da qual o material seria compartilhado pelas emissoras não necessariamente sendo veiculados nos mesmos horários, mas estabelecendo uma linguagem comum às comunitárias.

Essa seria uma forma de driblar a falta de orçamento ou dificuldades técnicas e de equipe para produção de reportagens. A proposta é utilizar material público e de outras entidades como CUT, TVT, EBC, Ministérios da Educação e da Cultura, entre outras fontes. 
Evento foi transmitido ao vivo por várias Rádios Comunitárias brasileiras

América Latina 

As dificuldades enfrentadas no Brasil não são muito diferentes daquelas que as comunitárias de outros países da América Latina enfrentam. Isso ficou evidente na intervenção do jornalista Beto Almeida, conselheiro da Telesur, rede de televisão pública multiestatal.
Ele apresentou casos em que as comunitárias exercem um papel importante em processos democráticos, como a cobertura alternativa de processos eleitorais em países como Venezuela, Bolívia e Equador.
Beto Almeida ainda citou a questão do financiamento como fator fundamental para a sobrevivência das comunitárias: “A Veja tem 14 páginas de patrocínio da Petrobrás, ou seja, dinheiro público. Com o valor investido em uma publicação como essa, que ‘avacalha’ com o governo, muitas comunitárias poderiam ter sua produção incrementada, em prol de uma comunicação mais democrática e plural”.

Mulheres nas rádios comunitárias

Outro momento de destaque do Congresso foi o 2° Encontro do Coletivo de Mulheres da Abraço. Com o objetivo de debater e fortalecer a atuação das mulheres na gestão das emissoras, o encontro contou com a participação de Rose Scalabrin, secretária de articulação institucional e ações temáticas da Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República.
Em sua apresentação, ela afirmou que "a participação das mulheres na política deve começar na própria comunidade". Ressaltou que uma Reforma Política que acabe com o financiamento privado de campanha é o caminho mais curto para o empoderamento das mulheres. Ela citou que o "perfil masculino" de candidatos é o preferido dos financiadores de candidatos. 
Valdeci Borges é o novo coordenador-geral da Abraço
Nova coordenação

Em eleição no último dia do Congresso, Valdei Borges, de Goiás, foi eleito novo coordenador executivo da entidade. José Sóter prossegue como coordenador da Agência Abraço, que tem a função de assessorar e prover conteúdo às emissoras associadas e como consultor da entidade. 

DESDE A QUEDA DO MURO DE BERLIM, FORAM CONSTRUÍDAS 49 NOVAS BARREIRAS

(Ilustração: El Telégrafo)
Os governos levantam os muros para se protegerem contra a imigração ilegal ou o terrorismo. Mas os analistas consideram que essas obras dão uma falsa sensação de segurança.

40.000 pessoas morreram desde o ano 2000 tentando emigar

65 barreiras têm atualmente o mundo. Quando caiu o Muro de Berlim tinha apenas 16

Da agência AFP – reproduzido do jornal equatoriano El Telégrafo (empresa pública do governo federal), edição digital de hoje, dia 30

A globalização derrubou as fronteiras para o comércio, mas para as pessoas a preocupação sobre a segurança e o desejo de conter a migração ilegal leva à construção de barreiras, apesar das dúvidas sobre sua eficácia.
Faz um quarto de século, quando da queda do Muro de Berlim, havia 16 cercas que defendiam fronteiras no mundo. Na atualidade há 65, terminadas ou em construção, segundo a investigadora Elisabeth Vallet, da Universidade de Quebec.
Do o muro de separação israelense (o ‘muro do apartheid’ para os palestinos)  à cerca de arame farpado de 4.000 quilômetros que a Índia construiu na fronteira com Bangladesh, o enorme dique de areia que separa Marrocos das regiões do Saara em mãos do Polisário ou a cerca de Melilla, os muros e as barreiras são cada vez mais populares entre os políticos desejosos de mostrar sua firmeza em questões de migração e de segurança.
Ainda que constituam símbolos agressivos, sua eficácia é, entretanto, bastante relativa, estimam os especialistas. “A única coisa que todos estes muros têm em comum é que constituem, sobretudo, fortes imagens”, assegura Marcello Di Cintio, autor do livro Muros, viagem pelas barricadas. “Proporcionam uma ilusão de segurança, não uma segurança real”.
Apesar destes obstáculos, os migrantes acabam ao final por ultrapassá-las e a cocaína nunca faltou nas mesas de Manhattan.
Os partidários dos muros consideram que as fugas são melhores que as inundações, porém para Marcello Di Cintio as repercussões psicológicas de tais barreiras não podem ser ignoradas.
Continua em espanhol, com traduções pontuais:
Cita así a los viejos de la tribu india - de EE.UU. - Tohono O’odham, algunos ya muertos, al parecer de pena (de angústia), cuando el muro que separa México de Estados Unidos les impidió acceder a algunos lugares sagrados.
Según Reece Jones, profesor de Hawái, autor del libro Muros fronterizos: seguridad y guerra al terrorismo en Estados Unidos, en India e Israel, solo son eficaces contra los más pobres y los más desesperados.
“Los carteles de la droga y los grupos terroristas tienen los medios para evitarlos, la mayoría del tiempo gracias a documentos falsos”, dice. “El cierre (O fechamento) de fronteras no hace más que desplazar (deslocar) el problema, llevando a los migrantes a través de terribles desiertos o (ou) barcos precarios en el Mediterráneo. Lo que no hace más que aumentar el número de víctimas”. 


Tradução (parcial): Jadson Oliveira

FREI BETTO: CHACINAS EM SÉRIE NO BRASIL. ATÉ QUANDO?

(Ilustração: do Adital)
Quando a TV exibe execuções feitas pelo Estado Islâmico, ficamos indignados e torcemos para que o "mocinho” (as tropas do Tio Sam) derrotem o quanto antes o bandido terrorista. Não olhamos, porém, o próprio umbigo. No Brasil, as mortes não são seletivas, são generalizadas.


Por Frei Betto, no portal Adital - Notícias da América Latina e Caribe, de 25/08/2018


De 17 a 19 de julho, 37 pessoas foram assassinadas em Manaus. As execuções tiveram início após a morte de um sargento da PM ao sair de uma agência bancária. Curiosamente, chamada aos locais onde ocorrem os crimes, a polícia demorou a chegar... Até hoje nenhum criminoso foi preso.

A 13 de agosto – data considerada fatídica pela superstição – 18 pessoas foram assassinadas e sete feridas em Barueri e Osasco, na Grande São Paulo.

Quando a TV exibe execuções feitas pelo Estado Islâmico, ficamos indignados e torcemos para que o "mocinho” (as tropas do Tio Sam) derrotem o quanto antes o bandido terrorista.


Não olhamos, porém, o próprio umbigo. No Brasil, as mortes não são seletivas, são generalizadas. É a lei do talião levada ao extremo: um policial morto, dez ou mais inocentes baleados aleatoriamente como vingança. Exatamente como procediam os nazistas. A cada prisioneiro foragido do campo de concentração, dez outros eram sorteados para morrer.

Sobre essa atrocidade se ergue a figura exemplar do polonês Maximiliano Kolbe, hoje proclamado santo pela Igreja Católica. No campo em que se encontrava o frade franciscano, houve uma fuga. Ao ver escalado para figurar entre as vítimas da retaliação um operário pai de família, Kolbe se ofereceu para morrer em seu lugar e a troca foi aceita.

Quando ocorre um só assassinato em bairro nobre de uma grande cidade brasileira, a nação fica indignada. Como as vítimas "expiatórias” são escolhidas na periferia, quem se importa?

Arvorados na arrogância de um gigante deitado em berço esplêndido, colecionamos, como troféus de alta criminalidade, as chacinas de Carandiru (1992), Vigário Geral (1993), Ianomâmis (1993), Candelária (1993), Corumbiara (1995) e Eldorado dos Carajás (1996). Tantos mortos, poucos acusados, raros indiciados.

Os 50 mil assassinatos registrados por ano no Brasil (mais do que o número de mortos nas guerras da Síria, do Iraque e do Afeganistão) nos coloca na triste condição de campeões mundiais do crime, segundo a ONU. De cada 100 assassinatos no mundo, 13 são no Brasil, secundado por Índia, México, Colômbia, Rússia, África do Sul, Venezuela e EUA.

Como se faz a boa formação de um policial? É ensinado a ele o que são direitos humanos ou os veteranos incutem no novato que "bandido bom é bandido morto”? Ele aprende a defender a população e respeitar a cidadania de cada pessoa ou, por vestir uma farda e portar uma arma, se compraz em humilhar jovens e negros? Recebe aulas de ética ou se vale da função para extorquir comerciantes? 

Culmina a sua formação consciente da importância de denunciar colegas corruptos e assassinos, ou considera a corporação acima do bem e do mal?

Enfim, pagamos impostos para sustentar uma polícia incapaz de evitar 50 mil mortes por ano? Com a palavra, as autoridades. E nós, quando vamos refletir antes de eleger autoridades cúmplices e omissas? 

Sequer cuidamos de fazer com que os sinos dobrem pelas vítimas de chacinas nas áreas do país em que predominam a pobreza e o descaso do Estado.

Frei Betto é escritor, autor do romance "Minas do Ouro” (Rocco), entre outros livros.